
Frei Inácio de Vegas
o apóstolo apaixonado
pela Palavra-Pessoa de Deus
frei J. Lopes Morgado[1]
AFIRMO já isto, sem nenhum receio: o frei Inácio de Vegas foi o
maior apóstolo da Sagrada Escritura na segunda metade do século XX e a
pessoa que de modo mais persistente dedicou a sua vida a iniciar todo o
povo na leitura da Palavra de Deus. Estava prestes a fazer 98 anos
quando nasceu para a eternidade, com o Domingo dia 25 de Agosto passado,
à uma e dez da madrugada, hora de Madrid.
No dia seguinte pela manhã, durante a celebração da
sua Páscoa, deixei-me conduzir por esta fantasia para dominar a emoção:
o frei Inácio, jovem e apressado como sempre, com uma sacola cheia de
Evangelhos a tiracolo e um punhado de Novos Testamentos na mão, tentava
chegar à cabeça da longa fila às portas do Paraíso para não perder a
última oportunidade de “colocar” mais alguns livros, como ele dizia;
enquanto o Pai Eterno, sorrindo aos reparos dos outros candidatos,
repetia: “A Palavra de Deus tem sempre prioridade.” Ou seja, a frase-chave do próprio
frei Inácio em vida.
À mente, veio-me a confissão de Paulo: «Combati o
bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora, já
me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor,
justo juiz, e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua
vinda.» (2 Tm 4,7-8) E senti que o já de Paulo era, para o frei Inácio,
agora. Ali celebrávamos o “Hoje” da sua salvação.
A carta-síntese de uma vida
Foi à luz da morte e ressurreição de Jesus que os
Apóstolos entenderam a sua vida pública e elaboraram a teologia à volta
da sua infância. E por esta mesma ordem é que foram escritos os
Evangelhos.
O mesmo aconteceu comigo acerca do frei Inácio: só
depois de celebrar a sua Páscoa é que se me fez luz sobre toda a sua
vida e consegui fazer a síntese do sentido único por que se tinha
orientado, sem desvios, ao longo dos últimos 48 anos. Serviu-me de guia
uma carta que fui encontrar, no mesmo dia 26 à tarde, quando me adentrei
pela pasta nº 77, com o nome do frei Inácio, que se encontra no
arquivador 20 do Arquivo Provincial dos Capuchinhos de Castela
(Província a que ele pertencia desde 1930), no Convento de Jesus de Medinaceli, em Madrid.
Trata-se de uma longa carta de 4 páginas A-4,
escrita à mão em castelhano, datada a 28 de Abril de 1954 em Vila Nova
de Poiares, e dirigida ao frei Cornélio de San Felices, Ministro
Provincial de Castela (eleito “Comissário Geral” dos Capuchinhos em
Portugal em 14 de Janeiro de 1955). Nela encontram-se todos os valores e
linhas de acção que viriam a nortear o seu apostolado bíblico em
Portugal, na Espanha, na América Latina e um pouco por toda a parte.
Traduzo, mantendo os seus sublinhados e travessões, apenas introduzindo
uma enumeração à margem para melhor organizar os comentários que farei a
seguir. Eis a carta:
[1] «– Muito gostaria de me poder consagrar a
este apostolado, pois já estou a ver os frutos das conferências bíblicas
em todos aqueles que são fiéis ao propósito de ler e meditar diariamente
algum pensamento d’ O Livro dos livros.
[2] – O apostolado consiste nas práticas e
conferências bíblicas e na imediata distribuição de exemplares,
principalmente do N. Testamento. [...]
– Numas 5 semanas consegui colocar 62.000 exemplares
por este método pessoal de conferências e deixando em cada
lugar algum representante do movimento que com zelo apostólico (o
Espírito Santo sempre nos proporciona algum ou alguma) continua a
distribuir os que deixo depositados em cada paróquia, além das centenas
ou milhares que ao terminar as conferências são colocados nas paróquias,
colégios, hospitais, quartéis, etc.
[3] Que interessante seria, Padre Provincial, que a
Província colocasse, neste Ano Mariano, 1.000.000 (um milhão) de
exemplares na Península e na América. No Brasil são muitos os que se
podem colocar, e nas repúblicas espanholas, incluindo a América Central
e México, também, conforme as informações que recebi em Lisboa, falando
com muitos bispos e sacerdotes americanos, com quem me encontrei no Ano
Santo; animaram-me a prosseguir este apostolado, e manifestaram que na
América é urgente esta propaganda não só para formar verdadeiras
cristandades, mas para pôr um dique ao avanço protestante.
[4] Precisamos de infundir o espírito e gosto
bíblico em toda a classe de apostolado; a este espírito poderíamos
chamar-lhe o 8º dom do Espírito Santo.
[5] Que consolador é ver que depois de cada
conferência continuam os livros, isto é, a mesma Palavra de Deus a
alimentar as inteligências e corações de tantos membros do Corpo
Místico!
[6] Vamos com o milhão de Evangelhos neste
Ano Mariano [...]. E que maior obséquio à Smª Virgem Maria, do que
estender o reinado do seu Div. Filho? Não faríamos nada de mais, pois os
protestantes colocaram aqui em Portugal e suas colónias o milhão de
Evangelhos em pouco mais de uma ano; uns vendidos, outros oferecidos.
[7] – Necessariamente devemos renovar os métodos de
apostolado centralizando bem Jesus, nosso Mestre e Modelo na
inteligência e coração dos fiéis, tanto crianças como adultos.
“Vos
vocatis me Magister et bene dicitis... exemplum dedi vobis …”[2]
E
não dar tanta importância às esqueléticas fórmulas do catecismo; só
assim nos assemelharemos à pregação dos apóstolos: “Iudaei signa petunt,
graeci sapientiam quaerunt; nos autem praedicamus Christum crucifixum...”
1ª Cor. 1,23.[3]
– Temos que trabalhar para que não continue este
estado de coisas e se dê aos fiéis a única e verdadeira formação cristã;
em Portugal há dois anos colocaram-se mais exemplares de Santas Filomena
do que dos Evangelhos, e não falemos da profusão de almanaques,
revistas, folhinhas, etc. e devoçõezinhas... Há uns meses, um pároco de
Lisboa teve que retirar Stº Expedito da igreja, porque era uma loucura!
nem se preocupavam com o Santíssimo que estava ao pé!... Em Espanha há
mais alguma formação, mas no que se refere ao conhecimento da Bíblia, é
pouco mais ou menos; este é o maior argumento nas mãos das seitas
protestantes.
[8] – Eu penso com frequência: porque não se
lembrará um prelado de recolher fundos para estas edições bíblicas e
facilitar assim, com livros baratos, a formação dos fiéis? Tal como
encontram para erguer seminários e igrejas encontrariam para isto.
[9] – As folhinhas[4]
que V. R. recebeu aí já sabe que pode dispor delas da forma que N.
Senhor lhe inspirar antes de terminar o triénio, e se a essas folhas
unir outras das que, segundo disse, a Província recebeu de um
testamento, imagine... pode formar um Fundo Bíblico estupendo
para poder irradiar a Palavra de Deus por toda a Península e Novo Mundo,
estendendo assim o reinado de Jesus em proporções deslumbrantes.
[10] – Envio-lhe esta carta que acabo de receber do R.mo Padre Geral.[5]
A ver se isto se encaminha. Bendiga, P. Provincial, o último dos seus
filhos no Sco[6]
Pai
– Fr. Ignacio de Vegas, O.f.m.Cap.[7]»
[1] “Consagração” ao
apostolado
O entusiasmo do frei Inácio pelo apostolado bíblico
nascera no Seminário diocesano de Leão, através do livro Evangelhos em
Concordância oferecido pelo seu tio sacerdote Eredia Martínez. E já se
tinha consagrado a ele, antes da fundação oficial do Movimento Bíblico
em 25 de Fevereiro de 1955, através das conferências ou colóquios
bíblicos, e também escrevendo livros. O primeiro data de 1951 e
intitula-se – talvez por aquela influência do tio – Concordância dos
Evangelhos. Jesus meu caminho, Verdade e Vida e tem 196 páginas. Volta a
sair no mesmo ano, com o mesmo número de páginas, mas impresso em Beja e
com outro título: História de
Jesus segundo a concordância dos Evangelhos. Pensamentos do santo
Evangelho, para todos os dias do ano.[8]
Em 24 de Março de 1952, o frei Mateus do Souto
(então Comissário Geral, e mais tarde administrador desta revista e da
Difusora Bíblica), mandou-o suspender as edições. O frei Inácio
encontrou forma de não cumprir essa ordem, pois teria a consciência
formada de ser esse o chamamento especial que Deus lhe fazia dentro da
vocação geral à Ordem Franciscana, cuja Regra fundamental é «viver o
Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo».
“Ler e meditar diariamente algum pensamento” da
Bíblia era um dos propósitos que se propunham os Amigos da Palavra de
Deus no encerramento dos Colóquios Bíblicos, preenchendo uma ficha (que
servia para lhes ser enviada literatura bíblica posterior) e recebendo
um lindo emblema de lapela; e também: contribuir livremente para a
edição de livros a preço acessível e para oferecê-los aos menos
possibilitados.
[2] O método “pessoal”
Esse método, que o frei Inácio com razão
chama “pessoal” e manteve toda a vida, constava do seguinte:
:: distribuição
de livros a quem os não tinha, sem exigir pagamento prévio;
:: palestra
bíblica, de livro na mão e repetindo juntos muitos versículos, para
apoiar a memória com o ouvido e a leitura;
:: recolha
dos livros que não eram desejados (a quem não podia pagar, oferecia-os);
:: entrega
de vários exemplares que ficavam nas paróquias ou noutras instituições,
ao cuidado de «algum ou alguma representante do movimento», que mais
tarde se entendia com o frei Inácio quanto a dinheiro angariado e
exemplares oferecidos. Daí a rapidez de escoamento na distribuição,
aumentando as tiragens de forma ímpar no meio editorial português e
europeu de então.
Em 18 de Dezembro de 1979, escrevia do
México ao seu Provincial, frei Arsénio Gutiérrez González: «Quero seguir
com o mesmo método noutros países, porque é o melhor meio para conseguir
o máximo rendimento neste urgente apostolado; assim se põe em movimento
a muitos responsáveis, de boa vontade, mas que com frequência estão
inactivos por falta de experiência na pastoral bíblica.»
[3] Um milhão de exemplares
A cifra de um milhão andou na cabeça do
frei Inácio em várias circunstâncias, até ao fim da sua vida. A
antepenúltima carta por ele escrita, que encontrei no Arquivo Provincial
de Castela, data de 20 de Agosto de 2001 e é dirigida ao Ministro
Provincial frei Manuel Muñoz, cessante em Maio passado. Dado que o
“Capítulo” extraordinário daquela Província tinha apresentado a
iniciativa de «oferecer um Novo Testamento a todos os emigrantes actuais
em Espanha», o frei Inácio escreve para que tal projecto seja
concretizado: trata-se de oferecer um milhão de exemplares do Novo Testamento, traduzido dos
originais e aprovado pela Conferência Episcopal. Aberto à participação
individual ou colectiva.
Logo a seguir, no dia 20, volta à carga
numa carta breve com duas referências de interesse para Portugal.
Escreve: «Como o assunto tem certo carácter nacional, será preferível
que o padre Provincial solicite umas letras ao núncio [sic] Apostólico: Mons. D. Antonio Monteiro. Pode ser o melhor resguardo.» E
acrescenta, em «Nota: uma carta do núncio [sic] de Lisboa 1956, Mons. Chento
[sic], italiano, abriu-nos brecha para a Difusora Bíblica-Capuchinhos em Portugal.» Como os leitores saberão, o actual
Núncio Apostólico em Madrid, Dom António Monteiro, é português, da
arquidiocese de Braga. Quanto ao Núncio em Lisboa em 1956, trata-se de
Dom Fernando Cento.[9]
Pouco depois, a 3 de Setembro, data em
que o Conselho Provincial ia reunir, o frei Inácio envia uma carta-nota
escrita à mão e entregue pessoalmente ao frei Inocencio Egido, definidor
e superior da Fraternidade do Coração de Jesus de Usera, a que o frei
Inácio pertencia. Vê-se que o assunto foi tratado nessa reunião, pois na
mesma data lhe escreve o Ministro Provincial, para dizer que: não havia
urgência numa nova edição, pois ainda existiam 2 mil exemplares da
edição anterior; fosse distribuindo esses aos emigrantes que aparecessem
pelo convento do Coração de Jesus de Usera, ou os oferecesse com a mesma
finalidade a sacerdotes de outras zonas; era preciso ter em conta que
muitos emigrantes são muçulmanos. O frei Inácio iria cumprir 97 anos no
dia 19 seguinte, e o seu Ministro Provincial também o felicitava por
isso.
Mas voltemos ao número simbólico de um milhão. Não de uma
edição com essa tiragem, mas de um total de vendas do mesmo livro,
falava já o frei Inácio a propósito da 7ª edição do seu livro Santos
Evangelhos em concordância – História de Jesus, em 1956, para
concretizar o apelo de Pio XII: “Nenhum católico sem os Evangelhos”.
Diga-se que a 6ª, de 60.000 exemplares, tinha esgotado em 3 semanas; e
entre os pedidos da 7ª são de referir o do então Ministro da Defesa
(20.000) e o do Prior de Fátima, em Lisboa (10.000). Mas a campanha de
um milhão de vendas ainda continuava em 1957 – evidentemente muito longe
de ser atingida – quando em Junho era preparada a 8ª edição. Porém, em
1992 ele continuava convencido de termos atingido a venda de uma milhão.[10]
[4] O 8º dom do Espírito
Santo
Assim chamava o frei Inácio ao “gosto bíblico”, já
em 1954. Deste “gosto bíblico” fala ao Comissário Provincial frei
Francisco da Mata Mourisca,[11],
numa carta de Lamego a 11 de Maio de 1963: «este método dos Colóquios
Bíblicos é não só importante, mas necessário, como método de iniciar as
almas na leitura e meditação da Bíblia; não basta editar e difundir as
edições, torna-se necessário criar o gosto bíblico...»
[sublinhado seu]. E até ao fim continuou a chamar-lhe o “8º dom do
Espírito Santo”.
[5] No fim, continuam os
livros
Dizia muitas vezes: «Menos palavras dos homens e
mais Palavra de Deus.» O seu objectivo era conduzir as pessoas Àquele
que é a Palavra, e não às suas palavras. Por isso, ocupava a maior parte
do tempo das suas “conferências” ou Colóquios a indicar textos, a
ensinar e ajudar as pessoas a localizá-los no livro respectivo, a
fazê-los proclamar por alguém em voz alta, a repeti-los com os ouvintes
várias vezes (juntamente com o nome do livro, o capítulo e o versículo),
para que a memória os retivesse melhor.
Com este processo, muita gente aprendeu de cor
frases fundamentais dos Evangelhos, podendo recordá-las e meditá-las em
qualquer parte e viver com maior facilidade a sua mensagem. Daí poder
dizer que “no fim de cada conferência fica a mesma Palavra de Deus
alimentando as inteligências e os corações”, como aos discípulos de Emaús (Lc 24,31-32).
[6] Obséquio à Santíssima
Virgem
A intenção de obsequiar a Santíssima
Virgem no ano jubilar de 1954, quando Pio XII proclamou o dogma da sua
Assunção ao céu em corpo e alma, era sincera da parte do frei Inácio.
Mas também haveria nesse pretexto uma certa estratégia, conhecendo ele
muito bem a devoção do frei Cornélio a Nossa Senhora.[12]
Na verdade, quando estavam em causa meios honestos para atingir fins tão
louváveis como este, o frei Inácio nunca deu aos «filhos trevas» (Lc
16,8b) o exclusivo da esperteza.
[7] Centralizar bem Jesus
É claro que o cristão, para sê-lo, tem
de fundamentar a sua vida em Cristo e fazer da Pessoa do Mestre o centro
e o vértice do seu discipulado. Mas, infelizmente, e sem julgar ninguém,
o frei Inácio via muita vida construída sobre areia. Por isso insistia
tanto numa formação cristã bem assente na Palavra de Deus. E uma das
frases mais repetidas por ele nos Colóquios, era esta de Jesus Cristo:
«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.» João, capítulo 14, versículo 6.
Costumava sublinhá-la várias vezes, batendo com a mão No peito: Vida,
Vida, Vida!
O frei Inácio tinha sólidas devoções e
uma profunda vida de piedade, prolongando a oração pela noite dentro.
Mas não condescendia com “devoçõezinhas” nem com os Catecismos da época,
feitos de “fórmulas esqueléticas” – ou seja, sem alma nem testemunhos de
vida; pois via que os catequistas metiam isso na cabeça das crianças, em
vez de as iniciarem no conhecimento e no amor pessoal de Jesus Cristo.
Nem se entusiasmou com o novo Catecismo da Igreja Católica: mais uma
vez, temia que as pessoas se ficassem pelas meras formulações
doutrinais, por mais ortodoxas que elas fossem.
Apesar do seu amor pelo “Livro dos
livros”, ele bem sabia, como diz este Catecismo no número 108, que «a fé
cristã não é uma ‘religião do Livro’. O Cristianismo é a religião da
‘Palavra’ de Deus, ‘não duma palavra escrita e muda, mas do Verbo
encarnado e vivo’ (S. Bernardo).» Contudo, livro por livro, via na
Bíblia um caminho mais universal, pedagógico e seguro para chegar ao
Verbo encarnado e aderir a Ele de coração, do que no Catecismo. E chegou
a escrever a alguns Ministros Provinciais para sugerirem aos Bispos a
adopção da Bíblia como Catecismo nas suas dioceses.[13]
[8] Única e verdadeira formação cristã
À vista de tanto devocionismo, era
compreensível a sua urgência em “dar aos fiéis a única e verdadeira
formação cristã”. E não tanto para ombrear com os protestantes ou tirar
argumentos às seitas, que muitas vezes tinham intuitos meramente
proselitistas; o frei Inácio apostava na conversão dos cristãos a Cristo
e na justa equação do culto aos santos. Infelizmente, não ouvimos a
tempo o que o Espírito dizia às nossas “igrejas”, através de tantos
sinais. Em vez de anunciar a Palavra de Deus, por vezes infundimos medos
e moralismos, patrocinámos visões e aparições, ou brandimos contra
inimigos como se fossem mais fortes do que Jesus Cristo. Por isso, na XXV Semana Bíblica Nacional, tantos anos depois de Pio XII, ainda se
insistiu numa Bíblia em cada lar e numa Escola Bíblica em cada paróquia.
Se tivéssemos criado fundos para a
formação dos fiéis através de edições bíblicas e livros baratos, como
propunha o frei Inácio, teríamos construído a Igreja de pedras vivas; e
esta saberia construir, depois, as igrejas e os centros de formação,
abrindo-se também a novos ministérios. E talvez não houvesse, hoje,
tanto paganismo entre os cristãos, nem tantas igrejas, Seminários e
Colégios vazios – continuando nós a dever, ao país e ao mundo, este
serviço fundamental: evangelizá-lo e reconduzi-lo à matriz cristã dos
valores humanos. Mas parecemos ter medo da Bíblia!
[9] Na Península e no Novo Mundo
Como é sabido, o frei Inácio fundou em
Portugal a revista Bíblica e a Editorial Difusora Bíblica. Percorreu
o país de uma ponta à outra cobrindo-o de várias edições bíblicas e de
Missais Bíblicos. Ao regressar a Espanha, em 1966, pôde finalmente
realizar o sonho que em 18 de Agosto de 1956 apresentava ao Ministro
Provincial de Castela, frei Higínio de Trascastro: «o Movimento Bíblico
simultâneo em Portugal e Espanha, com irradiação para a América».
Primeiro, tentou reforçar os fundamentos da Difusora Bíblica em Madrid,
por ele aberta em Fevereiro de 1965 no início do mandato de frei Donato
de Monleras (Francisco Iglesias). Depois, lançou iniciativas editoriais
e vários livros da Bíblia, e angariou milhares de assinaturas para a
revista Evangelio y Vida, dirigida pelo frei Carlos de Villapadierna,
que os Capuchinhos de Castela já tinham desde 1959. Feito isso, depressa
tentou concretizar a terceira parte da sua ideia.[14]
Foi a 4 de Fevereiro de 1967 que ele partiu para a
América Latina, onde fundou a revista
Orientación Bíblica e abriu
a Difusora Bíblica no México
e em Bogotá. Acerca do tempo de estada e dos países percorridos,
diz-nos ele em 29 de Agosto de 1980:[15]
«Minha primeira viagem à América: Fevereiro 1967 a Julho 1969.
Finalidade: divulgação de edições bíblicas e principalmente orientar
“Cursilhos Bíblicos”. Países percorridos: Rep. Dominicana, Porto Rico,
Venezuela, Colômbia, Panamá com toda a América Central, México, Equador,
Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. [...] Segunda viagem
pelo mundo hispano: Fevereiro 1976 até ao momento presente, Agosto
1980.»
Entretanto, a 7 de Agosto de 1978, acompanhado pelo
professor José Garcia Bauer[16],
fez escala em Lisboa e veio à nossa casa, onde eu os entrevistei para a
revista Bíblica[17],
seguindo para Madrid algumas horas depois; e em 1984, participou em
Fátima na VII Semana Bíblica Nacional, sobre os Profetas, de 2 a 7 de
Setembro. Resta-me saber quando voltou para lá, onde permaneceu até fins
de Julho de 1994, embora tenha estado em Fátima no dia 8 de Maio de 1993
para a inauguração do actual Centro Bíblico dos Capuchinhos.[18]
Do período de 1981 a Fevereiro de 1982 fala o
próprio frei Inácio, por ocasião da Visita Canónica do Ministro Geral,
frei Pascoal Rywalski, numa «crónica-resumo
do movimento bíblico, que ultimamente temos vindo a realizar no México e
outros países da América Latina.» Nela refere, além de 12 dioceses do
México: América Central, Colômbia, Equador, Peru, Costa Rica. No final,
o mesmo frei Inácio escreveu com o eu punho: «Resposta pessoal do R.mo
Padre: “Siga com todo este apostolado, tão conforme com a Igreja
pós-conciliar; continue a contar com a bênção dos Superiores”.»
Noutro Relatório de 1986, intitulado “Difusora Bíblica com a Palavra de
Deus”, faz a síntese desse ano. Em 1992
esteve em Lisboa, incitando os Capuchinhos portugueses a colaborar com
ele na América Latina; mas não foi possível atender ao seu pedido,
talvez com prejuízo apostólico nosso.[19]
Voltou à América Latina, pelo menos na segunda
quinzena de Julho de 1993, a julgar por uma carta do seu Ministro
Provincial frei Fidêncio González, no dia 14, que previa o seu regresso
a Espanha em princípios e 1994. Mas, de facto, em 28 de Julho desse ano
ainda estava no México, onde redige o seu “giro
bíblico” de 25 de Maio a 18 de Julho de 1994. Só depois desta
data é que regressou a Espanha, pois no final indica a sua «residência a
partir de Agosto de 1994», em Madrid. Aí refere as datas do trabalho
pastoral realizado em cada país, em 1994: Guatemala-capital,
26 Maio; Honduras, 29 Maio; Nicarágua, 3-7 Junho; El Salvador, 8 Junho;
Costa Rica, 11 Junho; Panamá-Tocumen, 14 Junho; Venezuela, 16-21 Junho;
Equador, 30 Junho; Peru, 2-7 Julho; Bolívia, 8 Julho; Chile-Santiago, 13
Julho; Argentina e Uruguai, 18 Julho.
Na América, o frei Inácio preocupou-se
em fazer Colóquios Bíblicos na maior parte das dioceses e Congregações
religiosas, tendo, para isso, sido traduzido e editado no México o seu
livro Colóquios Bíblicos (Lisboa, 1966), que em 1985 ia na 11ª edição;
fundar a Difusora Bíblica
em várias capitais (costumava referir Lisboa-Madrid-México-Bogotá);
editar os livros sagrados; fundar centros de animação e distribuição e
formar Mensageiras do Evangelho: religiosas especialmente preparadas
para orientar Colóquios Bíblicos ao povo nas paróquias, através de um
contrato com o bispo diocesano válido por três anos renováveis.
Fica-nos a impressão de que o frei
Inácio chegou ao nosso país na hora exacta para lançar o Movimento
Bíblico a partir quase do zero; mas que, ao regressar, em Espanha o
Movimento já estava em marcha, embora dirigido a níveis mais elevados, e
não encontrou o mesmo entusiasmo por parte dos responsáveis diocesanos e
religiosos. O facto é que, apesar do seu esforço e do apoio que recebeu
dos vários Ministros Provinciais e Superiores locais, e embora no seu
país fosse e seja necessário, como em Portugal, iniciar a maioria das
pessoas numa leitura crente da Bíblia – uma aparente frieza levou-o a
sacudir o pó das sandálias e a voltar-se para a América Latina. Donde
escrevia, logo em 1967: «O tempo perdido com métodos antiquados e com
literatura superficial está sendo recuperado com a melhor das
mensagens.» Oxalá soubéssemos ser tão consequentes e corajosos como ele,
e sempre “firmes na fé!” como ele dizia e vivia.
“Abrindo brechas!”
De Lisboa, a 16 de Março de 1956, diz em
carta ao frei Cornélio em Madrid: «Continuo nos Colóquios Bíblicos,
abrindo brechas!» Mas, antes e depois, fez muito mais do que isso: cavou
e plantou; arou, gradou, semeou e colheu; escreveu, editou, ofereceu,
“colocou” (distribuiu), vendeu, explicou, pregou, rezou, entregou-se até
ao fim, morreu na leiva – ou na margem... pela Palavra de Deus!
Sabem qual foi a sua última acção
bíblica no terreno? Quinze dias antes da sua morte foi a Salamanca,
capital europeia da cultura. À tarde, um colega seu passava pela Plaza
Mayor, no centro da cidade, e perguntaram-lhe: “Aquele senhor que está
acolá não é seu colega?” Ele olhou e viu o frei Inácio sentado no chão,
num canto da praça, com um monte de livros bíblicos aos pés,
distribuindo papéis e mostrando livros a quem passava. Uns aceitavam os
papéis e compravam, outros passavam sem olhar, outros atiravam dinheiro
para o chão pensando tratar-se de um pedinte.
Foi assim o frei Inácio, do princípio ao
fim. Pelo que dele testemunhei e conheci, não teria dúvidas em assinar
um pedido de abertura do seu processo de canonização.
Qual outro Paulo, “combateu o bom
combate, terminou a corrida, permaneceu fiel.” Não se pode dizer que
vivesse preocupado com a “coroa merecida”; pois, quando lhe diziam para
cuidar da saúde, respondia: “Quando for, será”. Mas o Senhor, justo
juiz, já lha entregou... bem como aos outros que, na minha fantasia,
estavam com ele às portas do Paraíso.
frei
Lopes Morgado
___________________
[1]
Na sua maior parte, o texto presente foi publicado na revista BÍBLICA nº 283 (Novembro-Dezembro 2002) 4-16. Mas aqui
acrescento mais alguns pormenores e algumas notas omitidas na revista. O
testemunho do frei
Fernando de Negreiros, cortado em parte na revista por falta de espaço,
é reproduzido aqui na íntegra. Também se inclui o testemunho do frei
Egido, que já chegou tarde para entrar na revista.
[2]
“Vós chamais-me Mestre e dizeis bem... dei-vos o exemplo...” (Jo 13,13)
[3]
“Os judeus pedem sinais, os gregos, sabedoria; nós, porém, pregamos a
Cristo crucificado...”
[4]Notas
de Banco, oferecidas por “madrinhas” especiais do frei Inácio, e
enviadas de Portugal para constituir um “Fundo Bíblico” em ordem à
fundação da Difusora Bíblica em Espanha, que o frei Inácio desejava
concretizar antes do fim do mandato do frei Cornélio, pois pretendia,
então, regressar à sua Província de origem. De facto isso não foi
possível; e o frei Cornélio escreve-lhe, em 7 de Maio seguinte: «Espero
que na sua próxima carta me diga já definitivamente o que deseja que se
faça do dinheiro que tem aqui como “fundo bíblico”, para eu poder
entregá-lo no Capítulo ao novo P. Provincial e o utilizem conforme os
seus desejos de publicações bíblicas”. O novo Provincial foi o frei
Donato de Monleras (Francisco Iglesias), que concretizou o regresso do
frei Inácio a Espanha para lá iniciar um Movimento Bíblico semelhante ao
de Portugal.
[5]
Era o italiano frei Benigno de Sant’Ilario Milanesse. Na carta,
datada em Roma a 20 de Abril de 1954, mostrava-se «muito agradecido
pelo obséquio da sua linda
“História de Jesus”, à qual desejamos – dizia – uma grande
difusão na sua nova edição, para que continue a fazer conhecer e
amar nosso Senhor Jesus Cristo entre os seus leitores de língua
portuguesa».
[6]
Seráfico. Qualificativo dado a S. Francisco de Assis, em toda
a Ordem Franciscana e na Igreja, comparando-o a um Serafim pela sua
proximidade espiritual com Deus.
[7]
Abreviatura de Ordem dos frades menores Capuchinhos, em
latim: O.(rdinis) f.(ratrum) m.(inorum)
Cap.(ucinorum)”.
[8]
A ele se refere a carta do Ministro Geral, da nota 4.
[9] Em 1962 era já cardeal e Presidente da
Comissão Pontifícia do Apostolado dos Leigos Preparatória do
Concílio Vaticano II, quando o frei Inácio lhe enviou uma
Carta dirigida aos Padres Conciliares, intitulada “A Sagrada
Escritura meio imprescindível para a formação cristã”. Numa breve
missiva, o sacerdote amanuense Luigi Bogliolo refere que «o Card.
Cento [...] recebeu as propostas do P. Vegas, residente em Lisboa, e
assegura-lhe que foram devidamente tomadas em consideração e
transmitidas à Comissão competente». Lapso curioso: o cartão está
datado na Cidade do Vaticano a 1 de Dezembro de 1910!
[10]
Entrevista em BÍBLICA nº 219 (Março-Abril 1992) 86-90.
[11]
Em 1967 foi eleito I Bispo da nova diocese de Carmona-São Salvador,
em Angola, depois dividida em duas, uma delas Uíje, onde segue o D.
Francisco.
[12]
Uma prova clara disso: a sua primeira fundação à frente dos
Capuchinhos de Portugal foi em Fátima, na casa da Pensão Sagrada
Família, logo em 13 de Maio 1955; e a última foi a parte mais antiga
do actual Centro Bíblico dos
Capuchinhos, para o Noviciado, inaugurada em 13 de Junho de
1961, em substituição da primeira.
[13]
Em 1992, dizia-me: «Na América Latina estamos a tentar que se adopte
o próprio Evangelho como Catecismo. Temos recebido respostas
simpatizando com a ideia. Nesta linha, a Difusora Bíblica no
México tem vindo a aconselhar que o “Secretariado de Evangelização e
Catequese”, existente em todas as Dioceses, se passe a chamar apenas
“Secretariado de Evangelização”, pois a Evangelização inclui o
conceito de catequese.» In Bíblica, nº 219 (Março-Abril 1992)
87.
[14]
Esta ideia era tão antiga, que bem podemos falar do seu “sonho
americano”... Em Agosto de 1961, dos Açores, em carta ao frei Cornélio, já fala de «quando for à América» e diz que «o
último ano do triénio talvez seja já a hora de organizar o movimento
bíblico em toda a América», referindo «as colónias Espanhola e
Portuguesa» do Canadá e Estados Unidos. Responde o frei Cornélio
a 28, alegrando-se com os resultados obtidos nos Açores,
acrescentando: «E isso – diz – fez-lhe ver claro o que seria um
percurso pela América... Que Deus lhe conceda poder fazê-lo.» O
mesmo frei Cornélio diz-lhe, a 2 de Março de 1962, que
«convirá adiantar a sua viagem à América»; a 4 de Abril o frei
Inácio alude ao trabalho na Espanha e na América; e a 7 de
Dezembro, diz-lhe que estuda inglês para essa «próxima viagem». A 1
de Janeiro de 1963, o frei Cornélio imagina-o «prestes
a subir para NorteAmérica»,
fazendo «votos para que seja uma viagem utilíssima»; mas o frei
Inácio responde, a 14: «Obediência para a América negada;
responderam ao P. Comissário que a pediu, que tratasse da campanha
por correspondência... Paciência!» Só volta à carga em 1967,
quando já estava definitivamente em Espanha. A 4 de Janeiro, de
Madrid, escreve ao frei Francisco Iglesias de Monleras, seu
Ministro Provincial, sugerindo que, ao solicitar a “obediência” (licença
do Ministro Geral), para a sua viagem à América, a peça, em princípio,
para a Venezuela, mas alargando-a a «outros países americanos».
[15]
História da Difusora Bíblica
em 3 páginas, dirigida do México ao Dr. Robert Delaney, da Febicam, na Alemanha.
[16]
«Delegado responsável do movimento bíblico na Guatemala»: frei
Inácio, Resumo ao Dr. Delanay, 29 Agosto 1980, p. 3.
[17]
Ver nº 140 (Janeiro-Fevereiro de 1979), 330-336. O frei Inácio
acabava de percorrer a República Dominicana, Porto Rico, Venezuela,
Colômbia, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá e México. Vinham
seis semanas à Europa: o frei Inácio iria a Espanha; o prof.
Bauer, à Alemanha, à Itália e a Jerusalém; depois juntar-se-iam de
novo rumo ao Brasil, donde partiriam para Puebla a fim de
acompanharem de perto a famosa Assembleia da Comissão Episcopal
Latino-Americana (CELAM). Em 22 de Maio, o frei Inácio já tinha
anunciado esta viagem ao frei Germán Zamora.
[18]
Digo actual, porque o nome previsto e anunciado nos cartões era o de
Centro Bíblico Frei Inácio de Vegas. Entretanto, o
próprio frei Inácio, na cerimónia de abertura, aconselhou-nos a
escolher outro nome “mais firme e glorioso”; e no mesmo dia à tarde,
em reunião do Conselho Provincial com o Ministro Geral, frei Roberto
Carraro, ficou decidido dar-lhe o nome de Centro Bíblico dos Capuchinhos,
uma vez que a nossa Casa de Fátima tinha sido publicitado junto do
grande público como “Casa dos Capuchinhos”. O nome do frei Inácio ficou reservado para o salão a construir. Como essa construção
não se realizou até hoje, deu-se o nome do frei Inácio ao
salão-cave existente por baixo da ala reservada à Fraternidade.
[19]
Ver a entrevista que então lhe fiz na Bíblica nº 219 (Março-Abril
1992) 86-90.