Além
de um Evangelho, S. Lucas também
escreveu o Livro dos Actos dos Apóstolos.
Como este
foi lido na Liturgia do Tempo Pascal,
apresento
o resto do Evangelho, cuja leitura contínua
é
retomada no dia 13 de Junho, XI Domingo Comum.
Percorrendo os textos
seleccionados pela Igreja para esta 2ª parte do Tempo Comum, podemos
fazer, no Domingo XII, a nossa profissão de fé quando Jesus nos
perguntar, como aos seus discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu
sou?» (Lc 9,18-24). Além disso, identificamos as principais
CARACTERÍSTICAS
do Evangelho de Lucas
Evangelho da misericórdia.
No XI Domingo Jesus perdoa à mulher pecadora, que o acolhe em
casa do fariseu Simão (7,36-8,33). E no XXIV encontramos as
“parábolas da misericórdia”, do cap. 15; como a do filho pródigo já foi
lida no IV Domingo da Quaresma, a “leitura breve” propõe agora as outras
duas: a da ovelha e da moeda perdidas. Este cuidado especial com os
pecadores, os perdidos e os marginados, surge também quando Jesus elogia
a caridade de um bom samaritano (XV Domingo: 10, 29-37), a fé de
outro que, dentre dez leprosos curados, é o único a agradecer (XXVIII
Domingo: 17,11-19), e a humildade de um terceiro, que sobe ao templo
para orar com um fariseu (XXX Domingo: 18,9-14). Lucas ainda nos
dá, em exclusivo, a conversão de Zaqueu, chefe de cobradores de impostos
(XXXI Domingo: 19,1-10); e, para rematar com chave de ouro,
no último Domingo (Cristo Rei) mostra Jesus crucificado entre
dois malfeitores a prometer a um deles, arrependido: «Em verdade te
digo: Hoje estarás comigo no paraíso.» (23,35-43).
Evangelho do caminho.
«Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a
decisão de se dirigir a Jerusalém» e pelo caminho foi convidando
outros a deixar tudo e segui-lo (XIII Domingo: 9,51-62). Há-de
voltar ao tema, insistindo: «Se alguém vem ter comigo, sem me
preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até
à própria vida, não pode ser meu discípulo.» (XXIII Domingo:
14,25-33).
Evangelho do apostolado.
«Jesus designou 72 discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a
todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: “A seara
é grande, mas os trabalhadores são poucos.”» (Domingo XIV:
10,1-12.17-20). Dentre eles escolheu 12 apóstolos, sobre os quais desceu
o Espírito Santo no Pentecostes (Act 2,1-11: Festa a 30 de Maio).
O livro dos Actos está centrado na sua vida e acção, sobretudo na
de Pedro (1ª parte) e Paulo (2ª parte), cuja Festa se celebra a 29 de
Junho.
Evangelho do Espírito Santo.
Lucas é o evangelista que mais lugar dá ao Espírito Santo: Maria concebe
pelo Espírito Santo (1,35); Isabel, com o bebé João Baptista no seio,
fica cheia do Espírito Santo (2,41); Simeão, impelido pelo Espírito
Santo, vai ao templo (2,25-27). Jesus recebe-o no Baptismo sob a forma
corpórea de uma pomba (3,22), é conduzido por Ele ao deserto (4,1) e,
por Ele impelido, volta para a Galileia (4,14), proclamando na sinagoga
de Nazaré o texto de Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim...»
(4,18-19); um dia, «estremeceu de alegria sob a acção do Espírito
Santo e disse: “Eu Te bendigo, ó Pai...”.» (10,21). Esta mesma
presença avassaladora do Espírito continua, depois da Ascensão de Jesus,
na vida e actividade dos Apóstolos, como vemos na segunda obra de Lucas,
os Actos dos Apóstolos.
Evangelho da oração.
Lucas é o único a dizer que, antes de escolher os doze, «Jesus foi
para o monte fazer oração e passou a noite a orar a Deus» (6,12); e
que, antes da Transfiguração, «Jesus subiu ao monte para orar» (9,28-36:
II da Quaresma e Festa a 6 de Agosto). No Domingo XVI,
Jesus elogia Maria, irmã de Marta, que opta por contemplá-lo e escutar a
sua palavra (10,38-42). No Domingo XVII, ensina aos Apóstolos a
oração do “Pai-Nosso”, a pedido deles, depois de O terem visto em oração
(11,1-13; comparar com Mt 6,9-13).
Evangelho da sensibilidade social.
Já vimos como o Jesus de Lucas, nas Bem-aventuranças, depois de
proclamar «Felizes os pobres», sem mais adjectivos, contrapõe:
«Mas ai de vós, os ricos» (6,20.24; compare com Mt 5,3). No
Domingo XVIII interpela alguém que o quer escolher como juiz para
dirimir uma questão de partilhas com o irmão e conta a parábola de um
homem rico, mas insensato, que produziu excelente colheita e julgava ter
ali a segurança do seu futuro (12,13-21). Depois, no XXVI,
apresenta a parábola exclusiva do rico e do pobre Lázaro (16,19-31); e
no XXIX, a do juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens
e da viúva que o não conseguia convencer a fazer-lhe justiça a não ser à
custa de muita persistência (18,1-8).
Evangelho da salvação.
No XIX Domingo, Jesus (=Salvador) exorta os discípulos a
renunciarem aos bens e terem o seu coração no tesouro inesgotável dos
Céus (12, 32-48). No XXI, os apóstolos colocam-lhe frontalmente a
questão: «Senhor, são poucos os que se salvam?» (13,22-30); Ele
responde com um apelo a entrarem pela porta estreita, sublinhado que a
gratuidade da salvação exige correspondência. E no XXV, fala-lhes
de um administrador desonesto, a quem acaba por apresentar como modelo
na estratégia de garantir a própria sobrevivência futura (16,1-13).
Evangelho do serviço.
No Prólogo, Lucas pretende expor aquilo que lhe tinha sido
transmitido pelos “servidores da palavra” (1,2). No Evangelho da
Infância, apresenta-nos o modelo de Maria: «Eis a serva do
Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (1,38). No XXVII
Domingo, Jesus resume assim qual deve ser a nossa atitude de
discípulos, apóstolos e servidores da Palavra: «quando tiverdes feito
tudo o que vos foi ordenado, dizei: “Somos servos inúteis: fizemos o que
devíamos fazer.”» (17,5-10).
frei Lopes Morgado