Com S. Lucas na escola do Evangelho
O mês de Abril abre as portas à Semana Santa,
com o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.
O
mês de Maio fecha o Tempo Pascal com o Domingo
do Pentecostes. Ou seja: uma vez concluído, na Quaresma,
o
“itinerário para a luz pascal, seguindo os passos de Cristo, mestre e
exemplo da humanidade” (V Prefácio da Quaresma), nestes meses vivemos
“na plenitude da alegria pascal”
(Prefácios da Páscoa)
Neste período central
do ano litúrgico, S. Lucas vai surpreender-nos, mais uma vez, com textos
originais e exclusivos dos seus dois livros: o Evangelho e os
Actos dos Apóstolos. Por isso fazemos bem em manter-nos na sua
Escola, para uma actualização das razões da nossa fé ao ritmo da Bíblia,
da Liturgia e da vida.
No Domingo da Paixão e
no Dia de Páscoa, os textos do Evangelho são de S. Lucas; depois, como
todos os anos, são do Evangelho segundo S. João.
A Paixão de Cristo,
segundo S. Lucas
::
No dia 1 de Abril celebramos o
DOMINGO DE RAMOS NA
PAIXÃO DO SENHOR,
no qual se lê
rotativamente, cada três anos, o relato da Paixão de Cristo segundo um
dos três evangelistas sinópticos: Mateus, Marcos e Lucas. O de S. João é
lido na Sexta-Feira Santa. Porém, antes da Missa, quando há procissão de
ramos, ouve-se o relato deste acontecimento segundo o evangelista do
ano.
Este ano proclamam-se
os textos de São Lucas:
19, 28-40 (Procissão
de Ramos).
22,14 a 23,56 (Paixão
de Cristo).
O da Paixão tem vários
exclusivos e algumas omissões relativamente aos de Mateus e Marcos.
Interessa conhecê-los, pois neles vai muito da intenção
catequético-pedagógica do evangelista. Encontram-se no meu livro
LUCAS – e Paz na Terra! (Difusora Bíblica, 1988), página 114:
O que
só é
contado por S. Lucas:
●
O discurso da despedida
de Jesus, após a ceia: 22,24-38.
●
Durante a agonia no
Jardim das Oliveiras, Jesus sua sangue e é confortado por um anjo:
22,43-44.
●
Ao ser preso, Jesus
cura a orelha de um servo do sumo-sacerdote, cortada por um discípulo (Mt,
Mc e Lc omitem os nomes de Malco e de Pedro, respectivamente, referidos
apenas em Jo 18,10): 22,51b.
●
Jesus olha para Pedro,
após as negações: 22,61.
●
Pilatos declara três
vezes a inocência de Jesus: 23,4-5.13-16.22.
●
Comparência de Jesus
perante Herodes: 23,6-12.
●
Diálogo de Jesus com as
mulheres de Jerusalém: 23,27-32.
●
As três palavras de
Jesus, na cruz:
- Perdoa-lhes, Pai,
porque não sabem o que fazem: 23,34a.
- Em verdade te
digo. Hoje mesmo estarás comigo no paraíso: 23,43 + os
vv. 40-42.
- Pai, nas tuas mãos
entrego o meu espírito: 23,46b.
●
O arrependimento da
multidão: 23,48.
●
A preparação dos aromas
pelas mulheres: 23,56.
O que S. Lucas
não conta:
●
A unção em Betânia (Mc
14,3-9).
●
O anúncio do escândalo
e da dispersão dos discípulos (Mc 14,27-28).
●
A palavra sobre a
destruição do Templo mencionada perante o Sinédrio (Mc 14,55-59).
●
Uma segunda pergunta de
Pilatos e o silêncio de Jesus (Mc 15,4-5).
●
Os ultrajes de
Jesus-Rei, pelos Romanos (Mc 15,29-30).
●
As zombarias acerca do
tema da destruição do Templo (Mc 15,29-30).
●
A palavra Meu Deus,
meu Deus, porque me abandonaste? (Mc 15, 34-35).
●
A autorização explícita
de Pilatos, de entregar o corpo de Jesus (Mc 15,44-45).
Alguns
pormenores significativos, de Lc:
●
… encontrando-os a
dormir, devido à tristeza:
22,45. Marcos, diz: Encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam
pesados (14,40).
●
… carregaram-no com a
cruz em cima
[a “um certo Simão de Cirene”], para a levar atrás de Jesus:
23,26. Marcos, diz: Para lhe levar a cruz, requisitaram um homem que
passava… (15,21).
●
“Verdadeiramente, este
homem era justo!”:
23,47. Marcos, diz: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!”
(15,39).
Ou seja: até nos
momentos de maior sofrimento, ou de incompreensão, negação e fuga dos
seus, o Jesus da Paixão segundo S. Lucas revela uma especial
misericórdia e serenidade, que transparece no resto do Evangelho: com o
servo do sumo-sacerdote, com Pedro, com as mulheres, com um dos
malfeitores, com aqueles que o condenaram…
Disto, o centurião
romano concluiu que Jesus era “justo”; e, segundo Marcos, que era “Filho
de Deus”. Ainda hoje, responder ao ódio mortal com amor, é sinal de uma
força que ultrapassa a mera capacidade humana. Um sinal que o mundo tem
direito a esperar dos cristãos, que livremente aceitaram carregar a sua
cruz atrás de Jesus.
A Páscoa de Cristo,
segundo S. Lucas
Lucas fala da Páscoa de
Cristo no capítulo 24, o último do seu Evangelho, repartido entre a
Vigília Pascal, o Dia de Páscoa (8 de Abril) e o Domingo de
Pentecostes (27 de Maio).
::
Na celebração da
VIGÍLIA PASCAL
são proclamados os vv. 1-12, que têm o centro neste anúncio de Cristo
ressuscitado. «Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo?
Não está aqui: ressuscitou!» Tal anúncio é feito às «mulheres que
tinham ido com Jesus da Galileia foram ao sepulcro, levando os perfumes
que tinham preparado» para embalsamar Jesus, «e, ao entrarem, não
acharam o corpo do Senhor Jesus».
Há no texto de Lucas
vários pormenores interessantes, relativamente aos Sinóptico e a João:
●
Os anunciadores são
«dois homens»; em Mateus, «um anjo» (28,5); em Marcos, «um
jovem» (16,5). Em João são «dois anjos vestidos de branco»,
mas só aparecem quando Madalena regressa sozinha ao sepulcro e apenas
lhe perguntam porque chora (20,11-13); o próprio Jesus é quem lhe diz
que ressuscitou e ainda não voltou para o Pai (20,14-17).
●
O anúncio da
Ressurreição é feito a uma comunidade de mulheres, como em Mt e Lc, e
não apenas a Maria Madalena, como em João. Mas em Lc trata-se do grupo
fiel e solidário das mulheres-discípulas que tinha subido com Jesus e os
outros discípulos desde a Galileia até Jerusalém (Lc 8,2-3).
●
Esta comunidade de
discípulas crentes – e não apenas Madalena, como em João – é que vai
«contar tudo isto aos Onze, bem como a todos os outros», os quais o
entenderam como «um desvario, e não acreditaram nelas». Só Pedro
(não «com o outro discípulo, o que Jesus amava», de que fala Jo
20,2) «correu ao sepulcro, debruçou-se, viu as ligaduras e voltou
para casa admirado com o que tinha sucedido»
::
Na Missa
vespertina do
DIA DE PÁSCOA
(8 de Abril) são proclamados, facultativamente, os vv. 13-35.
Neles encontramos o tão conhecido episódio dos discípulos de Emaús, a
quem o próprio Ressuscitado se apresenta na aparência física de um
peregrino a caminho de algures.
Não podemos dizer que
este testemunho da ressurreição de Jesus seja exclusivo de Lucas, como
se ouve com frequência; pois Marcos refere-o, embora apenas em dois
versículos, e para dizer que os Onze «também não acreditaram neles»
(Mc 16,12-23). Mas Lucas é quem o desenvolve com a mestria habitual,
apresentando nele – e como que numa nova parábola em crescendo emocional
comparável à do pai misericordioso (15,11-32) – a relação mútua entre
vida, Ressurreição e Eucaristia.
O texto parte da
experiência que os cristãos da comunidade de Lucas, ao tempo de ele
escrever o Evangelho, já tinham da presença de Jesus na sua vida e
sobretudo na Eucaristia, quando ouviam a Palavra e partiam o Pão (Act 2,
42.46-47; 4,32-33). Experimentando a tentação da fuga e do desânimo,
como vimos no relato da Paixão de Jesus, os discípulos e apóstolos
conseguiam superá-las evocando a palavra do Mestre, a sua aliança e a
garantia de que estaria com eles até ao fim (Mt 28,20).
A
nossa vida pascal, segundo S. Lucas
Eis, também, a certeza
que dá força – a eles e a nós – para enfrentar a oposição dos poderes
políticos, o sofrimento e o martírio, e para testemunhar com alegria a
ressurreição do Senhor.
::
Disto falam os
Actos ou Feitos dos Apóstolos. São considerados como que
um 2º volume da obra de Lucas, pois neles vemos actuar nos Apóstolos o
Espírito Santo que Jesus ressuscitado prometera enviar-lhes, no momento
da sua
ASCENSÃO (28
de Maio: Act 1,1-11). E é tudo isto que vamos ouvir, na 1 Leitura
dos 7 Domingos da Páscoa, ainda antes de celebrarmos a vinda desse mesmo
Espírito no
DOMINGO DE PENTECOSTES
(27 de Maio),
em que termina o Tempo da Páscoa.
Precisamente no dia da
Ascensão do Senhor, é proclamada a última parte do capítulo 24 de Lucas:
os vv. 46-53. Neles, Jesus institui os discípulos como testemunhas da
sua Ressurreição, depois de terem testemunhado a sua Paixão; promete
enviar-lhes o Espírito Santo (cuja acção já vimos no Tempo da Páscoa);
abençoa-os e afasta-se deles, sendo elevado ao Céu.
E ao iniciar-se o
Tempo da
Igreja, o
texto conclui com uma síntese que é roteiro e proposta para a nossa vida
pascal:
●
«Eles prostraram-se diante de Jesus (comunidade
de fé),
●
e depois voltaram para
Jerusalém com grande alegria
(alegre).
●
E estavam continuamente
no templo, bendizendo a Deus»
(orante)…
●
até que, de Jerusalém,
partiram sob a acção do Espírito «até aos confins do mundo» (Act
1,8:
apostólica).
Frei Lopes Morgado