Com S. Lucas na escola do Evangelho
Concluímos aqui o
comentário às Leituras bíblicas do Ano C.
E
vamos limitar-nos ao Evangelho, de S. Lucas,
para
melhor podermos sublinhar vários dos seus exclusivos.
No
livro de Lucas, os textos situam-se
na
caminhada de Jesus para Jerusalém,
cujo
desfecho vimos no Tempo da Quaresma e da Páscoa;
para
a Igreja, estes Domingos correspondem
à
parte final do Tempo Comum,
a caminho da conclusão
do presente Ano Litúrgico.
Mas, simultaneamente,
estamos a começar a abertura de um novo Ano Pastoral, em que as
paróquias e movimentos retomam as suas actividades em força e muita
gente vai assumir novos compromissos de vida cristã e acção apostólica.
“Irmãos, comecemos a servir
o Senhor…!”
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Ora, o Evangelho do
DOMINGO XXVII
(7 de
Outubro),
exclusivo de Lucas (17,5-10), vem ao encontro disto. Começa com um
pedido dos Apóstolos – «Senhor, aumenta a nossa fé» – e termina
com um recado de Jesus aos que pretendem servi-lo: «quando tiverdes
feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: “Somos inúteis servos:
fizemos o que devíamos fazer.»
Concretizando:
1)
Para ser cristão-apóstolo é preciso ter fé, que nos vem da
Palavra de Deus; por isso, «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não
fecheis os vossos corações» – pois este “hoje” da salvação pode ser
o último para nós (refrão do Salmo Responsorial). E «a palavra
do Senhor permanece eternamente. Esta é a palavra que vos foi anunciada»;
por isso, é seguro confiar nela, vivê-la e anunciá-la (estrofe do
Aleluia).
2)
Para servir o Senhor, em Igreja, é preciso ter humildade: quem
espera louvores ou prestígio, não venha. Servir o Senhor do lava-pés,
servindo os irmãos, é o melhor prémio: é estar no coração do Evangelho!
Não posso deixar de
referir as últimas palavras de S. Francisco de Assis, que
celebrámos no dia 4 deste mês: «Irmãos, comecemos a servir o Senhor,
porque até agora ainda nada fizemos!»
A fé vem da Palavra de Deus
e conduz-nos ao Deus da Palavra
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A
14 de
Outubro,
no XXVIII
DOMINGO COMUM,
Lucas dá-nos outro exclusivo na cura dos dez leprosos (17,11-19).
Para dizer que apenas um deles, samaritano, voltou atrás para agradecer
a Jesus. E sublinhar a palavra de Jesus aos ouvintes/leitores, como
fizera na parábola do bom samaritano: «Não se encontrou quem voltasse
para dar glória a Deus senão este estrangeiro?»
O evangelista situa-nos
o acontecimento: «Indo Jesus a caminho de Jerusalém, passava entre a
Samaria e a Galileia.» Ou seja: a oportunidade da salvação
está equidistante; mas uma das margens aproxima-se mais dela, porque a
fé não é herança de família, de povo ou de classe: é uma graça, que deve
ser acolhida e agradecida. E só a fé cura e salva. Daí Jesus ao
samaritano curado: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te
salvou.»
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Outro
exclusivo de Lucas, surge no Evangelho do
XXIX DOMINGO COMUM,
a 21
de Outubro,
com a parábola do juiz e da viúva (Lucas 18,1-8). O tema é a
oração; e se, na parábola exclusiva sobre a oração, no XVII Domingo
Comum (a 29 de Julho), Jesus se comparava a um homem sem coração que só
se levantou para dar pão ao vizinho depois deste muito o importunar, na
parábola de hoje compara-se a um juiz que só se decidiu a julgar com
justiça uma viúva explorada, para que esta não o importunasse
indefinidamente.
Conclusão/lição de
Jesus:
«E Deus não iria fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clama
dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes
fará justiça bem depressa.» Até quando continuaremos a dizer que
“Deus não nos ouve” na oração? E até quando confundiremos rezar muito
com repetir muitas palavras, como os pagãos, pensando que seremos mais
atendidos por isso (ver Mt 6,7-8)? A questão é outra: ter fé em Deus, e
não ir logo trocá-lo pelo santo mais “esquisito” ou por uma “pessoa de
virtude” para ver “quem pode mais!”
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No
XXX DOMINGO
COMUM
(28
de Outubro),
Lucas volta a colocar-nos em cena dois personagens que parecem
antitéticos ou irredutíveis ao longo do seu Evangelho: um fariseu e um
cobrador de impostos, que sobem ao templo para rezar (Lucas 18,9-14).
É outra parábola exclusiva dele, para nos dizer com que espírito devemos
orar e para corrigir o nosso hábito de julgar as pessoas pela aparência
ou pelo seu estatuto social e religioso.
O fariseu
ficou de pé e passou o tempo a falar de si e contra os outros: sentia-se
cheio de méritos, e não pediu mais graças nem o perdão de Deus. Por
isso, saiu como entrou – só: longe de Deus a quem não rezou, longe dos
outros a quem julgou como «ladrões, injustos e adúlteros»!
O cobrador de
impostos,
de joelhos e sem se atrever a erguer os olhos ao céu, falou com Deus e
contra si, reconhecendo-se «pecador» e pedindo perdão. Por isso,
«desceu justificado para sua casa. Porque todo aquele que se exalta
será humilhado, e quem se humilha será exaltado».
O “Hoje” da Salvação
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O bom
coração do cobrador de impostos do último Domingo, é confirmado neste
XXXI
DOMINGO COMUM
(4 de
Novembro)
por outro, de nome Zaqueu, que não é um simples colega de
profissão, mas um chefe nessa área. É outro exclusivo de Lucas, que nos
quer falar da predilecção de Jesus/ Salvador pelos pecadores e os mais
humildes ou marginalizados (Lucas 19,1-10). Jesus entra em
Jericó, seguido da multidão. Zaqueu sobe a um sicómoro para o ver
passar, «porque era de pequena estatura». E Jesus
devolve-lhe o olhar: «Zaqueu, desce depressa, que eu hoje devo ficar
em tua casa.» Linguagem de chefes: Zaqueu manda nos
subalternos e em si – por isso enfrenta a possível chacota da gente,
pois ver Jesus vale a pena; e Jesus manda em Zaqueu – por isso se
faz convidado.
O gesto de Jesus abre
Zaqueu à conversão: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus
bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes
mais.» Jesus confirma: «Hoje entrou a salvação nesta casa,
porque Zaqueu também é filho de Abraão.» Filho de Abraão pela fé,
entenda-se; porque os meros herdeiros legais, «todos murmuravam,
dizendo: “Foi hospedar-se em casa dum pecador”.» Recordo:
«Se hoje
ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.»
Este “hoje”, em Lucas, urge e é decisivo!
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No passado
dia 1 e 2 celebrámos a Festa de
Todos os
Santos
e comemorámos os
Fiéis Defuntos,
respectivamente. Apesar disso, e apesar de dizermos que fulano ou fulana
“estão com Deus”, é provável que continuemos a pensar neles mais como
mortos ou falecidos, do que como vivos ou santos. Era esse, no
tempo de Jesus, o pensamento dos saduceus, que negavam a ressurreição; e
que, para o experimentarem, lhe colocaram uma questão académica de
simples casuística: sete irmãos casaram com a mesma mulher, que foi
enviuvando de todos; «de qual deles será ela esposa na ressurreição?»
A resposta de Jesus,
neste
XXXII DOMINGO COMUM
(a
11 de Novembro),
é: «aqueles que foram dignos de tomar parte na vida futura e na
ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento.» Mais: «porque nasceram
da ressurreição, são filhos de Deus»; e o nosso Deus «não é um
Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». A
Liturgia contrasta este caso ficcionado pelos saduceus, com o caso
histórico dos sete irmãos macabeus martirizados diante da mãe, que os
exortava à confiança na ressurreição (2 Mac 7,1-2.9-14). Porque
«os mortos ressuscitam», insiste Jesus (Lucas 20,27.34-38).
«Vamos com alegria para a
casa do Senhor»
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No
XXXIII DOMINGO
COMUM
(18
de Novembro),
o penúltimo do Ano Litúrgico, a Igreja reenvia-nos ao I Domingo do
Advento, para recordarmos que o Tempo da Salvação de Deus, apesar de
ciclicamente voltarmos às mesmas celebrações, não é circular – um
círculo fechado sobre si mesmo e sem saída, como no conceito pagão – mas
há uma lógica linear e sequencial entre o princípio e o fim.
Por isso, é proclamado o
Evangelho de Lucas 21,5-19, que no livro antecede os versículos
25-28.34-36 do mesmo capítulo, proclamados no I Domingo do Advento. Ou
seja: no início começámos pelo fim, pondo diante dos olhos o objectivo
da santificação rumo à salvação; agora, lançamos um olhar retrospectivo,
para ver se o atingimos.
O texto pertence à
quarta parte do livro de Lucas, sobre o ministério de Jesus em
Jerusalém; e serve-se do acontecimento histórico da destruição do templo
de Jerusalém no ano 70 para falar das tribulações que precederão o fim
dos tempos, nomeadamente a perseguição dos discípulos. A palavra de
Jesus não é alarmista: «Quando ouvirdes falar de guerras e
revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam
primeiro, mas não será logo o fim.» Mas é realista:
«Sereis entregues até pelos vossos pais e amigos. Causarão morte a
alguns de vós e todos vos odiarão por casa do meu nome; mas nenhum
cabelo da vossa cabeça se perderá.» E dá esperança:
«Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.»
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A
esperança deixada por Jesus no Domingo passado, confirma-se neste
25 de
Novembro,
ao ouvirmos
NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO,
dizer a um dos malfeitores que tinha sido crucificado com Ele:
«Hoje estarás comigo no paraíso.» O Ano Litúrgico em que tivemos
S. Lucas como principal evangelista, não podia concluir melhor do que
mostrando a misericórdia de Jesus salvando um marginal no “hoje”
definitivo da sua vida.
E tal aconteceu porque
Jesus nunca fez nada para fugir ao sofrimento ou salvar a si mesmo.
Assim pediam, zombando dele, os chefes dos judeus: «Salvou os outros:
salve-se a si mesmo, se é o Messias, o Eleito.» E os soldados:
«Se és Rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.» E o outro malfeitor,
crucificado com Ele: «Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a
nós também.» Era o que fariam os chefes com projectos pessoais de
poder a salvar; e os seus discípulos tentaram fazê-lo, por cobardia.
Mas Ele é um Rei
diferente: reina e salva deixando-se matar, cumprindo a missão do
Servo de Javé: «O castigo que nos salva caiu sobre ele, / fomos
curados pelas suas chagas. / […] Ele, o justo, justificará a
muitos, / porque carregou com o crime deles.» (Is 53,5.11). Quando
vemos um pecador reconhecer-se culpado, como fez o bom ladrão («recebemos
o castigo das nossas más acções»), Jesus prova que é o Messias. «O
Messias é o único rei que não reina desde fora», disse Levinas.
Frei Lopes Morgado