QUEM FORAM AS AVÓS DE JESUS
Nas listas
genealógicas da Bíblia,
as mulheres não costumam
aparecer.
Por isso, a presença de
nomes femininos na de Jesus
é um facto surpreendente e
revolucionário.
E se indagarmos quem foram
essas mulheres, a sua
aparição deixa-nos ainda
mais estupefactos. São elas:
Tamar, uma incestuosa;
Raab, uma prostituta;
Rute uma excomungada;
Betsabé, uma adúltera.
Para compreender uma pessoa
não é necessário conhecer as suas avós. É verdade que os nossos
antepassados têm influência sobre nós; mas, um punhado de mulheres
distanciadas por várias gerações e afastadas por vários séculos,
ajudarão a entender o sentido de uma vida? Seria exagerado afirmar isso.
Mas não no caso de Jesus.
Ele teve umas avós, quer dizer, umas antepassadas tão especiais, que, ao
conhecê-las, começamos a compreender melhor a sua pessoa, a sua missão e
a sua grandeza de Filho de Deus.
Um início que ninguém lê
São Mateus inicia o seu
evangelho de uma forma realmente estranha: com uma longa lista de nomes,
chamada “genealogia”, dos antepassados de Jesus (Mt 1,1-17).
Confrontar o leitor, logo a
abrir, com uma lista assim tão longa e aborrecida de personagens, parece
um recurso pouco feliz de Mateus. É mesmo possível que nenhum de nós
tenha lido alguma vez este passo do Evangelho, pesado e aparentemente
sem grande sentido.
Mas, se o analisarmos,
veremos que não é assim. Porque, no meio desta cadeia de 42 nomes
masculinos, a presença de quatro mulheres, as únicas quatro antepassadas
de Jesus que são nomeadas, projecta uma das mensagens mais emotivas do
Novo Testamento.
Genealogia de Jesus Cristo
1
Genealogia
de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão:
2 Abraão
gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e
seus
irmãos;
3 Judá
gerou, de Tamar, Peres e Zera; Peres gerou Hesron;
Hesron
gerou Rame;
4 Rame
gerou Aminadab; Aminadab gerou Nachon; Nachon
gerou
Salmon;
5
Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed;
Obed gerou
Jessé;
6 Jessé
gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou
Salomão;
7
Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou
Asa;
8
Asa gerou
Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Uzias;
9
Uzias gerou
Jotam; Jotam gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias;
10
Ezequias
gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon
gerou
Josias;
11
Josias
gerou Jeconias e seus irmãos, na época da
deportação
para Babilónia.
12
Depois da
deportação para Babilónia,
Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel;
13
Zorobabel
gerou Abiud; Abiud gerou Eliaquim; Eliaquim
gerou Azur;
14
Azur gerou
Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud;
15
Eliud gerou
Eleázar; Eleázar gerou Matan; Matan gerou
Jacob.
16
Jacob gerou
José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus,
que se
chama Cristo.
17
Assim, o
número total das gerações é, desde Abraão até
David,
catorze;
de
David até ao exílio da Babilónia, catorze;
e, do exílio da Babilónia até Cristo, catorze.
(Mateus 1,1-17; ver Lc 3,23-38)
A importância de ter avós
Na antiguidade, as
genealogias eram muito importantes. Ali estava todo o registo da
ascendência familiar. Ainda hoje, entre nós, há gente que conserva com
orgulho a sua árvore genealógica.
Mas para os judeus eram
ainda mais importantes, porque entre eles era indispensável demonstrar a
pureza da raça. Possuir mistura de sangue estrangeira, isto é, ter um
não judeu entre os seus antepassados, significava perder os direitos
como membro do povo de Deus.
Por exemplo, se alguém
queria ser sacerdote, devia mostrar que a sua linha genealógica
descendia directamente do sacerdote Aarão, irmão de Moisés. Se alguém
tinha a pretensão de ser rei, devia provar que pertencia à família do
rei David. Quando alguém queria casar, devia documentar a pureza racial
da sua futura esposa pelo menos desde há cinco gerações.
Sabemos que o próprio
Herodes o Grande, que governava o país no tempo de Jesus, foi sempre
desprezado pelo povo, por causa de ter sangue do povo edomita herdado
dos seus antepassados. Este facto chegou a incomodá-lo tanto, que em
certa ocasião mandou destruir todos os arquivos de registos oficiais do
país para que ninguém pudesse demonstrar que possuía uma linha de
antepassados mais pura do que a dele.
Três etapas da vida
São Mateus, que escreve o
seu Evangelho para os judeus, quer apresentar Jesus como Messias
esperado, e por isso pensa que a melhor forma é começar com uma
genealogia. Para isso, elaborou cuidadosamente uma lista, ordenada,
meditada e pensada com todo o pormenor.
Em primeiro lugar, dividiu
todos os antepassados de Jesus em três grupos, segundo três etapas
importantes da história judaica: um primeiro grupo, que
vai de Abraão até ao rei David (vv. 2-6); um segundo grupo,
do rei David até ao exílio dos israelitas em Babilónia (vv. 6-11); um
terceiro grupo, do exílio até à vinda de Jesus Cristo
(vv.12-16).
Nestas três secções
de nomes estão representadas, de certa forma, as três etapas da
vida de qualquer pessoa.
As lições da História
Com a primeira secção,
o evangelista mostrou que toda a gente nasce para a grandeza. Por isso
culmina com o rei David, o maior rei de Israel, e o homem que levou o
povo hebreu ao seu máximo esplendor e o transformou numa potência
mundial. Segundo Mateus, pois, cada pessoa nasce essencialmente para ser
rei.
Com a segunda secção,
ensinou que qualquer pessoa perde a sua grandeza quando peca, e que
sempre terminará escrava das suas más acções. Por isso este grupo
conclui com o exílio na Babilónia. É a etapa da vergonha, do desastre e
da tragédia da nação hebraica.
Com a terceira secção
mostra que o homem recupera a sua grandeza graças ao Filho de Deus. Por
isso esta cadeia termina em Jesus Cristo, a pessoa que libertou as
pessoas da sua escravidão. Segundo este evangelista, pois, Deus não
permite que o final da História seja trágico. Em Jesus Cristo, qualquer
desgraça pode transformar-se em triunfo.
O Messias escondido
Mateus utiliza um segundo
jogo de números na sua genealogia. Se contarmos os nomes que vão de
Abraão a David, de David ao exílio, e do exílio até Jesus Cristo, em
todos os casos dá o número 14. Ele próprio se encarrega de o dizer, no
final:
«O número total das gerações é, de Abraão até David, catorze; de David
até ao exílio da Babilónia, catorze; e, do exílio da Babilónia até
Cristo, catorze»
(1,17).
Isto não é real. Mateus
teve de suprimir vários nomes para obter tal cifra. Por exemplo, entre
Perés e Nachon não pode haver apenas três pessoas para cobrir os 430
anos que, segundo o livro do Êxodo, durou a escravidão do Egipto. Do
mesmo modo, apenas três ascendentes não podem preencher os três séculos
que vão de Salmon a Jessé.
Porque
motivo terá Mateus encurtado artificialmente as gerações para obter o
número catorze?
Para entender isso temos de
explicar uma característica da língua hebraica. Enquanto em português
escrevemos os números com certos sinais (1, 2, 3), e as letras com
outros diferentes (a, b, c), em hebraico utilizam-se as mesmas letras
para escrever os números; o 1 é a mesma letra “a”; o 2, a “b”; etc.
Assim, se somarmos as letras de qualquer palavra hebraica, pode obter-se
sempre uma cifra, chamada “gematria”.
Ora, segundo estes
cálculos, muito conhecidos e difundidos entre os judeus, o número
gemátrico do rei David era exactamente o 14, uma vez que nas suas letras
temos: D (= 4) + V (= 6) + D (= 4) = 14.
Agrupando os nomes em
catorze, Mateus encontrou uma elegante e engenhosa maneira de
dizer aos judeus que Jesus era descendente de David, e por isso o
verdadeiro Messias. Mais ainda, ao reuni-los em três listas
de 14, como o 3 simbolicamente significa “totalidade”, o evangelista
quis dizer que Jesus é o “tríplice David”, e por isso o Messias total, o
autêntico e verdadeiro descendente de David.
Não apta para mulheres
Mas, o realmente assombroso
desta genealogia, é que Mateus incluiu o nome de quatro mulheres.
Na lista de antepassados
dos grandes personagens nunca figuravam as mães. A mulher no tempo de
Jesus não exercia direitos legais, nem servia para testemunhar. Não era
considerada uma Pessoa, mas uma “coisa”, propriedade do seu pai, ou do
seu esposo, e não tinha importância na sociedade, onde não contava para
nada. Vemos isto, por exemplo, quando o Evangelho, ao relatar a
multiplicação dos pães por Jesus, diz que foi perante uma verdadeira
multidão, composta por «uns cinco mil homens, sem contar as mulheres
e as crianças» (Mt 14,21).
Era tal
o desprezo pelo sexo feminino na antiguidade, que todo o bom Judeu, ao
levantar-se pela manhã, dava graças a Deus por três coisas: por não ter
nascido pagão, por não ter nascido escravo e por não ter nascido mulher.
Nas listas genealógicas da
Bíblia, as mulheres não costumam aparecer. Por isso, a presença de nomes
femininos na de Jesus é um facto surpreendente e revolucionário. E se
investigarmos quem foram estas mulheres, a sua aparição deixa-nos ainda
mais estupefactos. São elas: Tamar, a incestuosa (v.3); Raab,
a prostituta (v.5); Rute, a excomungada (v.5), e Betsabé,
a adúltera (v.6).
A avó Tamar
A primeira antepassada de
Jesus mencionada por Mateus é Tamar. A sua história aparece em Génesis
38. Casou muito nova com Er, e enviuvou pouco depois sem ter filhos.
Segundo uma lei daquele tempo chamada “levirato”, o seu cunhado devia
ter relações com ela para lhe dar um filho, que seria do seu defunto
esposo. Assim, este não ficaria sem descendência, pois a maior desgraça
para alguém era morrer sem filhos.
O seu cunhado Onan casou,
pois, com Tamar, mas convivia com ela evitando os filhos, por um
processo a que se deu precisamente o seu nome: onanismo.
Finalmente morreu também, e Tamar, duas vezes viúva, continuou sem
filhos.
Judá, o pai dos seus dois
maridos, suspeitando que ela era uma mulher fatídica, negou-se a
entregar-lhe o seu terceiro filho como esposo, pois não queria perder o
último que lhe restava.
Então, Tamar pensou num
estratagema. Um dia, disfarçada de prostituta, sentou-se junto de um
cruzamento quando o seu sogro ia a passar. Este, confundindo-a,
prometeu-lhe um cabrito em troca dos seus favores. E, como senha,
deixou-lhe o seu cajado, o seu cinto e o seu selo identificativo. Quando
mais tarde lhe enviou o cabrito como paga, ela já lá não estava, e não
havia notícia de nenhuma prostituta nesse lugar.
Mas ela ficou grávida
daquela relação. Quando Judá soube que a sua nora estava à espera de um
filho, enfureceu-se e, envergonhado, exclamou: «Tirem-na de casa e
queimem-na viva.» Tamar, então, activou a segunda parte do seu
plano, enviando uma mensagem ao seu sogro: «O dono deste cajado,
deste cinto e deste selo é o pai do filho que espero nas minhas
entranhas.»
Assim Tamar, a incestuosa,
conseguiu um filho. E assim salvou a sua vida. Mulher perversa, ou
astuta? Ou simplesmente mulher? O certo é que Mateus colocou o
escandaloso nome de Tamar entre os antepassados de Jesus.
A avó Raab
A segunda mulher mencionada
é Raab, prostituta de profissão. A sua história é uma história de
espionagem militar, durante a época da conquista (Josué 2).
Quando Josué, chefe do
exército de Israel, chegou às portas da terra prometida, deparou-se com
a cidade de Jericó. Para saber se era possível tomá-la ou não, enviou
espiões que se alojaram em casa de Raab, uma prostituta da cidade.
Descobertos pela polícia
local, a mulher escondeu-os e ajudou-os a fugir, descendo-os com umas
cordas pela janela das muralhas. Mas antes, pediu-lhes que o exército
hebreu poupasse a vida dela e a da sua família quando tomasse a cidade.
Eles aceitaram e disseram-lhe que atasse uma faixa vermelha aos barrotes
da janela para identificar a casa.
O assalto à cidade foi
tremendo. Os soldados de Josué destruíram e saquearam Jericó, e todos os
seus habitantes foram assassinados. Mas Raab salvou a sua vida e a da
sua família, como tinha acordado com os espiões. Pouco depois, Raab, a
prostituta, chegou a figurar entre as antepassadas de Jesus. E Mateus
não se esqueceu de colocar o seu nome na genealogia.
A avó Rute
Era uma rapariga moabita,
isto é, do país de Moab (Rt 1-4). Conheceu o amor desde muito nova. Mas
também a dor e a solidão, já que enviuvou sem ter tido filhos.
A partir de então, foi um
exemplo de fidelidade à sua sogra Noemi, a quem sempre acompanhou para
ajudá-la. Foi uma mulher de trabalho, muito sacrificada para ganhar o
seu pão. Mais tarde voltou a conhecer o amor na pessoa de Booz. Viveu,
então, um segundo idílio nos campos de Belém. E encontrou finalmente a
felicidade, como prémio do seu trabalho, da sua abnegação e da sua
fidelidade.
Mas, embora a sua moral
fosse inatacável, tinha algo vergonhoso para qualquer judeu, como
dissemos: era estrangeira. Pior ainda, pertencia aos moabitas, um dos
povos mais odiados pelos judeus. Tão desprezáveis eram para eles, que a
própria Lei judaica tinha-os excomungado para sempre, e não lhes era
permitido nunca formar parte da fé de Israel. O livro do Deuteronómio
mandava: «Um moabita ou uma moabita não serão admitidos na assembleia
do Senhor; nem mesmo a sua décima geração poderá jamais ser ali
admitida» (Dt 23,4).
Esta mulher, excomungada e
desprezada, foi escolhida por Mateus para figurar entre as antepassadas
de Jesus.
A avó Betsabé
Era uma mulher hitita,
esposa de Urias, oficial do rei David (2 Sm 11). Vivia com o seu esposo
em Jerusalém, perto do palácio do rei. Era muito bonita. Tão bonita, que
o rei David se encantou perdidamente por ela. Aproveitando o facto de
Urias ter partido para a guerra, o rei mandou chamá-la ao palácio, e
ambos, por mútua cumplicidade, se uniram amorosamente.
Ela, então, ficou grávida.
Para evitar o escândalo, David fez vir Urias da frente de batalha e
deu-lhe uns dias de férias em sua casa, a fim de que este convivesse com
sua mulher durante um tempo razoável e assim cobrisse as aparências. Mas
Urias opôs-se a este privilégio, sabendo que os seus soldados estavam em
plena guerra.
Perante isto, o rei fez com
que o mandassem novamente para o meio da luta, para a zona mais dura e
de maior perigo. Deste modo, Urias morreu e David pôde ficar com sua
esposa Betsabé.
Algum tempo depois, um
profeta, mediante uma comovedora parábola, fez ver a David o seu crime e
o seu gravíssimo pecado. David, humildemente, reconheceu a sua culpa,
arrependeu-se e pediu perdão.
Betsabé deu muito amor a
David. Mas também muitas intrigas, ciúmes, lágrimas e dor. E Mateus
colocou esta mulher adúltera como a quarta antecessora de Jesus.
Os parentes pobres
Estas são as únicas quatro
avós de Jesus que surgem na sua genealogia. Quatro mulheres de séculos
diferentes, entre uma longa cadeia masculina. Se Mateus tivesse
procurado com mais afinco no Antigo Testamento, não teria podido
encontrar quatro personagens mais indignas de serem antepassadas do
Senhor.
Por isso torna-se
assombroso encontrá-las aqui. Para os antigos, a genealogia era o motivo
de orgulho, a razão da sua honra e renome. Aqui, pelo contrário, tais
mulheres são apenas causa de vergonha e opróbrio.
Com as genealogias
demonstrava-se que se provinha de personagens importantes e famosos do
passado. Aqui, prova-se que Jesus provém também da miséria humana, do
mais baixo e mau de Israel.
Pela genealogia,
compreendia-se a grandeza de uma pessoa, o seu passado ilustre e a sua
nobreza. Aqui vê-se também a desonra que arrasta a sua parentela.
Mas há um gesto subtil e
delicado em tudo isto: é uma lembrança intencional e ao mesmo tempo
embaraçosa. Com ela, Mateus quis tornar claro o programa da vida de
Jesus. Porque as suas avós escondem uma realidade simbólica que as
transcende. Nas histórias de quedas e de perdão de cada uma delas, está
retratada toda a humanidade, pecadora e resgatada, indigna e libertada,
abjecta e esperançada. É dessa grande família que o Senhor faz parte.
O evangelista quis mostrar
que Jesus nunca se envergonhou dos seus parentes, nem de contar os
grandes excluídos entre a sua família. Aceitou-os tal como tinham sido,
pois por eles viera ao mundo. E estreitou-os a todos num abraço eterno,
único, sentido, como se nunca mais quisesse largá-los.
A
genealogia de Jesus, em São Mateus,
não é
uma simples lembrança de família.
É o
constante convite para uma Igreja
onde
todos tenham lugar,
e
ninguém se sinta excluído.
Uma
lição ainda por aprender.
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista,
in
Revista BÍBLICA nº 301