O Senhor me deu Irmãos

frei Cirino de Getúlio Vargas (João Primon)

1 de Julho | Presbítero | 1920-1996

Religioso da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul, nasceu em Erechim em 20 de Agosto de 1920. Iniciou o noviciado no Convento de Flores da Cunha e vestiu o hábito capuchinho em 5 de Janeiro de 1937. Aí emitiu a profissão temporária em 6 de Janeiro do ano seguinte, a profissão perpétua no Convento de Garibaldi em 19 de Setembro de 1941 e recebeu a ordenação sacerdotal, também em Garibaldi, em 13 de Agosto de 1944.

Ao chegar a Portugal em 3 de Fevereiro de 1946, portanto, o Frei Cirino Vargas tinha apenas ano e meio de sacerdócio e foi enviado para a Fraternidade de Barcelos para aí ser professor de latim, português, ciências naturais e ajudar o Frei Hilário de El Burgo (Bernardino Baños) na direcção do Colégio de Filosofia. A esse cargo ajuntou, de 8 de Janeiro a 11 de Dezembro de 1948, o de Vice-Mestre de noviços. O Frei Cirino fez parte do primeiro grupo de Capuchinhos da Província do Rio Grande do Sul que vinha principalmente para cooperar na formação franciscana e intelectual dos jovens capuchinhos portugueses.

Em Dezembro de 1948, ao tomar conta do governo do Comissariado, o Frei José de Castro de El Rio nomeou-o Guardião da Casa de Barcelos e Director do Colégio de Filosofia para o triénio de 1948-1951, além de professor dos estudantes que residiam nessa Fraternidade. Aí continuou com esses cargos até o Colégio se transferir para o Porto em Agosto de 1952. Renunciou então ao múnus de Guardião da Fraternidade de Barcelos a fim de continuar ali a sua actividade docente.

Com a nomeação do Frei Mateus do Souto para Comissário Geral em fins de 1951, o Frei Cirino foi-lhe dado como Segundo Assistente, cargo a que renunciou em Agosto de 1954. Nessa data embarcou para Luanda onde, juntamente o Frei Lourenço Torres Lima, foi iniciar a Missão de Angola, na Fazenda Tentativa no Caxito. A Missão foi oficialmente inaugurada no seguinte 8 de Setembro, festa da Natividade de Nossa Senhora. Assim se concretizava uma dimensão fundamental da nossa vocação franciscana nesta actividade específica da Missão “ad gentes”.

Em 18 de Setembro de 1955 fundou as Missões de Nambuangongo e São José do Encoje. Dez anos depois, em 3 de Outubro de 1965 tomou o encargo pastoral da Missão do Uíje (antiga Carmona), abrangendo na altura toda a cidade com as respectivas aldeias. Em 8 de Dezembro de 1966 foi oficialmente criada a Missão de Luanda na nova paróquia de Santo António da Cuca e o Frei Cirino Vargas nomeado seu primeiro pároco. Desde a sua chegada a Luanda, em Agosto de 1954, desempenhou sempre o cargo de Superior dos Religiosos da Província ali residentes. Em 1959 obteve a naturalização de cidadão português.

Por decreto de 2 de Novembro de 1968, as nossas Circunscrições Missionárias foram constituídas pelo Ministro Geral em Missão Regular e, nessa altura, o Frei Cirino Vargas foi eleito seu primeiro Superior. Em Setembro de 1969 veio tomar parte no nosso I Capítulo Provincial, na qualidade de Superior Regular. No fim do Capítulo partiu para o Brasil, a fim de ali passar algum tempo de descanso. Mas, quinze dias depois da sua chegada a terras de Santa Cruz, comunicou ao Ministro Provincial que já não regressaria a Angola, pois tomou a decisão de se radicar definitivamente na sua pátria.

O nome deste irmão ficará para sempre ligado à história da nossa Província. Nos oito anos que esteve em Portugal, trabalhou, com uma dedicação e entrega sem limites, na difícil e específica tarefa da formação dos nossos jovens. Franzino, mas de elevada estatura física, bondoso, empreendedor, severo e pobre consigo mesmo, homem de muita oração e verdadeiro modelo de fidelidade às normas da chamada observância regular, pôs todo o seu caudal de conhecimentos e a sua enorme capacidade de trabalho ao serviço do processo formativo de algumas gerações de Capuchinhos portugueses.

Foi também um grande missionário, iniciador da nossa Missão de Angola. Ao longo de 15 anos de intensa actividade missionária, ali realizou um grande trabalho de implantação e desenvolvimento daquela Igreja africana. Durante o seu governo, como responsável da Missão, construiu-se no Caxito o Santuário de Santa Ana e, em Luanda, a Casa Missionária da Ordem na paróquia de Santo António.

Radicado na  sua Província e motivado pelo seu espírito missionário, em 1970 pediu para ir trabalhar na Província do Brasil Central. Foi então enviado para Campo Grande com o cargo de Guardião dessa Fraternidade. Em 1972, transferido para Brasília, prestou os seus serviços pastorais na paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Mas o seu maior desejo era trabalhar com os pobres. E materializou essa aspiração na comunidade de Ceilândia-Sul onde construiu várias creches, um asilo para idosos e uma série de obras sociais para crianças desamparadas e de famílias pobres.

Alguns anos mais tarde, com uma breve passagem por Rio Verde de Mato Grosso, foi nomeado Guardião da Fraternidade de Coxim e vigário paroquial. Aqui desenvolveu também, durante nove anos, um belo trabalho social em prol das comunidades carenciadas dos bairros mais pobres da cidade. Em estreita colaboração com a Prefeitura municipal de Coxim conseguiu retirar da miséria da rua centenas de crianças abandonadas. Aliás, em toda a parte onde trabalhou, o Frei Cirino era um apaixonado pelas crianças que o tratavam como um verdadeiro pai.

Não admira que, por todas estas suas benemerências, a Prefeitura municipal de Coxim, por ocasião da sua morte, como homenagem póstuma, tenha decretado em sua memória três dias de luto oficial.

Faleceu em 1 de Julho de 1996 num brutal acidente de viação, perto da cidade de Bandeirantes, quando se dirigia para Sidrolândia, a fim de fazer o seu retiro anual. Tinha quase 76 anos de idade, 58 de vida religiosa e 52 de sacerdócio.

frei Fernando de Negreiros

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