Se alguém
nos perguntasse qual foi o primeiro milagre
que Jesus
fez, não duvidaríamos em responder que foi o da
água
transformada em vinho durante uma festa de casamento,
na cidade de
Caná da Galileia.
Até o papa
dá isso por suposto, no 2º Mistério Luminoso...
Mas, terá
sido mesmo esse
o primeiro
milagre que Jesus fez?
O milagre indefinido
O Evangelho de
São João diz expressamente
que sim:
«Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou
o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou
a sua glória, e os discípulos creram nele.»
(Jo
2,11)
Mas, para os três Sinópticos
(Mateus, Marcos e Lucas), não esse foi o primeiro milagre realizado por
Jesus. Mais ainda: nem sequer tiveram conhecimento dele. No seu
Evangelho não existe. E em seu lugar, cada qual relata outro “primeiro”
milagre: Marcos e
Lucas, a cura de um
endemoninhado na sinagoga de Cafarnaúm;
Mateus, a cura de um
leproso a seguir ao sermão da montanha.
Porque motivo não estão os
evangelistas de acordo quanto ao primeiro milagre de Jesus? Porque
apresenta cada um deles uma versão diferente?
Porque eles não pretenderam
contar aos seus leitores o que Jesus fez historicamente com a sua
actividade milagrosa, mas transmitir-lhes uma mensagem religiosa, que
cada qual adequou à sua comunidade, conforme lhe pareceu melhor.
Os espíritos da sinagoga
O Evangelho de
Marcos, que é o mais
antigo, relata assim o primeiro milagre de Jesus:
«Entraram em Cafarnaúm. Chegado o sábado, veio à sinagoga e começou a
ensinar. E maravilhavam-se com o seu ensinamento, pois os ensinava como
quem tem autoridade e não como os doutores da Lei.
Na sinagoga deles encontrava-se um homem com um espírito maligno, que
começou a gritar:
“Que tens a ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei
quem Tu és: o Santo de Deus.”
Jesus repreendeu-o, dizendo: “Cala-te e sai desse homem.”
Então, o espírito maligno, depois de o sacudir com força, saiu dele
dando um grande grito.
Tão assombrados ficaram que perguntavam uns aos outros: “Que é isto? Eis
um novo ensinamento, e feito com tal autoridade que até manda aos
espíritos malignos e eles obedecem-lhe!”
E a sua fama logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da
Galileia.»
(Mc
1,21-28 ; ver Mt 7,28-29; Lc 4,31-37)
O ar cheio de espíritos
Para entender porque razão
Marcos conta este milagre como o primeiro de Jesus, é preciso ter em
conta que ele escreve o seu evangelho para os cristãos de Roma, isto é,
para cristãos de origem pagã. E pretende convencê-los do enorme poder e
da autoridade de Jesus.
Ora, para o ambiente pagão
antigo, especialmente o romano, não havia, talvez, maior demonstração de
poder do que o exorcismo. De facto, antigamente pensava-se que muitas
enfermidades e males que a gente padecia eram devidos aos demónios que
entravam no corpo das pessoas para atormentá-las. Segundo a mentalidade
popular, o ar estava infestado por milhares destes espíritos imundos à
espreita do momento oportuno para se introduzirem na pessoa. E, uma vez
lá dentro, o doente só podia livrar-se deles mediante a cerimónia do
exorcismo, que, para cúmulo, nem sempre resultava eficaz. Só alguém com
muito poder era capaz de enfrentar esses espíritos.
Por escritores da época, como
Flávio José (que escreveu precisamente em Roma), sabemos que a cerimónia
era muito complexa. Pegava-se num anel de metal, e se atava-se-lhe a
raiz de uma planta especial. Em seguida, o exorcista colocava-o no nariz
do endemoninhado, e recitava uma série de encantamentos secretos
cominando o demónio a abandonar a pessoa e nunca mais voltar. Para que a
libertação do possesso ficasse demonstrada, o espírito devia entornar,
ao sair, um recipiente com água colocado à distância.
Mas havia mais. A raiz da
planta usada no exorcismo não era fácil de obter. E una vez encontrada,
era difícil tirá-la porque escorregava das mãos. Para conseguir
extraí-la era preciso deitar sobre ela urina de mulher. E depois de ser
arrancada, quem a tocasse morria, a menos que a enrolasse no braço
mediante um rito especial.
Exorcismos de fronteira
Face
a um ritual tão complexo, e pouco eficaz, Marcos elege como primeiro
milagre um exorcismo, precisamente para mostrar aos seus leitores
romanos o enorme poder de Jesus, muito superior ao que até então eles
tinham conhecido. Deste modo, ensina-lhes que, quem se põe do lado de
Jesus, pode derrotar as forças mais poderosas do mal, aquelas que tanto
os intranquilizavam e assustavam.
Por isso, como para os
leitores de Marcos o exorcismo tinha um significado especial, cada vez
que Marcos relata um exorcismo (quatro, ao todo) situa-o nas fronteiras
do país. Assim,
o primeiro, o do homem
da sinagoga (1, 22-28), ocorre em Cafarnaúm, cidade limítrofe com o país
de Gaulanítide;
o segundo, do
endemoninhado de Gerasa (5, 1-20), tem lugar
«na outra
margem do mar»,
isto é, em terras
pagãs fronteiriças com a Palestina;
o terceiro, da filhinha
da siro-fenícia (7, 24-30), acontece «na região de Tiro»,
país do limite norte da Palestina;
o quarto, do jovem
epiléptico (9,14-24), produz-se (segundo as indicações geográficas de
Marcos)
«na região de
Cesareia de Filipe»
(8,7), isto é, no
território não judaico confinante com a Galileia.
Todos os exorcismos que Marcos
relata convertem-se, pois, numa vigorosa mensagem para os seus leitores:
o poder e a força de Jesus de Nazaré estão, sobretudo, ao serviço deles,
os pagãos. Deles, muitas vezes perseguidos e postergados. Deles, que
estavam nas fronteiras da vida, e na margem da sociedade.
Sem pálpebras nem orelhas
Mateus
escreve o seu Evangelho dez anos depois de Marcos. Os seus destinatários
já não são (como no caso de Marcos) de origem pagã, mas na sua maioria
crentes de origem judaica, e por isso tão impregnados pela mentalidade e
a cultura deste povo. Por isso Mateus escolherá como primeiro milagre de
Jesus a cura de um leproso. O relato diz assim:
«Ao descer do monte, seguia-o uma enorme multidão.
Foi, então, abordado por um leproso que se prostrou diante dele,
dizendo-lhe:
“Senhor, se quiseres, podes purificar-me.”
Jesus estendeu a mão e tocou-o, dizendo:
“Quero, fica purificado!”
No mesmo instante, ficou purificado da lepra.
Jesus, porém, disse-lhe:
“Vê, não o digas a ninguém;
mas vai mostrar-te ao sacerdote
e apresenta
a oferta que Moisés preceituou,
para que lhes sirva de testemunho.”»
(Mt
8,1-4;
ver Mc
1,40-45; Lc 5,12-16)
Porque motivo Mateus escolheu
este como o primeiro milagre de Jesus? Porque, para a mentalidade
judaica daquele tempo (como para muitas culturas antigas), talvez não
houvesse doença mais terrível e espantosa do que a lepra.
Embora então se chamasse
“lepra” a qualquer infecção da pele, alguns testemunhos que conhecemos
dessas patologias são pavorosos: as orelhas caíam, as pálpebras
desprendiam-se, a pele
transformava-se em massa ulcerosa, e perdiam-se paulatinamente os dedos
das mãos e dos pés. Pouco a pouco os músculos do corpo desintegravam-se,
e as mãos contraíam-se até adquirirem o aspecto de garras ou pezunhos.
Então o doente perdia a razão, entrava em coma, e finalmente morria no
contexto de uma morte horrenda.
Era tal o terror que os judeus
sentiam pela lepra, que a Bíblia conservou dois capítulos inteiros
dedicados a ela e a sua prevenção (Lv 13-14), coisa que não ocorreu com
nenhuma outra doença.
Um morto em vida
Mas, se o sofrimento físico do
leproso era terrível, a sua situação social era ainda pior. Quando era
diagnosticada a lepra a alguém, imediatamente ele era expulso da sua
família e da povoação, e não podia voltar a entrar na cidade. Estava
condenado a viver só no meio do campo (Lv 13,46), a vestir-se de
farrapos, a usar o cabelo despenteado, a boca coberta com vendas, e
enquanto caminhava devia gritar continuamente:
«impuro,
impuro!» (Lv
13,45). Realmente, era um morto em vida.
A Lei judaica enumerava 61
contactos que tornavam alguém impuro. E o segundo na ordem de
importância (a seguir ao contacto com um morto) era o contacto com um
leproso. Bastava que um deles introduzisse a cabeça numa casa, para que
esta ficasse contaminada desde os alicerces até ao tecto. Ninguém podia
aproximar-se de um leproso a menos de dois metros; e se o vento soprava
do seu lado, o doente devia afastar-se até cinquenta metros.
Havia mestres judeus que se
gabavam de não ter comido nenhum ovo comprado numa rua por onde tivesse
passado um leproso. Outros, de lhes atirar pedras para que se fossem
embora. Outros, de se esconderem ou deitar a correr quando os viam de
longe.
Antepassados curadores
A purificação de um leproso,
pois, deveu ter sido um milagre o suficientemente impressionante para um
judeu, como para que Mateus o colocasse em primeiro lugar na lista dos
prodígios feitos por Jesus. Sobretudo, pela forma assombrosa como o fez:
tocando-lhe. Algo nunca visto por um judeu. Talvez não seja exagerado
pensar que, para os leitores de Mateus, a frase mais escalafriante do
seu evangelho tenha sido:
«Jesus
estendeu a mão, e tocou-o.»
(8,3)
Mas havia uma segunda razão
para Mateus colocar este relato como o primeiro de Jesus: é que os
grandes personagens da tradição judaica tinham gozado do poder de curar
leprosos. Assim, a Bíblia contava que Moisés tinha curado a sua irmã
Míriam da lepra (Nm 12,9-16), e que o profeta Eliseu tinha feito o mesmo
com o general sírio Naaman (2 Rs 5,1-14). Portanto, com este milagre
Mateus também quis ensinar aos leitores que Jesus não era inferior a
Moisés, nem ao profeta Elias, os dois grandes antepassados do povo de
Israel.
O recurso ao demónio...
Mais ou menos por esta mesma
época, escreveu São
Lucas o seu
Evangelho. E, tal como Marcos, dirige-se a um grupo de cristãos de
origem pagã. Por isso, no seu escrito preferiu recorrer ao outro
“primeiro milagre” de Jesus. Ou seja, à cura do endemoninhado na
sinagoga de Cafarnaúm (Lc 4,31-37). Com isto, esperava conseguir nos
seus leitores pagãos o mesmo efeito conseguido por Marcos.
... para anunciar o Messias
São
João é o
último a escrever o seu Evangelho. Mas, diferentemente dos outros três
evangelistas (que ao longo das suas obras tinham querido mostrar que
Jesus estava dotado de um poder impressionante e de uma grande
autoridade), São João pretende ensinar outra cosa.
A comunidade de
João defrontava-se com grupos de judeus que rejeitavam Jesus, e que não
o aceitavam como Messias. Por isso, o problema que João tinha não era o
de convencer os seus leitores (muitos deles ex-judeus) de que Jesus
tinha grande poder para fazer milagres, mas de que Ele era, realmente, o
Messias esperado, o enviado de Deus. Di-lo expressamente no final do seu
texto: «Estes [sinais
miraculosos], porém, foram escritos
para crerdes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus.»
(Jo 20,31)
O melhor para o fim
Com este esclarecimento, vejamos agora o primeiro
milagre de Jesus narrado por São João:
«Ao
terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus
estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a
boda.
Como
viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe:
“Não têm vinho!”
Jesus respondeu-lhe:
“Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo?
Ainda não chegou a minha hora.”
Sua
mãe disse aos serventes:
“Fazei o que Ele vos disser!”
Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de
purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma.
Disse-lhes Jesus:
“Enchei as vasilhas de água.”
Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes:
“Tirai agora e levai ao chefe de mesa.”
E eles
assim fizeram.
O
chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era
– se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o
noivo
e
disse-lhe:
“Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e,
depois de terem bebido bem, é que serve o pior.
Tu,
porém, guardaste o melhor vinho até agora!”
Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou
o
primeiro
dos
seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os
discípulos creram nele.» (Jo 2,1-11)
Para quê tanto vinho?
Porque relata João este
milagre como o primeiro de Jesus? É que, segundo a crença judaica,
quando o Messias viesse, Deus festejá-lo-ia com uma enorme festa de
bodas, na qual o noivo seria Deus, e a noiva seria o povo de Israel.
Nesse dia, Deus casar-se-ia com o seu povo, e a partir desse momento
cuidá-lo-ia e serviria com amor eterno, e já não o abandonaria mais.
Assim o anunciava, por
exemplo, o profeta Isaías
62,5:
«Assim
como uma jovem se casa com um jovem,
também
te desposa aquele que te reconstrói.
Assim
como a esposa é a alegria do seu marido,
assim tu
serás a alegria do teu Deus.»
E o profeta
Oseias (2,21-22),
entre muitos outros:
«Então
[Eu]
te
desposarei
[,Israel,]
para sempre;
desposar-te-ei conforme a justiça e o direito,
com amor
e misericórdia.
Desposar-te-ei com fidelidade
e tu
conhecerás o Senhor.»
Também segundo a
tradição, essa festa de casamento caracterizar-se-ia pela grande
abundância de vinho, como o diziam, entre outros, os seguintes profetas:
Amós
9,13:
«Os
montes destilarão mosto;
todas as colinas se derreterão.»
Isaías
25,6:
«No monte Sião,
o
Senhor dos exércitos prepara para todos os povos
um
banquete de carnes gordas,
acompanhadas de vinhos velhos,
carnes gordas e saborosas.»
Joel
2,24:
«As
eiras se encherão de trigo,
e
os lagares transbordarão de vinho e azeite.»
2 Baruc
29,5: Até este livro apócrifo daquela época diz, referindo-se às bodas
do Messias:
«Nesse dia, cada tronco
da videira terá 1.000 ramos, cada ramo terá 1.000 cachos, cada cacho
terá 1.000 bagos, e cada bago dará 500 litros de vinho.»
Adeus às águas
Ao apresentar Jesus numa festa
de casamento, São João ensina aos seus leitores que a boda escatológica,
isto é, a que Deus tinha preparado para o fim dos tempos, já chegou com
Jesus.
Se a isso acrescentarmos que
Jesus nessa boda faz aparecer... 600 litros de vinho!, uma cifra
desorbitante (em nenhuma festa popular se poderia ter bebido tal
quantidade de vinho), a mensagem estava clara: Jesus é o Messias
esperado, é o enviado de Deus que traz o vinho abundante; por isso, os
últimos tempos já começaram.
O
milagre
nas bodas de Caná
(e todos os milagres de Jesus, em São João), não pretende mostrar o
poder “exterior” de Jesus, mas a sua pessoa “interior”. Não quer
revelar “o que pode” Jesus fazer, mas “quem é” Jesus.
Por isso João não lhe chama “milagre”, mas “sinal miraculoso”. Porque um
sinal é um sinal de outra coisa (não do que se vê); é a marca doutra
realidade mais profunda, que o leitor deve descobrir.
Finalmente, se notarmos que os 600 litros de água que
Jesus muda em vinho não estavam em qualquer recipiente, mas nas talhas
de pedra que os judeus usavam para as suas purificações, a mensagem tem
muito maior impacte: os ritos e as práticas judaicas deixaram de ter
valor; ficaram agora substituídas pelo vinho da Eucaristia.
Para que volte a alegria
Cada “primeiro
milagre” de Jesus contado pelos evangelistas tem o seu próprio
significado.
Em
João,
ensina-nos que Jesus é verdadeiramente o Messias, o enviado de Deus, e
que não devemos esperar nenhum outro Salvador.
Em
Marcos (e
Lucas)
diz-nos que o poder do Messias está à nossa disposição, para derrotar as
forças obscuras e tenebrosas que nos oprimem internamente.
Em
Mateus
indica-nos que Jesus também tem poder para vencer as divisões sociais e
as discriminações que a nossa sociedade constrói em relação a certa
gente “impura”.
Cada
evangelista
anunciou esta Boa-Nova às suas comunidades do modo que pôde e com a
linguagem que soube. No mundo de hoje, em que as pessoas vivem
angustiadas pelas opressões internas e pelas segregações sociais
externas, os cristãos devemos mostrar que o poder do Messias continua
vigente em nós, e que podemos repetir o milagre de libertar as pessoas
das forças sombrias que as oprimem por dentro e por fora.
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista