“Cristo, nosso
Cordeiro pascal, foi imolado:
celebremos a festa com o pão ázimo da pureza e da verdade.”
(1 Cor
5,7-8)
Foi pelas 22 horas do dia 03 deste mês, o
primeiro sábado de Abril, o mês da Primavera, o início da grande Semana
Santa: o nosso irmão Dom frei António Monteiro, bispo de Viseu, partiu
ao encontro de Cristo glorioso, celebrando assim o seu Êxodo pascal,
passando da morte para a Vida em abundância. Um maravilhoso dia para
antecipar a Páscoa definitiva!
Horas depois, já no Domingo de Ramos da
Paixão do Senhor, tive a graça de participar na solene procissão de
ramos que percorreu algumas ruas da nossa Paróquia da Sagrada Família do
Calhariz de Benfica, em Lisboa. Nos símbolos, nas orações, nos cânticos,
nas leituras bíblicas tive sempre presente o nosso Irmão António
Monteiro. Terminada a sua peregrinação terrestre, atingira a nova
Jerusalém celeste, e ali estava connosco, transfigurado, ressuscitado,
glorioso.
Era também o Dia Mundial da Juventude,
este ano sob o lema proposto por João Paulo II: “Queremos ver Jesus!”
(Jo 12,21). D. António contemplava agora, face a face, o seu Senhor
Jesus, a grande paixão da sua vida. (...)
A minha meditação, agora partilhada
convosco, foi imaginar o nosso Irmão Dom António, levando consigo um
feixe de maravilhosos ramos de palmas. Vai assim ao encontro de Cristo
que, de braços abertos, o acolhe e o introduz na Fraternidade eterna da
Trindade Santíssima. Sintetizando, limito-me a concretizar apenas sete
destes múltiplos ramos ou palmas transportadas pelo nosso querido Irmão
António:
1.
A palma da Fé: No seu baptismo, na comunidade cristã de Serafão
(Fafe), celebrado no dia 14 de Outubro de 1928, o Sacerdote colocou-lhe
na mão uma vela acesa, dizendo (segundo o Ritual actualmente em vigor):
“A vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz,
para que este menino, iluminado por Cristo, viva sempre como filho da
luz, persevere na fé e, quando o Senhor vier, possa ir ao Seu encontro,
com todos os Santos, no reino dos céus”. Hoje, passados 75 anos, D.
António transformou esta vela acesa numa grande palma, a palma de Fé em
que ele perseverou e transmitiu a tantas pessoas e comunidades.
Parafraseando o autor da Carta aos
Hebreus, no famoso capítulo 11: Pela fé, D. António acolheu e viveu com
alegria a sua vocação franciscana capuchinha; pela fé, D. António
trabalhou com desassombro pela instauração, já nesta terra, dos grandes
valores do Reino de Deus; pela fé, D. António, ao receber
inesperadamente, em pleno dia de Natal de 2002, a notícia da gravidade
da sua doença, consegue transmitir a quantos o visitam a mensagem de ter
sido sempre um “privilegiado de Deus”, constatando que “até
esses espinhos me ajudaram a ser feliz”, até porque “precisava de
saber que ainda não estava no Céu. É muito importante… termos esta
noção. Cada experiência é uma aprendizagem. E, sabe… queria morrer a
evangelizar. É importante dizer isto para nós próprios, mas também aos
outros.” (Entrevista de D. António à Revista “Banca de Ideias”,
Maio-Junho 2003, págs. 6-10).
Estamos a celebrar o nosso “Ano
Vocacional e Missionário”. Não se trata de uma operação de marketing
empresarial, mas de uma celebração jubilosa e agradecida da fé: a
vocação e a missão como um dom de Deus e uma resposta livre e
comprometida de cada um de nós ao amor de Deus, procurando contagiar
outros com o nosso coerente e alegre testemunho de vida e a nossa
palavra credível e eficaz. Depois da vinda do jovem António Monteiro
para o Seminário dos Capuchinhos, em 21 de Janeiro de 1941, registou-se,
na sua Paróquia de Serafão, como que uma explosão de vocações
sacerdotais, religiosas e missionárias. Louvemos o Senhor por alguns
destes jovens entusiasmados por D. António serem também nossos irmãos de
vocação.
(...) Agora, a partir do Céu, D. António
intercederá pela sua querida Província de Portugal, para que, como ele,
saibamos irradiar com alegria a nossa vocação, de modo a desafiarmos
outros jovens para a vivência do carisma evangélico confiado a Francisco
e Clara de Assis.
2.
A palma da Fidelidade: D. António foi um “homem de palavra” – uma
espécie rara, nos tempos que correm. Ele viveu a fidelidade à Vida que o
Senhor lhe confiou desde o dia 10 de Outubro de 1928, através dos seus
queridos Pais, Manuel Monteiro e Custódia da Costa Ramos, e que ele
soube fazer “render” ao longo de 75 fecundos anos; a fidelidade à Fé
baptismal até ao último momento; a fidelidade à sua Vocação Franciscana
Capuchinha ao longo de 59 anos, desde a sua primeira Profissão, emitida
a 26 de Outubro de 1944; a fidelidade ao seu Sacerdócio ao longo de 52
anos; a fidelidade ao seu múnus de Pastor episcopal da Igreja de Viseu
ao longo de 16 anos.
Seja-me permitido destacar a sua
fidelidade à sua vocação Franciscana Capuchinha.
(...) Até ao Santo Padre, ele disse que aceitava
ser bispo, com uma condição: permanecer sempre Capuchinho. “Até
porque – assim raciocinava D. António – foi Deus quem me chamou
para ser Capuchinho; ao passo que o facto de ser bispo de Viseu, deve-se
apenas a um pedido do Papa.” Além da sua sintonia com os grandes
acontecimento da nossa vida provincial, há que lembrar a sua fidelidade
ao dia semanal vivido na Fraternidade de Cabanas de Viriato… Foi Bispo
para a Diocese de Viseu durante os últimos 16 anos da sua vida; connosco
foi Capuchinho ao longo de 59 anos! Ainda hoje beneficiamos de algumas
iniciativas que ele lançou entre nós, para incentivar mais e mais a vida
fraterna.
(...)
3.
A palma do Serviço: Jesus Cristo trouxe-nos um modo
revolucionário de viver, tão profundamente captado e vivido por
Francisco de Assis:
(...) O maior entre vós seja como o menor e
aquele que manda seja como quem serve” (Lc 22, 25-26).
Frei António Monteiro, mesmo como bispo de
Viseu, quis permanecer sempre como verdadeiro “Irmão Menor”. Preparei e
acompanhei-o em várias visitas pastorais a diferentes Paróquias da
Diocese de Viseu, algumas que há mais de 30 anos não tinham recebido a
visita do Pastor da Diocese. Ainda hoje recordo a sua ternura com as
crianças; a agradável surpresa das visitas aos doentes nas suas casas,
por mais pobrezinhas que fossem; a sua facilidade no diálogo com os
jovens; a ousadia em propor às respectivas autoridades locais linhas de
defesa dos direitos dos mais empobrecidos; o seu à-vontade no encontro
com as pessoas da cultura e da ciência… Também como verdadeiro “Irmão
Menor”, ele não recuou perante a urgência em dar passos arrojados no
diálogo ecuménico, sobretudo com as Igrejas Protestantes…
Uma das bandeiras que procurou hastear bem
alto na sua “folha de serviço”, foi o serviço à Vida. Ficou famosa a
sua tenacidade na luta pelo sim à Vida, aquando do referendo sobre o
aborto, em 1998, utilizando – é certo – alguns argumentos um tanto
“chocantes”. A verdade é que, ainda hoje, alguns comentaristas asseveram
ter sido ele quem “ganhou” esse referendo!
Pela sua irresistível disponibilidade, o
nosso Vigário Geral, frei Aurélio Laita, escreve-nos, entre outras
coisas: “A nossa Ordem tem muito
que agradecer à irmã Província de Portugal pelo trabalho e entrega do
Irmão António Monteiro como primeiro Ministro Provincial de Portugal em
1969, mais tarde como Reitor do Colégio Internacional de São Lourenço de
Brindes e noutros cargos de formação e, finalmente, como Bispo de Viseu,
diocese à que ele se entregou pastoralmente servindo-a como verdadeiro
Irmão Menor, com franciscana entrega, dedicação e sempre com serena
alegria”.
Talvez por este serviço corajoso e sem
fronteiras, o próprio Primeiro Ministro tenha tido a gentileza de nos
enviar o seguinte telegrama:
“Ex. Sr. Provincial dos Padres Missionários Capuchinhos: Tendo tomado
conhecimento do falecimento do Bispo de Viseu, D. António Monteiro,
apresento na pessoa da Vossa Reverência à Família Franciscana e Capuchinha os meus sentimentos de pesar pela perda do ilustre Irmão.
José Manuel Durão Barroso – Primeiro Ministro”.
É natural que toda a Província esteja
agradecida a quem tão denodadamente a serviu.
(...)
4.
A palma da Felicidade: Numa das várias Visitas Pastorais que lhe
preparei, recordo-me de uma criança lhe perguntar: “O Senhor Bispo
gosta de ser Bispo?” A resposta não se fez esperar e sempre com um
sorriso nos lábios e no coração: “Eu sempre gostei de fazer o que me
pediram. Foi o Santo Padre que me pediu para eu ser Bispo de Viseu, e eu
aceitei. Sempre me senti feliz nos diferentes encargos que tive até
hoje, seja como Capuchinho, como Superior dos Capuchinhos, como Reitor
dum Colégio Internacional em Roma, e agora como Bispo de Viseu”.
Aliás, quantos participámos na sua sagração episcopal, na Igreja
Catedral de Viseu, no dia 11 de Outubro de 1987, bem pudemos constatar
que D. António não escondia um ar de contagiante felicidade, como a
dizer-nos: “Sou feliz em ser Bispo, porque trabalharei denodadamente
para que outros sejam felizes!”
A fonte desta alegria provinha da sua
profunda fé em Cristo Ressuscitado, que gera no coração a festa e a
dança e a paixão por tudo o que é humano, transformando-o sempre mais em
divino. E provinha também do seu encantamento por Francisco de Assis, o
santo da alegria, porque amante e seguidor da pobreza e da humildade do
santíssimo Senhor Jesus Cristo.
5. A palma do Entusiasmo:
Trata-se de um entusiasmo na realidade mais genuína do termo: o
entusiasmo daquele que toma consciência de que tem “Deus dentro” de si,
no mais íntimo de si mesmo. Daí, o entusiasmo esfuziante que D. António
colocava em todos os trabalhos e tarefas que lhe eram confiadas, por
exemplo: o ser Ministro Provincial – e tantas vezes ele foi por nós
eleito e reeleito –; o ser Presidente da Conferência Nacional dos
Religiosos; o ser Pastor da Igreja de Viseu; o ser conferencista em
tantas Semanas Bíblicas Nacionais; o visitar cada uma das Paróquias da
Diocese que João Paulo II lhe confiou; a construção do majestoso Centro
Pastoral de Viseu; o ser Presidente da Comissão Episcopal da Doutrina da
Fé ou da Comissão Episcopal da Família; o ser Presidente da Comissão
Administrativa do Centro Regional das Beiras da Universidade Católica…
Nunca será demais sublinhar o seu
entusiasmo por ser Franciscano Capuchinho. Por isso, ontem, na sentida
celebração que a Província lhe organizou, na intimidade da Sé Catedral
de Viseu, pelas 12h30, saiu-nos espontaneamente do coração o cântico que
é bem o nosso timbre e senha:
“Desde que sou Capuchinho, / Minha alma vive a cantar…”
6. A palma da Sabedoria:
(...) Na Liturgia de Domingo foi proclamada uma
parte do Terceiro Cântico do Servo de Javé: “O Senhor deu-me a graça
de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de
alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus
ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus
abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo” (Is 50,
4-5).
Foi assim a vida do nosso Irmão António:
um discípulo atento à Palavra do Mestre e um desassombrado apóstolo da
Boa Nova da Salvação. Ele foi, na verdade, um amante da cultura e da
ciência, manifestando-se como tal não apenas na sua licenciatura em
Direito Canónico ou no seu doutoramento em Teologia Moral, mas em tantas
iniciativas de evangelização e de formação a que sempre se dedicou, nos
muitos livros que lia, numa actualização contínua e numa permanente
abertura a novos horizontes da ciência e da tecnologia.
Ao saborear a multifacetada sabedoria do
nosso Irmão António de Serafão, sempre aliada a uma franciscana
simplicidade, bem podemos exclamar, com Francisco de Assis: “Salve, ó
rainha sabedoria, o Senhor te salve, com tua irmã, a santa pura
simplicidade!” (Saudação às Virtudes, Fontes Franciscanas, I, pág.
76)
7.
A palma da Entrega: Na narrativa lucana da Paixão, proclamada
neste Domingo, por várias vezes surge a palavra e a realidade da
“entrega” livre, generosa e gratuita por parte de Jesus à vontade do seu
Abbá: “Isto é o meu corpo entregue por vós. Fazei isto em
memória de Mim” (Lc 22,19). “Este cálice é a nova aliança no meu
Sangue, derramado por vós” (Lc 22,20). Significativas as
últimas palavras de Jesus: “Pai, em tuas mãos entrego o meu
espírito” (Lc 23,46).
Frei António passou pelo mundo, fazendo
sua esta missão de Cristo: ele foi um “corpo entregue”, um “sangue
derramado” para que os outros tenham vida, numa entrega total e até ao
fim. É sintomático que, no seu brasão episcopal, ele tenha querido que
ficassem gravadas as palavras evangélicas: “Ut vitam habeant”, da
missão programática de Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham
em abundância” (Jo 10,10).
(...)
Augurando a cada Irmão uma Páscoa repleta
dos dons do Ressuscitado,
Lisboa, 06 de Abril de 2004
frei
Acílio Dias Mendes
Ministro Provincial