QUE
DIZ A BÍBLIA DO ANTICRISTO?
De todos os personagens
mencionados pela Bíblia, nenhum se tornou
tão enigmático e ao mesmo
tempo tão mal conhecido como o Anticristo.
Não admira, por isso, que o
tema tenha atraído tanto a atenção dos
leitores da Bíblia, nem que
de vez em quando surjam pessoas
dizendo as coisas mais
díspares ou disparatadas sobre ele.
O Anticristo, um problema
Tem-se afirmado que seria
um judeu, filho de uma monja conversa e de um bispo, não teria anjo da
guarda, nasceria blasfemando, adquiriria o conhecimento de todas as
ciências, com enorme rapidez, que Satanás seria o seu companheiro
permanente, e que faria prodígios mágicos como elevar-se no céu para
imitar a Ascensão de Jesus Cristo.
Ao longo da História foi
identificado com pessoas diferentes. Na Idade Média, por exemplo,
com Maomé, fundador do islamismo; e, em épocas mais
modernas, com Lutero, iniciador da reforma protestante.
Várias vezes chegou-se, mesmo, a fixar o lugar e a data do seu
nascimento.
A fonte principal donde as
pessoas costumam extrair os pormenores acerca do Anticristo é o livro do
Apocalipse.
Daí se deduz que estará simbolizado pelo número 666, aparecerá no fim
dos tempos e, com o seu poder, tentará dominar e destruir todos os fiéis
de Cristo. Mas, o mais curioso é que o Apocalipse nunca nomeia o
Anticristo. Tão-pouco falam dele os Evangelhos, nem as Cartas de São
Paulo.
Os únicos lugares onde é
mencionado pela Bíblia são as duas primeiras
Cartas de São João;
e o autor fá-lo precisamente para esclarecer essa crença que, tal
como hoje, já então era revestida com ideias espúrias.
Donde vem esta ideia?
A espera de um Anticristo
tem a sua origem numa
lenda judaica. Recordando a sua dolorosa experiência
do passado e as perseguições de que tinha sido objecto quase
permanentemente ao longo da sua História, os judeus pensaram que também
no futuro sofreriam esta situação. E assim, acreditaram que, quando
chegasse o Messias (= o Cristo) no fim dos tempos, apareceria também um
homem poderoso, que, com violência e crueldade nunca vistas, lhe faria
guerra para aniquilar o povo de Deus.
O profeta
Ezequiel
já fala de um príncipe que aparecerá semeando com brutalidade o terror,
e dá-lhe o nome enigmático de Gog (Ez 38,1-23).
Porém, mais tarde o livro
de Daniel
prognostica a chegada de um rei poderoso sob o símbolo de um corno
pequeno, que blasfema contra Deus, oprime o seu povo e proíbe o
culto (Dn 7,8-26). Embora Daniel se referisse ao rei Antíoco IV da
Síria, que governou entre 176 e 164 aC e perseguiu o povo judeu
durante vários anos, esta misteriosa visão fez surgir a lenda de um
futuro ser terrorífico no fim dos tempos, do qual o rei assírio era
apenas um precursor.
A sua passagem para o cristianismo
Esta crença judaica, que
sobretudo ficou plasmada nos livros
apócrifos escritos imediatamente antes do
Novo Testamento, passou rapidamente para os primeiros
cristãos. E mal começaram os problemas na primitiva igreja, as
sangrentas perseguições e a feroz repressão, pensou-se que tudo isto
estava orquestrado pelo famoso Anticristo que ia aparecer de um momento
para o outro.
Surgiu, então, um
sem-número de rumores sobre este sujeito. Onde iria aparecer, em que
data, que poderes teria, que façanhas realizaria, que danos provocaria
nos eleitos, e até como havia que preparar-se para combatê-lo.
O temor penetrou em todas
as comunidades, e o pânico se apoderou da gente ao ponto tal que todo o
mundo prestava mais atenção à maldade deste personagem contra a Igreja,
que o dano que os seus próprios pecados lhe causavam a ela.
Era preciso esclarecer as coisas
Neste momento de confusão,
o apóstolo João escreve a sua
Primeira Carta
às comunidades da Ásia. E entre outras coisas diz-lhes:
«Filhinhos, estamos na última hora. Ouvistes dizer que há-de vir um
Anticristo. Pois bem, já apareceram muitos anticristos; por isso
reconhecemos que é a última hora»
(1 Jo 2,18).
Isto é, João alude à lenda
judaica que era comentada nas comunidades cristãs. E, pegando na ideia,
acrescenta:
«Pois bem, já apareceram muitos anticristos.»
Com isto, o autor da Carta
esclarece-nos várias coisas:
Primeiro:
aquilo que se tecia em volta da vinda do Anticristo eram simples
mentiras e invenções das pessoas, às quais, tal como hoje, agradava
urdir ficções especialmente sobre temas misteriosos e truculentos.
Segundo:
não é verdade que vai existir apenas um Anticristo, mas vão ser muitos.
Finalmente:
o tal Anticristo não iria vir no fim do mundo, pois vários já estavam a
agir na comunidade.
Porém, João não se contenta
com esta referência genérica, mas identifica os Anticristos e
acrescenta:
«Quem é, então, o
mentiroso? Quem é, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o
Anticristo, aquele que nega o Pai e igualmente o Filho»
(1 Jo 2,22).
E para que não reste
nenhuma dúvida, repete más adiante: «Todo o espírito que não faz
esta confissão de fé acerca de Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do
Anticristo, do qual ouvistes dizer que tem de vir; pois bem, ele já está
no mundo» (1 Jo 4,3).
Outra Carta, se houver dúvidas.
Alguns anos mais tarde,
João escreve uma
Segunda Carta a estas igrejas, e volta a
adverti-las acerca do mesmo:
«É assim que
apareceram no mundo muitos sedutores que afirmam que Jesus Cristo não
veio em carne mortal. Esse é o sedutor e o Anticristo!» (2 Jo
7).
Vemos, então, que o nome do
Anticristo designava uma realidade actual no séc. I: quem negava que
Jesus é o Cristo; quem rejeitava o Padre e o Filho; quem, com as suas
ideias extraviadas, destruía a doutrina da Igreja sobre Cristo; um
herege que induzia as pessoas a serem infiéis ao Senhor – qualquer um
desses era, é e será um Anticristo, quer dizer, verdadeiramente
adversário de Cristo.
Estes são os únicos quatro
lugares em toda a Bíblia onde se fala do Anticristo, e precisamente para
esclarecer a sua realidade. Em nenhuma outra parte se alude a ele.
São Paulo fala do Anticristo?
Os exegetas defendem que
Paulo, embora não o mencione, também se refere ao Anticristo
na
2ª Carta aos Tessalonicenses quando diz que «antes deve
vir a apostasia e manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da
perdição, o adversário, aquele que se ergue contra tudo o que se chama
Deus ou é objecto de culto, até ao ponto de ele próprio se sentar no
trono de Deus e de se ostentar a si mesmo como Deus. […] o iníquo que o
Senhor destruirá com o sopro da sua boca e aniquilará com o fulgor da
sua vinda» (2 Ts 2,3-8).
Mesmo que assim fosse,
muitos biblistas sustentam que este “iníquo” de São Paulo deve ser
identificado com o Anticristo de São João, e portanto não é nenhuma
pessoa concreta, mas um género, uma classe de pessoas, ou a
personificação de todos os inimigos de Cristo. Isto deduz-se porque o
próprio Paulo afirma nesse parágrafo que esse misterioso «homem da
iniquidade» já está a actuar na sua época (2,7). E, se vivia no
século I, não pode tratar-se de nenhum ser humano, mas antes de um
protótipo de malícia que sempre existirá na História da Igreja, como uma
réplica antagónica a Cristo.
O Anticristo não é, pois
uma personagem histórica real, mas designa a atitude hostil e oposta a
Deus dos homens de todos os tempos. São todos os que actuam dirigidos e
apoiados pelo poder misterioso do mal.
O próprio
Jesus
fala, embora não do Anticristo, mas dos “falsos Cristos”, no plural, que
aparecerão a realizar prodígios com a finalidade de enganar os seus
discípulos. E a seguir adverte-os: «Portanto, ficai atentos; de
tudo vos preveni» (Mc 13,23). Ou seja: se os convida a viver
vigilantes, é porque tais “falsos Cristos” também vão aparecer durante a
vida dos seus apóstolos.
São Pio X e o Anticristo
Pouco tempo depois de
chegar ao pontificado, o papa Pio X, na sua primeira encíclica, de 4 de
Outubro de 1903, expõe a desoladora situação religiosa da sua época.
Diz: «Talvez comecem os
males reservados para os últimos tempos, como se já existisse no mundo o
filho da perdição de que fala São Paulo. Tanta é, de facto, a audácia
com que por toda a parte se persegue a religião, se combatem os dogmas
da fé e se empenham brutalmente em extirpar toda a relação do homem com
a divindade. E especialmente – característica própria do Anticristo,
segundo o mesmo apóstolo –, o próprio homem, com infinita temeridade,
colocou-se no lugar de Deus, erguendo-se acima de tudo o que se chama
Deus.»
Com estas palavras
autorizadas, o papa, ao referir-se ao Anticristo, mais do que
identificá-lo com um homem, parece identificá-lo com uma doutrina. Neste
caso, com o laicismo imperante, que pretendia desterrar a Deus da
legislação e fazer-se adorar em vez dele.
As coisas que esta gente sabe!
Sendo tão pouco e tão claro
o que a Bíblia diz acerca do Anticristo, causa impressão que ainda hoje
se fale tanto dele, atemorizando as pessoas com suspeições e histórias,
tal como acontecia na época do apóstolo João.
Adquirem, por isso, muita
actualidade as suas duas Cartas que mencionámos, pois são o testemunho
de um pastor preocupado com o seu povo que se encontra confuso perante
tantas “faladuras” inconsistentes, e que sai ao encontro delas com a
prudência e a sabedoria próprias de quem bebe nas genuínas fontes da
Palavra de Deus, e não nas suas próprias invenções.
Por isso, a todos aqueles a
quem se ouve pregar com abundância de pormenores sobre o Anticristo,
anunciar os sinais que precederão a sua manifestação e enumerar detalhes
acerca da sua chegada, podemos aplicar-lhes a conhecida estrofe:
“Que
coisas diz esta gente,
E com
tanta convicção!
Que
coisas sabe esta gente,
Tudo
coisas que não são.”
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista,
in
Revista BÍBLICA nº 299