Com S. Lucas na escola do Evangelho
Circula na Internet um
belo pp com o
“Decálogo para Férias” de D. Xavier Salinas, bispo de Tortosa.
O 3º
ponto diz: «Vive o Domingo. Nas férias,
ele
continua a ser o Dia do Senhor. Deus não vai de férias.
Tens
mais tempo livre, participa na Eucaristia dominical.»
Este
apontamento visa ajudar os cristãos na preparação
do
Domingo, iniciando nas Leituras da Palavra de Deus.
E a
Bíblia, nestes domingos, também parece apostada
em não nos dar férias
de Deus.
«A garantia dos bens que se
esperam»
::
Logo no dia
5 de Agosto,
XVIII DOMINGO COMUM,
o Coelet coloca-nos impiedosamente perante a vacuidade
(mais do que vaidade!) da vida do ser humano. Mesmo «quem
trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que
nada fez… Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a
ânsia com que se afadigou debaixo do sol?» (1ª Leitura: Ecl
1,2;2,21-23). A resposta vem no ponto 10º do tal “Decálogo para Férias”,
de D. Xavier: «Vive a Solidariedade. Não queiras tudo para ti. Pensa
naqueles que não têm férias, porque nem sequer têm o pão de cada dia. A
caridade também não tem férias!» E, se “quem dá aos pobres empresta a
Deus”, a retribuição será bem maior do que deixar tudo a certos
herdeiros…
Então, é “sábio”
desapegarmo-nos dos bens terrenos, como diz Paulo: «Se
ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está
sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da
terra» (2ª Leitura: Cl 3,1-5.9-11). Nem de propósito, no dia
seguinte (6
de Agosto)
a Igreja celebra a
Transfiguração do Senhor
(ver Lc 9,28b-36)…
E Jesus apoia
essa atitude, quando, em resposta a quem o quer meter nas disputas entre
herdeiros, apresenta a parábola do homem que pensava ter o futuro
assegurado ao encher o celeiro com as colheitas do ano. Concluindo:
«Insensato! Esta mesma noite terás de entregar a tua alma. O que
preparaste, para quem será?» (Evangelho: Lc 12,13-21).
A mensagem é confirmada
pelo Refrão do Aleluia: «Bem-aventurados os pobres em
espírito, porque deles é o reino dos Céus.» (Mt 5,3). Daí no
pedirmos ao Senhor: «Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos
à sabedoria do coração» (Salmo 90,3-6.12-14.17).
::
A
12 de Agosto,
XIX DOMINGO COMUM,
o Livro da Sabedoria recorda a noite da libertação do povo de
Deus no Egipto, para solidificar a fé dos crentes de então – e a nossa –
na dos antepassados (1ª Leitura: Sb 18,6-9). Levando-nos a
proclamar, com o Salmista: «Feliz o povo que o Senhor escolheu
para sua herança» (Salmo 32,1.12-22). E a celebrar o “itinerário
de fé” da Virgem Maria, no
dia 15,
Festa da sua
Assunção ao Céu.
Por sua vez, a Carta aos
Hebreus, no célebre capítulo 11 em que faz uma leitura crente da
História bíblica através dos seus personagens, diz: «A fé é a garantia
dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se vêem» (2ª
Leitura: Heb 11,1-2.8-19). Quase a sublinhar a parábola de Jesus, no
Domingo passado.
E Jesus não se
faz rogado, voltando ao mesmo: «Não temais, pequenino rebanho, porque
aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino. Vendei o que possuís e dai-o em
esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos
Céus, onde o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque onde estiver o
vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.» E conta mais duas
parábolas, comuns a Lucas e Mateus: a dos servos à espera que o seu
senhor volte da boda, e a do administrador infiel (Evangelho: Lc
12,32-48).
«Corre com perseverança
para o combate»
::
Como que apresentando a
outra face da moeda, as Leituras do
XX DOMINGO COMUM,
a 19
de Agosto,
falam-nos da sorte dos que decidem ser fiéis ao Senhor. Porque o tesouro
que lhes é prometido está no Céu, não esperam aqui ter grande
compreensão das pessoas. Um exemplo: Jeremias exorta a dialogar
com os inimigos que ameaçavam invadir o país; os aduladores do rei,
pedem a Ezequias: «Esse Jeremias deve morrer, porque semeia o desânimo
entre os combatentes… Esse homem não procura o bem do povo, mas a sua
perdição» (1ª Leitura: Jr 38,4-6.8-10). Calam o profeta, e
o país é ocupado.
Também Jesus,
sabendo-se um «sinal de contradição» entre o seu povo (Lc 2,34), que o
havia de condenar à morte, previne que até o seu Evangelho, construtor
de paz e misericórdia, pode trazer a divisão entre os membros de uma
família, se uns decidem comprometer-se com ele, e outros não (Evangelho:
Lc 12,49-53).
Daí a Carta aos
Hebreus convidar a pôr «de parte todo o fardo do pecado que nos
cerca» e a correr «com perseverança para o combate que se apresenta
diante de nós, fixando os olhos em Jesus, guia da nossa fé e autor da
sua perfeição» (2ª Leitura: Heb 12,1-4). Para sermos fiéis,
rezamos com o Salmista: «Senhor, socorrei-me sem demora» (Salmo 40,2-4.18).
::
A reflexão do Domingo
passado leva-nos a perguntar, com alguém, neste
XXI DOMINGO COMUM
(26
de Agosto):
«Senhor, são poucos os que se salvam?»
Jesus responde falando
da universalidade e gratuidade da salvação: está aberta a todos e não é
mérito pessoal nosso. Temos de corresponder ao amor de Deus,
esforçando-nos «por entrar pela porta estreita», pois Ele não “reserva”
lugares no seu Reino nem para aqueles que foram seus comensais ou
ouvintes. Se praticarmos a iniquidade, «quando o dono da casa se
levantar e fechar a porta» ficaremos de fora e não adianta mais bater:
Ele não vai «conhecer-nos» como seus. «Aí haverá choro e ranger de
dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os
Profetas, e vós serdes lançados fora. Hão-de vir do Oriente e do
Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há
últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos» (Evangelho:
Lc 13,22-30).
Diz, muito a propósito,
a Carta aos Hebreus: «Meu filho, não desprezes o correcção do
Senhor, nem desanimes quando Ele te repreende; porque o Senhor corrige
aquele que ama e castiga aquele que reconhece como filho» (2ª
Leitura: Heb 12,5-7.11-13). Ser cristão, não é um negócio com
direito a desconto, mas uma exigência livre de quem ama. Para o crente,
o “castigo” de Deus é um desafio a mais amor e fidelidade.
«Quanto mais importante,
mais humilde»
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Face à gratuidade da
salvação, que vimos no Domingo passado, a única atitude “sábia” é a
humildade. Daí o conselho de Ben Sira, neste
XXII DOMINGO COMUM,
a 2
de Setembro:
«Filho, em todas as tuas obras procede com humildade… Quanto mais
importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do
Senhor» (1ª Leitura: Sir 3,19-21. 30-31). O Salmista
confirma: «Na vossa bondade, Senhor, preparastes uma mesa para o
pobre» (Salmo 68,4-7.10-11). E Jesus vem apoiá-lo com a
parábola dos convidados à boda: quem se senta no primeiro lugar,
sujeita-se a ser enviado para o último; quem se senta no último é
convidado a ir mais para cima. «Quem se exalta será humilhado, quem se
humilha será exaltado» (Evangelho: Lc 14,1.7-14). A Liturgia
apresenta-nos o exemplo do próprio Jesus, no Refrão do Aleluia:
«Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde
de coração» (Mt 11,29).
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Quem aspira pela
santidade, não pode tirar os pés do chão. Neste
XXIII DOMINGO COMUM,
a 9
de Setembro,
Jesus interpela-nos com duas parábolas paralelas, exclusivas de Lucas: a
do homem que se pôs a construir uma casa sem calcular a despesa, e por
isso não pôde concluí-la, e a do rei que partiu para a guerra contra
outro rei sem saber se tinha soldados para vencê-lo. A lição de ambas é
a mesma: Sede realistas! Sentai-vos, primeiro, a ver se tendes forças
para serdes meus discípulos, isto é, para pegar na minha cruz e me
seguir.
Se pensarmos nisso, logo
rezaremos como Salomão: «Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos
desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso
santo espírito?» (1ª Leitura: Sb 913-19). E com o Salmista:
«Ensinai-nos a contar os nossos dias para chegarmos à sabedoria do
coração» (Salmo 90,3-6.12-14.17). Mais uma vez, a “sabedoria do
coração”!
As uvas estão verdes, ou a
ramada é alta?
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É uma fábula antiga:
quando viu que não chegava à altura da ramada, a raposa disse que as
uvas eram verdes… A lição deste
XXIV DOMINGO COMUM,
a 16
de Setembro,
pode ser: muitos, não querendo ou não podendo viver as exigências do
amor cristão, criticam as normas da Igreja ou dizem que Deus não é bom
porque a vida lhes corre mal. E trocam de “religião” ou escolhem
qualquer “ídolo” do seu tamanho que lhes faça a vontade.
Aconteceu com o povo de
Israel conduzido por Moisés no deserto: trocou o Deus que o libertara do
Egipto, por um bezerro fundido com o ouro que lá tinha roubado. Para
satisfazer a nossa vontade, sujeitamo-nos a todos os sacrifícios e ao
ridículo (1ª Leitura: Ex 32,7-11.13-14). Aconteceu com o filho
mais novo da parábola do pai misericordioso: farto das exigências do pai
e do irmão mais velho, pediu a herança antecipada, desbaratou-a e acabou
a guardar porcos. Aconteceu com «os fariseus e os escribas», e
acontecerá connosco, se continuarmos a julgar «os publicanos e os
pecadores» em vez de os procurarmos como o pastor a sua ovelha ou a
mulher a sua moeda perdida, e acolhermos como o pai ao seu filho (Evangelho:
Lc 15,1-32).
Como Paulo,
podemos dizer: «Dou graças Àquele que me deu força, Jesus Cristo, Nosso
Senhor, que me julgou digno de confiança e me chamou ao seu serviço, a
mim que tinha sido blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei
misericórdia» (2ª Leitura: 1 Tm 1,12-17). Mais a vez, pura
gratuidade de Deus, a desafiar a nossa conversão! Como o filho
desvairado: «Vou partir e vou ter com meu pai»; como David:
«Compadecei-vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade; pela vossa grande
misericórdia, apagai o meu pecado (Salmo 51,3-4.12-13.17.19)
O amor ao próximo, teste do
amor a Deus
::
Os últimos Domingos de
mês apontam para os mais pobres, como que a perguntar-nos pelas
consequências práticas da fé que celebramos na igreja. O
XXV DOMINGO COMUM,
a 23
de Setembro,
vai na linha da justiça. O profeta Amós
adverte sem ambiguidade: «Escutai bem, vós que espezinhais o
pobre e quereis eliminar os humildes da terra… o Senhor jurou pela
glória de Jacob: “Nunca esquecerei nenhuma das suas obras”» (1ª
Leitura: Am 8,4-7). E o Salmista garante que o Senhor
«levanta os fracos» e «tira o pobre da miséria» (Salmo 113,1-8).
No Evangelho,
Lucas conta a parábola exclusiva do administrador sagaz, para
concluir: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lc 16,1-13). E o
Refrão do Aleluia propõe-nos o exemplo de Cristo:
«Jesus, sendo rico, fez-se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza»
(2 Cor 8,9).
::
Por sua vez, o
XXVI DOMINGO COMUM,
a 30
de Setembro,
interpela a nossa indiferença face às carências dos excluídos e aos
problemas do país. Diz Amós: «Ai daqueles que vivem comodamente
em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria… Bebem o
vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os
aflige a ruína de José» (1ª Leitura: Am 6,1.4-7). Tanto na
capital, como na “província”...
E Lucas, na
parábola exclusiva do rico e de Lázaro: «Havia um homem rico que se
vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os
dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de
chagas.» Só os cães tinham compaixão dele e vinham lamber-lhe as chagas!
Mas, do outro lado da vida, as sortes inverteram-se. Porque a salvação,
embora não se confine a este mundo, é neste que se ganha ou perde (Evangelho:
Lc 16,19-31). Por isso, Paulo exorta: «Tu, homem de Deus, pratica
a justiça e a piedade» (2 Leitura: 1 Tm 6,11-16).
O Salmista
garante, de novo, que «o Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos
que têm fome e a liberdade aos oprimidos, levanta os abatidos, protege
os peregrinos, ampara o órfão e a viúva» (Salmo 146,7-10). E o
Refrão do Aleluia repete a lição do Domingo passado, evocando o
exemplo de Cristo. Só falta que nós o imitemos: a causa da fome no mundo
não é a carência de bens, mas o açambarcamento por alguns ou a sua
destruição para manter os preços!
Recordo a frase de
S.
Jerónimo,
cuja festa normalmente é celebrada neste dia: “Desconhecer as Escrituras
é desconhecer a Cristo” – e, por isso, não saber o Caminho, a Verdade e
a Vida da nossa vida. É imprescindível reflectirmos sobre a Palavra de
Deus, cada semana.
Conclusão: dois amores,
duas comunhões
Ao jeito do Catecismo, o
bispo de Tortosa conclui o seu “Decálogo para Férias”: «Estes dez
pontos resumem-se em dois: Nas férias continua a lembrar-te de Deus e do
próximo. A vida é o presente que Deus te oferece. O modo como vives a
vida é o presente que tu ofereces a Deus.»
Que a boa celebração do
Domingo, participando na dupla comunhão da Palavra e do Corpo do Senhor,
nos mantenha fiéis no amor a Deus e ao próximo.
Frei Lopes Morgado