Nasceu na freguesia de São Paio, da cidade de Guimarães,
em 24 de Julho de 1910. Em 1919, com apenas nove anos de idade, veio com
toda a sua numerosa família para Lisboa, onde até 1923 frequentou o
Liceu Passos Manuel.
Nesse ano foi para a Escola Apostólica que os Jesuítas
portugueses, então expulsos de Portugal, tinham a funcionar no antigo
Convento dos Capuchinhos em São Martinho de Trevejo, perto de Cidade
Rodrigo, na Espanha. Sentindo verdadeira vocação para abraçar a vida
religiosa na nossa Ordem, os Padres da Companhia de Jesus respeitaram a
sua opção vocacional e arranjaram-lhe a admissão no Colégio Seráfico de
El Pardo, dos Capuchinhos da Província de Castela, para onde foi em
Outubro de 1924.
Três anos depois, em 27 de Agosto de 1927 vestiu o
hábito capuchinho no Convento de Barsuto em Bilbau com o nome de Frei
Agnelo de Guimarães. Aí fez a profissão temporária em 28 de Agosto do
ano seguinte, e de 1928 a 1931 estudou Filosofia no Convento de Monteano
(Santander). Emitiu a profissão perpétua no Convento de León em 13 de
Outubro de 1931 e, logo a seguir, partiu para Roma a fim de estudar
Teologia na Universidade Gregoriana. Aí ficou até Janeiro de 1938. Foi
ordenado sacerdote na Basílica de São João de Latrão em 31 de Março de
1934, e em 28 de Janeiro de 1938 defendeu publicamente a sua tese de
doutoramento publicada com o título “Hervé Noël, ses oeuvres et sa
doctrine sur l’Immaculée Conception”.
Depois de quase 14 anos de ausência, reentrou em
Portugal a 24 de Fevereiro de 1938 e iria ser um dos grandes pioneiros
da implantação da Ordem Capuchinha no nosso país. Efectivamente, e
devido, em grande parte, a repetidas instâncias suas, o decreto oficial
da fundação do Comissariado Geral dos Capuchinhos portugueses seria
assinado em Roma no seguinte 1 de Março de 1939.
De Março a Outubro de 1938 residiu na Fraternidade de
Barcelos, de Outubro de 1938 a Fevereiro de 1939 viveu no Seminário
Seráfico de Serpa, de Março a Setembro de 1939 na Casa de Beja, de
Setembro de 1939 a Janeiro de 1940 foi Vigário da Fraternidade do
pequeno Seminário da Quinta do Calvário em Fafe.
De Setembro de 1940 a Julho de 1944 residiu no Porto,
primeiro na pequena casa da Rua de São Dinis, ao Carvalhido, e depois na
Casa da Rua Nova do Tronco, que entretanto fora comprada pela Ordem. Em
14 de Julho de 1944 embarcou para Moçambique, onde foi fundar com o Frei
Conrado de Ribeiros e mais cinco confrades capuchinhos da Suíça a nossa
Missão da Zambézia, de que foi o primeiro Superior Regular, e aí ficou
até Dezembro de 1948. Durante esse tempo, fundou as missões de Maganja
da Costa, de Milange, de Namacurra, de Ile e de Mugeba. Até 1948 toda
esta zona missionária pertenceu ao nosso Comissariado, embora desde 1946
estivesse destinada aos Capuchinhos da Província de Trento, expulsos da
Abissínia durante a Segunda Grande Guerra Mundial.
Regressado de África, ficou a viver no Convento do Porto
onde, de Janeiro a Julho de 1949, foi professor no Seminário Seráfico.
No seguinte mês de Agosto foi enviado para Barcelos, e aí residiu até
Julho de 1950 como professor de Filosofia. De Agosto de 1950 a Dezembro
de 1951 esteve no Seminário Seráfico de Aldeia do Mato (Belmonte), que
depois se chamou Vale Formoso.
De 19 de Dezembro de 1951 a 15 de Dezembro de 1952 viveu
no Convento de Jesus de Medinaceli, em Madrid, onde começou a dedicar-se
quase exclusivamente à História das antigas Missões dos Capuchinhos em
Angola e no Brasil. Em 1952 regressou a Lisboa para se albergar na casa
da sua família onde permaneceu até princípios de Outubro de 1955.
Finalmente, depois de tantas andanças, em 4 de Outubro
de 1955 instalou-se na nossa Casa de Lisboa, inaugurada no ano anterior,
a cuja Fraternidade ficaria a pertencer para o resto da sua longa vida.
Em 21 de Janeiro de 1958, a seu pedido e por decreto do Padre Geral, foi
desmembrado da Província de Castela e definitivamente incorporado no
então Comissariado Provincial de Portugal.
Religioso multifacetado e de rara inteligência, com a
sua laboriosa actividade soube dar um valioso e decisivo impulso em
vários sectores vitais da implantação da Ordem em Portugal: no campo do
ensino, da iniciação e formação dos nossos jovens à vida cristã e
franciscana; no ministério da pregação à qual se dedicou continuamente e
sem descanso em muitas paróquias rurais e urbanas das dioceses de Beja,
Lisboa, Leiria, Braga e Guarda; na actividade missionária “ad gentes”; e
em muitas outras tarefas ministeriais e apostólicas que foi chamado a
desempenhar.
Porém, onde se sentiu plenamente realizado e deu um
grande nome à Ordem Capuchinha em Portugal foi no campo do estudo e da
investigação histórica e bibliográfica, à qual se dedicou, em exclusivo,
a partir de 1955. Estudioso incansável, deixou mais de 70 títulos
publicados com numerosos trabalhos de investigação histórica e
bibliográfica “de sólido fundamento, rigorosa crítica, desde as fontes
aos problemas, ampla revelação de aspectos desconhecidos, baseada em
largas investigações arquivísticas que o puseram em contacto com
documentos inéditos, parte dos quais publicou” (Prof. Veríssimo Serrão,
Presidente da APH). Destes títulos fazem parte numerosos estudos sobre a
missionação dos Capuchinhos nos séculos XVII e XVIII na África, no
Brasil e noutras partes do mundo.
Um dos aspectos que mobilizaram o seu interesse foi a
dilucidação e o aprofundamento da bibliografia portuguesa. Testemunho
disso são dezenas de trabalhos históricos e bibliográficos sobre a
presença dos Capuchinhos franceses e italianos em Lisboa com destino às
missões do Brasil, do Congo e de Angola (séculos XVII e XVIII), a
primeira missão dos Capuchinhos em Cabo Verde (séc. XVII), a sua
missionação em São Tomé e Príncipe, Benim, Pernambuco, Maranhão, Rio de
São Francisco, Abissínia, nos três Reinos do Congo, Matamba e Angola
(séc. XVII), em Portugal e no Ultramar português.“
A história dos Capuchinhos, dos
Barbadinhos e da presença missionária no Ultramar português deve-lhe um
excelente contributo” (Veríssimo Serrão). No plano nacional, deixou
impressas várias obras sobre eminentes vultos da gesta histórica dos
Descobrimentos Portugueses e da História de Portugal como Rui de Pina,
Fernão de Magalhães, Damião de Góis, Vasco da Gama, Luís de Camões, Frei
Tomé de Jesus, Frei Heitor Pinto, Pero de Magalhães, Bartolomeu Dias,
Infante Dom Pedro, Dom Manuel II, e tantos outros.
Homem de cultura e estudioso da história da bibliografia
nacional, participou activamente em muitos Colóquios e Congressos,
dentro e fora do país, de que destacamos os seguintes: – I Colóquio
Luso-brasileiro de História do Brasil (Rio de Janeiro, Dezembro de
1957); – II Colóquio Luso-brasileiro de História do Brasil, no qual
tomou parte como representante oficial da Junta de Investigações do
Ultramar, com o trabalho “Impressos quinhentistas portugueses referentes
exclusivamente ao Brasil” (Lourenço Marques, Julho 1959); – Colóquio
sobre as relações da Bretanha com Portugal e o Brasil, onde dissertou
sobre “A Comunidade dos Capuchinhos Bretões em Lisboa de 1647 a 1833 e
as suas missões na Ilha de São Tomé e no Brasil” (Rennes, Dezembro
1971); – II Colóquio Luso-espanhol de História Ultramarina, com uma
comunicação sobre “As primeiras relações impressas da viagem de Fernão
de Magalhães” (Lisboa, Setembro 1973); – Comemorações do IV Centenário
dos Capuchinhos na Península Ibérica, com um trabalho sobre “Os
Capuchinhos em Portugal” (Barcelona, Abril 1978); – Congresso Histórico
de Guimarães, onde falou sobre “Livros quinhentistas de autores
vimaranenses” (Guimarães, Junho 1979); – Congresso Hispano-Português
sobre o VIII Centenário do nascimento de São Francisco, com uma
comunicação sobre “São Francisco e Portugal” (Lisboa, Abril 1982); –
Colóquio sobre Santo António, na Universidade Católica de Lisboa,
comemorativo do 750º aniversário da sua morte, onde discreteou sobre “Os
primeiros Franciscanos em Portugal” (Lisboa, Junho 1982); – Congresso
Internacional e Comemorativo de Bartolomeu Dias e a sua Época, com uma
comunicação sobre “Evangelização das terras descobertas no tempo de
Bartolomeu Dias” (Porto, Setembro 1988); – Exposição sobre os 500 anos
dos Descobrimentos Portugueses em Nova York, USA, para a qual escreveu o
Catálogo dos livros editados sobre o “Impacto Cultural dos
Descobrimentos Portugueses” (Nova York, Junho 1990); – Congresso
Internacional de História sobre “Missionação Portuguesa e Encontro de
Culturas”, moderando e encerrando os trabalhos da temática “Missionação
nas áreas geográficas de expansão Portuguesa – séculos XV-XVIII”,
(Lisboa, Abril-Maio 1992).
A ele se ficou a dever a preparação e a montagem na
Biblioteca Nacional de Lisboa, em 1994, da Exposição Bibliográfica e
Iconográfica comemorativa do VIII Centenário de Santa Clara. Escreveu
também o Catálogo da Exposição que teve duas edições sucessivas.
Não menos relevante foi a colaboração que deixou
dispersa por revistas nacionais e estrangeiras, nomeadamente nas
revistas Portugal em África (Lisboa), Colectânea de Estudos (Braga),
Brasília (Coimbra), Revista de Guimarães (Guimarães), Itinerarium
(Braga), Olisipo (Lisboa), Studia do Centro de Estudos Históricos
Ultramarinos (Lisboa), Revista da Universidade de Coimbra (Coimbra), da
Biblioteca Nacional (Lisboa), Lisboa Revista Municipal (Lisboa), Anais
da Academia Portuguesa da História (Lisboa), Bíblica (Lisboa), Vida
Consagrada (Lisboa), Études Franciscaines (Paris), Marianum (Roma),
Collectanea Franciscana (Roma), Boletim Internacional de Bibliografia
Luso-brasileira (Rio de Janeiro), Boletim Cultural da Guiné Portuguesa
(Guiné), Estudios Franciscanos (Barcelona), Archivo Íbero-americano
(Madrid), Revista Espanhola de Teologia (Madrid), e Revista das Ciências
do Homem (Lourenço Marques – Moçambique).
A sua vasta obra, ao serviço da investigação e da
cultura, foi justamente apreciada, avaliada e consagrada pelos eruditos
do seu tempo. Em 1979 foi contemplado em Stuttgard, Alemanha, com o 2º
Prémio Internacional de Bibliografia, conferido ao seu livro “Estudos
sobre Damião de Góis e a sua Época”, um volume de 579 páginas, sendo
então considerado “o melhor livro de bibliografia jamais publicado em
Portugal”. Em 1983 foi-lhe outorgado o “Prémio de Bibliografia Dom
Manuel II”, atribuído pela Casa de Bragança à sua publicação “Os Livros
Quinhentistas de Autores Vimaranenses”, 235 páginas. Em 1992 recebeu o
galardão de história “Prémio Fundação Calouste Gulbenkian ” sobre o tema
“Presença de Portugal no Mundo” com que a Academia Portuguesa da
História distinguiu a sua obra intitulada “As muitas Edições da
‘Peregrinação’ de Fernão Mendes Pinto”, 192 páginas e 24 folhas de papel
brilhante com reprodução de frontispícios.
Como reconhecimento e consagração desta sua actividade
científica, em 7 de Julho de 1978, foi nomeado Académico Correspondente
da Academia Portuguesa da História, passando a Académico Efectivo ou de
Número em 26 de Novembro de 1982, sendo-lhe atribuída a cadeira nº 28.
Já antes, em 1954 fora designado como Sócio Correspondente do Instituto
Histórico e Geográfico do Maranhão, do Instituto Arqueológico, Histórico
e Geográfico de Pernambuco (Brasil), em 1956 como Vogal do Centro de
Estudos Históricos Ultramarinos e em 1991 recebeu a nomeação de Sócio
Correspondente da Real Academia de la História de Madrid.
A partir de 1955, teve a seu cargo o Arquivo e a
Biblioteca da Casa Cadaval, sediada em Muje, onde se conservam
manuscritos dos grandes cronistas e muitas outras importantes fontes
documentais. A esse encargo ajuntou também o de capelão privativo dessa
Casa brazonada, a capelania da Senhora da Piedade em Sintra, que
devotamente serviu pelo espaço de 40 anos.
Sob a sua orientação metodológica e o seu valioso e
imprescindível contributo, foi possível à nossa Província publicar em
1990 o livro comemorativo das suas Bodas de Ouro: “Os Capuchinhos em
Portugal. Memória de um Cinquentenário (1939-1989)”.
Foi considerado no seu tempo um dos maiores bibliógrafos
europeus da sua geração e “uma das mais operosas autoridades em matéria
de bibliografia nacional” (António Valdemar, in Diário de Notícias de
12.12.1995).
De baixa estatura e de franzina compleição física, era
um irmão de convicções profundas, de forte carácter, de espírito
irrequieto e genicoso. Deixou-nos sobretudo um magnífico exemplo de amor
ao estudo, de grande devoção ao Pai São Francisco e à Ordem Capuchinha,
e um testemunho fraterno de alegria e humildade.
Faleceu em 2 de Dezembro de 1995 no Hospital de Santa
Maria, em Lisboa. No seguinte dia 4, celebraram-se solenes exéquias com
a nossa igreja do Calhariz de Benfica repleta de fiéis. No dia 5 de
Dezembro, depois da Santa Missa das 8 horas da manhã, o seu funeral saiu
para a nossa igreja do Porto. O seu corpo ficou sepultado no cemitério
de Paranhos em jazigo privativo dos Capuchinhos.
O Frei Francisco Leite de Faria, que foi o primeiro sacerdote capuchinho
português, contava 85 anos de idade, 67 de vida religiosa e 61 de
sacerdócio.