Com quem casou Caim, filho de Adão e Eva?
No capítulo 4 do
livro do Génesis, a Bíblia
conta que Adão e Eva geraram dois filhos: Caim e
Abel.
O mais velho dedicava-se à agricultura e o mais
novo era pastor.
Os dois irmãos eram muito religiosos e ofereciam a
Deus
os frutos do seu trabalho: Caim os produtos do
campo,
Abel as
primeiras crias do rebanho. Mas…
O primeiro homicida
Mas, continua a dizer o Génesis, a Deus só agradava
a oferenda de Abel. Não se esclarece a razão de tal preferência, nem
como se informou Caim da diferença que Deus fazia. A Bíblia só descreve
o incómodo e a amargura de Caim, perante a atitude divina.
Então, Deus dirigiu-se a ele com uma frase
misteriosa: «Porque estás zangado e de
rosto abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto;
se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a
espreitar-te. Cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas deves
dominá-lo» (v.7).
Mas Caim não quis escutar Deus, e começou a
alimentar o ódio contra o seu irmão Abel. Até que um dia o convidou para
ir até ao campo, e ali o atacou e matou.
Expulso da terra
Deus então apresentou-se perante Caim e
interrogou-o: “Onde está o teu irmão
Abel?” E Caim respondeu com a sua famosa
frase: “Não sei dele. Sou, porventura,
guarda do meu irmão?” O Senhor replicou: “Que fizeste? A voz do sangue
do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela
terra, que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu
irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás
vagabundo e fugitivo sobre a terra.”
(vv.10-12).
Caim tomou consciência do que tinha feito, e lançou
um grito de profunda dor: «A minha culpa
é excessivamente grande para ser suportada. Expulsas-me hoje desta
terra; obrigado a ocultar-me longe da tua face, terei de andar fugitivo
e vagabundo pela terra, e o primeiro a encontrar-me matar-me-á»
(4,13-14).
Deus, comovido com o seu pranto, num acto de
bondade prometeu vingá-lo sete vezes se alguém tentasse matá-lo, pôs-lhe
um sinal de protecção e salvação, para que quem o visse o reconhecesse e
respeitasse. Assim, Caim saiu da terra que costumava cultivar e
refugiou-se no deserto, onde começou a viver uma vida errante e de
sofrimentos.
Uma figura desfigurada
Ao ler este capítulo, a primeira coisa que
encontramos é uma figura de Caim diferente daquela a que a tradição nos
tinha acostumado. Nem ele aparece tão mau, nem nos é dito que Abel tenha
sido bom.
O facto de Deus ter preferido as oferendas de um
mais do que as do outro, não significa que um fosse bom e o outro
malvado, como às vezes acreditámos. Trata-se de um facto muito comum na
antiguidade, onde o rei, o faraó ou o imperador podia escolher as
pessoas como bem entendesse, sem que isso significasse um critério de
moralidade, nem de injustiça, nem de desprezo pelos outros. No caso da
eleição de Abel, trata-se de uma iniciativa livre de Deus, como soberano
que era.
Foi a tradição que, pela lembrança do seu
assassinato, sempre conservou uma imagem negativa de Caim. Por isso se
interpretou o seu grito, que na realidade é de dor e penitência, como se
fosse de desespero e quisesse dizer: “O meu pecado é tão grande que não
mereço perdão”; o qual, não está de acordo com o texto.
E para piorar as coisas, o sinal com que Deus o
marca, e que na realidade era de misericórdia e protecção, foi entendido
como sinal de maldição e de vergonha face ao pecado cometido.
A enigmática esposa
Mas, o que mais chama a atenção é
uma série de contradições e pormenores
incoerentes com a História e o resto do relato:
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O texto começa por dizer que
Caim era lavrador e Abel pastor de ovelhas
(v.2). Mas, se os dois irmãos são filhos dos
primeiros humanos, isso é impossível. Segundo a paleontologia, os
primeiros seres humanos – que apareceram sobre a terra há 2.000.000 de
anos – viviam da caça, da pesca e dos frutos espontâneos do solo.
A domesticação de animais só surgiu 10.000
anos a.C.; e a agricultura, mais tarde ainda: uns 8.000 a.C..
Como podia Caim conhecer a agricultura
e Abel ser pastor?
::
Além disso, no versículo 4 conta-se
que Abel oferecia a Deus as primeiras crias do
seu rebanho e a gordura dos animais. Mas só muitos séculos
depois, no monte Sinai, é que Deus ordenou a Moisés que o povo lhe
oferecesse os primogénitos dos rebanhos (Ex 34,19) e as gorduras dos
animais (Lv 3,12-16).
Como podia Abel oferecer o que ainda não estava
mandado?
::
A seguir, Caim convida o seu irmão a
saírem juntos até ao campo (v.8). Mas,
porventura já viviam na
cidade?!
::
Depois do seu crime, Caim exclama:
«O primeiro a encontrar-me matar-me-á» (v.14).
Quem vai poder matá-lo, se
não existe mais ninguém a não ser Adão e Eva?
::
Mas talvez o que mais tenha
assombrado os leitores da Bíblia é ler no v.17 que «Caim conheceu a
sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Henoc».
Onde é que ele arranjou mulher?
Alguns chegaram a supor que se tratasse de Eva – a sua própria mãe! –,
pois nessa época não estaria proibido o incesto.
Tudo isto perturbou, durante séculos, as pessoas
que se colocaram tais perguntas.
O herói Caim
Hoje, os estudos bíblicos ensinam que
a história de Caim apresenta estas
incoerências, porque passou por três etapas sucessivas até acabar onde
hoje está no Génesis.
No início era um conto popular, transmitido
oralmente, e independente do relato de Adão e Eva. Nele, narrava-se a
vida de um antigo herói chamado Caim, fundador da tribo dos caimitas,
vizinhos dos israelitas. Caim viveu numa época já avançada da
humanidade; por isso, na sua história falava-se de cidades construídas,
de um culto a Deus desenvolvido, de muitas nações que povoavam a terra,
e mencionava-se a agricultura e a pecuária.
A lenda começava por contar como a sua mãe, feliz,
celebrou o dia do seu nascimento com uma frase de muita estima e
carinho: «Gerei um homem com o auxílio do Senhor» (Gn 4,1). No
conto original talvez se tratasse de um ser semidivino, bastante
conhecido no Oriente Antigo. Deduz-se que era uma figura famosa, porque
a Bíblia costumava explicar o nome das pessoas importantes. E o Génesis
dá uma explicação do nome Caim, dizendo que significa
“adquirir”.
Quando chegou a grande, Caim tornou-se o fundador
de uma famosa tribo beduína, chamada dos caimitas, que habitava
no deserto, ao sul de Israel.
A história incluía também o seu casamento, talvez
com alguma das muitas jovens pertencentes aos clãs que então habitavam o
deserto, e o nascimento de seu filho Henoc (4,17).
O homicida Caim
Esta história que os caimitas contavam,
orgulhosos do seu próprio fundador Caim, chegou aos ouvidos dos
israelitas, e estes modificaram-na em vários aspectos.
Em primeiro lugar, chamou-lhes a atenção o facto de
os caimitas viverem em pleno deserto, separados das terras
cultivadas e dedicados à pilhagem e ao saque de outras tribos. E
pensaram que esta vida penosa e errática se devia a um castigo de Deus,
que os teria condenado a viver assim por algum delito cometido pelo seu
fundador. Que delito? Não sabiam; mas, como os caimitas assolavam
permanentemente as colheitas das tribos suas irmãs de raça, imaginaram
que se tratasse de um delito contra o seu irmão. Por isso agregaram ao
relato que ele tinha um irmão, chamado Abel, a quem matara.
Como os caimitas adoravam a Javé, o mesmo
Deus que os israelitas, estes também acrescentaram que Caim oferecia ao
Senhor os seus frutos (v.3).
Além disso, aqueles beduínos eram famosos pelas
terríveis vinganças que perpetravam contra quem matava a um dos seus
membros. Por isso puseram no conto: «Se
alguém matar Caim será castigado sete vezes mais»
(v.15).
É possível que os caimitas manifestassem
exteriormente a sua pertença à tribo por meio de um sinal ou tatuagem.
Por isso, o texto refere que Caim tinha um sinal «a fim de nunca ser
morto por quem o viesse a encontrar» (v.15).
O irmão que faltava
Com todos estes acrescentos, a história entrou numa
segunda etapa. Pouco a pouco, a tradição hebraica converteu o legendário
herói chamado Caim, fundador dos caimitas, num fratricida
castigado por Deus a viver errante. Isto explica muito bem algumas
particularidades do relato.
Antes de mais, o facto de Caim ser o protagonista
principal da narração bíblica. Realmente, só se fala dele; é o único a
desempenhar um papel activo e Deus só conversa com ele. Pelo contrário,
Abel é uma figura decorativa; o seu papel é secundário e sem
importância; não diz uma única palavra, só padece; Deus nunca lhe fala;
e a sua única razão de ser no conto é complementar o protagonismo de seu
irmão.
Depois, o facto de não se dar nenhuma explicação do
nome de Abel, como se faz com o de Caim. Mais ainda: em hebraico, o seu
nome significa “nulidade”, “vazio” – isto é, algo sem consistência.
Resulta tão anódino, que mais nenhum outro personagem bíblico voltou a
utilizá-lo.
Plágio em nome de Deus
Algum tempo depois, na época do rei Salomão –
embora muitos autores defendam que o autor escreveu em fins do séc. VII
a.C. – a história de Caim passou a uma terceira etapa. Um anónimo
escritor judeu, que a conhecia, deu-se conta de que oferecia muitas
possibilidades. Esse lavrador expulso da terra cultivável, e condenado a
vagar errante para sempre, prestava-se às mil maravilhas para aprofundar
a explicação sobre a presença do mal no mundo. E, com alguns retoques,
resolveu juntá-la a seguir ao relato de Adão e Eva, apesar das
incoerências daí resultantes, como o facto de Caim desposar uma mulher,
quando nesta organização do texto ele passou a ser a terceira pessoa da
humanidade.
É que, naquele tempo, já se colocavam perguntas tão
angustiosas como estas: Porque existe o mal?, Porque há sofrimento?,
Porque motivo os seres humanos devem suportar tantas penúrias? O autor
bíblico tinha respondido com a história de Adão e Eva: porque o homem
desobedeceu a Deus; ao comer o fruto proibido, preferiu a sua própria
vontade à do Criador e cortou relações com Ele.
Porém, este diagnóstico ainda era insatisfatório. O
nosso autor sabia-o. Dizer que só quando o homem peca contra Deus se
produz uma desordem no mundo, era dizer apenas metade. Ao passo que, com
a história de Caim, condenado a uma vida penosa e dura por faltar contra
o seu irmão, pôde completar o seu ensino, dizendo que o mal também vai
crescendo no mundo pelos delitos contra os outros homens.
Por isso, ao falar de Abel destaca com insistência
a sua condição de “irmão”, que é o único que lhe interessa. Esta ideia é
tão obsessiva, que chega a repeti-la até sete vezes nesse breve texto.
Como se quisesse ensinar que todo o homem, qualquer homem, por formar
parte da humanidade, é irmão dos demais homens.
O segundo pecado original
O relato de Adão e Eva,
nos capítulos 2 e 3 do Génesis, tinha quatro partes:
a) ordem de
Deus: não comas o [fruto] da
árvore do conhecimento do bem e do mal
(2, 17);
b) desobediência
do homem: agarrou do fruto e comeu
(3,6);
c)
castigo de Deus:
por ter feito isto... (3,14);
d) esperança de
salvação: o Senhor Deus fez a Adão e à
sua mulher túnicas de peles e vestiu-os
(3,21).
O relato de Caim e
Abel, no capítulo 4, também tem
quatro partes:
a) ordem de
Deus: se procederes bem, certamente
voltarás a erguer o rosto; se procederes mal...
(v.7);
b) desobediência
do homem: Caim lançou-se sobre o irmão e
matou-o (v.8b);
c) castigo de
Deus: serás amaldiçoado pela terra...
(v.11);
d) esperança de
salvação: o Senhor marcou-o com um sinal,
a fim de nunca ser morto por quem o viesse a encontrar
(v.15b).
Isto é, o autor pretende propor o mesmo tema que o
relato de Adão e Eva: a origem do mal. Mas, agora, com uma resposta
diferente. No primeiro, o escritor sagrado explicava que o mal no mundo
dependia das relações do homem com Deus; neste, completa a informação, e
acrescenta que o mal não nasce apenas pela ruptura do homem com o
Criador. Há como que um segundo “pecado original”: o da ruptura de
relações com o irmão.
Por isso, na narração de Adão e Eva é a voz de Deus
que adverte os primeiros pais que pecaram. Pelo contrário, na de Caim, é
o sangue de Abel que o acusa: «A voz do
sangue do teu irmão clama da terra até mim»
(v.10b)
A pergunta “Com quem casou Caim” não tem, pois,
nenhuma importância. Este era um dado que pertencia ao relato primitivo,
e que ficou deslocado ao ser inserido aqui. O importante era a sua
mensagem.
Para que o rei saiba
A lição da história de Caim é realmente
revolucionária para a sua época. Pretende deixar claro que o crime
contra o irmão é tão grave como o delito contra Deus. Que a
responsabilidade do homem para com o seu próximo é igual à que tem para
com Deus.
Como dissemos, o autor inspirado escreve esta
página da Bíblia durante o governo do rei Salomão. Nesta época, tanto a
classe governante como os funcionários e os sacerdotes, ensinavam
oficialmente que um bom israelita era o que cumpria as suas obrigações
para com Deus. Insistia-se em oferecer os sacrifícios no templo, pagar
os dízimos e prestar serviços ao rei, representante de Deus.
Mas o rei, com o pretexto de servir a Deus,
explorava o povo, abusava dele utilizava-o gratuita e
desavergonhadamente nas pedreiras, para a construção dos seus palácios e
os seus grandes edifícios.
O autor deste texto, ao colocar aqui o relato de
Caim, denuncia que, segundo Deus, para ser um bom crente é necessário
também preservar a vida dos seus irmãos, os homens, cuidá-la e velar por
ela.
Actualização alargada de
Jesus
A lenda de Caim, colocada a seguir à de Adão e Eva,
fomentou o ensino do respeito ao irmão com o mesmo cuidado com que se
respeitava a Deus.
Mas os judeus só consideravam irmãos os
outros judeus, não o resto das nações. Por isso Jesus, muitos séculos
mais tarde, voltou a actualizar este mesmo ensinamento.
Quando lhe perguntaram qual era o mandamento mais
importante da Lei, respondeu que não era um, mas dois: amar a Deus com
todo o coração e amar o próximo como a si mesmo. E quando lhe
perguntaram quem era o próximo, alargou a interpretação desta palavra e
estendeu-a a todos os homens com quem nos podemos encontrar no caminho
da vida (Lc 10,25-37:
parábola do bom samaritano).
Muitas vezes, sobretudo em épocas anteriores, os
cristãos fizeram finca-pé unicamente no primeiro mandamento, o do amor a
Deus, e descuidaram gravemente o segundo, do respeito aos irmãos. Hoje,
os cristãos tendem, com frequência, a acentuar o segundo – o da
assistência às pessoas – e a esquecer o primeiro – do trato com Deus.
Do fundo da pré-historia bíblica, o conto de Caim
ensina-nos que, para encontrar o equilíbrio da vida, é preciso ter os
dois presentes.
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista,
Tradução: Lopes Morgado
in
Revista Bíblica