“Deus libertou-O
dos grilhões da morte!”
Várias vezes dei comigo a
perguntar qual o motivo que terá
levado a Igreja a propor,
em todo o Tempo da Quaresma,
este Responsório breve na
Hora de Laudes:
“O Senhor
me livrará do laço do caçador.
A sua
fidelidade é escudo e couraça.”
Mas não é tudo. Ao domingo,
tal Responsório é substituído por este:
Cristo, Filho de Deus vivo,
tende
compaixão de nós.
Vós,
que sofrestes o castigo das nossas culpas,
tende
compaixão de nós.
Porquê? Antes de tentar a
resposta, recordo que o mesmo acontece na Hora de
Vésperas:
à semana, o Responsório é sempre este, na primeira pessoa do singular e
aparentemente egoísta, porque preocupado apenas com a minha salvação
individual:
Tende
compaixão de mim, Senhor.
Salvai-me porque pequei contra Vós.
E ao domingo é substituído
por outro, na primeira pessoa do plural e com expressão mais
comunitária:
Tende
compaixão de nós, Senhor,
porque somos pecadores.
Cristo, ouvi as súplicas dos que Vos imploram.
O Salmo 91
O Responsório semanal das
Laudes é seleccionado dos versículos 1 e 2 do Salmo 91. Por isso, é
conveniente abrir a Bíblia para conhecer o género literário desse salmo
e ler todo o texto, a fim de entendermos o seu espírito e percebermos a
razão da sua escolha para a Liturgia das Horas na Quaresma.
A Bíblia Sagrada
editada em 1998 pela Difusora Bíblica faz esta apresentação do salmo:
«Salmo sapiencial.
Meditação sobre as bases e as consequências da confiança em Deus. Viver
sob a sua protecção ins-pira total segurança. O tema é tratado de forma
simples:
::
uma apresentação do mesmo em terceira pessoa (1-2),
::
o desenvolvimento em 2ª pessoa (3-13) e
::
o oráculo final de Deus endereçado em 3ª pessoa (14-16).
Várias expressões parecem
situar a cena dentro do santuário.»
Transcrevo os vv. 1-4, para
se ver a tal apresentação e o início do
desenvolvimento, destacando na cor os versos seleccionados para
o Responsório:
1
Aquele que
habita sob a protecção do Altíssimo
e mora à
sombra do Omnipotente,
2
pode
exclamar: “Senhor, Tu és o meu refúgio,
a minha
cidadela, o meu Deus, em quem confio!”
3
Ele
há-de livrar-te da armadilha do caçador
e do flagelo do maligno.
4
Ele te
cobrirá com as suas penas;
debaixo das suas asas encontrarás refúgio;
a sua
fidelidade é escudo e couraça.
“Deus libertou-o dos grilhões da morte”
Respondo, agora, às
questões postas acima.
Por um lado, o salmo
aplica-se ao cristão que vive a Quaresma numa proximidade espiritual
maior com Deus (sob a sua protecção e à sua sombra: v.1),
quase como os filhotes de uma ave sob as penas ou debaixo das
asas da mãe (v.4). E o cristão, sabendo que Deus nos salvou em Jesus
Cristo, “o Senhor”, reza: Tende
compaixão de mim, Senhor. Salvai-me, porque pequei contra Vós.
Por outro lado, a vida dos
semitas estava marcada pelos riscos do deserto e sujeita às leis
indomáveis e desconhecidas da natureza. Ora, sendo este salmo uma
reflexão a partir da experiência dessa vida, são normais as referências
do salmista ao terror da noite e à seta voadora (v.5), à peste e ao
flagelo (v.6), à própria morte (v.7). Para concluir:
9
Pois
disseste: “O Senhor é o meu único refúgio!”
Fizeste
do Altíssimo o teu auxílio.
10
Por isso,
nenhum mal te acontecerá,
nenhuma
epidemia chegará à tua tenda.
Quem vive numa tenda é
nómada; acampa em zonas de caça, exposto a cair em armadilhas
semelhantes às que ele próprio arma à sua presa. Transposto isto para a
linguagem cristã, aqueles riscos poderiam traduzir-se por “tentação”,
“dificuldades espirituais”, “pecado”; e o “caçador”, por “diabo”. E
vemos, finalmente, que aquela metáfora da caça, embora estranha, tem a
vantagem de ser clara e universal, e até mais aplicável à vida pessoal
de cada um, do que as suas traduções na linguagem cristã.
Depois,, ao chegar o
domingo, as experiências e dramas individuais são celebrados em
comunidade. Mas esta, mesmo na Quaresma, já é uma realidade pascal do
Novo Testamento, que se congrega em nome de
Cristo, Filho de Deus vivo, que sofreu o castigo das nossas culpas.
Por isso, tanto nos Responsórios de Laudes e de Vésperas, como
no Rito Penitencial da Eucaristia, pedimos àquele Senhor,
que nos livrou do laço do caçador, que tenha
compaixão de nós, porque somos pecadores.
E, apoiados no seu
escudo e couraça da sua fidelidade, temos a coragem de
recomeçar.
O texto de Actos 2,21-36
O entendimento perfeito e
cristão do Responsório de Laudes, e a justificação completa da sua
persistente repetição ao longo da Quaresma encontra-se no discurso de
Pedro no dia de Pentecostes no Livro dos Actos, de que se lê uma parte
na 1ª Leitura do próprio dia de Páscoa.
Falando da ressurreição de Jesus, utiliza uma linguagem simbólica
próxima do Salmo 91:
«Deus
ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte, pois não era possível
que ficasse sob o domínio da morte.
[…] Tendo sido elevado pelo poder de Deus, recebeu do Pai o Espírito
Santo prometido e derramou-o como vedes e ouvis. […] Saiba toda a
casa de Israel, com absoluta certeza, que Deus estabeleceu como Senhor e
Messias a esse Jesus por vós crucificado.»
(Act 2,24.32.36)
E partimos
para um tempo novo, um Oitavo Dia – que, na simbólica do 8 posto
na horizontal, diz infinidade – bem explícito no canto do grande Hallel
cantado ao longo de cinquenta dias como se de um dia, apenas, se
tratasse:
“Este
é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria!”
(Sl 118)
Isto é:
também a nós, pela morte e ressurreição de seu Filho Jesus, sob a acção
do Espírito Santo, Deus-Pai libertou-nos dos grilhões do pecado e da
morte.
frei Lopes Morgado