Terá
João Baptista baptizado Jesus?
Também na
Bíblia, como na vida, as coisas por vezes
não são o que
parecem. Quando menos se espera,
um texto
aparentemente simples esconde pormenores
importantes,
que vão muito para além de um mero efeito
de estilo do
escritor sagrado. O Baptismo de Jesus é um deles.
Ao cruzarmos o
relato dos três evangelistas sinópticos,
como faz o
autor deste estudo, verificamos que essas
pequenas
diferenças revelam ou tentam resolver questões
e tensões
graves das comunidades em que nasceram.
Veja como um
texto, aparentemente muito conhecido,
adquire outra
força a esta nova luz.
Nasce uma festa
Numa fresca manhã, provavelmente de
Janeiro do ano 27, sobre a encosta que desliza para a margem do rio
Jordão perto da povoação de Salim, deteve-se um homem proveniente de
Nazaré, de pouco mais de trinta anos. De cima, contemplou o grandioso
espectáculo: uma variada multidão de camponeses, soldados, funcionários
públicos, homens e mulheres de todas as idades e condição acudiam para
serem baptizadas por um austero profeta recentemente aparecido, chamado
João.
Lá em baixo o profeta, com o rio até
à cintura, depois de exortar a multidão à conversão, levantava a sua mão
e derramava sobre a cabeça dos penitentes a água cristalina.
Naquele agreste cenário de pedras e
palmeiras, misturado entre o povo simples, também o homem de Nazaré se
dirigiu para João. E submergindo nas águas, como se tivesse culpas que
lavar, deixou-se baptizar mansamente.
O acontecimento foi considerado de
tal importância pela Igreja primitiva, que é relatado pelos três
evangelhos sinópticos – Mateus, Marcos e Lucas. Foi imortalizado em
inumeráveis quadros, pinturas e relevos, passou a ser um dos temas mais
divulgados da iconografia cristã, e converteu-se na grande festa
litúrgica do “Baptismo do Senhor” que dá início ao ciclo dos Domingos do
Tempo Comum.
Igual, mas diferente
Mas, quando lemos o relato do
baptismo de Jesus nos Evangelhos, encontramo-nos com três versões
diferentes. Com efeito, Mateus diz que João não queria baptizá-lo
e opôs resistência (Mt 3, 13-17). Ao contrário, Marcos afirma que
o baptizou sem nenhum problema, como um acontecimento comum (Mc 1,9-11).
Por sua vez, São João omite-o totalmente, como se não tivesse
existido. E Lucas só o menciona de passagem, quase como quem não
o quer fazer (Lc 3,21-22). Qual deles tem
razão e conta o acontecimento como ele sucedeu historicamente?
Que mistério se esconde por trás destes
relatos do baptismo?
Para entendê-lo bem, é preciso ter em
conta uma chave dos escritores evangélicos: eles não quiseram apenas
contar os acontecimentos, como quem faz um relato breve e frio, mas
procuraram aproveitar ao máximo os episódios narrados, para tirar
partido de todos os ensinamentos possíveis.
Para isso, cada evangelista devia ter
em conta os destinatários para quem escrevia, e os problemas
particulares da comunidade à qual dedicava o seu evangelho. Com esta
chave de leitura na mão, tratemos agora de compreender o que sucedeu
realmente.
Por
algum motivo se rasgaram os céus
Antes de mais, há que deixar bem
claro que o baptismo de Jesus foi um facto histórico, um episódio real
da sua vida. E o primeiro evangelista que o pôs por escrito foi Marcos,
que compôs o seu livro por volta do ano 70. Segundo o seu relato, mal
Jesus se apresentou no rio Jordão foi baptizado por João. Então,
ocorreram três cosas.
A primeira
é que Jesus, «quando saía da água, viu serem rasgados os céus» (Mc
1,10). Este acontecimento era esperado há muito. Um antigo profeta
anónimo, chamado o Terceiro Isaías,
amargurado pelo estado de desolação em que Israel jazia no séc. V a.C.,
tinha dirigido uma angustiosa e comovedora prece a Deus pedindo-lhe que
abrisse os céus ainda que fosse pela última vez e realizasse um grande
milagre em favor do seu povo, tal como tinha feito antigamente: «Quem
dera que rasgasses os céus e descesses!» (Is 63,19). Pois bem, o
baptismo de Jesus era a resposta a essa prece. Mas de uma forma
impressionante. Deus abria os céus agora para avisar que tinha enviado
não um favor qualquer, mas o seu Filho em pessoa. Com este pormenor,
Marcos
queria dizer que esse homem que estava a ser baptizado vinha nada
menos que dos céus, de junto de Deus.
O fim tinha começado
A segunda coisa que, segundo
Marcos, sucedeu, foi que Jesus viu «o Espírito descer sobre Ele como
una pomba» (v.10). Com este facto, cumpria-se outra profecia.
Joel, 400 anos antes, tinha
antecipado que, quando chegasse o fim dos tempos, Deus ia derramar o seu
Espírito dos céus sobre toda a humanidade (Jl 3,1-5). Agora,
Marcos anunciava que, com esta
descida sobre Jesus que tinha sido baptizado, ficavam inaugurados os
últimos tempos, os mais importantes da História.
Para Marcos era muito importante
esclarecer que a descida do Espírito aconteceu «quando [Jesus]
saía da água» (Mc 1, 10) e o baptismo tinha terminado. Isto é, que o
Espírito Santo não tinha vindo como consequência do baptismo de João,
pois este ainda não era um sacramento nem tinha nenhuma eficácia, como
terá depois o baptismo cristão. A ablução que o precursor administrava
era apenas um rito exterior, símbolo de que os pecadores que se
aproximavam arrependidos e mudavam de vida ficavam interiormente
purificados. O próprio João tinha-o esclarecido, dizendo: «Eu
baptizei-vos em água, mas Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo»
(Mc 1,8).
Sem
que ninguém soubesse
A terceira coisa que sucedeu
foi que «veio uma voz dos Zeus», e falando unicamente a Jesus lhe
disse: «Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus todo o meu agrado»
(Mc 1,11).
Para entender esta sentença, é
preciso saber que, desde há muitos séculos, Israel esperava um
misterioso personagem, a quem chamavam o “Servo de Javé”, que havia de
redimir todo o povo judeu com os seus sofrimentos. Segundo
Isaías, que o anunciou, uma das
suas características era que Deus se comprazeria nele (Is 42,1). Pois
bem, ao dizer que o jovem nazareno recém-saído da água era aquele em
quem Deus se comprazia, a voz indicava Jesus como o “Servo de Javé”, o
redentor de Israel, o ansiado personagem ungido com o espírito profético
de Deus, que um dia descenderia até à própria morte humana a fim de
infundir uma vida nova a todos os homens.
Segundo
Marcos, só Jesus viu como se
rasgavam os céus e o Espírito descia, pois escreve: «Viu [no
singular] serem rasgados os céus e o Espírito descer» (Mc 1,10).
E só Jesus ouviu a voz do Padre, uma vez que a voz diz: «Tu és...».
Para Marcos, pois, a verdadeira identidade de Jesus, o Filho de Deus
vindo do céu rasgado, o que inaugurava os últimos tempos, é um segredo
conhecido apenas por Jesus. Nem o Baptista, nem os que estavam presentes
naquele dia no Jordão, tiveram conhecimento de nada.
O
mal de se entender mal
Apesar da beleza deste relato, o
episódio foi motivo de escândalo na Igreja primitiva. Por que motivo
Jesus se fez baptizar pelo filho de Zacarias? Normalmente a pessoa
que recebe é inferior àquela que dá. Portanto o baptismo deveria ter
sido ao contrário: alguém superior, como Jesus, é que deveria ter
baptizado a outro de menor dignidade, como João. Mas, porque sucedeu ao
contrário, e João é que baptizou Jesus?
A pergunta estendeu-se por todas as
partes. Faziam-na os cristãos, as pessoas em geral, e quantos conheciam
o episódio do baptismo. Quando, alguns anos mais tarde, tocou a Mateus
escrever o evangelho, a questão era acutilante e tinha-se tornado num
sério problema teológico. Em muitos ambientes da Palestina já se tinha
começado a considerar João Baptista superior a Jesus. Consideravam-no
como o verdadeiro Messias, formaram-se grupos que veneravam a sua figura
e lhe prestavam culto. Eram as comunidades chamadas “joânicas”.
Quem devia ir a quem?
Por isso
Mateus, ao escrever a sua versão não pôde iludir o
tema escandaloso do baptismo de Jesus. E tratou de encontrar uma solução
a tão ríspido problema, criando um contexto literário onde o próprio
Jesus pudesse dar uma explicação. Para isso, ambientou uma cena em que
João trata de impedir o baptismo perguntando: «Eu é que tenho
necessidade de ser baptizado por ti, e Tu vens a mim?» (Mt 3,14).
Era a angustiosa pergunta, que na realidade João não tinha feito a Jesus
no dia do baptismo, mas que toda a gente fazia. E a resposta de Jesus,
que era a resposta de Mateus às pessoas preocupadas da sua comunidade,
foi: «Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça.»
Com isto, Mateus explicava que o
baptismo era vontade de Deus. Mesmo não tendo pecado, Jesus
apresentou-se como um penitente qualquer no meio do povo, a fim de se
identificar com os homens. Carregava com os pecados de todos eles, e por
isso foi lavá-los com o seu baptismo. Acaso não tinha profetizado Isaías
que Ele «foi contado entre os pecadores»?
(Is 53,12).
Cristo era, assim, o representante da
humanidade pecadora. A intenção do baptismo Jesus ficava assim
esclarecida por Ele próprio: quis fazer-se mais um entre os pecadores.
Além disso, Mateus fez uma segunda
modificação. Segundo Marcos, os três fenómenos acontecidos (a visão do
céu aberto, a visão do Espírito e a escuta da voz) tinham sido
percebidos apenas por Jesus. Segundo Mateus, o primeiro elemento foi
sentido por todos os presentes, pois diz «que se rasgaram os céus»
(v.16), em vez de dizer que Jesus «viu serem rasgados os céus»,
como escrevia Marcos. Também a voz de Deus foi ouvida por todos, pois
ela diz: «Este é o meu Filho», como que dirigindo-se a todos, e
não «Tu és o meu Filho», como em Marcos. Assim, para Mateus todos
foram testemunhas da superioridade de Jesus sobre João. Só o segundo
elemento, a visão do Espírito, continua a ser exclusiva de Jesus, pois
também Mateus escreve que «viu [no singular] o Espírito de
Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele».
Discussões entre os discípulos
O evangelho de Mateus não chegou a
convencer. Se, apesar de tudo, Jesus tinha sido baptizado por João, este
era superior. Não havia nada a fazer. E a questão sobre a predominância
de Jesus ou do Baptista agudizou-se.
Os evangelhos registam os ecos
destas discussões. Um dia,
por exemplo, o povo comentava que o Baptista era a pessoa mais
importante nascida de mulher. Jesus confirmou-o: «Digo-vos: entre os
nascidos de mulher não há profeta maior do que João; mas, –
acrescentou logo – o mais pequeno do Reino de Deus é maior do que
ele» (Lc 7, 28). E quem era “o” mais pequeno do Reino de Deus? Quem
era o que não tinha vindo para ser servido, mas para servir a todos? Não
era outro senão Jesus. Assim, Ele mesmo, delicadamente, se declarava
superior a João.
Noutra oportunidade, os círculos
joânicos ensinavam que o seu mestre era a Luz que veio para iluminar
este mundo. Então, o quarto evangelista teve de esclarecer: «Ele não
era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz. / O Verbo (ou seja,
Jesus) era a Luz verdadeira» (Jo 1,8-9).
Também circulavam nestes grupos
narrações maravilhosas sobre o nascimento milagroso de João, e como um
anjo tinha falado com o seu pai Zacarias, curando a esterilidade de sua
mãe Isabel. Lucas recolheu estes relatos no início do seu evangelho, mas
em seguida colocou os de Jesus, para recordar como Este era tão superior
a João que nem sequer tinha necessitado de um pai humano para nascer (Lc
1-2).
Eliminar o baptizador
Perante esta perspectiva de
confrontação entre os cristãos e os joânicos, o baptismo de Jesus por
João tornava-se cada vez mais embaraçoso para a igreja primitiva.
Foi neste momento que tocou escrever
a Lucas, o
terceiro evangelista. E não querendo eliminar este facto, pela
importância que tinha, optou por eliminar João. E escreve simplesmente:
«Todo o povo tinha sido baptizado; tendo Jesus sido baptizado
também…» (Lc
3,21). Quem o baptizou? Não
diz. Mas quis insinuar que não foi João; pois, um versículo antes de
narrar o baptismo de Jesus, diz que João estava encerrado na prisão por
ordem do rei Herodes (Lc 3,20).
Em seguida Lucas acrescenta uma nova
alteração: que Jesus estava «em oração», quando ocorreram as três
manifestações de Deus. Com este pormenor quis desviar a atenção do facto
do baptismo para centrá-la na figura majestosamente orante de Jesus.
Finalmente, Lucas completa o processo
iniciado por Mateus, uma vez que o povo presente naquele dia não só vê
os céus abertos e ouve a voz, como também vê o Espírito Santo descer
sobre Jesus «em forma corpórea, como uma pomba» (v.22). Agora os
três acontecimentos são publicamente conhecidos. Agora, perante toda a
gente, está claro que só Jesus é o centro e o vértice da cena.
Até
o próprio Apolo
Mas o movimento joânico continuou a
adquirir um tal auge e expansão, que chegou até Alexandria, no Egipto. O
livro dos Actos dos Apóstolos relata que um dos oradores mais brilhantes
da antiguidade, um tal Apolo, oriundo desta cidade, pertencia a esse
grupo (Act 18,24-25).
Pouco a pouco atingiu a Ásia Menor,
onde foi ganhando adeptos entre alguns círculos judaicos. Também em
Éfeso, nos confins da Ásia Menor, os Actos contam que Paulo encontrou
discípulos de João Baptista (Act 19,1-3). De tal modo esta seita chegou
competir com os cristãos, que se tornou uma verdadeira ameaça para a
vida dessas comunidades.
Por seu lado, as respostas do
evangelho de Lucas tão-pouco satisfaziam totalmente as pessoas, que
continuavam a questionar a atitude de Jesus em se fazer baptizar
Por isso, quando se compôs o
quarto e último evangelho, precisamente em Éfeso, onde as
comunidades joânicas eram fortes, o seu autor decidiu cortar pelo são, e
fez o que nenhum outro evangelista se tinha atrevido a fazer: suprimiu o
relato do baptismo de Jesus. É o único a não mencioná-lo. Somente o
supõe, quando conta que um dia João Baptista viu vir Jesus de longe, e
disse à multidão: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo! […] Vi o Espírito que descia do céu como uma pomba e
permanecia sobre Ele.» (Jo 1,29.32). Mas, quando é que João Baptista
viu o Espírito descer sobre Jesus? O evangelista não o diz. Sobre este
conflituoso problema do baptismo, prefere guardar um prudente silêncio.
Para
entendê-lo melhor
Eis como um facto histórico,
realmente sucedido na vida de Jesus, foi contado de modo diferente pelos
quatro evangelistas, conforme os problemas que as comunidades
destinatárias tinham. Sem distorcer a verdade, sem alterar a mensagem
nem modificar o essencial, cada autor soube acomodá-lo para que os
leitores pudessem entendê-lo e aproveitar ao máximo a riqueza escondida
neste acontecimento vivido por Jesus.
Conservando o relato primitivo, cada
qual deu-lhe forma diferente, retocou-o e amoldou-o, não segundo o seu
próprio parecer, mas segundo o mesmo Espírito Santo os inspirava. Não o
adaptaram para se lhes tornar mais cómodo nem pelo afã de alterar a
realidade, mas porque Deus os movia para que a sua palavra fosse melhor
compreendida pelas pessoas.
Foi a forma como os primeiros
evangelistas pregaram. É a forma como também nós o devemos fazer: pegar
nos factos que lemos nas Sagradas Escrituras, e, se para os outros, os
que estão afastados da fé, eles são incompreensíveis, não os repetir
como estão, mas incarná-los, amoldá-los à nossa vida, assimilá-los, e só
depois difundi-los, transformados em gestos compreensíveis por todos os
membros da comunidade.
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista,
in
Revista Bíblica