Todos reparamos
nele, ao olhar para o quadro da Última Ceia que temos na sala de
jantar: no centro, à direita de Jesus, alguém reclina a sua cabeça
sobre o peito do Mestre. E todos os anos ouvimos falar dele, nos
textos sobre a ressurreição de Jesus e as suas aparições aos
discípulos. Trata-se d’«aquele que Jesus amava» de Jesus. Só o
evangelista João fala dele, sem nunca lhe dar um nome. Será ele
próprio? Assim se pensou, durante muito tempo. E talvez muitos assim
pensem, ainda. Mas será? E porque não, o leitor ou eu próprio?
Os homens do
Mestre
Segundo o
Evangelho, Jesus elegeu doze apóstolos para estarem com Ele, o
acompanharem durante a sua vida, e depois irem pelo Mundo anunciar a
mensagem que o tinham ouvido pregar.
E quando
queremos saber como se chamavam estes doze apóstolos, basta recorrer
ao Novo Testamento. Ali, quatro livros dão-nos a lista completa dos
seus nomes: o evangelho de Mateus (10,2-4), o de Marcos (3,16-19), o
de Lucas (6,14-16) e os Actos dos Apóstolos (1,13).
O único
evangelista que não transcreve o elenco dos apóstolos é São João.
Apesar disso, nos vários episódios do seu evangelho vai-os
mencionando, até muitas mais vezes que os outros evangelistas.
Deste modo, e
embora o Novo Testamento não coincida totalmente nos nomes, sabemos
que aqueles doze apóstolos se chamavam: Simão Pedro e seu irmão André,
Tiago e seu irmão João, Filipe e Bartolomeu, Tomé e Mateus o cobrador
de impostos, Tiago filho de Alfeu e Tadeu, Simão o zelota, e
finalmente o traidor Judas Iscariotes (Mt 10, 2-4).
O discípulo sem
nome
Mas, além destes
homens, que constituíam o círculo de Jesus, e cuja identidade nos é
revelada pelas listas, aparece no quarto evangelho um personagem
misterioso. Trata-se de alguém muito próximo do Mestre, que partilha
com Ele os seus momentos mais íntimos, que até figura nos últimos
versículos do evangelho, mas cujo nome nunca é mencionado. O
evangelista apenas o designa como «o discípulo a quem Jesus amava».
Nenhum outro
evangelho, excepto o de João, alude à sua presença ou existência.
A primeira
vez que o vemos aparecer é na última ceia (13, 23-26), quando reclina
a sua cabeça sobre o peito de Jesus, e Este lhe revela em privado quem
estava para traí-lo.
Pouco depois
é novamente mencionado, quando Jesus está agonizante na cruz
(19,25-27). Ali, «o discípulo a quem Jesus amava» é o único dos
apóstolos que se encontra a seu lado, acompanhando o Mestre no seu
tormento, e recebe dele o encargo de acolher a mãe do Senhor como sua
própria mãe.
As suas seis
aparições
A terceira vez
que aparece é no Domingo de Páscoa, quando se difundiu a notícia de
que o cadáver de Jesus tinha desaparecido. Então, esse discípulo corre
até ao sepulcro; e, ao vê-lo vazio, acredita na ressurreição do
Senhor, quando os outros estão desconcertados e não podem imaginar,
sequer, um portento semelhante (20,2-10).
Pela quarta
vez, já no final do evangelho de João (21,7), «o discípulo a
quem Jesus amava» encontra-se a pescar numa barca juntamente com
Simão Pedro e os outros discípulos. Quando Jesus ressuscitado aparece
de pé na margem do lago, ele é o único que o reconhece, e di-lo a
Pedro.
O quinto
episódio mostra o Discípulo Amado seguindo atrás, e muito de perto, a
Pedro e a Jesus. É então que o Senhor profetiza sobre ele, dizendo que
é capaz de o fazer permanecer neste mundo até à sua segunda vinda
(21,20-23).
O último
dado que temos acerca da sua pessoa é que ele constitui a fonte de
informação das coisas que foram narradas no Evangelho de João (21,24).
Ao todo,
contam-se seis aparições deste estranho personagem, acerca do qual não
nos é dada absolutamente nenhuma informação: nem como foi chamado, nem
a sua terra de origem, nem a sua família, nem a sua profissão, nem o
seu temperamento… Apenas se diz que tinha o particular privilégio de
ser especialmente amado por Jesus.
Uma proposta
com causa
Quem é este
enigmático discípulo, que se apresenta sempre nos momentos-chave do
evangelho e revela um estreito vínculo com Jesus? É um dos doze
apóstolos que conhecemos? Trata-se de algum outro seguidor do Senhor,
de quem não chegou até nós nenhum outro sinal particular?
Ao longo dos
séculos, os estudiosos da Bíblia têm sugerido as mais variadas
soluções para resolver este mistério, e as opiniões dos exegetas
têm-se dividido a propósito.
Um grupo supõe
que se trata de Lázaro, aquele jovem a quem Jesus ressuscitou quatro
dias depois de estar sepultado, porque é o único personagem masculino
do evangelho de quem se diz que Jesus o amava, repetindo-o quatro
vezes (11,3.5.11.36). Além disso, o Discípulo Amado somente aparece
depois da ressurreição de Lázaro. Até chegaram a supor que o Discípulo
Amado foi o primeiro a reconhecer Cristo ressuscitado precisamente
porque era Lázaro, que já tinha passado pela mesma experiência.
Dificuldades de
peso
Mas é
inadmissível que, da mesma pessoa, umas vezes se fale anonimamente
(Discípulo Amado) e outras vezes com o seu nome (Lázaro) sem nos
prevenir que é a mesma, quando os evangelhos são tão cuidadosos em
evitar confusões entre os apóstolos. Por exemplo, vemos que para
diferenciá-los entre eles costumam acrescentar ao seu nome próprio
algum outro dado, como o nome de seus pais, ou a sua terra, a sua
actividade (como quando se distingue Tiago “filho de Alfeu” de Tiago
“o menor”; Judas “irmão de Tiago” e Judas “Iscariotes”; João “filho de
Zebedeu” e João “o baptista”.
Além disso, o
Discípulo Amado esteve na última ceia com a sua cabeça reclinada no
peito de Jesus. E sabemos por Mateus (26, 20) que nela somente
participaram os doze apóstolos, aos quais não pertencia Lázaro.
Portanto, torna-se difícil defender esta opinião.
Outros
rejeitados
Outro candidato
sugerido é o jovem rico (aquele que um dia, segundo Mateus 19, 16-22,
perguntou a Jesus que devia fazer para ganhar a vida eterna), pois o
evangelho diz que «Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por
ele» (Mc 10,21).
Mas não parece
provável que o discípulo a quem Jesus tanto amava seja precisamente o
único, em todo o evangelho, que recusou o convite de o seguir,
preferindo as suas riquezas e afastando-se dele. Pior ainda: Jesus
apresentou-o como exemplo das nefastas consequências que o apego às
riquezas pode trazer a uma pessoa. Como poderia tornar-se no
preferido, ao ponto de Jesus o amar mais do que aos outros que tinham
deixado tudo por Ele?
Um terceiro nome
sugerido foi o de Natanael, aquele discípulo de quem Jesus, quando o
viu, disse: «Aí vem um verdadeiro israelita, em quem não há
fingimento» (Jo 1,47), e que, por sua vez, assim respondeu a
Jesus: «Rabi, Tu és o Filho de Deus! Tu és o Rei de Israel!» (Jo
1,49).
O principal
obstáculo para aceitá-lo é que só é mencionado por São João, e nenhum
dos outros três evangelhos fala dele; nem sequer sabem que tenha
existido um discípulo chamado Natanael. Como pôde ter estado tão perto
do coração de Jesus, e ser ignorado pelos outros evangelistas e pelos
demais livros do Novo Testamento?
As sugestões
unânimes: João
Mas, de todas as
propostas que têm sido feitas, a que mais peso parece ter na aceitação
popular é a que sustém que o Discípulo Amado é o apóstolo João, ao
qual se atribui, também, a redacção do quarto evangelho.
Em primeiro
lugar, porque está avalizada por uma antiquíssima tradição. Já no séc.
II Santo Ireneu afirmava que João, o discípulo do Senhor que se
reclinou sobre o seu peito, escreveu o quarto evangelho. Nenhuma outra
hipótese conta com uma tradição tão antiga. Nessa mesma época,
Polícrates, bispo de Éfeso, sustém a mesma notícia. E desde então,
numa cadeia ininterrupta que chega até aos nossos dias, foi-se
sustentando que João era o Discípulo Amado, ao ponto tal de
praticamente silenciar todas as vozes discordantes.
Silêncio que
faz pensar
Esta hipótese
parece corroborada por um pormenor interessante do quarto evangelho: é
o único que nunca nomeia o apóstolo João. Um silêncio verdadeiramente
surpreendente, uma vez que menciona os outros apóstolos (Simão Pedro,
André, Filipe, Tomé) muitas mais vezes do que é feito pelos outros
três evangelhos. Ao contrário, sobre João guarda um absoluto silêncio.
Isto tem sido
interpretado no sentido de que o mesmo autor – João, o discípulo amado
–, por modéstia e humildade quis omitir o seu nome, a fim de não pôr
em evidência perante os outros esta predilecção especial do Maestro
por ele, e preferiu, numa discreta alusão anónima própria do seu
espírito delicado, atribuir-se o apelativo de “Discípulo Amado”.
Além disso,
consta-nos, pelos outros evangelhos, que João pertencia ao grupo dos
três preferidos de Jesus (juntamente com Pedro e Tiago), os únicos que
presenciaram a sua transfiguração (Mc 9,2), a ressurreição da filha de
Jairo (Mc 5,37), a sua agonia na noite anterior à crucifixão (14,33),
os únicos a quem mudou o nome (Mc 3,16-17), e aos quais, juntamente
com André, contou os pormenores do fim do mundo (Mc 13,3).
Não estranharia,
pois, que dentre eles Jesus tivesse privilegiado um: João.
A hipótese
desfaz-se em água
Contudo, a estas
afirmações e indícios opõem-se alguns argumentos que levam a
questionar a figura do apóstolo João.
Em primeiro
lugar, se João, o próprio autor do evangelho, é o Discípulo Amado,
teria sido tão soberbo para se chamar a si mesmo “o amado” de Jesus,
como que a dizer: “Eu era o seu predilecto, só a mim é que Ele amava e
preferia-me a todos vós”? Ter-se-ia proposto a si mesmo como o herói
do evangelho e o exemplo mais perfeito de apóstolo? Não teria sido uma
prova de enorme arrogância, e não de humildade, como dizem os
defensores desta hipótese?
Mas, aquilo que
mais desaconselha identificar o apóstolo João com o Discípulo Amado, é
a diferença de carácter que encontramos entre os dois personagens.
João aparece nos
evangelhos como um homem ambicioso, de temperamento explosivo, com um
coração intolerante. Tão violento, que estava disposto a fazer
desaparecer uma aldeia samaritana com fogo do céu porque não os
quiseram receber quando iam a caminho de Jerusalém (Lc 9,54). Tão
ambicioso, que pediu para ocupar, com o seu irmão, os primeiros
lugares no reino que Jesus estava para fundar (Mc 10,35-37). Tão
exclusivista, que uma vez proibiu a alguém curar um doente em nome de
Jesus, só porque não pertencia ao grupo dos apóstolos, tendo então
recebido uma repreensão de Jesus (Mc 9,38).
Pelo contrário,
nos relatos do evangelho a figura do Discípulo Amado aparece como a
figura ideal, perfeita, integrada, modelo de discípulo. É o único dos
apóstolos do Senhor que nunca aparece fora de lugar, nem é repreendido
por Jesus.
Este último
facto é que termina por nos convencer de que não se trata de João. E
tão-pouco de nenhum dos outros discípulos conhecidos. É demasiado
perfeito, demasiado brilhante. Tem sempre una actuação tão correcta e
virtuosa, que não parece ser alguém real do círculo de Jesus.
A melhor
solução
“Se o
evangelista não nos dá o seu nome, não devemos tentar perguntar quem
é”, afirmava Santo Agostinho.
Mas talvez a
análise que fizemos nos esteja a dar a chave para a resposta: o
Discípulo Amado, tal como está relatado no evangelho, não existiu. As
cenas em que aparece não são históricas, mas idealizadas, como um
símbolo do que deveria ser todo o verdadeiro discípulo, todo o
seguidor de Jesus.
Com efeito, logo
da primeira vez que aparece, na última ceia, vemo-lo «reclinado no
peito» [kólpos] de Jesus (Jo 13,23). Esta atitude do Discípulo
Amado é todo um símbolo. Porque, no Prólogo do evangelho, o autor
tinha dito que Jesus Cristo «está no seio (kólpos) do Pai»
(Jo 1,18), como uma forma de exprimir a proximidade e a intimidade do
Pai com o Filho. E agora apresenta o Discípulo Amado «no peito
(kólpos) de Jesus». Isto é: o Discípulo Amado tem uma
proximidade tão estreita e profunda com Jesus, como a que Jesus tinha
com o seu Pai. Por isso é o perfeito discípulo.
Um retrato para
todos
Acresce que,
durante a crucifixão de Jesus, só ele não tem medo de acompanhá-lo
quando todos o abandonam. É ele o único a segui-lo até às últimas
consequências, e não apenas quando era aclamado triunfalmente pelas
multidões (19,26).
Quando, no
Domingo da ressurreição, todos estão desorientados, sem saberem o que
aconteceu com o cadáver de Jesus, ele é o único que acredita na sua
ressurreição apenas por olhar para o interior do túmulo (20, 8).
É ele que tem os
olhos tão puros para reconhecer o Senhor, que pode distingui-lo de
longe na pesca milagrosa, quando ninguém sabe ainda quem é (21,7).
É ele que segue
de perto a Jesus e a Pedro (isto é, a hierarquia da Igreja), sem se
considerar a si próprio, por mais amado que tivesse sido, com poder de
chefia nem de superioridade na comunidade (21,20).
Enfim, ele é
capaz de dar testemunho do que foi escrito no evangelho, porque em
toda a sua vida viveu o que pregava (21,24).
Os mil rostos do discípulo
O autor do
quarto evangelho, pois, ao apresentar a figura do «discípulo a quem
Jesus amava» não pretendeu apresentar uma pessoa histórica, nem
quis retratar-se a si mesmo, mas a todos os que ao largo da História
se esforçam por viver como o Mestre ordenou. São esses os verdadeiros
discípulos. Esses são os amados por Jesus.
De certa forma,
João quis proceder como esses fotógrafos que, para tornarem o retrato
mais atractivo, mostram em cartão a frente de algum personagem sem
cabeça. Basta alguém colocar ali a sua própria cabeça, para surgir na
fotografia como se esta fosse da sua figura.
Também o
evangelho oferece, na apresentação deste discípulo, um personagem sem
rosto, anónimo, onde cada um de nós, apenas com seguir o Mestre de
perto e viver como Ele ordenou, pode colocar nela a sua cabeça e
transformar-se no Discípulo Amado de Jesus.
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista
Trad. Lopes Morgado