Depois de ler estas
palavras, esperava tudo menos que o Santo Padre viesse a proclamar,
primeiro, um Ano do Rosário, e agora, um Ano da
Eucaristia. Até porque o ano jubilar teve a Eucaristia «no centro»
e foi vivido «como ano intensamente eucarístico» (NMI 11),
apoiado por Semanas e Congressos.
Mas, há mais: o papa foi
buscar o título e a estrutura da sua Carta Apostólica Mane
Nobiscum, Domine (MND = Fica connosco, Senhor) ao
episódio dos discípulos de Emaús, exclusivo de Lucas 24,13-35. Ora,
com base nisso, a conclusão mais lógica seria ter proclamado um Ano
da Palavra e um Sínodo sobre “a Palavra de Deus na vida da
Igreja”. Pelas suas palavras transcritas acima, e porque a Palavra
precede a Eucaristia: é dela que nos vem a fé (Rm 10,17),
necessária para acolher e celebrar o sacramento.
OS
DISCÍPULOS DE EMAÚS
De facto, os discípulos
de Emaús convidam «o divino Viajante» a entrar em sua casa,
reconhecem-no na “fracção do pão” e correm a contá-lo aos
Onze,
porque
Ele,
antes,
lhes abriu os olhos da fé com a interpretação das Escrituras e
lhes aqueceu o coração com o entendimento dos mistérios de Deus.
Diz o papa: «O ícone
dos discípulos de Emaús presta-se bem para nortear um ano que verá
a Igreja particularmente empenhada na vivência do mistério da sagrada
Eucaristia. Ao longo do caminho das nossas dúvidas, inquietações e às
vezes amargas desilusões, o divino Viajante continua a fazer-se nosso
companheiro para nos
introduzir, com a interpretação das Escrituras, na compreensão dos
mistérios de
Deus.» (MND 2)
Ou seja: sem a luz da fé
que nos vem das Escrituras, não podemos compreender o mistério da
Eucaristia, nem entrar em comunhão com o Deus-connosco; e, sem isso,
não há celebração do sacramento nem vida eucarística. «Quando
[=depois de] o encontro se torna pleno – diz o papa –,
à luz da
Palavra segue-se
a luz que brota do “Pão da vida”,
pelo qual Cristo cumpre de modo supremo a sua promessa de “estar
connosco todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 28,20).» (MND
2; ver 12 e 14).
Aliás, o episódio supõe
uma experiência de vida eucarística da comunidade lucana, precedida e
acompanhada pelo «ensino dos Apóstolos» e de outros «Servidores da
Palavra» (Act 2, 42; Lc 1,2) e seguida de solidariedade
e partilha e um grande zelo apostólico (Act 4,32-33), de que
também fala a Carta do papa (ver MND 24, 27, 28).
Mesmo os objectivos
mínimos indicados por João Paulo II para este Ano – «reavivar em todas
as comunidades cristãs a celebração da Missa dominical e
incrementar a adoração eucarística fora da Missa» (MND 29) –
supõem esse trabalho de evangelização, prévio ou simultâneo. Prévio
quanto à
Missa
dominical,
pois têm diminuído os que nela participam; e, onde aumentaram, foi nas
dioceses que investiram na evangelização, como a de Beja.
Simultâneo quanto à
adoração
eucarística fora da Missa,
pois, embora seja devoção muito enraizada entre nós, pode subsistir o
problema de saber “que Deus” se adora e “com que
intenção”.
Continua a Carta
Apostólica: «Na narração dos discípulos de Emaús, o próprio Cristo
intervém para
mostrar,
“começando por Moisés e seguindo por todos os profetas”,
como
“todas as Escrituras” conduzem ao mistério
da sua pessoa.
As suas
palavras fazem “arder”
os corações dos discípulos,
tiram-nos
da obscuridade da tristeza e do desânimo,
suscitam
neles o desejo
de permanecer com Ele: “Fica connosco, Senhor”» (MND 12). Mais
uma vez: da Palavra surge a fé que conduz ao mistério.
Diz ainda o Santo Padre:
«É significativo que os dois discípulos de Emaús,
devidamente preparados pelas palavras
do Senhor, O tenham
reconhecido, quando estavam à mesa, através do gesto simples da
“fracção do pão”.
Uma vez
[=depois de]
iluminadas
as
inteligências e rescaldados os corações, os sinais
“falam”.
A Eucaristia desenrola-se inteiramente no contexto dinâmico de sinais
que encerram uma densa e luminosa mensagem; é através deles que o
mistério, de certo modo, se desvenda aos olhos do crente» (MND
14).
Isto é: se só com a
evangelização os sinais “falam” [=se entende o mistério que encerram],
é preciso evangelizar primeiro.
AS DUAS
“MESAS”
«A
Eucaristia é luz
antes de mais nada
porque,
em cada Missa, a liturgia da
Palavra
de Deus precede a liturgia Eucarística,
na unidade das duas “mesas” – a da Palavra e a do Pão» (MND
12).
Destaquei as palavras que
reforçam, mais uma vez, tudo o que já disse. Mas vale a pena
transcrever outro texto do Vaticano II, onde é explícita a referência
ás “duas mesas” de que fala o papa:
«A Igreja sempre venerou
as divinas Escrituras, como o fez com o próprio Corpo de Cristo, não
deixando, sobretudo na Liturgia, de tomar o pão da vida à mesa tanto
da Palavra de Deus como do Corpo de Cristo, nem de o distribuir aos
fiéis» (DV 21).
Na altura da Dei
Verbum (18.XI.1965), a Igreja não venerava nem distribuía de igual
modo o pão da Palavra e o pão da Eucaristia. E ainda não o faz, hoje.
Daí, a sugestão de João Paulo II: «Passados quarenta anos do Concílio,
o Ano da Eucaristia pode constituir uma importante ocasião para
as comunidades cristãs fazerem um exame sobre este ponto. De
facto, não basta que os textos bíblicos sejam proclamados numa língua
compreensível, se tal proclamação não é feita com o cuidado,
preparação prévia, escuta devota, silêncio meditativo que são
necessários para que a Palavra de Deus toque a vida e a ilumine» (MND
13).
Examinar a Palavra no
Ano da Eucaristia?
Porque não? Como dizia Paulo, «proclama a palavra, insiste em tempo
propício e fora dele…» (2 Tm 4,2).
UM “PLANO
PASTORAL”?
Sem dúvida, João Paulo II
é o Pastor universal da Igreja católica. Mas, tal ministério não supõe
que ele faça um “plano pastoral” para ser executado em simultâneo por
todas as Igrejas particulares e em todas as comunidades concretas, sem
atender aos vários ritmos e opções pastorais de cada uma. Até porque
estas não podem ser enxertadas de surpresa nem caminhar aos saltos.
Sabendo disso, o próprio
papa diz: «Não peço para se interromperem os “caminhos” pastorais que
as diversas Igrejas estão a fazer»; mas lá vai pedindo «para neles dar
relevo à dimensão eucarística própria de toda a vida cristã»,
convencido de que aos seus irmãos bispos «não será difícil ver como
esta iniciativa […] se situe a um nível espiritual tão profundo que
não vem dificultar de modo algum os programas pastorais das diversas
Igrejas (MND 5).
Mas, de facto, a maioria
dos bispos inflectiu na dinâmica do seu plano pastoral para integrar
mais esta proposta do papa, que não seria a mais urgente nas suas
opções, chegando a escrever Notas ou Cartas Pastorais sobre ela e
dispersando a concentração das energias num objectivo.
O papa fala da «dimensão
eucarística de toda a vida cristã». Mas, o primeiro passo para a vida
cristã, que começa com o baptismo, é o do catecumenato ou
evangelização em ordem à fé que leva à conversão confirmada pelo mesmo
baptismo. E só depois a vida baptismal é alimentada pela Eucaristia,
2º sacramento de iniciação cristã.
Ora, a maioria dos
cristãos baptizados em criança, de adultos não assumiu o seu baptismo
numa vida consequente quanto à vivência do Domingo, participando
plenamente na Eucaristia mediante a comunhão de Cristo e dos irmãos; e
isso, tem de ser feito por uma catequese de adultos e uma formação
permanente da fé em grupos que relacionem Bíblia, vida e liturgia.
MAIS
LUGAR À PALAVRA
Se, no nosso meio, há um
défice de evangelização que condiciona redescobrir a Eucaristia como
fonte de luz e vida, aproveitemos a sugestão do Santo Padre para
reforçar a “mesa” da Palavra: «o Ano da Eucaristia pode
constituir uma importante ocasião para as comunidades cristãs
fazerem um exame sobre este ponto.» Eis:
::
Formar
Leitores como
formamos Ministros da Comunhão, pois «é o próprio Cristo que fala,
quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura» (MND 13).
::
Na lógica do valor das “duas mesas”,
aplicar à
Bíblia o que o papa diz da Eucaristia:
«torna-se necessário cultivar, tanto na celebração como no culto
eucarístico fora dela, uma consciência viva da presença real de
Cristo, tendo o cuidado de testemunhá-la com o tom da voz, os
gestos, os movimentos, o comportamento no seu todo. É necessário que
todo o modo de tratar a Eucaristia por parte dos ministros e dos fiéis
seja caracterizado por um respeito extremo. A presença do sacrário
deve constituir como que um pólo de atracção para um número
cada vez maior de almas enamoradas» (nº 18). Por exemplo:
●
dar uma unidade visível (na arquitectura, nos materiais e na
decoração) entre a mesa da Palavra (ambão) e a mesa da Eucaristia
(altar);
●
entronizar a Bíblia na zona da reserva e adoração do Santíssimo, de
modo a fazer dela um pólo de atracção paralelo ao sacrário, dando-lhe
o mesmo respeito que à píxide ou à custódia quando é manipulada ou
transportada, e possibilitando aos fiéis ler ou rezar (“comungar”) a
Palavra quando vão à igreja fora da Missa, tal como fazem a visita ao
Santíssimo sacramento e a “comunhão espiritual”.
::
Preparar bem a
homilia,
«destinada a ilustrar a Palavra de Deus e actualizá-la na vida cristã»
(MD 13).
::
Criar
Escolas
Bíblicas e
grupos
bíblicos, com a pedagogia da “Lectio divina”.
::
Celebrar o
“Dia”,
“Semana”
ou
“Mês da
Bíblia” –
paroquial, diocesano ou nacional – também com acções públicas abertas
ao meio para «testemunhar com mais vigor a presença de Deus no mundo.
Não tenhamos medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os
sinais da fé» (MND 26).
::
Fazer, das Horas de adoração eucarística, momentos de
evangelização
sobre a Eucaristia, com «subsídios de oração baseados sempre na
Palavra de Deus» (MND 18).
::
Cultivar o «silêncio»,
o «respeito
extremo» (MND
18) e a «profunda
interioridade»
(MND 29), como contexto, atitude e condição para escutar e
acolher a Palavra, pela fé.
::
Tirar todas as consequências de que, se a Palavra conduz à Eucaristia,
esta conduz à
Missão:
«O encontro com Cristo, continuamente aprofundado na intimidade
eucarística, suscita na Igreja e em cada cristão a urgência de
testemunhar e evangelizar.
[…] A despedida no final de cada Missa constitui um mandato,
que impele o cristão para o dever de
propagação do Evangelho
e
animação
cristã da
sociedade.» (MND 24).