Homilia do Sr.
Cónego Dr. Valdemar Gonçalves
Vigário Geral da Arquidiocese de Braga
na celebração da Eucaristia, em Serafão,
no 3º
aniversário da morte de D. António Monteiro
Ainda hoje, integrada no complexo das construções do Lar da Santa Casa
da Miseric
órdia de Fafe e completamente restaurada, lá se encontra a
Casa do Calvário. Aí, em tempos já distantes funcionou um Seminário
Menor dos Padres Capuchinhos que o Povo de Fafe não esqueceu e recorda
com gratidão e saudade. Foi esse pequeno Seminário casa de acolhimento e
formação de várias crianças e jovens, alguns oriundos e residentes nesta
região, que deu à Igreja vários Sacerdotes doutos e apostólicos.
Ora, aparece como pioneiro, nesta paróquia, de várias vocações
Sacerdotais, da Ordem dos Franciscanos Capuchinhos e outros, a par de um
grupo de Irmãs Religiosas, o saudoso Bispo de Viseu, D. António Monteiro
que principiou ali, na Casa do Calvário, a sua formação.
Comemora-se o terceiro aniversário do seu falecimento. A paróquia de
Serafão, do Arciprestado de Fafe, terra do nascimento do Senhor D.
António não quis deixar no esquecimento esta efeméride. E se é verdade
que esta Comunidade estima aquele Bispo, seu conterrâneo, ele sempre lhe
retribuiu um acrisolado afecto. Bem se lhe pode atribuir esta estrofe
inicial dum soneto:
Nesse local, algures, onde nasci,
Nesse torrão com um ribeiro ao lado
Tenho o segredo para quanto vi
E o chão que me segura levantado.
Serafão, terra agrícola, naquele tempo muito aproveitada em cíclicas
lavradas, com o ferro do arado a virar as leivas e a preparar as
sementeiras, garantia das colheitas, na estação própria, foi chão de
identidade marcante donde surgiram homens ilustres e na comunidade
cristã, Sacerdotes e Religiosas, de muita valia, muitos dos quais ainda
vivem.
* * *
As leituras proclamadas na Liturgia da Palavra assinalam o tempo pascal,
os acontecimentos ocorridos após a Ressurreição do Senhor e a
confirmação de Jesus como o Messias. O Senhor Ressuscitado presente
entre os seus, com as chagas vivas e verificáveis mas que deixa claro:
«Bem-aventurados os que crêem sem terem visto!» (Jo 20,29)
O justo vive da Fé, não de uma fé qualquer, à mistura com superstições,
mas da Fé no Ressuscitado, o Salvador do Homem a quem eleva à dignidade
de filho no Filho, participante da vida divina e herdeiro da intimidade
com Deus para sempre.
Precisamos todos deste ingresso no Coração da Fé. A nossa expressão
religiosa e de fé cristã passa necessariamente por uma piedade
doutrinal, mas é muito mais do que uma teoria que se aprende para ser um
compromisso de vida com Deus e com os Homens. E o caminho é só um:
Jesus Cristo morto e ressuscitado, vivo e presente no meio de nós.
Foi e será sempre ELE o grande sedutor que nos amou primeiro, que nos
chama e que sempre terá quem rasgue teias e embaraços e lhe dê a
resposta da sua entrega.
O Senhor D. António Monteiro esteve sempre na primeira linha do
testemunho da sua dedicação a Cristo: Consagrado e enviado, permaneceu
fiel até ao fim abraçando os homens seus irmãos. A sua vida foi uma
procura de defesa (muitas vezes incómoda) da verdade ao serviço da
Caridade.
* * *
Foi um Homem e Sacerdote ilustre:
«Frequentou a Universidade Gregoriana em Roma onde se licenciou em
Direito Canónico. Frequentou depois a Academia Alfonsiana da
Universidade Lateranense de Roma e licenciou-se ali em Teologia Moral e
Ética. Na mesma Universidade fez o seu doutoramento, defendendo a tese
sobre o tema: «O Homem, fonte de Moral, na Constituição Pastoral
sobre a Igreja no Mundo contemporâneo».
Foi Reitor no Colégio Internacional de São Lourenço de Brindes, em Roma,
leccionou na área da sua especialidade na Universidade Católica
Portuguesa, foi, em vários mandatos, eleito Superior Provincial dos
Capuchinhos em Portugal e Presidente da Conferência Nacional dos
Institutos Religiosos do País.
Tudo isto não fez esquecer aquele que durante muitos anos foi conhecido
como o «Padre Rafael de Serafão».
Colaborou em enciclopédias no estrangeiro. Interveio em Semanas e
Congressos. Orientou cursos em vários países, nomeadamente no Brasil,
Angola, Cabo Verde, Itália, Espanha, Colômbia, etc.
Tudo isto não anulou a identidade do Sacerdote das missões populares, o
pregador nato do povo e para o povo.
Era de Serafão em corpo e alma. Aqui assimilou a sua Fé que transmitia
com a marca de origem e o testemunho de vida:
Eu sou das veigas, do sopé dos montes,
Trago na alma o murmurar das fontes
E o paladar dum fruto bem maduro
Que o Sol aquece e torna saboroso:
Não sou da foz do rio caudaloso,
Sou das nascentes, onde o rio é puro.
* * *
O zelo pastoral do Pároco de Serafão, aproveitando a ocorrência desta
comemoração e debruçado sobre a realidade vocacional que aqui tão
prodigamente frutificou, tendo como primeira vocação sacerdotal o Senhor
D. António Monteiro, quis fazer de todo este acontecimento um desafio a
respostas juvenis e de toda a paróquia, a Cristo que chama.
No seguimento do programa pastoral diocesano pede-se solidariedade nas
famílias e entre as famílias, fecundas e abertas à Comunidade, à Igreja
e a todos os irmãos. Precisamos de famílias evangelizadas e educadoras
pelo testemunho de vida na fraternidade da concórdia e da partilha.
Certamente que é vital a vivência dominical, a participação activa na
celebração da Eucaristia e na escuta da Palavra de Deus como elemento
evangelizador. É o grande exercício de comunhão e de vida da Comunidade,
que se reúne, para depois realizar o exercício solidário da fraternidade
entre todos os homens, no meio de todas as tarefas da vida, no convívio
humano.
Precisamos de reagir contra modelos de uma sociedade sem referências nem
valores, sem orientação, fechada num egoísmo de prazer permissivo e
redutor, sem horizontes.
* * *
Cristo é de ontem, de hoje e de sempre.
Na primeira leitura da Liturgia da Palavra da Missa de hoje referem-se
os milagres e prodígios que os Apóstolos realizavam em favor do povo.
Sobretudo nesta passagem do livro dos Actos dos Apóstolos sobressai a
figura de S. Pedro, uma vez confirmado, a confirmar os irmãos e «de
tal maneira que traziam os doentes para a rua e colocavam-nos em
enxergas e em catres, para que, à passagem de Pedro, ao menos a sua
sombra cobrisse alguns deles» (Act 5,15). «Cada vez mais gente
aderia ao Senhor pela fé...» (Act 5,14).
Na segunda leitura do Livro do Apocalipse – «uma obra repleta de
ressonâncias litúrgicas, onde a assembleia dos fiéis na terra se faz eco
das aclamações da Jerusalém celeste tributadas ao Cordeiro imolado e
vencedor da morte, Cristo ressuscitado» – S. João Evangelista refere
a visão que teve na ilha de Patmos:
«Quando o vi caí a seus pés como morto. Mas Ele poisou a mão direita
sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que
vive. Estive morto, mas eis-me vivo pelos séculos e tenho a chave da
morte e da morada dos mortos»... (Ap 1,17-18).
No Senhor Jesus repousa o nosso coração inquieto e atribulado. É por
excelência uma saudação de paz aquela que Jesus dirige aos Apóstolos
após a Ressurreição, como nos refere a leitura do Evangelho da liturgia
de hoje: «Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando
fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo
dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz
esteja convosco» (Jo 20,19). Esta foi a advertência constantemente
repetida pelo Senhor: «Porque tendes medo»? «Não tenhais medo»:
«Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz».
Muitos lembram ainda as palavras iniciais do Pontificado de João Paulo
II: «Não tenhais medo. Abri os vossos corações a Jesus Cristo».
Cristo nos chama. O homem responde. A Paz é o dom.
Queridos amigos:
Hoje, ao
celebrarmos o 3.º aniversário do encontro do Senhor D. António Monteiro,
Fr. Rafael de Serafão, com o Senhor da Vida, para sempre, abramos também
o coração a Jesus Cristo, como ele o fez, vivamos com alegria, invocando
a protecção de Maria para os nossos caminhos, Ela que sempre guardou o
Senhor dentro d’Ela e a Ele nos conduz.
Cónego Dr. Valdemar Gonçalves
Vigário Geral da Arquidiocese de Braga
Contemplar o
Busto
de
D. António Monteiro
–
Franciscano Capuchinho – Bispo de Viseu –
Queridos amigos e irmãos, de modo particular os irmãos e irmãs da
Comunidade Cristã de Serafão:
São João diz-nos, no Evangelho proclamado hoje na Eucaristia que «Jesus
mostrou aos discípulos as mãos e o lado, [as mãos e o coração
]. Os
discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor» (cf. Jo 20,20).
Descerrado o pano, podemos contemplar agora o Busto de D. António
Monteiro. E também nós, como os discípulos, ficamos cheios de alegria.
No templo celebrámos Cristo, o Senhor Ressuscitado, em Eucaristia levada
a tantos lares e corações, em Portugal e no estrangeiro, através da
transmissão da TVI. Aqui fora, fazemos memória de uma testemunha do
Ressuscitado: D. António Monteiro. O que celebramos no interior do
templo é para se tornar vida fora do templo, nos multiformes areópagos
do mundo. É este o verdadeiro culto cristão.
Alegramo-nos ao contemplar a cabeça de D. António. Um cérebro
irrigado pelas fontes da sabedoria, da cultura, da promoção de valores
que levem à construção de uma Sociedade mais justa, de um Mundo mais
solidário e fraterno. D. António foi um enamorado da Sabedoria, um
eterno devorador de livros, criteriosamente seleccionados, numa
permanente actualização do pensamento humanista e cristão. A sua
licenciatura em Direito Canónico e o seu doutoramento em Teologia Moral
[«O Homem, fonte de Moral, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no
Mundo de hoje»] testemunham o seu insaciável amor à sabedoria.
Alegramo-nos ao contemplar os seus olhos. D. António foi um homem
que viu mais longe e mais além. Profeta de «olhar penetrante; que tem
a visão do Omnipotente, que se prostra, mas de olhos abertos» (cf.
Nm 24,3-4). D. António viu este Mundo como terreno propício à
implantação do Reino de Deus, com seus pilares de Justiça, Verdade,
Liberdade e Amor. Viu as realidades humanas à luz do Deus do Génesis, um
Deus entusiasmado com a obra da Criação, marcada pela beleza e
autonomia. Em todas as pessoas ele viu irmãos e irmãs com quem se faz
caminho para a Casa do Pai que nos é comum. Num mundo marcado pela
globalização, D. António foi homem do diálogo e do ecumenismo, seguindo
o «espírito de Assis».
Alegramo-nos ao contemplar os seus ouvidos. Dois ouvidos. Como
quem diz: um ouvido sempre disponível a escutar a voz de Deus. Daí, esse
levantar-se tão madrugador de D. António, essas longas horas silenciosas
vividas diante do Senhor, para, qual discípulo sentado aos pés do
Mestre, d’Ele haurir as palavras que haviam de pautar todo o seu ser e
agir. Um segundo ouvido, esse voltado para o Povo, para lhe perscrutar
os anseios, os gemidos, as esperanças. Um ouvido que sabe escutar os
clamores da Mãe e Irmã Terra, tão sujeita hoje a explorações e
violências.
Alegramo-nos ao contemplar a sua boca, com os seus lábios, a sua
língua. Oh ditosa boca que anunciou as palavras do Evangelho da Vida, a
mensagem franciscana da Paz e do Bem, as palavras do Evangelho da
Misericórdia! D. António Monteiro, ou frei Rafael de Serafão, ou frei
António Monteiro foi um arauto do Senhor. Com entusiasmo, ele anunciou
as perfumadas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com a coragem dos
Profetas, ele arriscou denunciar injustiças e opressões a que submetem
os empobrecidos e excluídos da nossa sociedade. Com a paixão de
Francisco de Assis, de quem até ao fim permaneceu fiel seguidor, ele
soube fazer-se voz dos que não tem voz, solidarizando-se com os seus
sofrimentos e lutas.
O mais importante é sempre invisível aos nossos olhos. Por isso, é
imperioso penetrarmos no interior deste Busto, para ali contemplarmos,
emocionados, o seu coração. D. António era um verdadeiro
apaixonado. Apaixonado de Cristo Jesus. Apaixonada da Igreja. Apaixonado
pelo «Homem, fonte de moral». Apaixonado pela dimensão festiva da
Vida. D. António era verdadeiramente um «homem festivo». A artística
escultora soube espelhar neste Busto um harmonioso sorriso que nos
transporta a um homem marcado pela alegria de viver, um homem que soube
amar. Só os que amam podem sorrir com o sorriso de Deus, tornando este
Mundo mais conforme ao projecto do Altíssimo e Bom Senhor.
Celebramos hoje uma das últimas heranças do saudoso papa João Paulo II:
O Domingo da Divina Misericórdia. O Tempo Pascal tem, assim, o seu auge
na celebração da Misericórdia de Deus. D. António Monteiro foi um
sacramento vivo da Misericórdia do Senhor. Conhecemos a etimologia
latina da palavra «misericórdia»: aquele que tem o «coração» voltado
para o «miserável», para o pobre, para o necessitado. D. António
Monteiro, quer como franciscano capuchinho, quer como Pastor da Diocese
de Viseu foi um homem de coração misericordioso e compassivo: um coração
voltado para as necessidades das pessoas que o Senhor colocou no seu
caminho.
Finalmente, como coroa deste Busto, alegramo-nos ao contemplar a Cruz
que D. António leva ao peito. Uma cruz reluzente, dourada. É a Cruz
gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Uma cruz que nos marca e desafia.
D. António Monteiro – tal como Francisco de Assis – desde jovem abraçou
com entusiasmo a Cruz do Senhor, seguindo os seus passos. Ele soube
proclamar na cruz de cada dia a surpreendente força do Senhor
Ressuscitado.
Pelo testemunho e acção de D. António Monteiro, o Espírito Santo lançou,
nesta Comunidade Cristã de Serafão, uma imensa sementeira de vocações
sacerdotais, religiosas, missionárias. Aqui se encontram hoje vários
Capuchinhos, naturais de Serafão, que lhe seguiram os passos [frei
Herculano Alves, frei João Santos Costa e frei Luís Gonçalves]. Aqui
se encontra a sua irmã de sangue e de consagração, a Irmã Margarida, das
Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora. Aqui deveria estar a usar da
palavra o seu querido irmão, o nosso frei Joaquim Monteiro – que uma
inesperada debilitada saúde impede de partilhar connosco a alegria desta
homenagem.
Seguir o Senhor Jesus é carregar a cruz de cada dia. A cruz do serviço e
da disponibilidade. A cruz do lavar os pés aos irmãos. A Cruz que é
caminho de felicidade e de glória. Iniciamos no próximo Domingo a Semana
de Oração pelas Vocações Consagradas. Contemplar este Busto de D.
António há-de constituir um desafio para as crianças, os adolescentes,
os jovens, as famílias cristãs de Serafão. Não sentis vós o apelo do
Senhor? Se ele bater à porta do vosso coração, não tenhais medo! Sede
generosos! Como o vosso conterrâneo, D. António Monteiro, dai-Lhe um Sim
decidido e sem reservas. É justo homenagear D. António com este Largo
que, há um ano, lhe dedicastes. É bom homenageá-lo hoje com este Busto.
Mas é ainda muito mais valioso seguir os seus passos de humilde
franciscano capuchinho, de zeloso sacerdote do Senhor, de intrépido
arauto do Evangelho.
Parabéns a toda a Comunidade Cristã de Serafão, de modo especial à
Fábrica da Igreja que teve a iniciativa de assim perpetuar a memória de
um dos seus filhos que tanto prestigiou a sua terra natal!
Parabéns à autora deste artístico Busto, a Escultora Andreia Couto, de
São João da Madeira!
Louvado sejas, meu Senhor, por todas as maravilhas que realizas através
dos teus filhos, como o nosso querido D. António Monteiro!
Serafão, 15 de Abril de 2007
frei Acílio Mendes – ofmcap.
Ministro Provincial
[Texto redigido a partir das palavras
proferidas, de improviso,
na inauguração do Busto a D.
António Monteiro]
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Para
saber mais sobre Dom António Monteiro »»