Muitos católicos acreditaram durante séculos
que a Virgem Maria não tinha morrido como as outras
criaturas.
Que ao chegar a hora da sua partida deste mundo
ficou adormecida, como num sonho profundo,
e assim foi levada por Deus em corpo e alma ao céu.
E que, por isso, o seu corpo não tinha sofrido a
corrupção
que qualquer cadáver normalmente experimenta.
A morte mais
duvidosa da História
Esta crença formou-se a
partir de três passagens das Sagradas Escrituras, nas quais se diz
expressamente que a morte entrou no mundo por culpa do pecado de Adão e
Eva. Esses textos encontram-se no livro do
Génesis (cap. 3), no da
Sabedoria (2,23-24) e nas
cartas de Paulo (Rm 5,12; 1
Cor 15,21).
Se isto é assim – diziam – então, antes de aquele pecado
ter sido cometido, as pessoas eram todas imortais e gozavam no Paraíso
terreal de imunidade perante a dor, a doença e a velhice. Ora bem, os
homens perderam a imortalidade com o pecado. Mas a Virgem Maria, ao ser
a única criatura no mundo que nunca cometeu pecado, não devia morrer. E
por isso, concluíam, deverá ter passado directamente da vida terrena para a
vida eterna.
O silêncio do Papa
Esta opinião dividiu os
estudiosos católicos durante muito tempo, pois outros acreditavam
expressamente que a Mãe de Deus tinha morrido, uma vez que tal é a
condição normal de todo o ser humano.
Quando em 1950 o Papa Pio XII declarou o dogma da
“Assunção de Maria”, isto é, que Maria foi levada por Deus em corpo e
alma aos céus, houve grande expectativa entre os teólogos pois pensaram
que seria também esclarecida a questão da sua morte. Contudo, nessa
ocasião, o Pontífice disse:
“Declaramos
ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus, terminado o
curso da sua vida na terra, foi levada em corpo e alma à glória do céu.”
Com isto deixou o problema sem resolver, pois não
explicou se foi levada depois de morrer, ou sem que tivesse morrido. Foi finalmente João Paulo II quem, em 1997, numa das
suas catequeses semanais, se pronunciou sobre esta controvérsia
teológica, manifestando que de facto a Mãe de Jesus morreu, e que por
isso experimentou na sua própria carne o drama da morte, como toda a
criatura humana.
Contra a tradição da igreja
O Papa justificou a sua
afirmação com três razões:
A primeira, porque
toda a tradição da Igreja sustentou sempre que Maria foi levada ao céu
depois de morrer. De facto, desde os primeiros séculos cristãos
encontramos figuras de renome como Santo Epifânio (+403), Santo Ambrósio
(+397), São Jerónimo (+420), Santo Agostinho (+430), São João Damasceno
(+749), Santo Anselmo (1109), São Tomás de Aquino (+1274), Santo Alberto
Magno (+1280), São Bernardino de Sena (+1444), e uma longuíssima lista
de escritores eclesiásticos, que sustêm, de um modo claro e terminante,
a morte da Virgem. Só a partir do séc. XVII começa a aparecer a
opinião da imortalidade corporal de Maria. Por isso, os que
sustentam que Maria não teria morrido, opõem-se à tradição da Igreja.
A segunda, porque
pensar que a Virgem Maria não morreu é outorgar-lhe um privilégio que a
colocaria acima do seu próprio Filho, uma vez que Jesus Cristo também
não teve pecado e, contudo, morreu. Porque não havia, pois, de morrer a
sua Mãe?
A terceira, porque
para ressuscitar é necessário, antes, morrer. Sem a morte prévia é
impossível a ressurreição. Ora bem, se Maria não tivesse morrido, como
teria podido ressuscitar? Como teria podido ir ao encontro de seu Filho
e de todos os santos, que primeiro morreram e depois ressuscitaram?
Uma biologia inalterável
Por tudo isso – conclui o
Papa – Maria de Nazaré morreu, apesar de não ter tido pecado.
Para esclarecer isto, devemos agora recolocar-nos a questão da qual
derivou toda esta contenda. Se Adão e Eva também não tivessem pecado,
tal como Maria, teriam sido imortais? No Paraíso terreal a humanidade
vivia livre do drama da morte, antes do pecado original?
Hoje os exegetas sustentam que não. Dizem que, com
pecado ou sem pecado, a morte teria existido na mesma. Afirmam que
aquela primeira falta cometida por Adão e Eva não alterou em nada a
biologia do reino vegetal, animal e humano. E que toda esta crença na
imortalidade humana se deveu a uma interpretação literalista, e por isso
mesmo errónea, dos textos bíblicos mencionados anteriormente. Com efeito, se os analisarmos agora cuidadosamente,
veremos que em nenhum momento eles afirmam semelhante ideia.
O primeiro texto é de
Génesis 3,1-19.
Ali se relata como, quando Deus criou Adão e Eva, os colocou no Paraíso
terrenal, com uma proibição: não comer da árvore da ciência do bem e do
mal plantada no meio do jardim. Contudo, eles, tentados pela serpente,
não acolheram as ordens de Deus e comeram o fruto. Então Deus, ao
comprovar a desobediência, marcou-os com una série de castigos,
começando pela serpente, seguindo pela mulher e terminando com o homem.
A pena de morte dada por Deus
Analisando os castigos
impostos por Deus, veremos que todos estão enunciados da mesma forma,
isto é, em forma imperativa, própria de quem emite uma ordem.
À serpente disse
(v.14-15):
a) serás maldita entre todos os animais;
b) rastejarás sobre o teu ventre;
c) alimentar-te-ás de terra;
d) serás inimiga da mulher
À mulher disse
(v.16):
a) aumentarei os sofrimentos da tua gravidez;
b) centre dores darás à luz os filhos;
c) procurarás apaixonadamente o teu marido;
d) mas ele te dominará
E ao homem disse
(v. 17-19):
a) maldita seja a terra por tua causa;
b) tirarás alimento dela com penoso trabalho;
c) ela produzir-te-á espinhos e abrolhos;
d) comerás a erva dos campo;
e) comerás o pão com o suor do teu rosto.
Depois de tudo isto, Deus acrescenta:
«Até que voltes à terra de onde foste
tirado, porque tu és pó e ao pó voltarás» (v.19). Como
podemos ver, esta frase «até que
voltes à terra de onde foste tirado» não faz parte dos
castigos impostos por Deus. É uma simples informação que Ele dá a Adão
sobre quanto tempo terá que sofrer esses males: até que regresse ao pó,
quer dizer, até que chegue a morte, que se dá por subentendida.
Portanto, em Gn 3 a morte não é um castigo imposto por
Deus, mas algo que se pressupõe. O autor sagrado, com esta expressão,
entende que, antes do pecado, a morte já era o fim do homem, e que os
novos castigos deverão ser sofridos até que essa morte aconteça.
O dia que nunca chegou
Se a frase
«até que voltes à terra...»
fosse a condenação de Adão à morte, como alguns pensam, chegaríamos a
uma conclusão verdadeiramente absurda. Pois como, na mentalidade do
autor, a lista de males cor- responde àquilo que tocará viver a cada um
dos castigados a partir de então, haveria que concluir que só Adão
deveria morrer, enquanto que Eva deveria ter permanecido imortal, uma
vez que a ela não foi imposta a ordem de voltar ao pó. O qual é
ridículo. Por isso devemos concluir que, no relato, a morte biológica se
subentende para os dois.
Mas um segundo pormenor demostra-nos que, no Génesis, a
morte biológica não é um castigo provocado pelo pecado. Quando Deus
proíbe a Adão comer o fruto, diz-lhe:
«Podes comer
do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore do
conhecimento do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres,
certamente morrerás.» (2,17)
Ora bem, Deus previne-o de que “no dia” em que comer do
fruto morrerá. Mas Adão comeu o fruto e não morreu nesse dia, nem no
seguinte, nem no outro, mas continuou a viver.
Que aconteceu? Como é que Deus pôde deixar de
cumprir uma promessa tão grave e séria? Evidentemente, para o autor do
Génesis não era a morte biológica que aconteceria “no dia” em que Adão
pecasse. A que morte se referia, então?
A inveja do Diabo
O segundo texto
bíblico que refere a morte como consequência do pecado está no livro da
Sabedoria
2,23-24. E diz:
«Deus criou o
homem para a incorruptibilidade,
e fê-lo à
imagem do seu próprio ser.
Por inveja do
Diabo é que a morte entrou no mundo,
E hão-de
prová-la os que pertencem ao diabo.»
Aqui também é indubitável que a “morte” que entrou no
mundo por inveja do Diabo não pode ser a morte física. Porque esclarece
que «a experimentam os que lhe
pertencem [ao Diabo]»,
isto é, os pecadores. E, pelo contrário, vemos que a morte física é
experimentada por todos: santos e pecadores, bons e maus, justos e
injustos. Por isso, a morte de que fala o livro da Sabedoria não é a
corporal. Qual é a morte que entrou no mundo por inveja do Diabo?
Adão e Jesus Cristo
A terceira vez que
encontramos esta ideia é nas cartas de São Paulo. Escrevendo aos
Romanos, o Apóstolo diz-lhes:
«Por um só
homem entrou o pecado no mundo. E pelo pecado entrou a morte. E assim, a
morte alcançou a todos os homens, porque todos pecaram»
(5,12).
Mais adiante, reitera na mesma Carta:
«E assim como
o pecado de um só
[Adão]
trouxe sobre
todos os homens a condenação, assim também a justiça de um só
[Jesus Cristo]
trouxe a todos os homens a
justificação que dá a vida»
(5,18).
Como vemos, Paulo estabelece uma comparação entre Adão
(o primeiro homem de toda a humanidade) e Cristo (o primeiro homem da
nova humanidade). E afirma que, se por um lado a morte entrou no mundo
através do pecado de Adão, Cristo veio reparar essa tragédia trazendo o
perdão e a nova vida.
Ora bem, qual é a nova vida que Jesus Cristo trouxe ao
mundo para reparar a perdida por Adão? Não é, evidentemente, uma nova
vida biológica. Os homens não têm um melhor funcionamento físico graças
à vinda de Jesus Cristo. Então, também a provocada pelo pecado de Adão
não foi uma morte biológica.
Para a Bíblia, o mais natural
Estas são as únicas vezes em
que a Bíblia afirma que a morte entrou no mundo pelo pecado. E como
vimos, em nenhuma delas se refere à morte biológica. Por isso hoje os
biblistas já não aceitam a ideia da imortalidade corporal antes do
pecado original. Mais ainda. Se analisarmos as
outras vezes em que na Bíblia se fala da morte, subentende-se que esta
existe como algo normal, que faz parte do ciclo natural do ser humano, e
que mais cedo ou mais tarde todo o indivíduo a deve experimentar pelo
simples facto de ser humano. Nunca vemos que ninguém se rebele contra
ela, nem que se lamentem de que tão horrorosa realidade tenha aparecido
por culpa de um primeiro par.
Assim, lemos que
:: todos partirão
deste mundo sem possibilidade de regressar (2 Sm 12,23);
:: fomos formados
com o barro e algum dia voltaremos ao pó (Jb 10,9);
:: nenhum ser humano
poderá «viver sem ver a morte»
(Sl 89,49);
:: é inevitável ter
que ir «pelo caminho de todos»
(Js 23,14);
::
«quando morremos, somos como a
água que, uma vez derramada na terra, não mais se pode recolher»
(2 Sm 14,14);
:: tanto aos sábios
como aos insensatos, «a todos eles
espera a mesma sorte» (Ecle 2, 14);
:: no que se refere
à morte, «é o mesmo o destino dos
homens e o destino dos animais; um mesmo fim os espera. Como a morte de
um, assim é a morte de outro»
(Ecl 3,18).
Portanto, na Bíblia a morte aparece como um passo
iniludível e forçoso. Vida e morte formam parte do ciclo normal do
destino humano. Por isso a morte é sempre aceite, sem discussão nem
especulações possíveis acerca do que poderia ter acontecido no caso de
não ter existido o pecado.
A “morte” que entrou com o pecado
Esclareçamos agora qual foi a
morte que apareceu no mundo por culpa do pecado. Actualmente, os
teólogos ensinam que, ao contrário do que antes se julgava, não se trata
da morte “biológica”, mas da morte “psicológica”.
O que é a morte psicológica? No caso de os seres humanos
não terem pecado, a morte física teria igualmente existido, mas não
seria experimentada como algo aterrador e desesperante. O homem e a
mulher teriam podida enfrentá-la com a paz e a alegria dos amigos de
Deus. A morte teria sido uma simples viagem, uma partida feliz e
agradável, um passo jubiloso rumo ao encontro com o Senhor, uma
despedida momentânea de familiares e conhecidos, com a garantia de que
em breve voltariam a encontrar-se de um modo mais pleno e perfeito.
Mas, a partir do pecado, nublou-se-nos a vista. Deixámos
de ver a morte como um passo feliz em direcção à vida com Deus, e
começámos a vê-la como verdadeira “morte”, isto é, como algo pavoroso e
traumático, que nos angustia e acabrunha, que nos acossa em cada momento
da vida, e no qual soçobram todas as esperanças e as ilusões humanas,
porque já não sabemos bem o que nos espera do outro lado nem como será o
além. Essa é a morte “psicológica”. Essa é a morte que apareceu com o
pecado. O poeta francês Charles Péguy disse-o com uma intuição
genial:
“Aquilo que a morte foi a partir
desse dia,
antes não era mais do que uma
partida natural e tranquila.”
O novo rosto da morte
Por não termos entendido
isto, acreditámos que a Virgem Maria foi preservada da morte corporal.
Como se esta, em si mesma, fosse um castigo ou um “defeito de fabrico” –
quando, na realidade, o mal está no modo como ela é experimentada.
Com a vinda de Cristo, a morte “psicológica” foi
vencida. Quer dizer, perdeu o seu carácter horroroso e trágico e voltou
a recuperar o seu rosto anterior. Com Cristo, o homem recuperou a
possibilidade de vê-la como ela era num princípio: um sereno encontro de
amigos íntimos.
Por isso São Paulo
fala dela como de um adormecer em
Cristo (1 Cor 15,18); e diz:
«preferimos exilar-nos do corpo, para irmos
morar junto do Senhor» (2 Cor 5,6); pois, para ele,
«viver é Cristo e morrer, um lucro»
(Fl 1,21).
Desde então, milhares e milhares de cristãos ao longo da
história enfrentaram a morte com tranquilidade e alegria. E por isso,
quanto mais próxima estiver uma pessoa de Deus, menos temor sente
perante a morte. Porque sabe que esta já não é “morte”, mas uma luminosa
saída ao encontro do abraço final e eterno com o Deus do Amor.
Jesus Cristo já arrancou à “morte” a sua máscara
aterradora. De nós depende voltar a entendê-la como era antes. Para que
a futura possibilidade de sua vinda, que a todos nos espera, não
amargue, nem angustie, nem entristeça o tempo da espera.
Com razão diz o livro do
Apocalipse:
«Felizes os
que de agora em diante
morrem em
união com o Senhor.» (14,13)
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista