(Domingos
I a VII do Tempo Comum)
Com a Festa do Baptismo do Senhor, a 11 de Janeiro,
o Ano Litúrgico entrou no Tempo Comum, durante o qual
vai ser lido, este ano, o Evangelho segundo São Lucas.
Mas no 2º Domingo lê-se o texto do milagre de Jesus nas
bodas em Caná da Galileia, um exclusivo de João;
e com isso, os dois primeiros Domingos deste Tempo recordam-nos
os dois primeiros Mistérios Luminosos do Rosário
instituídos por João Paulo II em 2002.
Proponho
uma leitura seguida de todo o Evangelho de Lucas, usando estes artigos
como guia, para verem a sua estrutura e unidade e interna, as suas
diferenças e os seus exclusivos, e o contexto em que se encontram muitos
episódios conhecidos de ouvido mas talvez não bem situados no conjunto
do livro.
“OS FACTOS QUE ENTRE NÓS SE CONSUMARAM”
O
Evangelho do
3º DOMINGO
Comum (a 25 de Janeiro, conclusão do Oitavário pela Unidade dos
Cristãos) junta dois textos separados entre si, mas que são dois inícios
nesta obra de Lucas: o Prólogo do livro (cap. 1,1-4)
e o Prelúdio da acção messiânica de Jesus na sinagoga de
Nazaré (Lc 4,14-21).
Se tem uma Bíblia à mão,
pare e leia os textos indicados entre parênteses.
O Prólogo,
normalmente, é escrito depois de se concluir um livro, para dizer o
que ele contém. Assim acontece com este: Lucas diz a Timóteo (nome real,
ou apenas um “amigo de Deus”) qual é a sua
intenção
(o que vai fazer ou já fez): expor, pela sua ordem, os factos
acontecidos relativamente a Jesus, «depois de tudo ter investigado
cuidadosamente desde a origem»; e qual é o seu
objectivo
(o que pretende com isso): «a fim de que reconheças a solidez da
doutrina em que foste instruído». Entretanto, lembra que «os que desde o
princípio foram testemunhas oculares [de Jesus] e se tornaram servidores
da Palavra» [pregadores, apóstolos, evangelistas] também já fizeram o
mesmo; temos, de facto, mais três Evangelhos reconhecidos como
inspirados, e várias Cartas.
Ou seja, Lucas faz uma obra séria, atendendo ao que outros
"transmitiram" (fidelidade à Tradição); e responsável, fazendo a sua
própria investigação (diz-se, por exemplo, que a Virgem Maria pode ter
sido uma das suas “fontes” de informação, sobretudo para aspectos muito
pessoais do Evangelho da Infância). Contudo, e embora tenha a
preocupação de situar tudo na História da época (ver 3,1-2), a
sua intenção não é fazer uma “História de Jesus”, mas Catequese: dar
solidez à fé dos leitores.
O Prelúdio
da actividade pública de Jesus, quando Ele «tinha cerca de trinta anos»
(3,23), situa-se após o seu Baptismo (já celebrado) e os Quarenta dias
no deserto (evocados no 1º Domingo da Quaresma, a 29 de
Fevereiro). E por aqui já se vê que a Liturgia não faz a leitura
contínua de um Evangelho, mas vai buscando os textos que ajudem a
celebrar “todo o mistério de Cristo pelo correr do ano”
(VATICANO II, Constituição sobre a sagrada Liturgia, 102).
Na sinagoga, Jesus faz a passagem entre o Antigo e o Novo testamento,
entre a missão de Isaías e a sua, ao assumir-se como aquele que vai
cumprir “hoje mesmo” o anúncio do profeta. E o acto, torna-se a
proclamação pública da sua carta programática, depois cumprida por Jesus
na sua relação com os pobres, os doentes, os oprimidos, as mulheres, os
leprosos... todos os marginalizados pelas leis e tradições civis ou
religiosas.
Inicialmente, apanhados de surpresa pelo modo convicto e sereno como
Jesus se apresenta identificado com a sua vocação e missão, os seus
conterrâneos acolhem-no bem; mas depois quererem lançá-lo de um
despenhadeiro abaixo, como se verá no
4º DOMINGO
(1
de Fevereiro: Lc 4,21-30).
Porquê?
“FAZ-TE AO LARGO”
O
Evangelho do 5º DOMINGO
(08 de Fevereiro: Lc 5,1-11) apresenta o chamamento dos
primeiros discípulos, segundo São Lucas, e nele se encontra a palavra de
ordem escolhida por João Paulo II para incentivar o ardor missionário da
Igreja no 3º milénio: «Faz-te ao largo.» Expressão bonita e
dinâmica, já muito repetida por toda a gente nestes três anos. Mas, terá
muita gente saído da posição em que se encontrava no final de 2000? Que
mais vou/vamos fazer?
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Ler o texto e observar:
o modo progressivo como Jesus capta Pedro e os outros, e as qualidades
humanas deles (Pedro cede-lhe logo a barca, os colegas entreajudam-se na
pesca abundante, sem guerrilhas nem ciúmes de grupinhos); a reacção
deles após o milagre; o chamamento de Jesus e a resposta imediata deles.
Como reagem tantos
chamados
para a missão? Como reajo eu?
“FELIZES...!”
O
6º DOMINGO
(15 de Fevereiro) já nos apresenta Jesus «na companhia dos Apóstolos»
(ler Lc 6,17.20-26). Porque antes, Lucas relata o chamamento
de Levi, futuro evangelista Mateus, em 5,27-32 (ler
e comparar com o relato do próprio em Mt 9,9-13 para
verificar os pormenores próprios de Lucas, “evangelista da
misericórdia”); e a eleição dos Doze Apóstolos em 6,12-16 (ler
e aprender os nomes). É eles que desce a um sítio plano,
onde proclama hoje as bem-aventuranças (comparar com Mt 5,1-12, onde o
sítio é o alto de um monte e o texto é mais
espiritualizado). Logo a seguir às bem-aventuranças vem o texto do
Evangelho do 7º DOMINGO
(22 de Fevereiro: Lc 6, 27-38), dirigido «aos seus discípulos».
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Ler o texto de Lucas
6,46-49; comparar com Mateus 7,24-29 para ver a
absoluta necessidade de pormos a Palavra de Deus na base da nossa fé,
como pretende Lucas com o seu Evangelho. A concluir, pode-se
rezar parte do Salmo 119
(118). Se for em grupo, melhor.
frei Lopes Morgado