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Dom António Monteiro

 

 

 

Dom António Monteiro

 

 

As repetidas exortações da hierarquia católica aos valores da vida e da família, ameaçadas por uma mentalidade cada vez mais permissiva, fazem voltar à lembDom António Monteirorança o grande empenho neste campo de um Prelado português falecido há dois anos, D. António Monteiro, capuchinho, Bispo de Viseu, de 1987 até Junho de 2004.

 

Nascido numa família numerosa (9 filhos, dos quais 3 religiosos) e profundamente cristã, ele foi um defensor tenaz da sacralidade da vida e do matrimónio, opondo-se com todas as forças a tudo o que procura profanar as duas realidades com uma obstinação digna de uma batalha.

 

Quando em 1998 Portugal votou sobre a despenalização do aborto, ele, então Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, falou de um «regresso às antigas barbáries». Palavras fortes, mas consideradas justas pela opinião pública, que rejeitou a proposta: os católicos disseram que o mérito foi principalmente seu, tanto que o definiram «o homem do não». A seguir, ele escreveu que os deputados, antes de apresentar e defender ideias desse tipo, deveriam ao contrário ter apresentado e aprovado leis favoráveis à promoção da vida, ameaçada por uma mentalidade laxista.

 

Falava também através dos microfo­nes das rádios e dos estúdios televisi­vos, com forte autoridade que lhe provinha da preparação intelectual (era formado em Teologia Moral, que ensinou por vários anos na Universidade Católica Portuguesa), da certeza de defender princípios da civilização humana e cristã e da coerência ao mote do seu brasão episcopal: «Para que tenham vida», anunciado por um arauto que toca a trombeta do alto de uma torre.

 

Outro ponto sobre o qual insistia apaixonadamente era a divisão das famílias por causa do trabalho. «Não é possível - escreveu - que o marido trabalhe a 300 km de casa e sua esposa a 100; são necessárias leis que permitam a um, ou aos dois, permanecer em casa pelo menos até ao quinto ano de idade dos filhos: está em questão o bem do país e é necessário que seja resolvido com urgência».

 

Convencido de que um parecer dos peritos sobre o assunto teria tido maior peso do que as suas palavras diante do Parlamento, sugeriu mais de uma vez que se falasse do problema nas assembleias dos teólogos e sociólogos de diferentes formações; mas ninguém acolheu a sugestão.

 

O cuidado pela vida nascente levou-o naturalmente a defender também a que se encaminha para o crepúsculo, pronunciando-se sobre as casas de repouso, «onde com frequência os idosos são guiados para uma lenta eutanásia, enquanto a sua experiência poderia ser preciosa para integrar a educação dos jovens», e encontrando os enfermos das paróquias durante a visita pastoral.

 

O engenheiro João C. Azevedo Maia, Governador do Distrito de Viseu, escreveu: «Dom António acreditava profundamente nos princípios da moral cristã e poucos como ele defenderam a vida e os valores da família, tomando posições diante de tudo o que os podia ameaçar, julgando-os indiscutíveis e invioláveis».

 

Com o desejo de envolver outras pessoas nessa batalha, fundou em Viseu o Centro sócio-pastoral, que alargou, quando foi possível, também às paróquias, de modo que sacerdotes e leigos fossem bem preparados e estivessem prontos para responder e agir em conformidade com os ensinamentos da moral e da hierarquia.

 

Um dos seus sacerdotes escreveu: «Não éramos nós quem trabalhava com ele, mas era ele quem trabalhava connosco, colocando-se ao lado de cada um com uma afabilidade e uma competência que nos surpreendiam, mas que compreendíamos, conhecendo as suas origens franciscanas».

 

É verdade. Também porque ele amava repetir que era antes capuchinho e depois Bispo, dizendo literalmente «já que o episcopado me foi concedido pelo Papa, enquanto a vocação franciscano-capuchinha me veio de Deus».

 

Tendo sido o primeiro Ministro Provincial (1969) da jovem Província portuguesa, ele é considerado o fundador da Ordem no país, que hoje há um preparado grupo de religiosos empenhados no estudo e na difusão da Bíblia com um Centro que organiza Semanas bíblicas no mundo de língua portuguesa e publica uma revista difundida em milhares de cópias e que ilustra as páginas da Bíblia com segurança de doutrina e uma delicada habilidade que agrada também aos estrangeiros.

 

A participação activa na vida da Ordem (foi Reitor do Colégio Internacional de São Lourenço de Brindisi em Roma, participou em dois capítulos gerais e num Conselho plenário) e o conhecimento dos problemas da vida consagrada, valeram-lhe a nomeação para Presidente do CNIR (Conferência Nacional dos Institutos Religiosos), onde levou ideias novas com surpreendente ímpeto criativo e, quando já era Bispo, a designação para membro da Comissão episcopal para os religiosos.

 

Como Presidente da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, favoreceu as iniciativas ecuménicas da Conferência, organizando o primeiro encontro com os responsáveis das igrejas metodista, presbiteriana e cristã-portuguesa - definido «encontro quebra-gelo» - do qual nasceram os Encontros Ecuménicos Nacionais entre o COPIC (Conselho Português de Igrejas Cristãs) e o Conselho por ele presidido com competência e uma humildade que escondia uma rara acuidade de espírito. A iniciativa deu resultados satisfatórios, tanto que um Bispo da Igreja lusitana disse que «Dom António foi um autêntico protagonista do ecumenismo». Juízo confirmado pelos seus irmãos no episcopado e pelos professores da Universidade Católica, um dos quais escreveu que «os anos em que ele foi Presidente da Comissão da Doutrina da Fé foram caracterizados por um trabalho ecuménico sério e pleno de entusiasmo».

 

Convicto da importância dos  meios de comunicação, organizava todos os anos um encontro com os membros da Comunicação Social e comentava com eles as Mensagens do Papa e os Decretos das Congregações, sugerindo como aplicá-los na realidade eclesial do país com intervenções ricas de estímulos e de referências objectivas.

 

Não desconhecia arte alguma porque nenhuma alma lhe era desconhecida. «A sua agenda - escreveu o Vigário-Geral da Diocese - estava sempre cheia de compromissos e de encontros com todos, a começar pelos pobres, também não católicos. Nos 17 anos de episcopado visitou todas as paróquias, todas as empresas, todas as escolas e todas as fábricas, detendo-se de preferência com os operários, os doentes e as crianças».

 

Talvez por isso, numa entrevista concedida à Rádio Renascença, confessou com pudica discrição ter sido «um Bispo muito feliz por ter feito o possível para fazer felizes os diocesanos», entre os quais viveu dias calmos e cheios de encontros, de amizades, de estudos e de elevado humanismo espiritual.

 

Às vozes de quem celebrou a sua grandeza, acrescentam-se as que lembram da sua bondade profunda, incansável e seráfica, que lhe vinha da espiritualidade pura da sua terra, da educação familiar e, sobretudo, da assídua vigilância sobre si mesmo, alimentada pela longa oração com a qual iniciava o dia às 5 da manhã.

 

Dom António faleceu no dia 3 de Abril de 2004, Domingo de Ramos, por um tumor que se revelou mortal desde o início.

 

Os jovens, reunidos em Viseu para a Jornada Mundial da Juventude, acompanharam-no ao cemitério, estendendo no chão mantos e casacos enquanto o caixão era transportado para o sepulcro, gratos por terem sido compreendidos e amados por um homem que os tinha ajudado a viver com os outros e para os outros.

 

 

 

In L’Osservatore Romano, Ano XXXVII,

N. 26 (1.906) – 1 de Julho de 2006, pág. 6.

 


 

» Vida e Obra

» Carta do Papa nos 50 Anos da sua Ordenação Sacerdotal

» "As 7 Palmas" de D. António Monteiro

» Cobertura Noticiosa do seu falecimento (03.04.2004)

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