Quantos "Pai-Nossos" ensinou Jesus a rezar?
Até aos anos sessenta,
todos aprenderam a rezar, no Pai-Nosso:
«Perdoai as nossas
dívidas, assim como
nós perdoamos aos
nossos devedores.»
De repente, começou-se a rezar:
«Perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos a quem
nos tem ofendido.”
Porquê? Não apenas porque todos
somos pecadores,
mas nem todos somos
caloteiros. Há razões mais bíblicas…
A
alteração que incomodou
Muitos, ficaram baralhados: “Então, a Igreja tem
poder para alterar a oração de Jesus? Se Ele ensinou a rezar assim,
porque havemos de modificar a oração que Ele ensinou? Mas esses, não se
tinham apercebido de que existem dois Pai-Nossos diferentes na Bíblia:
um no Evangelho de Mateus, e outro no Evangelho de Lucas. E o que a
Igreja tinha feito ao alterar a frase antes citada, fora simplesmente
passar da versão de Mateus para a de Lucas. Embora em Latim continuemos
a dizer “debita” e “debitores” (“dívidas” e “devedores”,
respectivamente).
Isto já nos leva a outras perguntas: porque existem
dois Pai-Nossos diferentes, se Jesus ensinou a rezar apenas um? E qual
dos dois foi o que Ele realmente ensinou?
Em
privado, ou em público?
A primeira coisa a notar é que os dois Pai-Nossos
dos Evangelhos estão apresentados em ocasiões diferentes.
Segundo Lucas, Jesus ensinou-o em privado
aos seus discípulos, num dia em que estava só a rezar. Ao terminar, e
perante o pedido dos apóstolos, respondeu: «Quando orardes, dizei.»
E recitou-o (11,2-4). Segundo Mateus, Jesus tê-lo-ia
recitado diante de uma verdadeira multidão, por altura do sermão da
montanha. Ali, após advertir as pessoas de que para rezar não faziam
falta muitas palavras, propôs-lhes esta oração (6,9-13).
É claro, por isso, que durante a sua vida, o Senhor
ensinou aos seus apóstolos o “Pai-Nosso”. O problema surgiu quando,
vários anos mais tarde, Mateus e Lucas redigiram os seus Evangelhos,
pois já não se lembravam exactamente do momento em que a oração tinha
sido ensinada. Então, cada um decidiu colocá-la onde melhor se ajustava
à sua própria teologia.
Assim, Mateus colocou-o no discurso
inaugural de Jesus; porque, sendo este o sermão em que deixava o seu
“programa” para o Reino dos Céus, não podia faltar o tema da oração. Por
sua vez, Lucas colocou-o enquanto Jesus ia a caminho numa longa
viagem a Jerusalém, pois para este evangelista o homem deve aprender a
rezar enquanto vai pelo caminho da vida, a fim de viver em comunhão com
Deus.
Um breve
e outro longo
Se compararmos as duas versões do Pai-Nosso,
veremos que a mais breve é a de
Lucas.
Só inclui cinco petições, e diz assim:
«Pai,
santificado seja o teu
nome;
venha o teu Reino;
dá-nos o nosso pão de
cada dia;
perdoa os nossos
pecados,
pois também nós
perdoamos
a todo aquele que nos
ofende;
e não nos deixes cair
em tentação.»
A de
Mateus é mais
longa. Inclui sete petições. O seu texto
é:
«Pai nosso, que estás
no Céu,
santificado seja o teu
nome,
venha o teu Reino;
faça-se a tua vontade,
como no Céu, assim
também na terra.
Dá-nos hoje o nosso pão
de cada dia;
perdoa as nossas
dívidas,
como nós perdoamos aos
nossos devedores;
e não nos deixes cair
em tentação,
mas livra-nos do mal.»
A maioria dos biblistas defende que a versão de
Lucas é mais antiga, e talvez aquela que Jesus realmente ensinou.
Porquê?
Porque, se o Pai-Nosso de Mateus (o mais longo)
fosse o original, não se compreende porque razão Lucas o teria reduzido.
Pelo contrário, se o Pai-Nosso de Lucas (o mais breve) é o original,
torna-se mais compreensível que Mateus o tenha alongado, inspirado pelo
Espírito Santo, a fim de o acomodar melhor à forma de pensar dos seus
leitores judeus.
Começar
como um judeu
Quais as alterações que Mateus introduziu no
Pai-Nosso? Em primeiro lugar, em vez de começar apenas com “Pai”, como
Lucas, acrescentou-lhe “nosso”. Para entendermos porquê, devemos saber
que Mateus é um judeu que escreve para os judeus, ao passo que Lucas
escreve para os pagãos. Ora bem, o povo judeu costumava dar geralmente a
Deus o título de “nosso Pai”. Encontramo-lo várias vezes no Antigo
Testamento (Is 63, 16;64,7; Jr 3,4; 31,9; Ml 2,10; Sl 89,27). Sobretudo,
os judeus começavam assim as suas orações de cada dia.
Após dizerem «Pai nosso», a fim de
evitarem qualquer proximidade menos respeitosa com Deus e sublinharem a
sua santidade e transcendência, os israelitas costumavam acrescentar:
«que está nos céus». Sabemo-lo pela Mishná, uma
colecção de ensinamentos e reflexões judaicas dos grandes rabinos
antigos de Israel. Ali, é comum encontrar a frase: “Nosso Pai, que está
nos céus.”
Portanto, Mateus começou o seu Pai-Nosso com esta
fórmula, para torná-lo mais familiar à mentalidade dos seus leitores
judeus.
A
vontade e as dívidas
A segunda alteração que Mateus fez foi acrescentar,
depois das duas primeiras petições, uma terceira: «Faça-se a tua
vontade, / como no céu, assim também na terra.» Como bom
judeu, sabia que, em qualquer oração, era um ingrediente essencial pedir
que se cumprisse a vontade de Deus.
Onde se inspirou, para esta fórmula? Muitos pensam
que foi no Salmo 135,6: «Tudo o que o Senhor quer, Ele o faz:
/ no céu e na terra...». Ou no Salmo 115,3:
«O nosso Deus, lá do céu, / faz tudo o que lhe
apraz.»
Mais adiante, Mateus fez uma nova modificação: em
vez de «Perdoa as nossas ofensas», colocou
«Perdoa as nossas dívidas.»
Compreende-se. Os israelitas costumavam exprimir a
sua relação com Deus em termos jurídicos. E, quando um homem não cumpria
com os mandamentos, dizia-se que estava “em dívida” com Deus. Por isso,
todo o pecado cometido contra Deus, era uma “dívida” contraída com Ele.
Jesus usará várias vezes esta metáfora. Por
exemplo, para nos ensinar a perdoar, contou a parábola de um homem que
devia 10.000 talentos, e outro que devia 100 denários (Mt 18,23-35).
Para explicar porque perdoou a uma pecadora pública, contou a parábola
dos dois devedores (Lc 7,36-50). Para advertir acerca das graves
consequências que pode trazer consigo o não perdoar, relatou a parábola
de um homem que foi metido na prisão por não pagar uma dívida (Mt
5,25-26).
Assim, o «perdoa-nos as nossas dívidas»
de Mateus ajustava-se muito melhor à linguagem familiar dos seus
leitores judeus.
O
número que faltava
A última variante de Mateus está no final da
oração. Enquanto Lucas termina: «Não nos deixes cair em tentação»,
Mateus acrescenta «e livra-nos do mal». Esta petição não
acrescenta nada novo à anterior: se um é protegido para não cair em
tentação, livra-se do poder do mal. Trata-se, antes, de um
esclarecimento. Exprime pela positiva o que antes se dizia
negativamente.
Porque motivo a inclui, então, Mateus? Talvez
procurasse, deste modo, que a oração tivesse 7 petições. Para a
mentalidade judia, o 7 era o número perfeito. Assim, Mateus terá querido
significar que esta oração encerra uma totalidade perfeita, a que não se
pode acrescentar nem tirar nada.
Uma
prece sinfónica
Mas nós não precisamos de recorrer ao simbolismo do
número 7 para chegar à mesma conclusão. Analisando cuidadosamente a
oração, e o seu sentido interno, descobrimos uma perfeição e uma riqueza
insuperáveis, que na verdade não admitem acréscimos nem supressões.
Com efeito, a primeira coisa que salta à vista é
que a oração está dividida em
duas partes.
A primeira, com três petições
referidas a Deus:
a) santificado seja o teu nome;
b) venha o teu reino;
c) faça-se a tua vontade.
A segunda, também com três petições
(mais uma quarta, acrescentada), referidas a nós e às nossas
necessidades:
a) o pão;
b) o perdão dos pecados;
c) não cair em tentação.
O que devemos sublinhar é a ordem das petições.
Primeiro estão as relacionadas com Deus e o seu projecto salvífico, e
depois as relativas às nossas necessidades pessoais.
Com isto, Jesus quis ensinar-nos que só quando Deus
ocupa o primeiro lugar na nossa vida, o resto passa a ocupar o lugar que
lhe corresponde. Com a oração nunca se pretende vergar a vontade de Deus
para adequá-la aos nossos caprichos. Só quando procuramos conhecer o que
Deus quer de nós e da sociedade, poderemos rezar adequadamente sem temer
que os nossos pedidos sejam inadequados ou superficiais.
O homem
todo
A segunda parte do Pai-Nosso, que se
ocupa das nossas necessidades, forma, por sua vez, um conjunto
maravilhosamente conseguido. Alude às três necessidades essenciais do
homem. E ao mesmo tempo, abarca as três esferas do tempo nas quais nos
movemos.
Primeiramente, pede-se o
pão de cada dia: assim, elevam-se até
Deus as necessidades do presente. Depois pede-se
perdão pelos pecados: coloca-se
diante de Deus o nosso passado. Em terceiro lugar pede-se
ajuda nas tentações: com isso
coloca-se o futuro nas mãos do Senhor.
Em consequência, com estas três breves petições
é-nos ensinado a colocar toda a nossa vida – passado, presente e futuro
– nas mãos poderosas de Deus.
Deus todo
Mas a oração está tão magnificamente elaborada, que
não só eleva e coloca a totalidade da vida humana perante a misericórdia
divina. Também faz descer a totalidade de Deus até à nossa vida.
De facto, quando pedimos o pão para o sustento
diário pensamos espontaneamente em Deus Pai,
criador e conservador da vida. Quando pedimos perdão, imediatamente
recordamos a Deus Filho, o
Salvador, que deu a sua vida pelo perdão dos nossos pecados. Quando
pedimos ajuda para não cair nas tentações, pensa-se instantaneamente no
Espírito Santo, guia e fortaleza
dos cristãos na vida.
De um modo extraordinário, a segunda parte do
Pai-Nosso toma todo o nosso presente, passado e futuro, e oferece-o a
Deus Pai, Filho e Espírito Santo. O homem todo une-se a Deus todo, num
magistral encontro de amor e de vontades.
Jesus
rezou o Pai-Nosso?
Resta-nos uma última pergunta: Terá Jesus rezado
alguma vez o Pai-Nosso? Tudo leva a supor que não. De facto, se
analisarmos nos Evangelhos qual era a oração que Ele fazia quando falava
com o seu Pai, nunca vemos que tenha rezado o Pai-Nosso.
Por exemplo, quando uma vez os discípulos
regressaram da sua missão, relatando o êxito obtido, Ele, exultante de
alegria, irrompeu numa acção de graças: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do
Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos
inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (Lc 10,21).
Noutra ocasião, quando se preparava para
ressuscitar o amigo Lázaro, a sua oração foi: «Pai, dou-te graças por
me teres atendido. Eu já sabia que sempre me atendes, mas Eu disse isto
por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu me
enviaste» (Jo 11,41-42).
Nem nos
piores momentos
Durante a última ceia, no meio da tristeza da sua
despedida, a oração que fez diante dos apóstolos foi: «Pai, chegou a
hora. Manifesta a glória do teu Filho, de modo que o Filho manifeste a
tua glória, segundo o poder que lhe deste sobre toda a humanidade» (Jo
17,1-2).
E quando se retirou para rezar a sós na gruta de
Getsémani, prevendo já o desenlace iminente da sua dramática morte,
orou: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se
faça a minha vontade, mas a tua» (Lc 22,42).
Enquanto o crucificavam, rezou pelos soldados:
«Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). Quando
agonizava, orou a seu Pai: «Meu Deus, meu Deus, porque me
abandonaste?» (Mc 15,
34). E finalmente morreu com a prece:
«Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23,46).
Vemos, pois, que em nenhuma circunstância da sua
vida – nem feliz nem triste, nem séria nem dolorosa – Jesus rezou o
Pai-Nosso. Então, porque nos ensinou a rezá-lo?
Como
deve rezar o cristão
Talvez haja uma resposta para isto. Ao ensinar o
Pai-Nosso aos seus apóstolos, Jesus disse-lhes: «Quando orardes,
dizei...». Isto é, trata-se de uma oração para rezar em grupo.
Isto vê-se claramente pelas fórmulas no plural, que
utiliza: «Pai nosso», «o pão nosso», «dá-nos hoje»,
«perdoa os nossos pecados», «nós perdoamos», «nos
ofende», «não nos deixes cair», «livra-nos». Parece, pois,
que o Pai-Nosso não é uma oração para ser rezada individualmente, mas
com os outros, quando a comunidade se encontra reunida.
Então, quando uma Pessoa reza só, como deve
rezar? Deve fazer como Jesus: criar a
sua própria oração, segundo as circunstâncias. Se estiver a viver um
momento feliz, deve fazer uma oração alegre. Se está a passar por uma
circunstância penosa, deve elaborar uma oração que reflicta a sua dor.
Mas nem sempre é melhor rezar orações já feitas,
ou pré-fabricadas. Porquê? Porque, sendo
fórmulas fixas, pensadas por outros, às vezes não exprimem o que eu
preciso de dizer nesse momento, e torna-se assim mais difícil entrar num
verdadeiro diálogo com Deus.
Quanto
vale uma oração
Mas, quando nos juntamos para orar em grupo,
comunitariamente, como no caso da Eucaristia, por exemplo, seria um caos
se cada qual criasse a sua própria oração em voz alta. Então, sim,
tendo-nos posto de acordo, torna-se gratificante rezar o Pai-Nosso, a
Ave-Maria, o Credo, ou as outras orações já preparadas, porque permitem
reflectir, com elas, a unidade da assembleia.
Para quem tiver dificuldade, por exemplo, de rezar
o rosário em privado, devido à dificuldade em se concentrar ou à
monotonia de repetir sozinho tantas vezes o mesmo, um excelente remédio
seria dedicar o mesmo tempo que levaria a rezá-lo, a fazer uma oração
espontânea à Virgem Maria. Talvez com isso ganhasse em concentração, em
expressividade e em comunicação com Maria.
A oração é um diálogo. Ninguém se dirige a uma
pessoa que tem diante de si, dizendo-lhe: “Excelentíssimo Senhor, tenho
a maior satisfação em dirigir-me a Vª Excia. com o objectivo de lhe
dizer…”; antes pelo contrário, fala-lhe espontaneamente. Assim também,
quando se fala com Deus a sós, será muito melhor fazê-lo
espontaneamente.
A oração não tem apenas poder para transformar a
realidade exterior, mas também para transformar aquele que reza. No
entanto, para isso é preciso entender e atender àquilo que diz. O qual
se consegue quando cada um cria a sua própria oração. Assim falava Jesus
com o seu Pai. Assim convém que lhe falemos nós.
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista,
in
Revista Bíblica