PARA LER UM TEXTO BÍBLICO
A PALAVRA E O LIVRO
A
fé cristã não é uma
"religião do Livro". O Cristianismo é a religião da "Palavra" de Deus,
"não uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo" (São
Bernardo). Para que não seja letra morta, é preciso que Cristo, Palavra
eterna do Deus vivo, pelo Espírito Santo, nos «abra o espírito ao
entendimento das Escrituras» (Lc
24,45).
O Concílio Vaticano II indica três critérios para uma
interpretação da Escritura conforme ao Espírito que a inspirou:
1. Prestar grande atenção ao "conteúdo e à
unidade de toda a Escritura".
2. Ler a Escritura "na tradição viva de toda a
Igreja".
3. Estar atento à "analogia da fé". Por "analogia
da fé" entendemos a coesão das verdades da fé entre si e no projecto
total da Revelação.
(Catecismo da Igreja Católica, nº 109, 112 e 113)
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COMO LER A BÍBLIA?
1. PERGUNTAS A FAZER ANTES DE LER A BÍBLIA
1.1. A Bíblia: Livro do povo de Deus, ou
dos teólogos? Carlos Mesters diz-nos que o mundo da Bíblia tem
duas portas: a da letra, por onde entram só os doutores e os estudiosos;
e a do Espírito, por onde pode entrar todo o Povo (Para além das
Palavras, prólogo). Para muitos, a Bíblia continua a ser mais um livro
de ciência e de cultura, do que de fé; de teorias e explicações, do que
de vida; de informação, do que de formação. Por isso ligam mais à letra,
do que ao Espírito; à exegese científica, do que à espiritual.
1.2. A Bíblia: Palavra de Deus, ou dos
homens? Para uma boa leitura e interpretação da Bíblia temos de
ter sempre presente o que ela é em si, o seu mistério: Palavra de
Deus em linguagem humana (DV 12). Palavra de Deus, porque foi
«divinamente inspirada» (2 Tm
3,16-17); palavra dos homens, porque «Deus,
para a redigir, serviu-se de homens na posse das suas faculdades e
possibilidades» (DV 11).
1.3. A Bíblia: Livro de ciência, ou de fé?
A Bíblia não pode deixar de ter elementos de cultura, Ciência e
História, que é preciso ter presente ao lê-la e interpretá-la, se
quisermos saber a intenção do autor e o que ele nos quis transmitir com
as suas palavras (DV 12). Mas , o povo tem mais fome e sede de fé,
esperança e amor do que de cultura. Para ele, o mais importante não são
as passagens difíceis da Bíblia, nem as discussões e polémicas que elas
suscitaram através da História, nem mesmo o que Deus poderá ter revelado
noutros tempos aos escritores da Bíblia, mas sim o sentido que essa
Palavra de Deus tem, hoje, para a sua vida, a fim de encontrar uma razão
para viver e poder enfrentar o futuro com mais esperança. Ora, será a
leitura espiritual que abrirá o caminho para satisfazer essa fome e sede
do Povo de Deus. Ela é acessível a todos, desde o Papa até ao último
cristão, passando pelos próprios exegetas.
2. COMO A BÍBLIA SE LÊ E INTERPRETA A SI MESMA
A melhor maneira de saber como a Bíblia deve ser lida
e interpretada é examinar como ela própria o tem feito através dos
séculos. Com grande liberdade e fidelidade, os autores da Bíblia
compunham sempre quadros novos com tradições e textos antigos, em vista
das novas situações. A Bíblia é, quase na sua totalidade, a expressão
literária dessa "releitura" e reinterpretação constante que o Povo de
Deus fazia do seu passado e da sua história, à luz da fé, com ajuda dos
textos antigos' em ordem a uma maior e melhor compreensão do presente.
2.1. As "releituras" do Antigo Testamento.
Para as realizar, foi fundamental a fé do povo no "Deus connosco".
Certeza que não se prova, mas dá sentido a tudo, e que consistia na
consciência de que o mesmo Deus, que orientou a vida do povo no passado,
continuava a orientar o mesmo povo no presente. Todas as verdades e
dogmas, todas as práticas e instituições, todas as cerimónias,
interpretações e sínteses do passado tinham essa finalidade. Segundo
Carlos Mesters, a Bíblia é uma árvore secular em cujo tronco se vêem os
anéis sucessivos do seu crescimento através dos séculos.
2.2. As releituras do Novo Testamento.
Pode dizer-se que o NT é uma "releitura" global do Antigo. É a nova
visão da história antiga que brotou da mente dos primeiros cristãos, à
luz da ressurreição de Cristo. Está recheado de sínteses, alusões,
evocações e citações do AT, de tal maneira que desconhecer o AT é
arriscar-se a não compreender bem o Novo. Ver: o discurso de Santo
Estêvão (Act 7,1-53),
o discurso de Paulo, na Sinagoga de Antioquia da Pisídia (Act
13,16-41), a síntese sobre a fé em Jesus
Cristo, esclarecida à luz das grandes figuras do passado (Heb
11,1-12,13), o Apocalipse de João, etc.
Salta à vista a liberdade, para não dizer
arbitrariedade, com que os primeiros cristãos citam e utilizam os textos
do AT (ver 1 Cor 10,4;
Gl 4,21-27).
Existem casos em que o texto original dizia exactamente o contrário (Act
2,25-28). Os primeiros cristãos não viviam
preocupados, como nós hoje, com o sentido histórico-literal do texto
antigo, mas em exprimir, por meio deles, a fé nova que tinham em Jesus
Cristo. Tinham a consciência nova que irrompeu na comunidade a partir da
experiência pascal: Cristo Ressuscitado vive no seio da comunidade,
através do seu Espírito!
Há, portanto, uma certa continuidade entre a maneira
de o Novo Testamento usar o Antigo e os documentos da Igreja usarem a
Bíblia. Atitude idêntica existe hoje no povo simples, quando se reúne,
em grupos, para ler e interpretar a Sagrada Escritura. O seu interesse
principal não está em saber o que a exegese descobriu a respeito do seu
sentido histórico literal, mas o sentido que ele tem para nós.
3. COMO DEVE A IGREJA LER E INTERPRETAR A BÍBLIA
Sente-se a necessidade de acabar com o divórcio
existente entre a Bíblia e a vida. Sem cair no misticismo nem descuidar
as leituras culturais e científicas, é preciso, sobretudo, descobrir o
sentido que o texto bíblico tem para nós, hoje.
3.1. Deve ser lida e interpretada segundo a
sua própria finalidade. Todas as coisas têm um fim determinado e
só utilizando-as segundo esse objectivo para que foram criadas, realizam
a sua missão e satisfazem. Ora a Bíblia foi escrita para que as pessoas
acreditem e, acreditando, esperem e, esperando, amem (DV 1). É o livro
da Revelação de Deus à humanidade e da resposta da humanidade a Deus
Revelador (DV 2 e 5); é o livro da fé do povo de Deus (Ver
Lc 1,1-4; Jo 20,30).
Tudo o mais que nela existe é em função disso e para isso. Portanto, se
quisermos, à partida, resolver muitos problemas e evitar muitas
confusões na leitura da Bíblia, procuremos nela só aquilo que ela nos
pode oferecer.
3.2. Deve ser lida e interpretada com
Espírito que a inspirou. Sendo a revelação de Deus e dos seus
mistérios (DV, 2), contém verdades que transcendem os limites da
capacidade humana. Como está escrito, são coisas que «nem o olho viu,
nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do humano» (1
Cor 2,9). Não pertencem ao domínio da
sabedoria dos homens. Mas Deus revelou-as por meio do Espírito (2
Tm 3,16); por isso, só Ele e quem o possuir
estará em condições de as ler e interpretar: «As coisas que são de Deus
ninguém as conhece, a não ser o Espírito de Deus.» (1
Cor 2,11b).
O meio para sintonizar com Ele é a fé. Por
isso, a primeira função da Bíblia é acender essa luz, antes mesmo de nos
transmitir o seu conteúdo ou doutrina. Será ela que dará ao leitor a
consciência de que Deus lhe fala ao ler a Bíblia e o colocará na
condição de compreender o sentido da sua mensagem. Por isso nem sempre
os mais cultos e doutos lêem ou interpretar melhor as Sagradas
Escrituras, mas aqueles que acreditam e se abrem à acção do Espírito
Santo.
3.3. Deve ser lida e interpretada em clima
de oração. A Bíblia não é um livro de recreio, nem de cultura; é
o livro da fé e oração do Povo de Deus para meditar e viver. Não deve
ser lido como um romance, um compêndio de história ou um manual de
filosofia. Sendo o livro do diálogo entre Deus e a humanidade, a oração
é o ambiente mais apropriado para nos lermos/escutarmos e partilharmos a
sua Palavra e continuarmos o diálogo com Ele. Lida em ambiente de
oração, faremos dela oração e sentiremos que ela é Palavra de Deus. «A
leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada da oração para que se
verifique o colóquio entre Deus e o homem; pois com Ele falamos quando
rezamos; a Ele ouvimos quando lemos os divinos mistérios.» (DV 25)
3.4. Deve ser interpretada com maturidade
humana e cristã. «Deus, na Sagrada Escritura, falou-nos por meio
de homens e à maneira humana, servindo-se dos hagiógrafos como autores
na posse das suas faculdades.» (DV 72) Quer dizer que os textos sagrados
não foram revelados, mas só inspirados deixando espaço para a liberdade
e personalidade dos escritores bíblicos. Isto faz da Bíblia um livro
complexo e difícil de ler e interpretar (2
Pe 3,14-16) , exigindo, para além da fé,
preparação e maturidade: para aceitar a linguagem humana da Palavra de
Deus; para sentir-se livre perante o acessório do passado bíblico e
preocupar-se sobretudo com as grandes linhas da História da Salvação;
para ser responsável transmitindo com fidelidade a revelação contida nas
Sagradas Escrituras fazendo a união entre o passado e o futuro; para ler
a Bíblia mais como um compromisso de vida evangélica, do que um seguro
ou garantia de salvação.
Esta maturidade é mais espiritual do que humana,
porque se trata dum livro de fé. Assim, coisas que antes eram confusas e
complicadas, tornam-se claras e acessíveis depois duma caminhada na
leitura e meditação da Palavra de Deus
3.5. Deve ser lida e interpretada numa
comunidade de fé. A Bíblia não é obra dum indivíduo, mas de todo
o Povo de Deus Nasceu de grupos ou comunidades que viveram, partilharam,
transmitiram e escreveram as suas experiências religiosas Por isso não é
um livro só, mas 72 (73) e todos muito diferentes Sendo, portanto, a
comunidade crente a sua matriz geradora, será também ela o contexto
vital da sua leitura e interpretação. Nela, a Palavra de Deus encontra
outro eco e tem outra ressonância. Cada pessoa ouvindo a mesma Palavra,
descobre nela aspectos diferentes.
A Sagrada Escritura não pode, pois, ficar ao sabor do
indivíduo, ao "livre arbítrio" de cada um, sob pena de a trairmos
enganando-nos a nós próprios A solução será um grupo. Ele será o apoio e
a garantia da nossa fidelidade na leitura e interpretação da Palavra de
Deus. Mas para isso têm de guardar as condições apontadas na Evangelii
Nuntiandi, n. 58:
1. Procurar o seu alimento na Palavra de Deus
e não se deixar enredar pela polarização política ou pelas ideologias
que estejam na moda, dispostas a explorar o seu imenso potencial humano.
2. Evitar a tentação sempre ameaçadora da contestação
sistemática e do espírito hipercrítico, sob pretexto de autenticidade e
de espírito de colaboração.
3. Permanecer firmemente ligados à Igreja local em
que se insere, e à Igreja universal, evitando assim o perigo - por
demais real! - de se isolar em si mesmo e depois de se crer a única
autêntica Igreja de Cristo, e, por consequência. perigo de anatematizar
as outras comunidades eclesiais.
4. Manter uma comunhão sincera com os Pastores que o
Senhor dá à sua Igreja, e também com o Magistério que o Espírito de
Cristo lhes confiou.
5. Jamais se considerar como destinatário único ou
como o único agente de evangelização - ou por outra, como depositário do
Evangelho - mas, consciente de que a Igreja é muito mais vasta e
diversificada, aceitem que esta Igreja se encarna de outras maneiras,
que não só através deles.
6. Progrida cada dia na consciência do dever
missionário e em zelo, aplicação e irradiação neste aspecto; se
demonstre em tudo universalista e nunca sectário.
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DIVERSAS FASES DA LEITURA DE UM TEXTO DO EVANGELHO
1.
Descobrir o texto original
O
mais importante da Bíblia
é o texto original. Só ele é inspirado. Foi por ele que Deus falou ao
hagiógrafo que o escreveu, e, através dele, ao Povo. Será também por ele
que Deus nos falará, hoje. E por isso que a primeira preocupação da
exegese é chegar ao texto original. Para isso há todo um trabalho
inicial, que se chama o estudo crítico do texto, cuja missão é estudar
os textos bíblicos nos seus manuscritos mais acreditados e mais antigos.
Há uma multidão desses manuscritos (pergaminhos e
papiros) com imensas variantes entre si, que torna o trabalho muito
difícil e complexo. Um exemplo disto é o final do Evangelho de Marcos (Mc
16,19-20). Esta parte do Evangelho falta em
alguns manuscritos muito importantes como o Vaticano e Sinaítico e em
muitas traduções antigas deste evangelho para siríaco, arménio e etíope;
isto levou muitos exegetas a duvidar da sua canonicidade. Mas, por outro
lado, encontraram-se também muitos manuscritos e traduções antigas, não
menos importantes que os primeiros, com esta passagem, o que levou os
entendidos à conclusão de tratar-se dum texto verdadeiramente canónico
e, portanto, inspirado, mas de autor diferente do resto do Evangelho.
2.
Estudar a composição e evolução do
texto original
E
ncontrado o texto
original, passa-se ao estudo da sua composição para descobrir o seu
autor ou autores, as fontes de que se serviram, a evolução que sofreu;
distinguir o que lhe é anterior e foi recebido da tradição, o que é
original e o que lhe foi acrescentado pelas traduções e redacções
posteriores. Este estudo da critica literária é o mais extenso da
exegese e supõe grandes conhecimentos das línguas em que os livros
sagrados foram escritos.
Como exemplo deste estudo podemos referir o texto da
instituição da Ceia, de Marcos (Mc
14,22-23), em paralelo com o texto de Paulo na
sua primeira carta aos Coríntios (1
Cor 11,23-24). Segundo a crítica literária, o
texto de Marcos, sendo posterior no tempo, conservou a versão mais
antiga, e, portanto mais próxima das palavras pronunciadas por Cristo;
enquanto que o de Paulo, sendo escrito primeiro, é um texto mais
condicionado pela liturgia das comunidades e, portanto, apresenta-se com
uma formulação mais distante do original de Cristo.
3.
Comparar o texto com os lugares
paralelos dos Sinópticos
O
s três primeiros
Evangelhos - Mateus, Marcos e Lucas - descrevem os factos de forma muito
semelhante, de tal maneira que, colocados os seus textos em três colunas
paralelas, podemos lê-los ao mesmo tempo. Daí o seu nome de sinópticos"
que vem da palavra grega sinopsis que quer dizer visão de conjunto.
Qualquer texto destes três Evangelhos deve ser
estudado tendo em conta os textos paralelos dos outros dois, porque uns
iluminam e completam os outros. Para exemplo podemos citar o texto do
Pai-Nosso. Em Mateus
(Mt 6,9-13)
vem inserido no sermão da montanha. Este não é o seu verdadeiro
contexto, o que se pode comprovar lendo o paralelo em
Lucas (Lc
11,1-4) que o coloca junto de Betânia, perto
do Monte das Oliveiras e inserido na parábola do bom samaritano.
De facto, examinando as diversas petições desta
oração do Pai-Nosso, verifica-se que ela corresponde aos grandes desejos
de Cristo manifestados durante a sua vida terrena e sobretudo nos
últimos dias da Sua vida e mais concretamente nas orações do Jardim das
Oliveiras.
Por isso, o estudo crítico desta passagem levou os
exegetas a concluir que o Pai-Nosso, mais do que uma oração nova
inventada por Jesus para ensinar aos seus apóstolos, é a expressão
literária, estruturada pelo evangelista, da oração ou orações que
frequentemente Jesus tinha nos seus lábios, especialmente os últimos
dias da sua vida terrena.
Mateus, preocupado com a síntese e para
facilitar a memorização, recolhe tudo numa oração. única e coloca-a na
secção dos discursos do Senhor (Mt
5,7).
4.
Inserir o texto no seu contexto
T
odo o texto tem o seu
contexto próprio. Mas nem sempre, no evangelho, o texto vem inserido no
seu verdadeiro contexto. As vezes, por motivos de estruturação sintética
e doutrinal, o texto é deslocado do seu verdadeiro contexto e inserido
noutro que não ajuda, mas até dificulta a sua leitura e interpretação,
como já vimos no caso do Pai-Nosso em Mateus.
O normal, porém, é que o texto venha no seu
verdadeiro lugar e, por conseguinte, no seu contexto. São os casos das
parábolas da ovelha e da dracma perdidas, e a do filho pródigo, que têm
a sua explicação no contexto imediatamente anterior: a murmuração dos
escribas e fariseus por Jesus acolher os pecadores e comer com eles (Lc
15,1-2); ou também o relato da expulsão dos
vendilhões do templo, em Marcos, intercalado na história da figueira
estéril que lhe serve de explicação e interpretação (Mc
11,12-26).
E como estes há muitos outros casos. Por isso, na
exegese de qualquer texto evangélico, devemos procurar sempre o seu
verdadeiro contexto.
5.
Ver a relação que o texto pode ter com
o Antigo Testamento
A
Sagrada Escritura não é
uma manta de retalhos, sem ordem e unidade entre si. Ela tem uma unidade
e há uma progressividade no seu conteúdo. A unidade e a influência do
Antigo Testamento no Novo, e vice-versa, é tal que não se podem ler e
interpretar um sem o outro: «Deus, inspirador e autor dos livros de
ambos os Testamentos, dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse
escondido no Antigo e o Antigo se tornasse claro no Novo.» (DV 16).
De facto, um estudo atento do Novo Testamento faz-nos
descobrir, para além das inúmeras citações directas e de uma infinidade
de alusões mais ou menos veladas, uma corrente de pensamento e uma
estrutura literária que tornam o Novo Testamento uma espécie de
interpretação do Antigo à luz dos novos acontecimentos.
Por isso, se queremos interpretar algum texto dos
Evangelhos, não basta inseri-lo no seu contexto e ler os lugares
paralelos que vêm nos outros evangelhos ou em todo o Novo Testamento;
mas é necessário também ver as relações possíveis desse texto com o
Antigo Testamento e, mais do que com um texto ou textos concretos, é
preciso ter em conta o conjunto da Revelação do Antigo Testamento como
promessa e preparação do Novo.
6.
Situar o texto no seu meio
O
s Evangelhos são também, e
muito fruto do meio ambiente cultural e religioso em que nasceram. Por
isso, o estudo da situação política, social e religiosa do tempo de
Jesus e das primeiras comunidades cristãs, ajuda-nos muito na leitura e
interpretação dos textos evangélicos. Assim, o conhecimento do
"messianismo" nos líderes políticos judeus, durante esta época, projecta
luz para entender a ideia messiânica apresentada pelos textos
evangélicos; a leitura dos escritos rabínicos orienta-nos na
interpretação de muitas palavras e atitudes de Cristo para entendermos
certos milagres e diálogos de Cristo com o demónio e os espíritos maus é
preciso conhecer a maneira de pensar daquele tempo e sobretudo o mundo
religioso do paganismo do tempo dos Evangelhos; muitas parábolas e
metáforas de Cristo adquirem todo o seu brilho e riqueza ao descobrirmos
o contexto vital em que foram pronunciadas.
7.
Atender ao autor e ao plano por ele
concebido para o seu Evangelho
S
ão Lucas começa assim o
seu Evangelho: Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos
factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que
desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da
Palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado
cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua
ordem, caríssimo Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina
em que foste instruído.» (Lc
1,1-4)
Este prólogo diz-nos:
- primeiro, que o evangelho não foi criado
pelo evangelista, mas que ele apenas transmite o que recebeu daqueles
«que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram
servidores da Palavra»;
- segundo, que eles, os evangelistas, não são
simples repetidores, mas escrevem só «depois de tudo ter investigado
cuidadosamente desde a origem» ou seja, depois de muito estudo,
meditação e reflexão pessoal sobre os acontecimentos que receberam da
tradição; e
- terceiro, que cada evangelista tem o seu
plano ou finalidade e ordena os materiais que encontrou segundo esse
plano estruturado por ele.
Por isso, cada evangelista, em relação ao Evangelho
de Cristo transmitido pela tradição oral e escrita, seleccionou,
adaptou, ordenou e completou segundo a sua formação teológica e os
objectivos que se propôs atingir. Assim,
São Mateus
apresenta-nos o
seu evangelho como um drama: Jesus. é o Messias anunciado pelos
profetas, enviado aos judeus para os salvar, mas estes não O aceitam;
então Ele dirige-se para os pagãos e faz deles o novo Povo de Deus, a
Igreja.
São Marcos
apresenta-nos
uma caminhada de fé que o povo vai fazendo até descobrir que Jesus é o
Filho de Deus, que veio para salvar mas através da sua Paixão-Morte e
Ressurreição.
São Lucas
faz girar todo o
seu evangelho em torno a uma viagem de Cristo da Galileia a Jerusalém,
apresentando Cristo como o Salvador de todos os povos, a começar pelos
judeus. Para
São João
, Cristo é o Verbo
que, sendo igual a Deus, se fez homem dando aos homens o poder de se
tornarem filhos de Deus e depois voltou para junto do Pai, onde nos
espera para ser tudo em todos.
8.
Ter presente a comunidade a quem o
Evangelho se dirige
C
ada Evangelho tem um
destinatário muito concreto: a comunidade que o viu nascer e que foi, em
parte, o seu autor. De facto, os Evangelhos são também e sobretudo a
expressão da fé duma comunidade: como ela viu e viveu o acontecimento
Jesus de Nazaré. Por isso, o conhecimento da comunidade, da sua vida, do
seu ambiente socioreligioso, das suas preocupações missionárias,
catequéticas e litúrgicas, etc., projectará muita luz sobre os textos
evangélicos e ajudará a compreender a sua leitura e interpretação.
Assim São
Mateus, porque escreve para cristãos vindos do
judaísmo, recorre mais ao Cristo da fé, preparado e anunciado já no
Antigo Testamento; São Marcos
e São Lucas,
porque escrevem para cristãos convertidos do paganismo, insistem mais no
Cristo da História, Jesus de Nazaré, homem acreditado por Deus como
Filho de Deus, com milagres o prodígios (Act
2,22);
São João, como escreve para uma comunidade
helénica, influenciada pelos mistérios da filosofia religiosa grega,
apresenta Cristo como o grande mistério, o Verbo de Deus feito homem.
9.
Determinar o género literário concreto
em que foi escrito
O
género "evangélico' já é
um género literário original e muito concreto, e como tal tem de ser
lido. Mas, para além e dentro desse mesmo género, há uma gama
diversificada de formas literárias que é preciso distinguir na hora de
lermos e interpretarmos as diversas passagens evangélicas.
De um modo global, podemos distinguir nos Evangelhos:
»ditos proféticos e
sapienciais;
»textos jurídicos ou
legais;
»comparações, parábolas,
alegorias e imagens;
»kerygmas ou anúncios
breves do Reino;
»relatos biográficos
sobre a missão de Cristo;
»diálogos;
»controvérsias;
»gestos e acções
proféticas;
»relatos de milagres e
aparições;
»textos escatológicos e
poéticos...
Ora, cada uma destas formas literárias tem o seu
especial interesse e deve ser lida duma maneira diferente. Não é a mesma
coisa o relato dum milagre e uma parábola; um texto escatológico e um
poema; uma sentença e uma alegoria.
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método simples para ler e meditar um texto bíblico
1.
Criar um ambiente calmo
e recolhido, com silêncio ou música de fundo.
2.
Ter uma atitude de fé e
um espírito de oração.
2.
Ler uma primeira vez,
atendendo ao sentido geral do texto.
3.
Fechar o livro e tentar
lembrar aquilo que nos ficou desta primeira leitura.
4.
Voltar a ler, com
especial atenção a estes aspectos:
* Que personagens
intervêm no texto.
* Qual a sua situação:
pessoal, familiar, social e religiosa.
* Quais as suas
palavras e atitudes mais significativas.
* Que muda nelas
depois do encontro com Deus/Cristo.
* Qual a imagem de
Deus/Cristo que o texto me revela.
* Que lições tiro de
tudo isto para a minha vida.
5.
Tempo de reflexão para
concretizar bem o ponto 3, relendo o texto as vezes que for preciso.
6.
Partilhar em família ou
em grupo, se possível.
7.
Rezar: oração
espontânea, ou outras.