Com S. Lucas na escola do Evangelho
Com
o I Domingo do Advento, a 3 de Dezembro,
abre o novo ano
litúrgico 2006-2007 (Ano C), durante o qual S. Lucas vai ser o
Evangelista mais lido nos Domingos e Festas. Continuarei a comentar
os textos do Evangelho, com
algumas referências às outras Leituras bíblicas do mesmo dia.
Nesta série de artigos,
já escrevi três vezes sobre o Evangelho de Lucas, a propósito dos seus
textos lidos nos Domingos do Tempo Comum, da Paixão e da Páscoa. Tive,
então, a oportunidade de sublinhar algumas das suas
características
principais:
Lucas é o Evangelho da misericórdia, do caminho, do apostolado, do
Espírito Santo, da oração, da sensibilidade social, da salvação e do
serviço. Mas tem outras características não menos importantes, como
veremos nos Evangelhos comentados agora e nos próximos meses.
Da
leitura privada à proclamação litúrgica
Para conhecer um
Evangelho, não basta ouvir os textos proclamados na Liturgia: é preciso
lê-lo todo. É a primeira sugestão que dou a cada leitor desta página:
abra o Evangelho de S. Lucas e leia-o todo seguido, quanto antes.
Porquê? Porque a leitura de um Evangelho, nos Domingos e Festas do ano
litúrgico, não é contínua nem cronológica. Para captar a frescura da sua
mensagem, hoje, é preciso enquadrá-lo no contexto histórico e
sociológico em que nasceu, no livro de que faz parte e nos objectivos
catequéticos do autor.
Os textos bíblicos
lidos na Missa foram escolhidos à luz dos objectivos definidos pela
Igreja na
Constituição sobre a
sagrada Liturgia,
do Concílio Vaticano II, nº 51, a 4 de Dezembro de 1963: «apresentar aos
fiéis com maior abundância a mesa da palavra de Deus, abrir-lhes mais
amplamente os tesouros bíblicos e ler ao povo, dentro de determinado
espaço de tempo, a parte mais importante das Santas Escrituras.»
Um Conselho concretizou
essas orientações no
“Ordenamento
das Leituras da Missa”.
Tal Ordenamento foi aprovado pelo papa Paulo VI na Constituição
Apostólica
MISSALE ROMANUM,
de 3 de Abril de 1969, e promulgado pela Sagrada Congregação do
Culto Divino em 25 de Maio, entrando em vigor a 30 de Novembro, I
Domingo do Advento. Daí nasceram os actuais
“Leccionários”
(do latim lectio, leitura), os livros por onde são proclamadas as
Leituras na Liturgia. Vejamos os textos em concreto.
O
Evangelho de Lucas lido no Advento
»»
No I DOMINGO DO
ADVENTO (3
de Dezembro), o texto do
Evangelho
é Lucas 21,25-28.34-36.
Escrevendo
por volta dos anos 80-90, Lucas conhecia a destruição de Jerusalém pelo
exército romano de Tito, no ano 70. Por isso, Jesus fala expressamente
dela, no seu Evangelho; e o evangelista serve-se desse facto histórico
para tornar mais clara a mensagem do Juízo final (Lc 19,43-44;
21,20-24). Logo a seguir, vem o texto deste Domingo.
Nele, o Senhor fala da
sua vinda no fim dos tempos, numa linguagem própria dos “apocalipses”
envolta em sinais cósmicos espectaculares. Sublinho os seus
imperativos: «Levantai a cabeça, «Tende cuidado convosco»,
«Vigiai e orai em todo o tempo». Palavras de esperança, de alerta
e atenção permanente, para não sermos surpreendidos por «esse dia»,
que não conhecemos nem controlamos.
A melhor prevenção é a
atitude de espírito sugerida pelo refrão do
Salmo Responsorial:
«Para Vós, Senhor, elevo a minha alma»; pois Ele «é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores, orienta os humildes na justiça e dá-lhes
a conhecer os seus caminhos» (Sl 25). E, paralelamente, «crescer e
abundar na caridade uns para com os outros e para com todos», como
recomenda Paulo (2ª
Leitura:
1 Ts 3,12-4,2). Porquê? Porque no fim é Deus quem nos julga e porque
seremos todos julgados pelo amor.
»»
Em pleno Tempo do Advento, a solenidade da
IMACULADA CONCEIÇÃO,
por privilégio celebrada em Portugal a
8 de Dezembro,
vem lembrar-nos duas coisas.
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Primeira:
se já vemos a luz da Redenção na Lua ou na Aurora, é porque Sol – o
Messias – está muito próximo. Pois a Virgem Maria foi «cheia de
graça» desde o primeiro instante, por antecipação dos méritos de seu
Filho, o descendente por excelência da mulher, que esmagou a cabeça do
Mal (1ª
Leitura:
Gn 3,9-15.20). Daí o bom enquadramento desta celebração no Tempo de
caminhada para o Natal de Jesus: com Maria, tomamos consciência de que
«foi n’Ele, também, que Deus nos escolheu e destinou de antemão a
sermos seus filhos adoptivos e herdeiros» (2ª
Leitura:
Ef 1,3-6.11-12).
::
Segunda: se
temos um feriado “oficial” para honrar o privilégio de Maria,
exactamente a 8 de Dezembro – o 1º dia dos 9 meses que ela passou no
seio da mãe, completados a 8 de Setembro, festa do seu Nascimento – não
faz sentido celebrar o 1º instante da sua “vida humana” e negar a vida
humana de um feto ou admitir a interrupção voluntária do seu
desenvolvimento… até às 10 semanas!
Nesta “Narrativa de
Infância” (1,26-38),
Lucas
dá a Maria o relevo que Mateus concede à figura de José. Escrevendo para
gentios, Lucas não tinha os condicionamentos de Mateus, que dirigiu o
seu Evangelho aos judeus, para os quais a mulher não podia tomar a
iniciativa nem ter um papel superior ao do seu esposo, como acontece com
Maria relativamente a José.
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A No II DOMINGO
DO ADVENTO
(10 de
Dezembro), o profeta
Baruc
exorta Jerusalém, enquanto símbolo do povo e do país: «Deixa
a tua veste de luto e de aflição, reveste a glória do
Senhor, cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus,
coloca na cabeça o diadema da glória do eterno,
levanta-te… porque Deus conduzirá Israel na alegria» (1ª
Leitura: Br 5,1-9). E o
Salmo
126 vem confirmar o cumprimento da promessa, evocando o regresso
triunfante dos cativos: «O Senhor fez maravilhas em favor do seu
povo.»
Lucas
concretiza a promessa no tempo de Jesus, contextualizando histórica e
politicamente o aparecimento de João Baptista que lhe vem preparar o
caminho, e universaliza a esperança de Israel ao citar Isaías. A
estrofe do
Aleluia,
antes do Evangelho, sintetiza-o bem: «Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas e toda a criatura verá a salvação de Deus»
(Lc 3,1-6). Em Lucas, João é chamado por Deus no deserto, mas prega na
zona do rio Jordão, bastante povoada; ao passo que em Mateus e Marcos,
prega no deserto.
»»
O
Evangelho
do III DOMINGO
DO ADVENTO (15
de Dezembro)
está igualmente
centrado na figura de João Baptista, agora rodeado pelas multidões que
lhe perguntam «Que havemos de fazer?» e por arrependidos de
vários estratos sociais e profissionais, que lhe pedem conselho nos
passos da justiça e da solidariedade. E João vai anunciando a Boa-Nova
com exortações dirigidas à vida, confirmando o arrependimento do povo
com o baptismo na água. Mas previne: «está a chegar quem é mais forte
do que eu… Ele vos baptizará com o Espírito Santo e com o fogo» (Lc
3,10-18).
Antes do Evangelho, a
estrofe do
Aleluia
põe na boca de João o texto de Isaías que Jesus irá proclamar na
sinagoga de Nazaré: «O Espírito do Senhor está sobre mim: enviou-me a
anunciar a boa nova aos pobres» (Is 61,1; Lc 4,18). Talvez por isso,
embora ele diga que o Messias «está a chegar», os outros textos
falam como se já estivessem na sua presença: «O Senhor, Rei de
Israel, está no meio de ti» (1ª
Leitura:
Sf 3,14-18a); «é grande no meio de vós o Santo de Israel» (Salmo:
Is 12); «O Senhor está próximo» (2ª
Leitura:
Fl 4,4-7).
Daí os apelos à
alegria, que caracterizam a Liturgia deste
Domingo “Gaudete”:
«Clama jubilosamente, filha de Sião; solta brados de alegria, filha
de Israel. Exulta, rejubila de todo o coração, filha de Jerusalém» (1ª
Leitura).
Apelos, note-se, feitos a um povo que estava oprimido!
»»
O IV DOMINGO DO
ADVENTO
vai ser celebrado
mesmo na véspera do Natal (24 de Dezembro). Ao fim da tarde, já
as famílias estarão sentadas à mesa da consoada; e à noite, a cantar o
nascimento do Senhor.
As Leituras
referem-se aos acontecimentos que prepararam de perto esse nascimento;
ouvi-las numa das Missas da manhã, poderá ajudar os mais distraídos ou
“ocupados” a centrarem as celebrações da noite no essencial… ou reparar
alguns estragos feitos pela corrida às lojas.
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Na
Primeira,
o profeta Miqueias promete à pequena cidade de Belém: «De ti
sairá aquele que há-de reinar sobre Israel. Ele será a paz»
(5,1-4a).
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Na
Segunda,
a Carta aos Hebreus nomeia o descendente d’aquele rei – Cristo,
que, ao entrar no mundo, disse: «Eu venho, ó Deus, para fazer a tua
vontade», dando assim pleno cumprimento à profecia (10,5-10).
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No
Evangelho,
Lucas fala de sua Mãe – Maria, respondendo ao anjo Gabriel que
lhe anunciara a escolha de Deus-Pai: «Eis a escrava do Senhor:
faça-se em mim segundo a vossa palavra» (Aclamação),
e sendo aclamada pela sua prima Isabel, mãe de João Baptista, que lhe
chama «a Mãe do meu Senhor»: «Bendita és tu entre as mulheres e
bendito é o fruto do teu ventre» (1,39-45).
Está tudo a postos!
«Mostrai-nos, Senhor, o vosso rosto, e seremos salvos» (Refrão
do Salmo
80). Não deixe que “outros preparativos” de última hora lhe roubem esta
oportunidade espiritual da liturgia para acolher o seu Senhor e
Salvador.
Desejo-lhe um Natal muito Feliz… assim!
O
Evangelho de Lucas lido no Natal
»»
São
Lucas é
quem transmite o anúncio mais explícito do
NASCIMENTO DO SENHOR:
«Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo
Senhor.» E os primeiros destinatários deste anúncio, feito pelos
anjos, são «uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os
rebanhos».
Este “hoje” bem
pode ser considerado o primeiro dia do resto da História da Salvação,
pois nele se cumprem todas as promessas e profecias: a de Gabriel a
Maria, pois ela «teve o seu Filho primogénito. Envolveu-o
em panos e deitou-O numa manjedoura»; a de Miqueias, ouvida ontem,
pois isto aconteceu em Belém, a cidade de David, aonde José e
Maria tinham subido, da Galileia, para se recensearem; e a de Isaías,
proclamada em cada noite de Natal: «um menino nasceu para nós, um
filho nos foi dado… e será chamado Príncipe da paz» (1ª
Leitura:
Is 9,1-6), pois os anjos cantam na campina, quando do nascimento de
Jesus: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens
por Ele amados» (Evangelho:
Lc 2,1-14).
Se foi mesmo a 25 de
Dezembro (pouco provável!), ou mais na Primavera, pouco interessa.
Se fosse importante, Lucas tê-lo-ia dito. Mas há outras duas coisas
importantes, no texto de Lucas: o lugar dado a
Maria
(já sublinhado na
Imaculada Conceição e no IV Domingo), mulher simples de uma cidade
insignificante, e aos
pastores.
Ao escrever para os gentios, Lucas não quis que eles se sentissem
excluídos da salvação trazida por Jesus; por isso privilegiou os
pastores, tidos por desprezíveis e malditos pelas elites sociais e
religiosas da época por viverem à margem da sociedade e não frequentarem
a sinagoga para estudar a Lei ou celebrar o Sábado. Um estímulo ou uma
lição para
nós, hoje:
se desesperamos da salvação, ou se presumimos ter a salvação já
garantida.
Permita-me esta
sugestão:
após reflectir antecipadamente os textos de hoje, faça em sua casa (ou
na varanda ou alpendre com vista para a rua) um
PRESÉPIO
com os elementos e personagens neles referidos. E não dê ao pai-natal o
lugar que lhe é dado pelo comércio. Natal é o Nascimento de Jesus,
Salvador de todos os povos. Sem Ele no centro das celebrações, o dia
pode não passar de um Carnaval antecipado e de mau gosto.
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A Festa da
SAGRADA FAMÍLIA
(31 de
Dezembro) já nos mostra Jesus, com doze anos, a subir ao templo com
os pais pela festa da Páscoa (Evangelho:
Lc 2,41-52). Aos 12 anos, em Israel um adolescente era declarado
“bar-mitsvá” (=filho da Lei) e considerado adulto na Lei, podendo
proclamá-la e comentá-la na sinagoga.
Foi o que Jesus fez,
dialogando de igual para igual com os doutores. O texto revela mais do
que um jovem superdotado a desafiar os seus mestres com perguntas
difíceis; Jesus tinha feito uma opção de vida: «Não sabíeis que Eu
devo estar na casa de meu Pai?» É natural que os pais não
entendessem. Mas respeitaram-no. Retribuindo, «Jesus desceu com eles
para Nazaré e era-lhes submisso».
Quantos pais, como os
de Jesus, ajudam os filhos a atingir um conhecimento sólido da fé e a
maturidade suficiente para poderem testemunhá-la na sociedade actual?
Iniciam-nos e acompanham-nos na prática religiosa? Preocupam-se com os
seus (des)caminhos? Depois de os chamarem à responsabilidade, respeitam
as suas opções fundamentais de vida – mesmo pelo sacerdócio e pela
consagração religiosa?
»»
Para a Solenidade de
SANTA MARIA MÃE DE DEUS,
a
1 de Janeiro de 2007,
Dia da Paz, Bento XVI escolheu o lema:
“A Pessoa humana é o
coração da Paz.”
Procure ler a sua Mensagem
(clique aqui).
O
Evangelho
retoma a narrativa da noite de Natal (2,16-21), onde os pastores se
agigantam: «dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram
Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. Quando O viram, começaram
a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino» e
«regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham
ouvido e visto».
Afinal, “aqueles
marginais” eram gente de sensibilidade apurada – tal como os gentios,
destinatários de Lucas, que tinham chegado ao Messias pela via do
Espírito e não pelo conhecimento da Lei mosaica.
»»
Na Solenidade da
EPIFANIA DO SENHOR
(7 de
Janeiro), um texto de
Mateus
confirma uma das características da teologia de Lucas: a universalidade
da salvação. É o coroamento da Festa e do Tempo do Natal, como o
Pentecostes o é relativamente à Páscoa. E, em ambos os casos, as
testemunhas e beneficiários ultrapassam as fronteiras do “povo eleito”
de Israel. Neste caso, são «uns Magos vindos do Oriente» (Mt
2,1-12).
O
Evangelho de Lucas lido no Tempo Comum
»»
Este ano, o
BAPTISMO DO SENHOR
é celebrado
no dia seguinte à Epifania (8 de Janeiro). No seu
Evangelho,
Lucas fala da prisão de João antes do baptismo de Jesus. Por isso,
merece especial atenção o final do texto de Lc 3, 21-22, hoje
proclamado:
«Quando todo o povo
recebeu o baptismo, Jesus foi também baptizado; e, enquanto orava, o Céu
abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma
pomba. E do Céu fez-se ouvir uma voz: “Tu és o meu Filho muito amado: em
ti pus toda a minha complacência”.»
Quando
Lucas escreveu, na Igreja
primitiva existia um certo embaraço: o grupo dos chamados “joânicos”
considerava João Baptista superior a Jesus, uma vez que Jesus tinha sido
baptizado por ele. Lucas não podia eliminar o facto histórico do
baptismo de Jesus. Mas, reconhecendo que «o povo estava na
expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o
Messias», “elimina” João, insinuando que não foi ele quem O
baptizou. Além disso, desvia a atenção da cena do baptismo, centrando o
leitor na figura de Jesus em oração.
»»
O II DOMINGO
COMUM
do ano C (14 de
Janeiro) propõe o
Evangelho
das bodas de Caná, exclusivo de S. João (2,1-11). Com isto, pretende-se
actualizar, no tempo da Igreja, as núpcias que Deus tinha celebrado com
o seu povo no
Antigo Testamento:
«Não mais te chamarão “Abandonada”, nem à tua terra “Deserta”, mas
hão-de chamar-te “Predilecta” e à tua terra “Desposada”, porque serás a
predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. Tal como o Jovem
desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a
alegria do seu marido, tu serás a alegria do teu Deus.» (1ª
Leitura:
Is 62,1-5).
Na
Nova Aliança,
o noivo é Jesus; e Maria, ao dar-lhe um corpo, é medianeira na sua boda
com a humanidade. Uns 60 anos depois da ressurreição de Jesus, as talhas
da Antiga Lei precisam de receber o seu vinho novo de amor gratuito e de
alegria, para dessedentar os novos convidados.
»»
A “leitura contínua” do
Evangelho de Lucas,
se assim podemos dizer, começa neste
III DOMINGO COMUM
(21 de
Janeiro), com dois inícios: o Prólogo do autor (1,1-4) e o discurso
inaugural do ministério de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21). Dois
exclusivos deste Evangelho, distantes um do outro e de contextos
diferentes, no texto original, mas ligados num mesmo texto pela
Liturgia.
::
No PRÓLOGO,
Lucas explica a Teófilo (=“amigo de Deus”? um nome próprio?) as etapas
de construção do seu livro:
● os factos
históricos relativos a Jesus,
● a sua
transmissão oral pelos que «foram testemunhas
oculares e
ministros da palavra»,
● e a fixação
por escrito feita pelo evangelista, «depois
de ter
investigado tudo cuidadosamente desde as origens»…
E concretiza o seu
objectivo ou finalidade: «para que tenhas conhecimento seguro do que
te foi ensinado.» Uma chamada àquele leitor e a nós, para que no
Evangelho continuemos a procurar os fundamentos da nossa fé.
::
No
DISCURSO INAUGURAL
Jesus
proclama, após ler Isaías 61,1-2 e 42,7: «Cumpriu-se hoje mesmo esta
passagem da Escritura que acabais de ouvir.» Há uma presença forte
do Espírito, nestes passos de Jesus: desceu sobre Ele no baptismo,
conduziu-o ao deserto (4,1) e impeliu-o a voltar para a Galileia (4,14);
agora, «Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito» e
declara: «O Espírito do Senhor está sobre mim.»
É mais uma
característica de
Lucas e deve
ser uma convicção de qualquer um que se dispõe a anunciar a Boa-Nova:
«Pode-se dizer que o
Espírito Santo
é o agente principal da Evangelização. É Ele, efectivamente, que impele
para anunciar o Evangelho, como é Ele que no mais íntimo das
consciências leva a aceitar a Palavra da salvação» (Paulo VI,
Evangelii Nuntiandi, 1975, nº 75).
»»
O texto do Evangelho deste
IV DOMINGO COMUM
(28 de
Janeiro)
retoma a
declaração de Jesus na sinagoga de Nazaré, no final do Evangelho de
Domingo passado, para seguir com a reacção dos seus ouvintes. E estes
começaram com um testemunho favorável de admiração pelas «palavras
cheias de graça que saíam da sua boca», mas logo se enredaram em
razões humanas: «Não é este o filho do carpinteiro?»
Quando condicionamos a
verdade da mensagem pelo nível social do mensageiro, o Espírito Santo é
expulso do nosso espírito, e a semente da Palavra resvala pela nossa
cabeça dura sem chegar ao coração (ver Mt 13,20-21). Assim foi com eles:
levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e conduziram-no até ao alto de
uma colina para o deitarem dali abaixo. «Mas Jesus, passando pelo
meio deles, seguiu o seu caminho.» Não sem lhes dizer, antes, que
«nenhum profeta é bem recebido na sua terra»; e lhes recordar que,
por isso mesmo, já os profetas Elias e Eliseu tinham favorecido pessoas
gentias, por não serem acolhidos pelo seu povo (Evangelho:
Lc 4,21-30).
A história repetia-se. E repete-se connosco, hoje, nas oportunidades
perdidas para escutarmos o Evangelho e nos convertermos a Deus na pessoa
do seu Profeta-Jesus.
Frei Lopes Morgado