Com S. Lucas na escola do Evangelho
A primeira parte do Tempo Comum, a seguir
à Epifania, teve início na Festa do Baptismo do Senhor e foi até
Quarta-Feira de Cinzas;
esta segunda parte, após o Pentecostes, começa com a Solenidade
da
Santíssima Trindade e vai prolongar-se até à Solenidade de
Jesus Cristo, Rei do
Universo.
A 1ª convidava-nos a
continuar, na vida, a nossa consciência, vocação e missão de filhos de
Deus, à luz do Natal: «Tu és meu filho, Eu hoje te gerei»; a 2ª, após
recebermos a força do Espírito Santo, projecta-nos para uma vida de
comunhão com o nosso Deus, sob cuja invocação fomos baptizados, ao nível
individual e do testemunho pela palavra e a acção solidária.
Viver na comunhão do
Deus-Amor
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Os textos da Solenidade litúrgica da
SANTÍSSIMA TRINDADE,
a 03 de Junho, sublinham o fundamental de cada uma das Pessoas do
nosso Deus, embora em cada uma estejam sempre as Três incluídas.
A
1ª Leitura
(Pr 8,22-31) parece querer destacar Deus-Pai como Criador. Mas,
ao lê-la, convém lembrar o que dizia Santo Agostinho a propósito
da obra da Criação: «Eis que me aparece em enigma a Trindade que Tu és,
meu Deus, porque Tu, Pai, no princípio da nossa sabedoria, que é a tua
sabedoria de ti nascida, igual e coeterna contigo, isto é, no teu Filho,
fizeste o céu e a terra. […]
E eu incluía já o Pai no
nome de Deus, que fez estas coisas, e o Filho no nome do princípio em
que as fez, e, acreditando que o meu Deus é Trindade, como de facto
acreditava, continuava à procura nas suas Santas Escrituras, e eis que o
teu Espírito se movia sobre as águas. Eis que o meu Deus é Trindade,
Pai, e Filho, e Espírito Santo, Criador de toda a criatura» (in
Confissões, Livro XIII: V, 6).
De igual modo, na
2ª Leitura
(Rm 5,1-5), Paulo diz que «estamos em paz com Deus [Pai], por
Nosso Senhor Jesus Cristo [Filho], pelo qual temos aceso, na fé,
a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança
da glória de Deus. […] Ora, a esperança não engana, porque o amor
de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi
dado». Surgem, mais uma vez, as Três Pessoas divinas, e as três
virtudes teologais com elas relacionadas, tal como as celebrámos na
preparação para o Jubileu do ano 2000: a Fé, com o Filho; a Esperança
com o Espírito Santo; e o amor com, o Pai.
Finalmente, no
Evangelho
(Jo 16,12-15), Jesus [Filho] promete o Espírito Santo, dizendo: «Tudo
o que o Pai tem é meu. Por isso, Ele [o Espírito Santo] receberá
do que é meu e vo-lo anunciará.» Como já dissera, também no mesmo
Evangelho de João: Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade,
que procede do Pai e que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai...»
(15,26).
Misericordiosos como Jesus
No resto dos Domingos
deste ano, o Amor do nosso Deus manifesta-se na missão de Jesus
misericordioso segundo o Evangelho de Lucas, sempre em comunhão com o
Pai e o Espírito Santo. E vamos ter ocasião de sublinhar mais algumas
características exclusivas daquele evangelista.
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A 10 de Junho, no
Evangelho
do
X DOMINGO COMUM
é proclamado o milagre da ressurreição de um jovem, filho de uma
viúva de Naim, exclusivo de Lucas (7,11-17). Com dois
imperativos, Jesus mostra o seu amor compassivo e activo, ou a
sua misericórdia e o seu poder: À mãe: «Não chores.» Ao jovem:
«Eu te ordeno: levanta-te.» Perante o milagre, a multidão
reconhece o sinal evidente da divindade: «Deus visitou o seu povo.»
A
1ª Leitura
é um paralelo do AT nesta pedagogia da revelação de um Deus presente e
atento à nossa vida: a ressurreição do filho de uma viúva de
Sarepta, pelo profeta Elias (1 Rs 17,17-24).
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O
Evangelho
do
XI
DOMINGO COMUM
(17 de Junho) fala de perdão e de mulheres, outros dois temas
caros de Lucas e mais abundantes no seu Evangelho do que nos outros. O
episódio enquadra-se duplamente na sua teologia.
Jesus é convidado para
comer em casa de Simão, um fariseu. A meio da refeição, uma
pecadora aproxima-se dele chorando, lava-lhe os pés com as
lágrimas, enxuga-lhos com os cabelos, beija-os e unge-os com perfume.
Simão recrimina-o interiormente por Ele não ter repelido
“aquela mulher”, duvidando por isso da sua qualidade de profeta;
Jesus conta-lhe uma parábola sobre o perdão, levando-o a
concluir que, quem é mais perdoado, fica mais amigo daquele que o
perdoa. Sentenciando: «São-lhe perdoados os seus muitos pecados,
porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama» (Lc
7,36 – 8,3). Como quem diz: “Tu, que te tens por justo, não me amas
tanto porque achas que não precisas de ser perdoado. Por isso não me
recebeste com a devida hospitalidade, ao contrário desta mulher” (ver os
vv. 44-47).
Mais uma vez,
fariseus e pecadores frente a frente, como nas parábolas da
misericórdia do capítulo 15, e Jesus a encorajar os pecadores:
«Os teus pecados estão perdoados… A tua fé te salvou. Vai em paz.»
Como que em resposta a este envio, o Evangelho conclui – noutro
exclusivo de Lucas – que, além dos Doze, Jesus era acompanhado por
«algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e
de enfermidades.» O meio de recrutamento vocacional não parecia o
mais aconselhável; mas só Jesus conhece bem o coração de cada um, para
além das aparências, do estrato ou estatuto social e dos juízos morais
alheios.
Entretanto, na
1ª Leitura
o profeta Natan, em nome de Deus, diz ao rei David – que tomara a mulher
de Urias e urdira a morte deste general do seu exército, para ficar com
ela: «O Senhor perdoou o teu pecado» (2 Sm 12,7-10.13). E o
refrão do
Salmo 32
propõe-nos interiorizar a mensagem e aplicá-la à nossa vida:
«Perdoai, Senhor, minha culpa e meu pecado.»
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À primeira
vista, parece estranho que, no dia 24 de Junho, a Solenidade do
NASCIMENTO DE S. JOÃO BAPTISTA
tenha precedência sobre a celebração do Domingo XII, Dia do Senhor. Mas
tal acontece precisamente por ter a categoria litúrgica de “Solenidade”
e pela sua relação íntima com o Senhor.
De facto, a Igreja
apenas celebra o nascimento de três personagens: de Cristo, a 25
de Dezembro, porque é Deus e não conheceu o pecado; da Virgem Maria,
a 8 de Setembro, porque é sua Mãe e foi concebida sem pecado por
aplicação antecipada dos méritos do Filho; e de João Baptista,
primo de Jesus, porque foi santificado no seio de sua mãe: quando Maria,
grávida de Jesus, foi a casa de sua prima Isabel, esta sentiu saltar-lhe
no seio João, gerado há seis meses, que viria a ser o Precursor de Jesus
(Evangelho:
Lc
1,57-66.80). É Lucas quem narra, em exclusivo e com um grande
paralelismo entre os dois, os nascimentos de Jesus e de seu segundo
primo João (capítulos 1 e 2).
A
1ª Leitura
sublinha essa
santificação do Baptista no seio de Isabel, com o relato do chamamento
de Isaías, o profeta do Advento e do Natal: «Quando ainda
estava no ventre materno, o Senhor chamou-me, / quando ainda estava no
seio de minha mãe, / pronunciou o meu nome» (Is 49,1-6).
Também nós podemos
cantar, com o
Salmo 39:
«Dou-Vos graças, Senhor, porque admiravelmente me criastes.» De facto,
diz a
2ª Leitura,
«a nós é que foi dirigida esta mensagem de salvação» (Act
13,22-26).
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Se no dia
24 tivéssemos celebrado o XII Domingo Comum, teríamos ouvido
Jesus dizer, no final do Evangelho: «Se alguém quer vir comigo,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me» (Lc
9,18-24).
O
Evangelho
do
DOMINGO XIII
(01 de Julho) já nos diz que, «aproximando-se os dias de Jesus
ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de se dirigir a Jerusalém»
(Lc 9,51-62). Estamos na espinha dorsal do Evangelho de
Lucas, que o percorre da Galileia até Jerusalém; e juntamo-nos a Jesus
que faz esta caminhada para morrer, como profeta, na sua cidade.
Hoje, no caminho, surgem
os samaritanos, que não os deixam atravessar a sua terra só
porque vão para Jerusalém («os judeus não se dão bem com os
samaritanos»: Jo 4,9). Surgem alguns candidatos a discípulos,
que querem seguir Jesus, na condição de primeiro irem resolver assuntos
pessoais ou familiares. E surgem Tiago e João, que pretendem
mandar vir fogo do céu para castigar a inospitalidade dos samaritanos. E
surge Jesus, condescendente mas decidido: aos discípulos,
«repreende-os. E seguiram para outra povoação»; aos pretensos
seguidores, põe as coisas claras: «Quem tiver lançado a mão ao arado
e olhar para trás não serve para o reino de Deus.»
Poderíamos acrescentar,
da 2ª
Leitura:
«Deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis aos desejos da
carne» (Gl 5,1.13-18). Ou complementar estes relatos de vocação com
a 1ª
Leitura,
onde Eliseu também pede para ir a casa antes de seguir Elias, mas
para matar uma junta de bois, assar a carne na lenha do arado e servir à
sua gente uma festiva refeição de despedida. «Depois, levantou-se e
seguiu Elias, ficando ao seu serviço» (1 Rs 19,16b.19-21). Isto é:
deixando tudo, dizendo com o Salmista: «o Senhor é a minha herança»
(Salmo
16).
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As
Leituras do
DOMINGO XIV
(08 de Julho) investem-nos como mensageiros da Paz.
Transcrevo, apenas, um texto de cada uma:
«Farei correr para
Jerusalém a paz como um rio»
(1ª
Leitura:
Is 66,10-14c). «Paz e misericórdia para quantos seguirem esta norma»
(2ª
Leitura:
Gl 6,14-18). «Reine em vossos corações a paz de Cristo, habite em vós
a sua palavra» (Refrão
do
Aleluia:
Cl 3,15a.16a). «Quando entrardes em alguma casa, dizei primeiro: ‘Paz
a esta casa’».
Contudo, esta paz não é
indiferente à rejeição da mensagem nem se ilude com o
acolhimento inicial: «não vos alegreis porque os espíritos vos
obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos
Céus» (Evangelho:
Lc
10,1-12.17-20). Como o Apóstolo, só nos devemos gloriar na cruz
de Cristo (2ª). «Com efeito, Ele é a nossa paz, Ele
que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a
inimizade» (Ef 2,14), «estabelecendo a paz, pelo sangue da sua
cruz», como nos dirá a 2ª Leitura do próximo Domingo (Cl 1,20).
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No
DOMINGO XV
(15 de Julho), o tema central é o amor. A
1ª Leitura
diz como devemos amar a Deus: escutando a sua voz, cumprindo os seus
preceitos e mandamentos e convertendo-se a Ele com todo o oração e com
toda a alma. Aparentemente é impossível; mas o texto diz que esta
palavra/mandamento «não está no céu nem para além dos mares… […]
está perto de ti, está na tua boa e no teu coração, para que a possas
pôr em prática» (Dt 30,10-14).
Prova disso é o
Evangelho,
um outro exclusivo de Lucas (10,25-37). Quando um doutor da lei,
para experimentar Jesus, o trata por Mestre e lhe pergunta o que há-de
fazer para receber a vida eterna, Ele respondeu com outra pergunta: Como
entendes os que estava escrito na lei? E o próprio doutor repete as
palavras do Deuteronómio, juntando: «e ao próximo como a ti mesmo».
Como o Mestre está de acordo, «ele, querendo justificar-se, perguntou
a Jesus: “E quem é o meu próximo?” Jesus,
tomando a palavra», deixa o caminho do amor a Deus e segue o do amor
ao próximo com a bela parábola do bom samaritano. Pois este
precisava de ter em si o amor de Deus para ultrapassar os preconceitos
religiosos e sociais relativamente ao judeu assaltado pelos ladrões, e
para atendê-lo e tratá-lo de modo tão gratuito muito além do
obrigatório. Ora, ao tratar assim uma criatura humana, ele estava a
tratar o próprio Deus.
Por isso, no testemunho
deste “marginal”, Jesus dá ao doutor da lei o modelo do amor a Deus e ao
próximo. «Vai e faz o mesmo», diz Jesus. A ele e a nós.
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A lição
das Leituras no
DOMINGO XVI
(22 de Julho) vai para a disponibilidade e o
acolhimento, cada vez mais necessários.
A
1ª Leitura
é o famoso episódio de Abraão acolhendo e servindo uma boa
refeição a três personagens misteriosos que passaram junto da sua tenda
(Gn 18,20-32).
O
Evangelho
mostra Jesus acolhido em casa de Maria e de Marta, irmãs
de Lázaro, que lhe proporcionam, respectivamente, acolhimento e
alimentação. Outro episódio exclusivo de Lucas (10,38-42). A
2ª leitura,
quase nos dá a legenda deste quadro: «Cristo no meio de vós,
esperança da glória» (Cl 1,24-28).
O próprio texto sagrado
avalia os gestos destes personagens. A Abraão é prometido um
filho, um ano depois: e nasce Isaac, filho de Abraão e de Sara que,
desconfiada da promessa, se rira baixinho atrás da porta da tenda. A
Marta, que reclamava a ajuda de Maria na cozinha, sem pensar que
desse modo ia deixar o Mestre sem companhia, «o Senhor respondeu:
“Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma
só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será
tirada.»
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A concluir
o mês, o
DOMINGO XVII
(29 de Julho) traz-nos outro tema característico e muito caro de
S. Lucas: a oração. Na
1ª leitura,
Abraão intercede pelos habitantes de Sodoma e Gomorra (Ex
18,20-32). No
Evangelho,
o testemunho de Jesus orante leva um dos discípulos a dizer-lhe:
«Senhor, ensina-nos a orar.» E o mestre ensina-lhes a oração
do Pai-nosso, muito diferente do de Mateus no texto e no contexto (Lc
101,1-3; ver Mt 6,5-15).
Não por acaso, o tema da
oração é sublinhado pela misericórdia de Deus em
atendê-la. Mas não infantilizando-nos até ao ponto de não pedir
correspondência. Por isso, no caso de Abraão, Sodoma e Gomorra
foram destruídas por não haver nelas dez justos. Não porque sejam
precisos “pára-raios da justiça divina” que aplaquem a sua “ira” e a
transformem em perdão, como ouvimos em tantas catequeses e pregações;
mas porque Deus nos trata como criaturas livres. O Evangelho reforça-o,
sublinhando a “fragilidade” de Deus ao deixar-se vencer pela nossa
persistência: Ele faz-se “duro” apenas para testar a nossa fé no seu
amor e poder.
Lucas aproveita para
fazer entrar, no final, uma referência ao Espírito Santo, que lhe
é muito caro, embora neste caso nos pareça a despropósito, porque
inesperado. Depois de uma parábola para motivar a nossa insistência
na oração, e após uma série de comparações para nos fazer entender
que Deus, nosso Pai, não é menos solicito aos nossos pedidos e
necessidades, nem menos misericordioso do que os nossos pais, Jesus
conclui: «Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos
filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho,
pedem!»
O Evangelista acha tão
importante que nós o saibamos, que no-lo diz mesmo sem lho termos
perguntado… Quase a insinuar: e quando aquilo que pedistes na oração não
vos parecer suficiente para serdes felizes ou cumprirdes a vossa tarefa,
pedi o Espírito Santo, pois Ele vos ensinará a rezar e vos dirá o
que pedir.
Frei Lopes Morgado