COM SÃO LUCAS NOS CAMINHOS DA PÁSCOA
A partir da manhã do próprio Dia de Páscoa,
em todos os Domingos do Tempo Pascal
lemos o Evangelho segundo São João.
Por isso, aproveito esta ponta final da Quaresma
para sublinhar algumas características da Paixão,
Morte e Ressurreição de Jesus, segundo São Lucas.
Com Jesus, a caminho de Jerusalém
Na 2ª
parte da sua obra (o livro dos “Actos dos Apóstolos”), Lucas coloca este
elogio na boca de São Pedro: «andou de lugar em lugar fazendo o bem»
(10,38). E com isto, destaca duas linhas fortes acerca de Jesus, no
seu Evangelho: viveu a caminho e fez bem a todos.
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O
caminho preenche a parte central e
mais pessoal do livro (Lc 9,51-19,28), que Lucas introduz assim:
«Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus
dirigiu-se resolutamente para Jerusalém» (9,51). Para quê? Para lá
ser morto como profeta (13,31-33). E, «enquanto
iam
a caminho» (9, 57), foi dando
muitas instruções aos seus discípulos, candidatos a profetas.
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O bem
que Jesus fez, e a quem, já Lucas o tinha sintetizado quando Ele, na
sinagoga de Nazaré, assumiu e actualizou o texto de Isaías 61,1-2:
«anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e,
aos cegos, a recuperação da vista; mandar em liberdade os oprimidos,
proclamar um ano favorável do Senhor.»
(Evangelho do 3º Domingo Comum – Lc
4,14-21). E foi o que Ele realizou, ao longo da vida: com os pobres, os
doentes, os cegos, os leprosos, os pecadores, os possessos, os
samaritanos, os prisioneiros das leis civis e religiosas de Israel,
incluindo a lei do jejum e do sábado e a relação com o Templo como lugar
sagrado.
Não
admira, pois, que o fim da sua vida se mantenha na linha deste percurso
apresentado por São Lucas, o evangelista que valoriza a dimensão do
acolhimento, do perdão, da compaixão e da misericórdia.
É isso
que o evangelista reforça com a série de exclusivos do seu relato da
Paixão de Jesus (ver
Evangelho da Paixão, no
DOMINGO DE RAMOS: Lc
22,14-23,56):
» A exortação ao serviço e à humildade,
no discurso de despedida após a Ceia: 22,24-38 (ver Jo 13,33ss).
» O conforto do anjo, na agonia de
Jesus: 22,43-44.
» A cura da orelha de um servo do
Sumo Sacerdote, cortada por Pedro: 22,51b.
» O olhar de Jesus a Pedro, após a
3ª negação: 22,61 (Mt e Mc só referem o aviso de Jesus, na última ceia).
» Pilatos declara três vezes a
inocência de Jesus: 23, 4-5.13-16.22.
» A compaixão das mulheres:
23,27-32.
» As três últimas “palavras”/frases
de Jesus na cruz:
–
«Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem»
(que
Lucas vai pôr, também, na boca de Estêvão, mas como últimas palavras e
já dirigidas a Jesus, então celebrado como “Senhor” da Comunidade, não
ao Pai: Act 7,60; ver Fl 2,11).
– «Em
verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso»
(ao “bom” ladrão): 23,43.
–
«Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (23,46; é a penúltima
frase de Estêvão: Act 7,59).
» O arrependimento da multidão:
23,48.
» As mulheres preparam aromas para o
corpo de Jesus, quando acabar o sábado: 23,56.
Com Jesus, no caminho da vida
Mas, a morte de Jesus não é o fim da sua vida, como Ele próprio, o
Vivente, vai dizer ao autor do Apocalipse, na visão de Patmos: «Não
tenhas medo! / Estive morto; mas, como vês, estou vivo.» (Ap
1,17-18) Isso mesmo dizem também «dois homens em trajes
resplandecentes», segundo Lucas, quando, «no primeiro dia da
semana, ao romper da alva, as mulheres foram ao sepulcro, levando os
perfumes que haviam preparado. [...] Disseram-lhes: “Porque
buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui: ressuscitou!”» (Lc
24,2-3.5-6; Evangelho da
VIGÍLIA PASCAL:
24,1-12).
Os aromas já não serão para o corpo físico de Jesus, mas para o seu
corpo místico de tantos ainda a caminho, que precisam de bons
samaritanos. A começar por «dois dos discípulos, nesse mesmo dia
a caminho
de uma aldeia chamada Emaús»
(24,13).
O Ressuscitado aproveita a caminhada para fazer, com aqueles candidatos
a discípulos-profetas da Boa-Nova da sua Páscoa, uma celebração
profética:
»
«Aproximou-se deles e pôs-se com eles a caminho»,
mesmo sabendo que «os seus olhos estavam impedidos de o reconhecer»
(v. 15).
»
Acolheu-os, fazendo-se acolhido por eles ao entrar na sua conversa e
perguntar-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós,
enquanto caminhais?» (v. 17).
»
Simulou desconhecer os acontecimentos da sua própria paixão e morte em
Jerusalém, para os estimular a verbalizarem a razão da sua (des)esperança
e da sua dor: «Que foi?» (v.19).
»
Projectou o foco das Escrituras sobre a sua cegueira inicial, para os
ajudar a ler aqueles acontecimentos à luz dos anúncios da sua Paixão e
de um aceno à sua Ressurreição: «Ó homens sem inteligência e lentos
de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! Não tinha o
Messias de sofrer essas coisas para entrar na glória?» (vv. 25-26).
»
«Ao chegarem perto da aldeiam para onde iam,
fez menção de seguir para diante», como se tudo não tivesse
passado de uma conversa de viagem. Jesus queria provocar a reacção
deles, e ao mesmo tempo deixá-los livres na sua resposta (v. 28).
»
Aceitou o convite para entrar em sua casa (na sua vida) e continuar
aquele anúncio (kerigma) inicial numa relação mais profunda,
tendo em conta o seu meio e contexto familiar: «Entrou em casa para
ficar com eles» (v. 29).
»
E como a resposta à Palavra (conversão) conduz naturalmente ao
Sacramento, tudo acaba numa ceia pascal, em que eles O reconhecem ao
partir do pão eucarístico (v. 30)
»
Da celebração para a vida e o testemunho, vai um passo natural de
compromisso: «Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e
[... ] contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como
Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão» (vv. 33-35).
Neste
Evangelho da Missa vespertina do Dia de
PÁSCOA,
exclusivo de Lucas (Lc 24,13-35), temos uma bela síntese não apenas da
celebração da Páscoa, mas da celebração de cada Domingo, quando a Igreja
celebra a Páscoa do Senhor que “está no meio de nós”. Eis porque é
urgente redescobrir a teologia e a Pastoral, e também as implicações
sociológicas e psicológicas do “Dia do Senhor”, com razão chamado pelo
Pseudo-Eusébio de Alexandria (séc. IV) “o senhor dos dias” – pois dele
vem a luz que deve iluminar a nossa caminhada nos mais dias da semana.
frei Lopes Morgado