Domingos de Outubro e Novembro
Concluo neste artigo o comentário aos
textos do Evangelho
dos Domingos de Outubro e Novembro,
com que
termina o Ano Litúrgico B.
As Leituras do XXVII
Domingo, no
dia 8 de Outubro,
prestam-se para
proclamar o Evangelho da Família. Começando pela 1ª, que fala da criação
da primeira mulher com a mesma dignidade do homem para ser «uma
auxiliar semelhante a ele» de modo que se possa unir a ela e serem
«os dois uma só carne» (Gn 2,18-24); seguindo pelo
quadro familiar apresentado no Salmo 128 – o «homem
abençoado que teme o Senhor», a esposa «como videira fecunda no
íntimo do lar» e os filhos em redor da mesa «com ramos de
oliveira» – e concluindo no Evangelho em que os fariseus colocam
a Jesus a questão do divórcio: «Pode um homem repudiar a sua mulher?»
(Mc 10,2-16).
Temas actuais, embora vestidos com metáforas da família patriarcal,
estilhaçada pela deflagração das nossas famílias.
Seguir Jesus, enfrentando qualquer exigência
»
O
Evangelho do Domingo XXVIII (dia
15 de Outubro)
é um dos
episódios relatados pelos três evangelistas Sinópticos e presta-se para
uma leitura comparada dos textos.
Mateus
diz: «aproximou-se dele um jovem e disse-lhe: “Mestre, que
hei-de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?»; e diz que esse
jovem «possuía muitos bens» (19,16-22). Segundo
Lucas,
«certo chefe perguntou-lhe, então: Bom Mestre, que hei-de
fazer para alcançar a vida eterna?»; e «era muito rico»
(18,8-23). Marcos
acrescenta alguns pormenores de atitude, que ajudam a qualificar o
personagem: «alguém correu para Ele e ajoelhou-se,
perguntando: Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar vida eterna?»
(10,17-30).
Algumas notas:
1)
Só Mateus diz que era um jovem; mas como, antes da reforma do Vaticano
II, o seu texto é que era lido todos os anos, ainda hoje quase só se
ouve falar do “jovem rico” e se diz que Jesus olhou para ele com
afeição, mesmo quando o Evangelho proclamado é o de Marcos. Ora, Mc não
fala de um jovem, mas apenas de alguém; e só Mc diz,
acerca do seu personagem, que «Jesus, fitando nele o olhar, sentiu
afeição por ele». Talvez porque, nos textos, só ele “corre” para
Jesus e “se ajoelha” diante dele, além de o considerar “bom”. O seu
coração já teria igual afeição por Jesus, sendo mais receptivo à graça.
Daí, também, o maior acento na sua reacção: «ficou de semblante
anuviado» e «retirou-se pesaroso». Faz lembrar a semente da
parábola, que brotou depressa mas logo secou porque a terra era pouca e
a raiz não tinha profundidade (Mt 13,5-6).
2)
Ao falar de uma alguém indefinido, Marcos confronta cada
leitor com o texto, desafiando-o a apropriar-se dele e a sentir-se
julgado por ele. Ou seja, não nos permite transferir as nossas
expectativas ou frustrações para os jovens que não correspondem ao amor
e chamamento de Cristo, como se nós não fôssemos também chamados a
segui-lo; ou, aplicando aos religiosos: como se os postulantes ou
noviços devessem ser mais perfeitos do que os professos de votos
perpétuos. Os textos (mesmo o do jovem) não podem continuar a ser
“explorados” para falar apenas das vocações dos jovens ao sacerdócio ou
à vida consagrada; eles falam da vocação de seguir Jesus como seus
discípulos, comum a todos os cristãos, e das exigências por vezes
radicais para lhe sermos fiéis, apesar de tudo e de todos.
3)
Repare-se, em Marcos,
na sequência de cinco verbos, todos no imperativo: vai, vende,
dá, vem, segue-me. Na expressão «vende tudo o que tens»,
pode haver uma base para se falar da vocação dos religiosos, que
«encarnam a Igreja desejosa de se entregar ao radicalismo das
bem-aventuranças» e que, «graças à sua consagração religiosa, são por
excelência voluntários e livres para deixar tudo e ir anunciar o
Evangelho» (Paulo VI, EN 69); ou devem ser. Mas essa proposta não
pode ser feita apenas aos mais jovens.
Da presunção do preferido à fé do marginalizado
»
O
Evangelho de Marcos tem duas partes, ambas coroadas por uma confissão de
fé. A primeira, de Pedro, em 8,29: «Tu és o Messias!»; a segunda,
do centurião romano, em 16,39: «Verdadeiramente este homem era filho
de Deus!» O episódio narrado no XXIX Domingo (22
de Outubro)
já se situa na 2ª parte e ocorre após Jesus ter feito o 3º anúncio da
sua Paixão (8,31-32; 9,30-32; 10,32-34). Por isso é mais chocante. Jesus
acaba de dizer que «hão escarnecê-lo, cuspir sobre Ele, açoitá-lo e
matá-lo» (10,34); e dois dos seus apóstolos, preparados para essa
hora, pedem que lhes reserve os dois melhores lugares do reino: um à sua
direita e outro à sua esquerda (Mc
10,35-45). E
mais chocante ainda, é serem os próprios Tiago e João a pedi-lo, e não a
sua mãe, como se lê em Mateus 20,20-28.
Até certo ponto,
compreende-se, atendendo ao contexto. O evangelista diz que «iam a
caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus seguia à frente deles. Estavam
espantados, e os que seguiam estavam cheios de medo.» Repare-se: era
o grupos dos Doze, especialmente chamados por Jesus «para
estarem com Ele e para os enviar a pregar» (3,13-19); Tiago e João
até foram, com Pedro, os três escolhidos por Jesus para o acompanharem
em momentos especiais da sua vida, como a Transfiguração (9,2) e a
oração em Getsémani (14,32). Mas, pelos vistos, estes discípulos, embora
Jesus fosse «à frente deles», não tinam certeza de serem bem
guiados; e embora «seguissem» atrás, três anos depois ainda não tinham
deixado tudo para “O seguir”. Neste caso, resolver aproveitar a ocasião
enquanto é tempo e antes que tudo se desmorone – não é prudência
evangélica, mas falta de confiança no Mestre, desumanidade e oportunismo
carreirista.
«Não entendiam esta
linguagem e tinham medo de o interrogar»,
diz Marcos (9,32). E resolveram atacar na pior ocasião de todas. Por
isso, Jesus talvez já não tenha grande esperança de ser melhor
entendido. Mas, depois de se referir ao modo como os governantes impõem
a sua autoridade, sempre lhes vai dizendo: «Não deve ser assim entre
vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser
ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos» (10,43). É a lei
do amor, da solicitude missionária e do serviço, de que fala Bento XVI
na sua Mensagem para o Dia das Missões, que hoje celebramos,
referindo-se à parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37).
»
Nem de
propósito, o XXX Domingo (29
de Outubro)
apresenta-nos o contraste de um cego, chamado Bartimeu: «Ao ouvir
dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: “Jesus,
Filho de David, tem piedade de mim!” Muitos mandavam-no calar, mas
ele gritava cada vez mais. Até que Jesus o mandou chamar. Diante de
Jesus, acredita totalmente nele e diz: «Mestre, que eu veja!» E,
uma vez curado graças à sua fé, «seguiu Jesus pelo caminho».
Ser preferido cria maus
hábitos e pode levar a exigir aquilo que não é devido. Daí o despudor
dos dois apóstolos preferidos de Jesus, no Domingo passado: «Mestre,
nós queremos que nos faças o que te vamos pedir» (Mc 10,36).
Dependente e inseguro, devido à sua falta de visão física, o cego
amadureceu por dentro e estava predisposto a qualquer sacrifício para
obter a visão. Recebida mais esta “esmola” definitiva, logo seguiu Jesus
incondicionalmente, como um discípulo de longa data. Quanta fé e
generosidade em muitos que são mandados calar e considerados indignos de
uma nova oportunidade! E quanta presunção, nos que os pretendemos
silenciar e manter à margem!
O
amor (a Deus e ao próximo) e os sacrifícios
»
No
Domingo XXXI, a
05 de Novembro,
Jesus proclama o primado absoluto do amor a Deus (o Chemá), em
resposta à pergunta de um escriba: «Qual é o primeiro de todos os
mandamentos?» E acrescenta: «O segundo é este: ‘Amarás o teu
próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes.»
O escriba concorda, até ao ponto de mostrar grande abertura num campo
sensível para o culto oficial de então: amar a Deus e ao próximo
«vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios.» Ao ver tão
grande coincidência com o fundamental que Ele próprio vinha pregando,
por vezes com escândalo dos fariseus, Jesus sublinha: «Não estás
longe do reino de Deus.» Vendo certos holocaustos e sacrifícios,
pergunto-me se muitos cristãos, vinte séculos depois, terão este
critério de valor e prioridade confessado pelo escriba…
»
Pelo
Evangelho do
Domingo XXII
(12 de Novembro)
entendemos melhor a palavra de Jesus ao escriba, no Domingo passado. É
que os fariseus (os “separados”, por se considerarem melhores do que “os
outros”) continuam a dar mais valor às aparências exteriores do que à
verdade do coração. Gostam de se exibir: pelas vestes, os cumprimentos e
os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes. Mas são lobos
vestidos de cordeiros: «Devoram as casas das viúvas com pretexto de
fazerem longas rezas. Estes receberão uma sentença mais severa.» E,
ao ver como muitos ricos deitavam quantias avultadas na arca do tesouro
do templo, Jesus contrapõe o exemplo da viúva que, ao deitar «duas
pequenas moedas, deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles
deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o
que tinha, tudo o que possuía para viver». A 1ª Leitura reforça este
exemplo com o da viúva de Sarepta, que, para alimentar o profeta Elias,
gastou o pouco azeite e o punhado de farinha que restava para ela e o
filho comerem e esperarem a morte (1 Rs 17,10-16). Tal
como no caso do cego, mais uma vez os carentes e insignificantes da
sociedade dão lições de generosidade e confiança no futuro aos que
ocupam os primeiros lugares não para servir e dar exemplo, mas para
espiar, presumir e condenar.
Jesus Cristo: de servo anónimo a Rei do Universo
»
No Antigo
Testamento, a Bíblia traçara dois perfis do futuro Messias: o de um
“Servo” esmagado pelo sofrimento, de que falou Isaías 53,10-11 na 1ª
Leitura do XXIX Domingo; e o do “Filho do Homem” triunfador e majestoso,
de que fala Daniel 12,1-3 na 1ª Leitura deste Domingo XXXIII (19
de Novembro).
Em vida, Jesus encarnou o modelo do servo; no fim dos tempos, o
Evangelho de hoje diz que «hão-de ver o Filho do Homem vir sobre as
nuvens, com grande poder e glória» (Mc 13,24-32). O texto situa-se
no chamado discurso “escatológico”, no qual, com uma linguagem herdada
do profeta Daniel, a Comunidade de Marcos faz uma leitura crente dos
acontecimentos políticos e sociais de então, como se o mundo fosse
acabar naqueles dias. A partir daí, profetas agoirentos tentaram
aplicá-lo a cada época. Para muitos, o ano 2000 era o prazo limite. E
depois de 2001, desde que o medo cedeu ao terrorismo, não tem faltado
auditório para estes pretensos iluminados.
»
No
Domingo XXXIV celebramos, a
26 de Novembro,
a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, e encerramos
este ano B da Liturgia. E não é Marcos quem apaga a vela, mas João, para
nos recordar as palavras de Jesus a Pilatos: «O meu reino não é deste
mundo… o meu reino não é daqui» (Jo 18-33b-37). Mas, como se
constrói a partir daqui, continuamos a rezar: «Venha a nós o vosso
reino»; e no próximo Domingo começaremos um novo ano litúrgico, para ver
se finalmente conseguimos dar este nome à cidade: «O Senhor é a nossa
justiça» (Jr 33,14-16: 1ª Leitura do próximo Domingo).
frei Lopes Morgado