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Frei Inácio de Vegas, o Apóstolo apaixonado pela Palavra-Pessoa de Deus

 

 

 

 

Frei Inácio de Vegas

o apóstolo apaixonado

pela Palavra-Pessoa de Deus

frei J. Lopes Morgado[1]

 

 

AFIRMO já isto, sem nenhum receio: o frei Inácio de Vegas foi o maior apóstolo da Sagrada Escritura na segunda metade do século XX e a pessoa que de modo mais persistente dedicou a sua vida a iniciar todo o povo na leitura da Palavra de Deus. Estava prestes a fazer 98 anos quando nasceu para a eternidade, com o Domingo dia 25 de Agosto passado, à uma e dez da madrugada, hora de Madrid.

No dia seguinte pela manhã, durante a celebração da sua Páscoa, deixei-me conduzir por esta fantasia para dominar a emoção: o frei Inácio, jovem e apressado como sempre, com uma sacola cheia de Evangelhos a tiracolo e um punhado de Novos Testamentos na mão, tentava chegar à cabeça da longa fila às portas do Paraíso para não perder a última oportunidade de “colocar” mais alguns livros, como ele dizia; enquanto o Pai Eterno, sorrindo aos reparos dos outros candidatos, repetia: “A Palavra de Deus tem sempre prioridade.” Ou seja, a frase-chave do próprio frei Inácio em vida.

À mente, veio-me a confissão de Paulo: «Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor, justo juiz, e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua vinda.» (2 Tm 4,7-8) E senti que o de Paulo era, para o frei Inácio, agora. Ali celebrávamos o “Hoje” da sua salvação.

A carta-síntese de uma vida

Foi à luz da morte e ressurreição de Jesus que os Apóstolos entenderam a sua vida pública e elaboraram a teologia à volta da sua infância. E por esta mesma ordem é que foram escritos os Evangelhos.

O mesmo aconteceu comigo acerca do frei Inácio: só depois de celebrar a sua Páscoa é que se me fez luz sobre toda a sua vida e consegui fazer a síntese do sentido único por que se tinha orientado, sem desvios, ao longo dos últimos 48 anos. Serviu-me de guia uma carta que fui encontrar, no mesmo dia 26 à tarde, quando me adentrei pela pasta nº 77, com o nome do frei Inácio, que se encontra no arquivador 20 do Arquivo Provincial dos Capuchinhos de Castela (Província a que ele pertencia desde 1930), no Convento de Jesus de Medinaceli, em Madrid.

Trata-se de uma longa carta de 4 páginas A-4, escrita à mão em castelhano, datada a 28 de Abril de 1954 em Vila Nova de Poiares, e dirigida ao frei Cornélio de San Felices, Ministro Provincial de Castela (eleito “Comissário Geral” dos Capuchinhos em Portugal em 14 de Janeiro de 1955). Nela encontram-se todos os valores e linhas de acção que viriam a nortear o seu apostolado bíblico em Portugal, na Espanha, na América Latina e um pouco por toda a parte. Traduzo, mantendo os seus sublinhados e travessões, apenas introduzindo uma enumeração à margem para melhor organizar os comentários que farei a seguir. Eis a carta:

[1] «– Muito gostaria de me poder consagrar a este apostolado, pois já estou a ver os frutos das conferências bíblicas em todos aqueles que são fiéis ao propósito de ler e meditar diariamente algum pensamento d’ O Livro dos livros.

[2] – O apostolado consiste nas práticas e conferências bíblicas e na imediata distribuição de exemplares, principalmente do N. Testamento. [...]

– Numas 5 semanas consegui colocar 62.000 exemplares por este método pessoal de conferências e deixando em cada lugar algum representante do movimento que com zelo apostólico (o Espírito Santo sempre nos proporciona algum ou alguma) continua a distribuir os que deixo depositados em cada paróquia, além das centenas ou milhares que ao terminar as conferências são colocados nas paróquias, colégios, hospitais, quartéis, etc.

[3] Que interessante seria, Padre Provincial, que a Província colocasse, neste Ano Mariano, 1.000.000 (um milhão) de exemplares na Península e na América. No Brasil são muitos os que se podem colocar, e nas repúblicas espanholas, incluindo a América Central e México, também, conforme as informações que recebi em Lisboa, falando com muitos bispos e sacerdotes americanos, com quem me encontrei no Ano Santo; animaram-me a prosseguir este apostolado, e manifestaram que na América é urgente esta propaganda não só para formar verdadeiras cristandades, mas para pôr um dique ao avanço protestante.

[4] Precisamos de infundir o espírito e gosto bíblico em toda a classe de apostolado; a este espírito poderíamos chamar-lhe o 8º dom do Espírito Santo.

[5] Que consolador é ver que depois de cada conferência continuam os livros, isto é, a mesma Palavra de Deus a alimentar as inteligências e corações de tantos membros do Corpo Místico!

[6] Vamos com o milhão de Evangelhos neste Ano Mariano [...]. E que maior obséquio à Smª Virgem Maria, do que estender o reinado do seu Div. Filho? Não faríamos nada de mais, pois os protestantes colocaram aqui em Portugal e suas colónias o milhão de Evangelhos em pouco mais de uma ano; uns vendidos, outros oferecidos.

[7] – Necessariamente devemos renovar os métodos de apostolado centralizando bem Jesus, nosso Mestre e Modelo na inteligência e coração dos fiéis, tanto crianças como adultos. “Vos vocatis me Magister et bene dicitis... exemplum dedi  vobis …”[2] E não dar tanta importância às esqueléticas fórmulas do catecismo; só assim nos assemelharemos à pregação dos apóstolos: “Iudaei signa petunt, graeci sapientiam quaerunt; nos autem praedicamus Christum crucifixum...” 1ª Cor. 1,23.[3]

– Temos que trabalhar para que não continue este estado de coisas e se dê aos fiéis a única e verdadeira formação cristã; em Portugal há dois anos colocaram-se mais exemplares de Santas Filomena do que dos Evangelhos, e não falemos da profusão de almanaques, revistas, folhinhas, etc. e devoçõezinhas... Há uns meses, um pároco de Lisboa teve que retirar Stº Expedito da igreja, porque era uma loucura! nem se preocupavam com o Santíssimo que estava ao pé!... Em Espanha há mais alguma formação, mas no que se refere ao conhecimento da Bíblia, é pouco mais ou menos; este é o maior argumento nas mãos das seitas protestantes.

[8] – Eu penso com frequência: porque não se lembrará um prelado de recolher fundos para estas edições bíblicas e facilitar assim, com livros baratos, a formação dos fiéis? Tal como encontram para erguer seminários e igrejas encontrariam para isto.

[9] – As folhinhas[4] que V. R. recebeu aí já sabe que pode dispor delas da forma que N. Senhor lhe inspirar antes de terminar o triénio, e se a essas folhas unir outras das que, segundo disse, a Província recebeu de um testamento, imagine... pode formar um Fundo Bíblico estupendo para poder irradiar a Palavra de Deus por toda a Península e Novo Mundo, estendendo assim o reinado de Jesus em proporções deslumbrantes.

[10] – Envio-lhe esta carta que acabo de receber do R.mo Padre Geral.[5] A ver se isto se encaminha. Bendiga, P. Provincial, o último dos seus filhos no Sco[6] Pai

Fr. Ignacio de Vegas, O.f.m.Cap.[7]»

[1] “Consagração” ao apostolado

O entusiasmo do frei Inácio pelo apostolado bíblico nascera no Seminário diocesano de Leão, através do livro Evangelhos em Concordância oferecido pelo seu tio sacerdote Eredia Martínez. E já se tinha consagrado a ele, antes da fundação oficial do Movimento Bíblico em 25 de Fevereiro de 1955, através das conferências ou colóquios bíblicos, e também escrevendo livros. O primeiro data de 1951 e intitula-se – talvez por aquela influência do tio – Concordância dos Evangelhos. Jesus meu caminho, Verdade e Vida e tem 196 páginas. Volta a sair no mesmo ano, com o mesmo número de páginas, mas impresso em Beja e com outro título: História de Jesus segundo a concordância dos Evangelhos. Pensamentos do santo Evangelho, para todos os dias do ano.[8]

Em 24 de Março de 1952, o frei Mateus do Souto (então Comissário Geral, e mais tarde administrador desta revista e da Difusora Bíblica), mandou-o suspender as edições. O frei Inácio encontrou forma de não cumprir essa ordem, pois teria a consciência formada de ser esse o chamamento especial que Deus lhe fazia dentro da vocação geral à Ordem Franciscana, cuja Regra fundamental é «viver o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo».

“Ler e meditar diariamente algum pensamento” da Bíblia era um dos propósitos que se propunham os Amigos da Palavra de Deus no encerramento dos Colóquios Bíblicos, preenchendo uma ficha (que servia para lhes ser enviada literatura bíblica posterior) e recebendo um lindo emblema de lapela; e também: contribuir livremente para a edição de livros a preço acessível e para oferecê-los aos menos possibilitados.

[2] O método “pessoal”

Esse método, que o frei Inácio com razão chama “pessoal” e manteve toda a vida, constava do seguinte:

:: distribuição de livros a quem os não tinha, sem exigir pagamento prévio;

:: palestra bíblica, de livro na mão e repetindo juntos muitos versículos, para apoiar a memória com o ouvido e a leitura;

:: recolha dos livros que não eram desejados (a quem não podia pagar, oferecia-os);

:: entrega de vários exemplares que ficavam nas paróquias ou noutras instituições, ao cuidado de «algum ou alguma representante do movimento», que mais tarde se entendia com o frei Inácio quanto a dinheiro angariado e exemplares oferecidos. Daí a rapidez de escoamento na distribuição, aumentando as tiragens de forma ímpar no meio editorial português e europeu de então.

Em 18 de Dezembro de 1979, escrevia do México ao seu Provincial, frei Arsénio Gutiérrez González: «Quero seguir com o mesmo método noutros países, porque é o melhor meio para conseguir o máximo rendimento neste urgente apostolado; assim se põe em movimento a muitos responsáveis, de boa vontade, mas que com frequência estão inactivos por falta de experiência na pastoral bíblica.»

[3] Um milhão de exemplares

A cifra de um milhão andou na cabeça do frei Inácio em várias circunstâncias, até ao fim da sua vida. A antepenúltima carta por ele escrita, que encontrei no Arquivo Provincial de Castela, data de 20 de Agosto de 2001 e é dirigida ao Ministro Provincial frei Manuel Muñoz, cessante em Maio passado. Dado que o “Capítulo” extraordinário daquela Província tinha apresentado a iniciativa de «oferecer um Novo Testamento a todos os emigrantes actuais em Espanha», o frei Inácio escreve para que tal projecto seja concretizado: trata-se de oferecer um milhão de exemplares do Novo Testamento, traduzido dos originais e aprovado pela Conferência Episcopal. Aberto à participação individual ou colectiva.

Logo a seguir, no dia 20, volta à carga numa carta breve com duas referências de interesse para Portugal. Escreve: «Como o assunto tem certo carácter nacional, será preferível que o padre Provincial solicite umas letras ao núncio [sic] Apostólico: Mons. D. Antonio Monteiro. Pode ser o melhor resguardo.» E acrescenta, em «Nota: uma carta do núncio [sic] de Lisboa 1956, Mons. Chento [sic], italiano, abriu-nos brecha para a Difusora Bíblica-Capuchinhos em Portugal.» Como os leitores saberão, o actual Núncio Apostólico em Madrid, Dom António Monteiro, é português, da arquidiocese de Braga. Quanto ao Núncio em Lisboa em 1956, trata-se de Dom Fernando Cento.[9]

Pouco depois, a 3 de Setembro, data em que o Conselho Provincial ia reunir, o frei Inácio envia uma carta-nota escrita à mão e entregue pessoalmente ao frei Inocencio Egido, definidor e superior da Fraternidade do Coração de Jesus de Usera, a que o frei Inácio pertencia. Vê-se que o assunto foi tratado nessa reunião, pois na mesma data lhe escreve o Ministro Provincial, para dizer que: não havia urgência numa nova edição, pois ainda existiam 2 mil exemplares da edição anterior; fosse distribuindo esses aos emigrantes que aparecessem pelo convento do Coração de Jesus de Usera, ou os oferecesse com a mesma finalidade a sacerdotes de outras zonas; era preciso ter em conta que muitos emigrantes são muçulmanos. O frei Inácio iria cumprir 97 anos no dia 19 seguinte, e o seu Ministro Provincial também o felicitava por isso.

Mas voltemos ao número simbólico de um milhão. Não de uma edição com essa tiragem, mas de um total de vendas do mesmo livro, falava já o frei Inácio a propósito da 7ª edição do seu livro Santos Evangelhos em concordância – História de Jesus, em 1956, para concretizar o apelo de Pio XII: “Nenhum católico sem os Evangelhos”. Diga-se que a 6ª, de 60.000 exemplares, tinha esgotado em 3 semanas; e entre os pedidos da 7ª são de referir o do então Ministro da Defesa (20.000) e o do Prior de Fátima, em Lisboa (10.000). Mas a campanha de um milhão de vendas ainda continuava em 1957 – evidentemente muito longe de ser atingida – quando em Junho era preparada a 8ª edição. Porém, em 1992 ele continuava convencido de termos atingido a venda de uma milhão.[10]

[4] O 8º dom do Espírito Santo

Assim chamava o frei Inácio ao “gosto bíblico”, já em 1954. Deste “gosto bíblico” fala ao Comissário Provincial frei Francisco da Mata Mourisca,[11], numa carta de Lamego a 11 de Maio de 1963: «este método dos Colóquios Bíblicos é não só importante, mas necessário, como método de iniciar as almas na leitura e meditação da Bíblia; não basta editar e difundir as edições, torna-se necessário criar o gosto bíblico...» [sublinhado seu]. E até ao fim continuou a chamar-lhe o “8º dom do Espírito Santo”.

[5] No fim, continuam os livros

Dizia muitas vezes: «Menos palavras dos homens e mais Palavra de Deus.» O seu objectivo era conduzir as pessoas Àquele que é a Palavra, e não às suas palavras. Por isso, ocupava a maior parte do tempo das suas “conferências” ou Colóquios a indicar textos, a ensinar e ajudar as pessoas a localizá-los no livro respectivo, a fazê-los proclamar por alguém em voz alta, a repeti-los com os ouvintes várias vezes (juntamente com o nome do livro, o capítulo e o versículo), para que a memória os retivesse melhor.

Com este processo, muita gente aprendeu de cor frases fundamentais dos Evangelhos, podendo recordá-las e meditá-las em qualquer parte e viver com maior facilidade a sua mensagem. Daí poder dizer que “no fim de cada conferência fica a mesma Palavra de Deus alimentando as inteligências e os corações”, como aos discípulos de Emaús (Lc 24,31-32).

[6] Obséquio à Santíssima Virgem

A intenção de obsequiar a Santíssima Virgem no ano jubilar de 1954, quando Pio XII proclamou o dogma da sua Assunção ao céu em corpo e alma, era sincera da parte do frei Inácio. Mas também haveria nesse pretexto uma certa estratégia, conhecendo ele muito bem a devoção do frei Cornélio a Nossa Senhora.[12] Na verdade, quando estavam em causa meios honestos para atingir fins tão louváveis como este, o frei Inácio nunca deu aos «filhos trevas» (Lc 16,8b) o exclusivo da esperteza.

[7] Centralizar bem Jesus

É claro que o cristão, para sê-lo, tem de fundamentar a sua vida em Cristo e fazer da Pessoa do Mestre o centro e o vértice do seu discipulado. Mas, infelizmente, e sem julgar ninguém, o frei Inácio via muita vida construída sobre areia. Por isso insistia tanto numa formação cristã bem assente na Palavra de Deus. E uma das frases mais repetidas por ele nos Colóquios, era esta de Jesus Cristo: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.» João, capítulo 14, versículo 6. Costumava sublinhá-la várias vezes, batendo com a mão No peito: Vida, Vida, Vida!

O frei Inácio tinha sólidas devoções e uma profunda vida de piedade, prolongando a oração pela noite dentro. Mas não condescendia com “devoçõezinhas” nem com os Catecismos da época, feitos de “fórmulas esqueléticas” – ou seja, sem alma nem testemunhos de vida; pois via que os catequistas metiam isso na cabeça das crianças, em vez de as iniciarem no conhecimento e no amor pessoal de Jesus Cristo. Nem se entusiasmou com o novo Catecismo da Igreja Católica: mais uma vez, temia que as pessoas se ficassem pelas meras formulações doutrinais, por mais ortodoxas que elas fossem.

Apesar do seu amor pelo “Livro dos livros”, ele bem sabia, como diz este Catecismo no número 108, que «a fé cristã não é uma ‘religião do Livro’. O Cristianismo é a religião da ‘Palavra’ de Deus, ‘não duma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo’ (S. Bernardo).» Contudo, livro por livro, via na Bíblia um caminho mais universal, pedagógico e seguro para chegar ao Verbo encarnado e aderir a Ele de coração, do que no Catecismo. E chegou a escrever a alguns Ministros Provinciais para sugerirem aos Bispos a adopção da Bíblia como Catecismo nas suas dioceses.[13]

[8] Única e verdadeira formação cristã

À vista de tanto devocionismo, era compreensível a sua urgência em “dar aos fiéis a única e verdadeira formação cristã”. E não tanto para ombrear com os protestantes ou tirar argumentos às seitas, que muitas vezes tinham intuitos meramente proselitistas; o frei Inácio apostava na conversão dos cristãos a Cristo e na justa equação do culto aos santos. Infelizmente, não ouvimos a tempo o que o Espírito dizia às nossas “igrejas”, através de tantos sinais. Em vez de anunciar a Palavra de Deus, por vezes infundimos medos e moralismos, patrocinámos visões e aparições, ou brandimos contra inimigos como se fossem mais fortes do que Jesus Cristo. Por isso, na XXV Semana Bíblica Nacional, tantos anos depois de Pio XII, ainda se insistiu numa Bíblia em cada lar e numa Escola Bíblica em cada paróquia.

Se tivéssemos criado fundos para a formação dos fiéis através de edições bíblicas e livros baratos, como propunha o frei Inácio, teríamos construído a Igreja de pedras vivas; e esta saberia construir, depois, as igrejas e os centros de formação, abrindo-se também a novos ministérios. E talvez não houvesse, hoje, tanto paganismo entre os cristãos, nem tantas igrejas, Seminários e Colégios vazios – continuando nós a dever, ao país e ao mundo, este serviço fundamental: evangelizá-lo e reconduzi-lo à matriz cristã dos valores humanos. Mas parecemos ter medo da Bíblia!

[9] Na Península e no Novo Mundo

Como é sabido, o frei Inácio fundou em Portugal a revista Bíblica e a Editorial Difusora Bíblica. Percorreu o país de uma ponta à outra cobrindo-o de várias edições bíblicas e de Missais Bíblicos. Ao regressar a Espanha, em 1966, pôde finalmente realizar o sonho que em 18 de Agosto de 1956 apresentava ao Ministro Provincial de Castela, frei Higínio de Trascastro: «o Movimento Bíblico simultâneo em Portugal e Espanha, com irradiação para a América». Primeiro, tentou reforçar os fundamentos da Difusora Bíblica em Madrid, por ele aberta em Fevereiro de 1965 no início do mandato de frei Donato de Monleras (Francisco Iglesias). Depois, lançou iniciativas editoriais e vários livros da Bíblia, e angariou milhares de assinaturas para a revista Evangelio y Vida, dirigida pelo frei Carlos de Villapadierna, que os Capuchinhos de Castela já tinham desde 1959. Feito isso, depressa tentou concretizar a terceira parte da sua ideia.[14]

Foi a 4 de Fevereiro de 1967 que ele partiu para a América Latina, onde fundou a revista Orientación Bíblica e abriu a Difusora Bíblica no México e em Bogotá. Acerca do tempo de estada e dos países percorridos, diz-nos ele em 29 de Agosto de 1980:[15]  «Minha primeira viagem à América: Fevereiro 1967 a Julho 1969. Finalidade: divulgação de edições bíblicas e principalmente orientar “Cursilhos Bíblicos”. Países percorridos: Rep. Dominicana, Porto Rico, Venezuela, Colômbia, Panamá com toda a América Central, México, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. [...] Segunda viagem pelo mundo hispano: Fevereiro 1976 até ao momento presente, Agosto 1980.»

Entretanto, a 7 de Agosto de 1978, acompanhado pelo professor José Garcia Bauer[16], fez escala em Lisboa e veio à nossa casa, onde eu os entrevistei para a revista Bíblica[17], seguindo para Madrid algumas horas depois; e em 1984, participou em Fátima na VII Semana Bíblica Nacional, sobre os Profetas, de 2 a 7 de Setembro. Resta-me saber quando voltou para lá, onde permaneceu até fins de Julho de 1994, embora tenha estado em Fátima no dia 8 de Maio de 1993 para a inauguração do actual Centro Bíblico dos Capuchinhos.[18]

Do período de 1981 a Fevereiro de 1982 fala o próprio frei Inácio, por ocasião da Visita Canónica do Ministro Geral, frei Pascoal Rywalski, numa «crónica-resumo do movimento bíblico, que ultimamente temos vindo a realizar no México e outros países da América Latina.» Nela refere, além de 12 dioceses do México: América Central, Colômbia, Equador, Peru, Costa Rica. No final, o mesmo frei Inácio escreveu com o eu punho: «Resposta pessoal do R.mo Padre: “Siga com todo este apostolado, tão conforme com a Igreja pós-conciliar; continue a contar com a bênção dos Superiores”.»

Noutro Relatório de 1986, intitulado “Difusora Bíblica com a Palavra de Deus”, faz a síntese desse ano. Em 1992 esteve em Lisboa, incitando os Capuchinhos portugueses a colaborar com ele na América Latina; mas não foi possível atender ao seu pedido, talvez com prejuízo apostólico nosso.[19]

Voltou à América Latina, pelo menos na segunda quinzena de Julho de 1993, a julgar  por uma carta do seu Ministro Provincial frei Fidêncio González, no dia 14, que previa o seu regresso a Espanha em princípios e 1994.  Mas, de facto, em 28 de Julho desse ano ainda estava no México, onde redige o seu “giro bíblico” de 25 de Maio a 18 de Julho de 1994. Só depois desta data é que regressou a Espanha, pois no final indica a sua «residência a partir de Agosto de 1994», em Madrid. Aí refere as datas do trabalho pastoral realizado em cada país, em 1994: Guatemala-capital, 26 Maio; Honduras, 29 Maio; Nicarágua, 3-7 Junho; El Salvador, 8 Junho; Costa Rica, 11 Junho; Panamá-Tocumen, 14 Junho; Venezuela, 16-21 Junho; Equador, 30 Junho; Peru, 2-7 Julho; Bolívia, 8 Julho; Chile-Santiago, 13 Julho; Argentina e Uruguai, 18 Julho.

Na América, o frei Inácio preocupou-se em fazer Colóquios Bíblicos na maior parte das dioceses e Congregações religiosas, tendo, para isso, sido traduzido e editado no México o seu livro Colóquios Bíblicos (Lisboa, 1966), que em 1985 ia na 11ª edição; fundar a Difusora Bíblica em várias capitais (costumava referir Lisboa-Madrid-México-Bogotá); editar os livros sagrados; fundar centros de animação e distribuição e formar Mensageiras do Evangelho: religiosas especialmente preparadas para orientar Colóquios Bíblicos ao povo nas paróquias, através de um contrato com o bispo diocesano válido por três anos renováveis.

Fica-nos a impressão de que o frei Inácio chegou ao nosso país na hora exacta para lançar o Movimento Bíblico a partir quase do zero; mas que, ao regressar, em Espanha o Movimento já estava em marcha, embora dirigido a níveis mais elevados, e não encontrou o mesmo entusiasmo por parte dos responsáveis diocesanos e religiosos. O facto é que, apesar do seu esforço e do apoio que recebeu dos vários Ministros Provinciais e Superiores locais, e embora no seu país fosse e seja necessário, como em Portugal, iniciar a maioria das pessoas numa leitura crente da Bíblia – uma aparente frieza levou-o a sacudir o pó das sandálias e a voltar-se para a América Latina. Donde escrevia, logo em 1967: «O tempo perdido com métodos antiquados e com literatura superficial está sendo recuperado com a melhor das mensagens.» Oxalá soubéssemos ser tão consequentes e corajosos como ele, e sempre “firmes na fé!” como ele dizia e vivia.

“Abrindo brechas!”

De Lisboa, a 16 de Março de 1956, diz em carta ao frei Cornélio em Madrid: «Continuo nos Colóquios Bíblicos, abrindo brechas!» Mas, antes e depois, fez muito mais do que isso: cavou e plantou; arou, gradou, semeou e colheu; escreveu, editou, ofereceu, “colocou” (distribuiu), vendeu, explicou, pregou, rezou, entregou-se até ao fim, morreu na leiva – ou na margem... pela Palavra de Deus!

Sabem qual foi a sua última acção bíblica no terreno? Quinze dias antes da sua morte foi a Salamanca, capital europeia da cultura. À tarde, um colega seu passava pela Plaza Mayor, no centro da cidade, e perguntaram-lhe: “Aquele senhor que está acolá não é seu colega?” Ele olhou e viu o frei Inácio sentado no chão, num canto da praça, com um monte de livros bíblicos aos pés, distribuindo papéis e mostrando livros a quem passava. Uns aceitavam os papéis e compravam, outros passavam sem olhar, outros atiravam dinheiro para o chão pensando tratar-se de um pedinte.

Foi assim o frei Inácio, do princípio ao fim. Pelo que dele testemunhei e conheci, não teria dúvidas em assinar um pedido de abertura do seu processo de canonização.

Qual outro Paulo, “combateu o bom combate, terminou a corrida, permaneceu fiel.” Não se pode dizer que vivesse preocupado com a “coroa merecida”; pois, quando lhe diziam para cuidar da saúde, respondia: “Quando for, será”. Mas o Senhor, justo juiz, já lha entregou... bem como aos outros que, na minha fantasia, estavam com ele às portas do Paraíso.

frei Lopes Morgado

___________________

[1] Na sua maior parte, o texto presente foi publicado na revista BÍBLICA nº 283 (Novembro-Dezembro 2002) 4-16. Mas aqui acrescento mais alguns pormenores e algumas notas omitidas na revista. O testemunho do frei Fernando de Negreiros, cortado em parte na revista por falta de espaço, é reproduzido aqui na íntegra. Também se inclui o testemunho do frei Egido, que já chegou tarde para entrar na revista.

[2] “Vós chamais-me Mestre e dizeis bem... dei-vos o exemplo...” (Jo 13,13)

[3] “Os judeus pedem sinais, os gregos, sabedoria; nós, porém, pregamos a Cristo crucificado...”

[4]Notas de Banco, oferecidas por “madrinhas” especiais do frei Inácio, e enviadas de Portugal para constituir um “Fundo Bíblico” em ordem à fundação da Difusora Bíblica em Espanha, que o frei Inácio desejava concretizar antes do fim do mandato do frei Cornélio, pois pretendia, então, regressar à sua Província de origem. De facto isso não foi possível; e o frei Cornélio escreve-lhe, em 7 de Maio seguinte: «Espero que na sua próxima carta me diga já definitivamente o que deseja que se faça do dinheiro que tem aqui como “fundo bíblico”, para eu poder entregá-lo no Capítulo ao novo P. Provincial e o utilizem conforme os seus desejos de publicações bíblicas”. O novo Provincial foi o frei Donato de Monleras (Francisco Iglesias), que concretizou o regresso do frei Inácio a Espanha para lá iniciar um Movimento Bíblico semelhante ao de Portugal.

[5] Era o italiano frei Benigno de Sant’Ilario Milanesse. Na carta, datada em Roma a 20 de Abril de 1954,  mostrava-se «muito agradecido pelo obséquio da sua linda “História de Jesus”, à qual desejamos – dizia – uma grande difusão na sua nova edição, para que continue a fazer conhecer e amar nosso Senhor Jesus Cristo entre os seus leitores de língua portuguesa».

[6] Seráfico. Qualificativo dado a S. Francisco de Assis, em toda a Ordem Franciscana e na Igreja, comparando-o a um Serafim pela sua proximidade espiritual com Deus.

[7] Abreviatura de Ordem dos frades menores Capuchinhos, em latim:  O.(rdinis) f.(ratrum) m.(inorum) Cap.(ucinorum)”.

[8] A ele se refere a carta do Ministro Geral, da nota 4.

[9] Em 1962 era já cardeal e Presidente da Comissão Pontifícia do Apostolado dos Leigos Preparatória do Concílio Vaticano II, quando o frei Inácio lhe enviou uma Carta dirigida aos Padres Conciliares, intitulada “A Sagrada Escritura meio imprescindível para a formação cristã”. Numa breve missiva, o sacerdote amanuense Luigi Bogliolo refere que «o Card. Cento [...] recebeu as propostas do P. Vegas, residente em Lisboa, e assegura-lhe que foram devidamente tomadas em consideração e transmitidas à Comissão competente». Lapso curioso: o cartão está datado na Cidade do Vaticano a 1 de Dezembro de 1910!

[10] Entrevista em BÍBLICA nº 219 (Março-Abril 1992) 86-90.

[11] Em 1967 foi eleito I Bispo da nova diocese de Carmona-São Salvador, em Angola, depois dividida em duas, uma delas Uíje, onde segue o D. Francisco.

[12] Uma prova clara disso: a sua primeira fundação à frente dos Capuchinhos de Portugal foi em Fátima, na casa da Pensão Sagrada Família, logo em 13 de Maio 1955; e a última foi a parte mais antiga do actual Centro Bíblico dos Capuchinhos, para o Noviciado, inaugurada em 13 de Junho de 1961, em substituição da primeira.

[13] Em 1992, dizia-me: «Na América Latina estamos a tentar que se adopte o próprio Evangelho como Catecismo. Temos recebido respostas simpatizando com a ideia. Nesta linha, a Difusora Bíblica no México tem vindo a aconselhar que o “Secretariado de Evangelização e Catequese”, existente em todas as Dioceses, se passe a chamar apenas “Secretariado de Evangelização”, pois a Evangelização inclui o conceito de catequese.» In Bíblica, nº 219 (Março-Abril 1992) 87.

[14] Esta ideia era tão antiga, que bem podemos falar do seu “sonho americano”... Em Agosto de 1961, dos Açores, em carta ao frei Cornélio, já fala de «quando for à América» e diz que «o último ano do triénio talvez seja já a hora de organizar o movimento bíblico em toda a América», referindo «as colónias Espanhola e Portuguesa» do Canadá e Estados Unidos. Responde o frei Cornélio a 28, alegrando-se com os resultados obtidos nos Açores, acrescentando: «E isso – diz – fez-lhe ver claro o que seria um percurso pela América... Que Deus lhe conceda poder fazê-lo.» O mesmo frei Cornélio diz-lhe, a 2 de Março de 1962, que «convirá adiantar a sua viagem à América»; a 4 de Abril o frei Inácio alude ao trabalho na Espanha e na América; e a 7 de Dezembro, diz-lhe que estuda inglês para essa «próxima viagem». A 1 de Janeiro de 1963, o frei Cornélio imagina-o «prestes a subir para NorteAmérica», fazendo «votos para que seja uma viagem utilíssima»; mas o frei Inácio responde, a 14: «Obediência para a América negada; responderam ao P. Comissário que a pediu, que tratasse da campanha por correspondência... Paciência!» Só volta à carga em 1967, quando já estava definitivamente em Espanha. A 4 de Janeiro, de Madrid, escreve ao frei Francisco Iglesias de Monleras, seu Ministro Provincial, sugerindo que, ao solicitar a “obediência” (licença do Ministro Geral), para a sua viagem à América, a peça, em princípio, para a Venezuela, mas alargando-a a «outros países americanos».

[15] História da Difusora Bíblica em 3 páginas, dirigida do México ao Dr. Robert Delaney, da Febicam, na Alemanha.

[16] «Delegado responsável do movimento bíblico na Guatemala»: frei Inácio, Resumo ao Dr. Delanay, 29 Agosto 1980, p. 3.

[17] Ver nº 140 (Janeiro-Fevereiro de 1979), 330-336. O frei Inácio acabava de percorrer a República Dominicana, Porto Rico, Venezuela, Colômbia, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá e México. Vinham seis semanas à Europa: o frei Inácio iria a Espanha; o prof. Bauer, à Alemanha, à Itália e a Jerusalém; depois juntar-se-iam de novo rumo ao Brasil, donde partiriam para Puebla a fim de acompanharem de perto a famosa Assembleia da Comissão Episcopal Latino-Americana (CELAM). Em 22 de Maio, o frei Inácio já tinha anunciado esta viagem ao frei Germán Zamora.

[18] Digo actual, porque o nome previsto e anunciado nos cartões era o de Centro Bíblico Frei Inácio de Vegas. Entretanto, o próprio frei Inácio, na cerimónia de abertura, aconselhou-nos a escolher outro nome “mais firme e glorioso”; e no mesmo dia à tarde, em reunião do Conselho Provincial com o Ministro Geral, frei Roberto Carraro, ficou decidido dar-lhe o nome de Centro Bíblico dos Capuchinhos, uma vez que a nossa Casa de Fátima tinha sido publicitado junto do grande público como “Casa dos Capuchinhos”. O nome do frei Inácio ficou reservado para o salão a construir. Como essa construção não se realizou até hoje, deu-se o nome do frei Inácio ao salão-cave existente por baixo da ala reservada à Fraternidade.

[19] Ver a entrevista que então lhe fiz na Bíblica nº 219 (Março-Abril 1992) 86-90.

 

Biografia

Filho de Felipe e Lucilia, nasceu em Vegas del Condado, província e diocese de Leão, na Espanha, a 19 de Setembro de 1904 e foi baptizado no dia 22 seguinte, com o nome de Florencio Eradio González Martínez. Após completar os estudos de Filosofia e dois anos de Teologia no Seminário diocesano local, entrou para os Capuchinhos em 1929.

Fez o Noviciado em Bilbau, onde no ano seguinte emitiu a profissão temporária com o nome de Ignacio de Vegas; os votos perpétuos já foram em Leão, em 1933, sendo também ali ordenado sacerdote em 1934. Os dois primeiros anos viveu-os em Madrid: 1934-35, ministério sacerdotal na igreja de Jesus de Medinaceli; 1935-1936, professor e director dos Irmãos não clérigos, em El Pardo. Ao estalar a guerra civil Espanha veio, para Portugal (Valinha, Monção) com um grupo de jovens candidatos no dia 10 de Junho de 1936.

Entre nós, exerceu estes serviços: Superior de Valinha (1936), Superior do Porto (1938), Professor em Fafe (1939), Superior e Director do Seminário Menor e Professor (1941-1946), Superior e Pároco de Beja (1947 e 1954-56). Em 1955, com a eleição do frei Cornélio de San felices para Comissário Geral de Portugal, desistiu de regressar à sua Província e fundou a revista Bíblica e a Difusora Bíblica (25 de Fevereiro 1955), transitando com elas para Lisboa em 1956 e lá continuando como responsável do Movimento Bíblico até 1965, voltando definitivamente para Espanha em 1966. Em Espanha, fundou a Difusora Bíblica em Madrid (reunião de constituição: 17 de Outubro 1964, no Convento de Santo António, em Cuatro Caminos; carta de oficialização do Ministro Provincial, frei Francisco Iglesias, de Monleras, em 19 de Fevereiro de 19651965); e no México, a Difusora Bíblica e a revista Orientación Bíblica (1986).

Viveu 30 anos em Portugal e pelo menos onze na América Latina, tendo percorrido todos os seus países, além de parte dos Estados Unidos, Canadá e Brasil. Desde 1994 encontrava-se em Madrid, onde foi chamado à vida eterna ao nascer do Domingo, dia 25 de Agosto passado, à uma e dez da madrugada, hora local. O funeral foi celebrado da igreja do mesmo convento no dia 26, às 10 horas da manhã, para a cripta dos Capuchinhos no cemitério “La Sacramental de San Isidoro”, em Madrid.

 

 

Testemunhos

 

Nele, a Palavra de Deus era um fogo devorador

Conheci o frei Inácio de Vegas em 1945. Tinha ele então 45 anos de idade e eu apenas doze. Nesses verdes anos dei entrada no Seminário Seráfico dos Capuchinhos do Porto. Tive-o como primeiro Director. E também como professor de Latim e de Português. De Latim foi um pedagogo razoável. De Português, por razões facilmente compreensíveis, nem tanto. Mas sempre exigente com os alunos na correcta aprendizagem das disciplinas que estavam a seu cargo.

À distância de muitos anos, recordo hoje, com profunda saudade, que já então, nas aulas de Latim, nos exercícios de retroversão para português, utilizava um método pedagógico cuja razão de ser só muito mais tarde viria a detectar: não se socorria dos textos clássicos das Selectas Latinas, mas entregava-nos excertos da Bíblia Vulgata para serem vertidos para a nossa língua.

Terminado o curso dos Seminários, com a ida para o Noviciado, quase lhe perdi o rasto. Tive a dita de o reencontrar cerca de doze anos depois, em 1957. Era eu um jovem sacerdote e ambos tínhamos recebido “obediência” para integrar e trabalhar na Fraternidade de Lisboa. Acontece que dois anos antes, em 1955, com a “cumplicidade” oficial e jurídica do então Comissário Geral, Frei Cornélio de San Felices, o Frei Inácio tinha fundado em Beja a Difusora Bíblica e a revista Bíblica como suporte editorial e pastoral do Movimento Bíblico, por ele iniciado. Entretanto a Difusora Bíblica transitara de Beja para Lisboa, com o Frei Inácio de Vegas como seu animador e responsável. Sendo Secretário Provincial, assumi também na altura a direcção da revista Bíblica.

Foi para mim um dom e um privilégio trabalhar lado a lado com este irmão, exigente consigo e afável com os outros. Do Pai São Francisco aprendeu decerto a amar e a venerar a Palavra de Deus contida nas Escrituras. Foi então que me apercebi que a sua vida de franciscano capuchinho, a sua fé, o seu incansável trabalho apostólico estavam profundamente enraizados na Palavra de Deus e nas suas fontes cristalinas.

Com a Sabedoria do Espírito de Deus, que inspirou aos hagiógrafos sagrados “as santíssimas palavras divinas”, desde muito novo intuiu que a Bíblia nasce da vida e muda a vida. Daí não se cansar de repetir: “Menos palavras dos homens e mais Palavra de Deus.”

Para materializar este sonho, escreveu pequenos opúsculos e vários livros de textos bíblicos previamente seleccionados, começou a publicar a Concordância dos Evangelhos, a História de Jesus segundo a concordância dos Evangelhos, Santos Evangelhos em Concordância, Missal Bíblico dos Domingos, Oração na Bíblia, Antigo Testamento Abreviado. Até que em 1965 teve a indizível consolação de, pela primeira vez em Portugal, poder colocar nas mãos do Povo de Deus a 1ª edição da Bíblia Sagrada traduzida dos originais.

Foi um verdadeiro andarilho ao serviço da difusão da Palavra de Deus. De sacola às costas, percorreu o país de lés-a-lés, como autêntico distribuidor de “pérolas preciosas”, sentindo-se plenamente gratificado por ter sido escolhido pelo Senhor como seu profeta para levar a toda a gente a Boa Notícia de Jesus “Caminho, Verdade e Vida”. Dizia muitas vezes: “Catecismos? São importantes. Mas o grande e genuíno Catecismo é a Bíblia.” E repetia-o em rodeios, a catequistas, padres e bispos.

Como todos os grandes evangelizadores ao serviço da profecia, não teve vida fácil. Mas soube sempre suportar e superar incompreensões e contradições, com avanços e recuos estratégicos, para que a dinâmica por ele imprimida ao Movimento Bíblico não esmorecesse ou fosse interrompida. Para ultrapassar esses contratempos segredava-me muitas vezes esta receita evangélica infalível: “Padre Fernando, pouco a pouco – umas vezes devagarinho, outras depressa – mas definitivamente!”

Este foi o Frei Inácio de Vegas com quem partilhei, na alegria de servir e de ser irmão, uma boa parte da minha vida fraterna e apostólica: um crente orante e contemplativo em cujo coração a Palavra de Deus “era um fogo devorador”, encerrado na sua medula e nos seus ossos, que ninguém “podia conter” (Jr 20,9).

Frei Fernando de Negreiros

Setembro de 2002

 

Mensageiro dos Profetas

Acabava de chegar de terras castelhanas,

de cumprir pela última vez a sua paixão

por difundir a Bíblia.

Chegou com o corpo vergado

e os seus 98 anos às costas.

Só mais uns dias e hoje 25 de Agosto de 2002

a sua cara olha para as alturas,

recolhido na caixa, na capela do convento

de Usera de Madrid.

Posição, talvez incómoda para o seu corpo,

até estes dias sempre a caminho

e com horizonte ilimitado.

Do seu cadáver eleva-se

uma total exemplaridade.

Ninguém como ele, nestes últimos tempos,

tão repetitivo e eficaz

na difusão da Palavra de Deus.

Conheceu todas as nações

de língua espanhola e portuguesa

com a missão exclusiva da sua Bíblia na mão.

De forma alguma lhe agradava

a lentidão das autoridades da Igreja

quando não seguiam o seu ritmo de urgências,

pois ele estava carregado de juventude e paixão.

Como Francisco de Assis, onde o seu convento?

Poderia responder: “todo o universo”.

E tal como Francisco, quase ao morrer,

disse “agora começo”,

também o Irmão Capuchinho Ignacio de Vegas,

no dia anterior, com plena lucidez,

falava de novos projectos para a difusão bíblica.

Os grandes exemplos não estão sempre longe:

hoje temo-lo entre nós.

António Oteiza,

Usera, 25 de Agosto de 2002

 

IRMÃO INÁCIO DE VEGAS,

“génio e figura até à sepultura”

Certamente, nunca vamos conseguir “re-cordar” as pessoas mortas como elas foram em vida. Certamente, nunca as palavras poderão descrevê-las com a força e a plasticidade que manifestaram enquanto andavam por estes caminhos de tempo. A arte de escrever nunca poderá esgotar a suma arte de ser e de existir. Sim, Irmão Inácio, terás que me emprestar a exuberância, florescente e sempre jovem, das tuas 98 primaveras, para hoje me aproximar de ti, após estes quinzes dias, tu já na casa do Pai e eu querendo vislumbrar a tua figura...

Oh, se ao menos estas poucas palavras inseguras fossem um testemunho vivo da vida dinâmica, sempre pletórica e sempre operativa, do meu querido irmão Inácio de Vegas! Que investidas de Quixote a lo divino! Pensar e não fazer é um pecado, é estafar a vida; é morrer vivendo e não viver... Deste modo pensava ele e o comunicava de mil  formas: entrando e saindo, andando por tantos caminhos, oferecendo a Palavra de Deus a borbotões, com as mãos, o coração e os lábios... Sim, mais ou menos assim pesava ele, e o comunicou sempre: fazendo e vivendo.

Convivi com ele três anos, os últimos três da sua vida. Abordou-me em muitas ocasiões, escreveu-me muitas mensagens, umas bíblicas, outras muito humanas, sempre optimistas, impulsivas, incisivas, muitos slogans para nos lançarmos e avançarmos em campanhas bíblicas. Querendo sempre fazer mais, um dia e outro dia, pressionava-te com o penúltimo pensamento, fustigava-te com a sua palavra acesa, com o seu verbo emocionado e profético... Nunca com a última iniciativa. Toda a sua vida foi incansável, incombustível; homem prático e sumamente comprometido como ninguém. Este, sim, poderia dizer com verdade: Percorri muitos caminhos, encontrei-me com incontáveis gentes, gritei em muitos lugares, por espaços internacionais... Mas nunca me cansei. Pisei plataformas e foros muito diferentes, dialoguei ecumenicamente com todas as raças e culturas, com inumeráveis sentires e dizeres, com gentes muito doutas ou simples do povo... e nunca me acobardei. a Palavra de Deus, única base na alma e no corpo, encorajava os meus passos e a minha vida.

Quantas vezes recordei, ao ver a sua figura e o seu jeito de vozeador ambulante, o perfil daquele outro profeta, Elias, perdido no deserto... Mas ao contrário: o irmão Inácio nunca se sentiu cansado; sempre a caminho, com a sua mochila e a única oferta que levava no coração e nos lábios: a Palavra de Deus. Brotava-lhe e saía-lhe por todos os poros do corpo e oferecia-a como uma torrente. Não existia outra coisa e outra causa para ele: Ou fazemos o que pensamos, ou perdemo-nos sem fazer nada... E o Vaticano II urge-nos e continua a chamar-nos.

Penso que poucos, como ele, conseguiram identificar-se com o conceito de ciência franciscana: Sabemos quanto fazemos e temos de começar cada dia, pois o de ontem já fica para trás... Assim foi. A sua agilidade, a sua coragem, a sua persistência, a sua audácia evangélica, os seus gestos nervosos e expressivos, traçam-nos um perfil inapagável e irrepetível. Não o imagino “ido”; pelo contrário, parece que estou a ouvi-lo repetir-me: “Preciso de mais alguns meses para fazer algumas coisas importantes... Mas, se tiver que fazer já a última viagem, aqui estou, Senhor; o que tu mandes: estou pronto.”

Irmão Inácio querido, “génio e figura até à sepultura”. Sim.

Frei Inocencio Egido

Superior do frei Inácio em Usera, Madrid, em 1999-2002

 

 

A última semana (Domingo a Domingo: 17 a 25 de Agosto)

 

Domingo: às 21hs, depois de jantar, sentiu-se mal e foi levado à Urgência do Hospital. Regressou a casa: precisava de ser operado, mas estava muito débil, desidratado.

Quarta: foi internado na Clínica Moncloa (Avª Valladolid, 82). Acharam-no muito frágil para ser operado. Mas depois sentiram-no melhor e resolveram operá-lo.

Quinta: às 18hs foi operado; correu tudo bem. Ao acordar da anestesia, pôs-se logo a falar da urgência da evangelização e de novos projectos... Evoluiu bem, ao ponto de lhe tirarem a respiração assistida.

Domingo: à 01h10, o coração não resistiu. O diagnóstico da causa da morte foi: “Isquémia intestinal”. Às 15hs foi trasladado da Clínica para a casa mortuária da paróquia/convento do Coração de Jesus, em Usera (Madrid), onde ficou em câmara ardente.

Segunda: às 10hs, traslado para a igreja e Missa de corpo presente, presidida por frei Domingo Montero, Ministro Provincial de Castela, e mais 20 concelebrantes de Madrid (Usera, Jesus de Medinaceli, El  Pardo e Cuatro Caminos), Leão, Salamanca, Navarra, Portugal (frei Acílio, José Machado e Lopes Morgado), P. Carlos de Villapadierna, um sobrinho diocesano, e um grupo relativamente reduzido de leigos e religiosos, entre os quais o frei Luís Leitão, português, da Província de Angola. Seguiu-se o funeral para a cripta dos Capuchinhos no cemitério “La Sacramental de San Isidoro”. No dia seguinte cumpriam-se 14 anos da morte de seu sobrinho, frei Orensio Llamazares, que o apoiou, enquanto Superior de San António, em Cuatro Caminos, na fundação da Difusora Bíblica em Espanha, em 1965.

Ao chegar de Salamanca vinha bastante depauperado. Segunda e Terça não desceu ao refeitório para comer. Quarta de manhã não comungou, mas pediu a Santa Unção. Depois da Missa das 20hs fui ao quarto dele e encontrei-o caído na casa de banho, sem forças para se levantar. Pediu para se confessar. Foi muito breve, mas fantástico; emocionou-me muito dar-lhe a absolvição. A caminho da Clínica ia a seu lado na ambulância, atrás, e perguntou: “E à frente não vai ninguém?” “Vai o Espírito Santo” – respondi. E riu-se com vontade. Quando lhe iam tirar sangue da artéria, disseram que ia doer. Nem um queixume. No hospital não se queixou de nada. Sorridente, dizia muitas vezes ao médico: “Firmes na fé!”

Dados recolhidos por frei Lopes Morgado,

junto da Fraternidade

e do Superior eleito de Usera (Madrid),

frei Hilário Rodríguez,

em 26 de Agosto de 2002

 

 

"Morrer é voltar a casa!", Homilia de frei D. Montero no funeral do frei Inácio

 

Reunimo-nos para, a partir da fé, da esperança e da dor, fazer a Deus a oferenda do nosso irmão Inácio que, iniciado pelo baptismo na vida da fé na Igreja com o nome de Florencio, hoje, a partir da igreja, se incorpora na vida definitiva dos filhos de Deus. Isto é a morte para o cristão: voltar à casa do Pai. Morrer é voltar a casa!

O nosso irmão regressa a casa. Reunimo-nos para proclamar, acima e para além desta morte, a nossa fé na Vida, mas também para exprimir humana e cristãmente a nossa dor. Esta a pesar de esperada, nem por isso é menos sentida. Este é um momento em que a esperança cristã não pode eliminar a dor, nem a dor pode afogar a esperança cristã.

A Primeira Leitura recordou-nos que “a misericórdia de Deus não acaba”, que “se renova cada manhã” e que “é bom esperar no silêncio a salvação de Deus” (Lm 3,22-23.26). Que assim seja para ti, irmão Inácio! A morte, é verdade, tem uma componente desgarradora, dramática, e é esta que os que não têm esperança absolutizam. São Paulo recordou-nos na Segunda Leitura: “Não quero que ignoreis a sorte dos defuntos, para que não vos entristeçais como aqueles que não têm esperança”(1 Ts 4,13). Que assim seja para nós, irmãos!

Nós acreditamos e esperamos em Jesus Cristo e nas suas palavras: “Eu sou a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá...” (Jo 11,25); “quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna e Eu ressuscitá-lo-ei” (Jo 6,54); “as minhas palavras são espírito e vida” (Jo 6,63)... E isto foi particularmente verdade no nosso irmão Inácio.

A fé não imuniza – sensibiliza; não elimina, mas ilumina a dor... Estas palavras não são de falsa esperança, destinadas a camuflar o rosto severo da morte. A fé não imuniza – sensibiliza; não elimina, mas ilumina a dor e as lágrimas. O cristão sente com profundidade a dor da morte, mas sabe situá-la à luz do mistério da morte e ressurreição de Cristo.

A morte é susceptível de múltiplas leituras. Pode sofrer-se, ser protagonizada e até celebrada e cantada (“Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã morte...!”). Pode viver-se e ver-se como desgarramento ou abraço fraterno (o da “irmã morte”); como aniquilação o descanso; como desterro para o frio mundo do não ser ou regresso à casa do Pai; como isolamento no vazio mais absoluto ou queda nos braços de Deus; como  ceifa voraz ou sementeira esperançada; como ocaso ou como aurora.

Estou certo de que o nosso irmão Inácio a viveu e esperou como abraço fraterno, como descanso, como regresso à casa do Pai, como queda nos braços de Deus, como sementeira esperançada, como aurora... O nosso irmão regressa a casa. Fazer nestes momentos uma síntese da vida e actividade do P. Inácio seria impossível. Trata-se de una vida não apenas extensa (98 anos quase feitos, dos quais 72 de religioso e 68 de sacerdote), mas também muito intensa.

O P. Inácio foi um trabalhador incansável em todos os lugares e ocupações, tanto em Portugal onde passou a maior e melhor parte da sua vida (uns trinta anos) como em Espanha. Até que, por inspiração do Espírito, descobriu “o tesouro” (Mt 13,44) e “a pérola preciosa” (Mt 13,45) – o serviço da Palavra de Deus – e a converteu na paixão e na obsessão da sua vida. Nele, repetiu-se a cena do livro dos Actos dos Apóstolos (6,2-4) e do evangelho de são Lucas (10,38-42), e decidiu dedicar-se ao serviço da Palavra (Act 6,4) como a “o único necessário” (Lc 10,42).

A Bíblia era a sua casa. É impossível resumir a sua actividade como difusor da Bíblia. A sua figura elementar e rija, delicada e entusiasta, humilde e convincente percorreu todos os países de língua hispana. Da América à Índia, o P. Inácio foi um mensageiro incansável ao serviço da Palavra de Deus. Tomou muito a sério a advertência dirigida por Paulo a Timóteo: “Proclama a Palavra, insiste em tempo propício e fora dele” (2 Tm 4,2), e por isso não cessava de apresentar projectos para ampliar os horizontes do apostolado bíblico. Adornado pelo “oitavo dom do Espírito Santo”, o gosto bíblico, também estava inflamado pelo “zelo bíblico” de Jeremias (“Eu devoro as tuas palavras, onde as encontro” Jr 15,16) e de Paulo de Tarso (“Ai de mim, se eu não evangelizar!”) (1 Cor 9,16).

O P. Inácio deixa uma marca e um legado muito importante nos seus livros, nos seus opúsculos bíblicos, nas suas edições do texto sagrado, nas revistas que fundou (Bíblica, en Portugal y Orientación Bíblica no México) e que difundiu (Evangelio y Vida em Espanha), nos movimentos bíblicos e associações bíblicas a que deu vida sobretudo na América Latina e em Portugal, onde fundou a Difusora Bíblica (1955), que depois introduziu em Espanha (1965).

Mas no P. Inácio havia um rasgo ainda mais importante que o da sua actividade bíblica: era o da sua espiritualidade bíblica. Ele não era só o difusor  da Bíblia; a Bíblia era a sua casa: vivia a Palavra e na Palavra. Antes de meter a Bíblia na sua mochila para sair à rua, tinha-a metido no seu coração numa oração profunda e longa. Todos os dias, antes de amanhecer – era a sua norma – elegia um ou dois versículos que convertia em tema de oração e reflexão ao longo de toda a jornada. A mensagem da Palavra configurou a sua vida como peregrino; sentia a “urgência” da Palavra em si mesmo, dentro de si, e isso fazia-o superar as “incompreensões” que encontrou ao longo da sua vida.

O Padre Inácio era um profeta, e os verdadeiros profetas nunca morrem, porque fica a sua mensagem. “Que fostes ver? Um profeta? Sim...” (Mt 11,9). Esta afirmação de Jesus a respeito de João Baptista pode aplicar-se ao nosso querido P. Inácio. Se ser profeta é viver em função da e para a Palavra de Deus; se ser profeta es ter, a partir dos critérios da Palavra de Deus, uma visão e uma proposta alternativa à mundana...; então, não há dúvida, o P. Inácio era um profeta. Alma grande em corpo frágil, sim, o P. Inácio era um profeta, e os verdadeiros profetas nunca morrem, porque fica a sua mensagem, que é a essência e a alma do profeta.

Termino, e perdoai se me alonguei um pouco: creio que o nosso irmão o merece. “O Senhor me deu irmãos”, dizia são Francisco. Sim, como dizem belamente as nossas Constituições, os irmãos são um dom de Deus. E o P. Inácio foi um dom precioso e singular. “O Senhor mo (no-lo) deu; o Senhor mo (no-lo) tirou. Bendito seja o nome do Senhor!” (Jb 1,21)

Obrigado, Senhor, pelo P. Inácio, pela sua vida e pela sua morte! Ámen.

“Morrer é voltar a casa!”

Homilia de frei Domingo Montero, Min. Prov. de Castela

no funeral do frei Inácio de Vegas 

(26 de Agosto de 2002)

tradução: frei J. Lopes Morgado

 

 
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