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Introdução |
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Os
Capuchinhos estão em Portugal há pouco mais de 50 anos. Mas a
Ordem Capuchinha tem quase 500 anos. No ano de 1528, em plena
consolidação de uma das mais extraordinárias alianças de
continentes, povos e culturas que o mundo conheceu, por
iniciativa do povo português - estávamos na época dos
descobrimentos portugueses -, nascia a Ordem dos Frades
Menores Capuchinhos. Um nascimento que é fruto do amor a
São
Francisco de Assis e que encontra, no dinamismo da sua maneira
de viver o Evangelho, o segredo para se robustecer e dilatar
pelos
quatro cantos do Mundo. |
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1. Raízes |
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Buscar as raízes é importante, e também essencial, para
descobrir a própria identidade e rejuvenescer cada dia.
Era uma vez...
A FAMÍLIA
São Francisco de Assis (1182-1226) deu origem a três Ordens
Religiosas na Igreja, cada uma com a sua própria Regra de
vida: a Ordem dos Frades Menores, a Ordem das Irmãs Clarissas
(de clausura) e a Ordem dos Irmãos da Penitência (Ordem
Terceira ou Ordem Franciscana Secular). Com o andar dos
tempos, da tensão entre a fidelidade ao espírito da Regra
primitiva e a fidelidade aos valores e interpelações de cada
tempo e lugar, a Ordem dos Frades Menores ramificou-se em 3
Ordens diferentes, embora com a mesma
Regra escrita por São
Francisco em 1223: Frades Menores Conventuais, Frades Menores
Observantes e Frades Menores Capuchinhos.
O NASCIMENTO
Os
Capuchinhos nasceram, por assim dizer, na Província das Marcas
(Itália) na Primavera de 1525 com o gesto de uma extemporânea
«fuga do mundo conventual» decidida por um frade Franciscano
Observante chamado Mateus de Báscio. Com um hábito pobre e de
capuz pontiagudo, descalço e com uma cruz na mão, obtém do
Papa Clemente VII uma benévola aprovação oral da sua forma de
vida de pregador itinerante.
Não foi uma reflexão sobre os tempos calamitosos ou sobre os
costumes imorais do paganismo humanizante, aquilo que levou os
primeiros Capuchinhos ao drástico movimento de renovação. Foi
a ânsia de reviver em si e defender o «vivo espírito de Jesus
Cristo» segundo o exemplo dos apóstolos e a experiência de
São
Francisco, uma observância integral, literal e espiritual da
«evangélica e seráfica Regra». Assim rezam as Constituições
dos Frades Menores Capuchinhos de 1536.
O
aparecimento desta renovada forma de vida franciscana não foi
uma novidade na História do Franciscanismo, na qual parece
endémica a tentação de
vida eremítica. Com efeito, esta surge
sempre como exigência quando quer retornar ao ideal primitivo,
ou seja, ao modelo de vida de
São Francisco e dos seus
primeiros companheiros. E o primeiro conjunto de regras que
orientam a vida destes frades renovadores, escritas em Albacina no ano de 1529, intitulava-se precisamente:
«Ordenações dos chamados Frades Menores da vida eremítica».
OS ANTECEDENTES
A
nova reforma foi precedida de vários movimentos que pretendiam
a observância literal da
Regra de São Francisco de Assis. Esta
efervescência deve-se ao facto de os frades da observância
regular terem adoptado uma via média, caracterizada pela
observância moderada da Regra segundo declarações papais e
pela vida de apostolado. Estes factores fizeram com que a
Ordem Franciscana contasse em 1517 com cerca de 30.000 frades
e fosse, por isso, uma das Ordens religiosas mais fortes e
prestigiadas.
Todo esse
prestígio alcançado facilitou a obtenção da bula «Ite vos»,
do Papa Leão X, nesse mesmo ano, incorporando nos Frades da
observância regular vários grupos que, desejando uma
observância mais rigorosa da Regra, viviam fora dos
conventos, em locais solitários e ermos. Os tais eremitérios.
Como tal incorporação despertasse descontentamento entre os
mais zelosos, em 1523 o Geral da Ordem Franciscana permitiu
que cada Província de Espanha pudesse ter alguns lugares de
retiro (eremitérios), para uma mais pura observância da Regra,
sobretudo na pobreza e na oração.
Sem esperar uma
iniciativa semelhante para Itália, onde crescia também o
descontentamento dos zelosos, Mateus de Báscio, pregador
carismático itinerante, decidiu partir do eremitério de
Montefalcone a fim de obter do Papa Clemente VII licença oral
para usar um capuz pontiagudo, viver a
Regra de São Francisco
ao pé da letra e pregar.
Nunca ele
pensou dar vida a um movimento de reforma. Mas, pouco tempo
depois juntaram-se-lhe outros dois frades Observantes, os
irmãos Ludovico e Rafael Tenaglia de Fossombrone. Foram estes
dois irmãos que, perante o número crescente dos que vinham até
eles desejosos de observar mais estritamente a
Regra de São
Francisco pensaram seriamente em dar vida a uma congregação
eremítica franciscana.
PRIMEIROS PASSOS
Fortemente
protegidos pela duquesa de Camerino, sobrinha do Papa Clemente
VII, e pelo cardeal protector da Ordem Franciscana Andrea
della Valle, os dois irmãos Ludovico e Rafael obtêm licença
para levar vida eremítica segundo a
Regra de São Francisco,
usar hábito com capuz quadrado ou piramidal, receber em sua
companhia clérigos, frades e leigos, usar barba e retirar-se
para lugares solitários, levar vida eremítica e mendigar por
toda a parte. Todas estas pretensões são concedidas pela Bula
«Religionis Zelus»‚ de 1528, que é considerada o acto
jurídico do nascimento da Família Capuchinha.
Logo no ano
seguinte, 1529, realiza-se o primeiro Capítulo ou reunião
geral da nova reforma e são aprovados os primeiros estatutos
- as Constituições de Albacina - que dão uma estrutura interna
e externa à nova família.
Os seguidores
desta reforma autodenominaram-se «frades menores da vida
eremítica», nome que nunca aparece em documentos oficiais
pontifícios, os quais só a partir de 1534 adoptam a
denominação de «capucciati», e depois «capuccini», por causa
do capuz.
Os Capuchinhos
renovaram e clarificaram solene e definitivamente as
«promessas baptismais» no Capítulo geral de Stª Eufémia (Roma)
no ano de 1536. Nesse Capítulo foram promulgadas as primeiras
Constituições, que são como que um comentário
espiritual e uma aplicação prática da
Regra de São Francisco a
observar sem privilégios nem alterações.
Nessas
Constituições percebem-se claramente os cinco pilares sobre os
quais se dever apoiar a Ordem Capuchinha:
1.
Vida intensa e espírito de oração, de devoção e de
contemplação.
2.
Prática radical da «altíssima pobreza» interior e exterior, a
ponto de renunciar a todo o género de privilégio e
propriedade, mesmo comunitária.
3. Ardor
e entusiasmo na pregação e no apostolado, segundo a
simplicidade e a humildade evangélicas.
4. Caridade
concreta e prontidão em servir todo e qualquer irmão
necessitado.
5. Espírito
eclesial na submissão e total docilidade ao Papa e à Igreja
hierárquica.
CONSOLIDAÇÃO E CRESCIMENTO
Assim
alicerçada, a Ordem Capuchinha conheceu um desenvolvimento
crescente, uma notável actividade apostólica e uma
extraordinária capacidade de adaptação a novas situações e às
diferentes culturas. Por tão «fecundos e suaves frutos», 91
anos depois de ter sido aprovada, esta forma de vida colocada
ao princípio na dependência jurídica dos Franciscanos
Conventuais, recebia de Paulo V a completa autonomia com o
Breve «Alias felicis recordationis» de 28 de Janeiro de
1619. Nessa altura, os Capuchinhos eram uns 15.000, divididos
em 40 Províncias e com mais de 1000 conventos.
Em 1537, depois
de os ter aprovado oficialmente em 1528, o papa Clemente VII
proibira os Capuchinhos de se expandirem fora da Itália. Mas,
em 1574, o papa Gregório XIII levantou-lhes essa suspensão e
logo eles cresceram pela França, a Espanha, a Suiça, a
Bélgica, a Alemanha e a Irlanda. Em 1761, após se terem
continuado a expandir pelas nações católicas da Europa, os
Capuchinhos atingiam o seu maior número: 34.000 Religiosos, 64
Províncias e 1730 Conventos.
OS CAPUCHINHOS EM PORTUGAL
Entretanto, e
apesar de ter formado um Estado com a Espanha entre 1580-1640,
Portugal era a única nação católica no Mundo onde não existiam
Capuchinhos. E isso, muito embora estivessem abertos em
Lisboa, de 1648 a l834, dois conventos de Capuchinhos
franceses e italianos para acolher Missionários em trânsito
para as Missões no Brasil e em Angola. Foi só um
século depois, exactamente em l934, que alguns Capuchinhos
espanhóis vieram para Portugal e aqui começaram a implantar a
sua Ordem: os de Andaluzia ao Sul, os de Castela ao Norte. A 1
de Março de 1939, com as 5 casas então existentes, o Ministro
Geral da Ordem erigiu oficialmente o Comissariado Geral de
Portugal nomeando como responsável o então Vice-Secretário
Geral para a língua espanhola Padre
Frei Damião de Ódena, da
Província da Catalunha.
A 17 de
Setembro de 1957, a fundação dos Capuchinhos em Portugal
adquire o estatuto jurídico de Comissariado Provincial,
e, em 29 de Junho de 1969, o de Província Portuguesa.
Datas mais importantes da passagem dos Capuchinhos por
Portugal até 1934
|
1604 |
Frei Zacarias passa por Lisboa. É considerado o primeiro
escritor Capuchinho português. |
|
1619 |
Morre em Lisboa, após curta permanência, Frei Lourenço
de Brindes, hoje santo e Doutor da Igreja, que viera
como embaixador à corte de Filipe III. |
|
1622 |
Lisboa torna-se ponto de passagem de Capuchinhos
franceses, italianos e espanhóis que vão a caminho ou
regressam das Missões do Brasil e de Angola. |
|
1638 |
São martirizados no Egipto
Frei Agatângelo de Vendome e
Frei Cassiano de Nantes. Este último‚ filho de
portugueses que se refugiaram em França no período da
dominação espanhola de 1580-1640. |
|
1647 |
Os Capuchinhos franceses obtêm de D. João IV licença
para se estabelecerem em Lisboa. |
|
1648 |
Os Capuchinhos franceses instalam-se no Bairro da
Esperança. |
|
1692 |
Os Capuchinhos italianos instalam-se numa casa alugada
pelos comendadeiros dos santos. |
|
1742 |
Os Capuchinhos italianos transladam-se para um novo
convento, quase ao fundo da actual calçada dos
Barbadinhos, mandado construir por D. João V. |
|
1756 |
São encarcerados na prisão da Junqueira três Capuchinhos
entre os quais Frei Francisco Maria de Guimarães,
português. |
|
1777 |
Com a morte de D. José e a deposição do Marquês de
Pombal são libertados os três Capuchinhos. |
|
1834 |
Sai do Bairro da Esperança o último Capuchinho na
sequência da expulsão das Ordens religiosas de Portugal. |
|
1870 |
Refugiam-se no convento do Bairro
da Esperança cerca de 40 Capuchinhos fugidos à Revolução
Francesa |
Como «funcionam» os Capuchinhos?
Os Irmãos (ou
Frades) Capuchinhos vivem em Fraternidades ou
Comunidades locais, animadas por um Superior («Guardião»).
Várias destas fraternidades de uma região ou país constituem
uma Província, orientada por um Ministro Provincial
assistido por 4 Conselheiros Provinciais (ou
«Definidores»), um e outros eleitos num Capítulo Provincial
reunido cada 3 anos e em que participa um determinado número
de Irmãos Capitulares «democraticamente» eleitos por
toda a Província.
A totalidade
das Províncias constitui a
Ordem dos Frades Menores
Capuchinhos, governada por um Ministro Geral
assistido por 8 Conselheiros (ou «Definidores») Gerais
representativos dos vários grupos linguísticos do Mundo,
eleitos em Capítulo Geral convocado cada 6 anos por
altura do Pentecostes, e em que participam todos os Ministros
Provinciais da Ordem.
Os Superiores
locais são escolhidos pelo Ministro Provincial e seu Conselho,
que também distribuem os irmãos pelas várias Fraternidades
locais e Serviços Provinciais. O Ministro Provincial é
confirmado pelo Ministro Geral e seu Conselho, e tanto um como
outro podem ser reeleitos.
Os Frades, após
um ano de
Noviciado, precedido pelo tempo de
formação
básica e um período de
Postulantado, professam na Ordem
por um ou três anos, prometendo viver segundo o Evangelho e
observar a
Regra de São Francisco para os Frades Menores,
cumprindo os votos ou conselhos evangélicos de Pobreza,
Obediência e Castidade. Três anos após a primeira Profissão
(ou mais, segundo os casos), os Frades que tiverem pelo menos
21 anos, fazem essa mesma
Profissão religiosa para toda a
vida, assumindo a plenitude de direitos e obrigações dentro da
Ordem, segundo o Direito e a própria Lei fundamental, ou
Constituições (que são uma concretização e actualização do
espírito da
Regra).
Uns irmãos são
clérigos (quer dizer, além de frades são também
padres), outros são não clérigos. Mas todos têm os
mesmos direitos e obrigações dentro da Ordem e gozam de voz
activa e passiva para os mesmos cargos. Antes, os irmãos
escolhidos pela Igreja para o Episcopado ficavam juridicamente
desvinculados da Ordem; agora, continuam unidos a ela.
A Província
Portuguesa dos Frades Menores Capuchinhos e as várias
Províncias de Espanha constituem a Conferência a
Conferência Ibérica dos Capuchinhos (CIC). Periodicamente,
é convocado o Conselho Plenário da Ordem, estrutura que
está para a Ordem como os Sínodos estão para a Igreja. Nele
participam Delegados eleitos pelas várias
«Conferências» da Ordem e outros nomeados pessoalmente pelo
Ministro Geral e seu Conselho.
Em 2004, a
Província Portuguesa dos Capuchinhos contava com os seguintes
membros a viverem no
Continente, Angola e Timor-leste:
Sacerdotes: 41
Não clérigos: 9
Em Formação: 4
Bispos: 3
CAPUCHOS E CAPUCHINHOS
Embora pelo
nome pareçam a mesma Ordem Religiosa, na verdade não o são. Os
Capuchos são uma reforma saída dos Franciscanos
Observantes, com desejo de uma observância mais estrita da
Regra, que se instalaram em conventos ou ermitérios fora das
povoações e formaram Províncias dependentes apenas do Geral
dos Observantes. Propagaram-se muito e deu-se-lhes o nome de
Récollets na França, Descalzos na Espanha e
Capuchos em Portugal.
Entre nós, a
primeira Província dos Capuchos iniciou-se em 1517, o mesmo
ano em que se tinha fundado também a Província dos
Observantes, chamada de Portugal. Ora, os Capuchinhos
apenas se estabeleceram em Portugal em 1934, e aos Capuchinhos
estrangeiros, que até um século antes viveram em Lisboa, o
povo chamou-lhes Barbadinhos, por causa da barba.
Aquela primeira Província dos Capuchos foi a da Piedade, que
tinha como Casa Mãe o conventinho de Nossa Senhora da Piedade,
em Vila Viçosa; depois, em 1560, fundou-se a Província da
Arrábida (de que se conservam os conventos da Arrábida, de
Sintra e da Caparica), e em 1568 a de Santo António, que tinha
a Casa Mãe no edifício do actual Hospital de Santo António dos
Capuchos, em Lisboa.
Para saber mais:
Frei Francisco
Leite de Faria, em «Irmãos Felizes», edição da
Difusora
Bíblica; «Os Capuchinhos em Portugal e no Ultramar Português»,
separata dos «Anais» da Academia Portuguesa de História, II
série, vol. 27, 1982, pp. 161-180. |
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2. Vida |
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UMA ALTERNATIVA PARA HOJE
Existe na sociedade
actual uma série de situações concretas ou fenómenos que
podemos considerar um desafio ou mesmo negação das opções
sobre as quais alicerçamos a nossa vida. Porém, um olhar mais
atento sobre essas situações, permite-nos descobrir,
independentemente do que elas possam ter de negativo, uma
outra realidade escondida: sinais de alerta ou gritos de apelo
para valores que se perderam ou estão a ser esquecidos. Essa
leitura poderá ajudar-nos a encontrar a resposta ou a
alternativa duma forma de vida que introduza a perenidade no
transitório ou faça florescer o eterno a partir do tempo.
É assim que pretendemos
viver. Não contra os valores temporais, mas assumindo-os na
visão franciscana da vida que purifica e resgata o que é
perene, inserindo-o na dinâmica universal, no «hoje» de Deus.
Por isso, não fugimos do
mundo nem o condenamos, mas estamos nele auscultando e
anunciando as realidades últimas e os valores essenciais.
Enfrentamos o delicado equilíbrio entre o SIM da Encarnação e
o NÃO da Cruz, entre a aceitação dos pressupostos culturais e
o anúncio explícito do Evangelho, entre as necessidades do
diálogo e o dever de ser «sinal de contradição», entre a
solidariedade e a denúncia profética, entre a abertura e a
rotura, entre a partilha de uma linguagem comum e a
transmissão de uma notícia incomum, que é a nossa.
Uma atitude realmente
complexa, que exige disponibilidade e lucidez. Mas longe tanto
da sistemática recusa do nosso tempo (com a fuga, o intimismo,
o fundamentalismo...), como da domesticação e fascínio por
todas as formas de eficientismo, individualismo, materialismo,
agressividade e humanismos... demasiado humanos da nossa
sociedade.
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O TRANSITÓRIO QUE DEGENERESCE |
O ETERNO QUE FLORESCE |
|
DESAFIO |
SITUAÇÃO APARENTE |
REALIDADE ESCONDIDA |
PROPOSTA FRANCISCANA DE VIDA ALTERNATIVA |
|
PERDA DO
SENTIDO |
::
Falta de espaços para fazer silêncio, a vontade de se
aturdir no frenesim do movimento, do barulho e da
actividade.
::
Relações interpessoais enfraquecidas pela superficialidade
e proclamação dos pseudo-valores do materialismo, do
consumismo, do privatismo, do provisório e do carreirismo.
::
O sentimento interior de vazio existencial e de angústia
|
NECESSIDADE DE TRANSCENDÊNCIA |
::
Na contemplação, na oração e na escuta da Palavra de Deus,
o Capuchinho experimenta o mistério de Deus e percebe a
unidade do Criador com a criatura.
::
Une-se a toda a criatura no canto dos louvores de Deus,
escrevendo uma mensagem de fraternidade universal.
::
Abandona-se totalmente no mistério de Deus e cultiva a
consciência da pobreza radical de toda a criatura humana
como caminho de elevação até Deus.
|
|
INDIVIDUALISMO E DESIGUALDADE |
::
Obscurecimento da dignidade do outro pela sobrevalorização
das causas e dos interesses particulares e individuais.
::
Presença subtil ou despudorada do nacionalismo, do
proteccionismo e do fanatismo religioso.
::
Violação dos direitos civis, políticos e religiosos;
persistência da discriminação com base na raça, no sexo,
na classe, cultura, ideologia ou idade.
|
APELO À
FRATERNIDADE |
::
Colocamos no centro da vida e da acção o ensinamento
central de Jesus Cristo: «Que todos sejam um como Tu, ó
Pai, estás em Mim e Eu em Ti» (Jo 17,20).
::
Guiados por São Francisco de Assis, que «por divina
inspiração fundou uma forma de vida evangélica a que
chamou fraternidade» (Const.85) construimos uma
fraternidade de Irmãos Menores continuamente dócil ao
apelo da Igreja e do mundo de construir a «civilização do
amor».
::
Concretizamos a verdadeira fraternidade evangélica na
confiança e no perdão, na compreensão e na correcção
fraterna, na estima e amor recíprocos, na mútua
disponibilidade e na partilha do que cada um é e tem.
|
|
MATERIALISMO |
:: O homem perde o sentido da
responsabilidade pelos outros deixando-se escravizar pelos
bens, pelo conforto e pelo supérfluo.
:: As ideologias e os sistemas
dominantes organizam-se segundo as modalidades do ter e
manipulam a pessoa forjando a convicção de que o culto da
pessoa é o caminho da plenitude e da felicidade.
::
A pessoa é apreciada pelo que faz e ganha, e o sistema de
convivência é baseado na competição e aversão a tudo o que
limita a expansão da personalidade própria.
|
NECESSIDADE DA POBREZA
RESPONSABILIDADE ÉTICA PELOS OUTROS |
:: Damos prioridade à contemplação e
imitação de Jesus Cristo despojado, pobre e crucificado,
testemunha do amor do Pai por todos os homens.
:: Amamos e servimos a Cristo pobre
e crucificado nos demais homens, fazendo-nos, pela
austeridade de vida e partilha dos recursos materiais e
humanos, solidários com os membros do Seu corpo que
sofrem, vivendo com eles na reciprocidade de um amor
diligente e activo.
::
Sentimos alegria e felicidade ocupando os últimos lugares
e não queremos ter nada para não ter que defender alguma
coisa em detrimento da dignidade dos nossos irmãos muito
amados de Deus Pai, bom e providente, e de seu Filho Jesus
Cristo, servo pobre e humilde.
|
|
OPRESSÃO E VIOLÊNCIA |
::
Os blocos políticos, militares, económicos que procuram
aumentar a sua esfera de influência falseando os
propósitos de paz e de justiça com o desenvolvimento de
conflitos e guerras de periferia, com a criação de
estruturas de opressão e a manipulação dos Meios de
Comunicação de massa.
::
Perversidade dos mecanismos económicos que falseiam a
ajuda dada às pessoas e aos países em vias de
desenvolvimento e se transformam em invisíveis causadores
de agitação social, de violência e de morte.
::
Corrupção dos responsáveis pelo
destino dos povos, o pluriemprego ao lado do desemprego
mais humilhante, a exploração das condições desfavoráveis
de crianças, mulheres, estudantes e idosos, a
marginalização dos que não entram nos padrões da «ética»
social vigente, o clientelismo... |
UM GRITO DE JUSTIÇA E DE PAZ |
::
Impelidos pelo espírito de Francisco de Assis,
empenhamo-nos em viver reconciliados uns com os outros e
em ser fermento de uma forma pacífica e estável de
conviver entre todos os que estão separados pelo ódio,
pela inveja, pelas lutas de opinião, pelo ciúme e pela
própria incapacidade de perdoar.
::
Animados pelo exemplo de São Francisco, anunciamos a paz e a
misericórdia não só com palavras mas com obras a que nos
obriga o espírito da caridade fraterna.
::
Obedientes ao mandamento de Jesus Cristo e de seu servo
Francisco, anunciamos o Evangelho da paz a todos os
homens. Mas queremos fazê-lo sem violência, sem meios de
poder, assumindo todos os riscos do projecto fraterno e,
se necessário, até à morte violenta. |
|
DEGRADAÇÃO DA NATUREZA |
::
A vida e a saúde da Humanidade estão a ser agredidas pelo
inquinamento do ar, da água e da terra devido aos gases,
aos resíduos químicos e nucleares, aos pesticidas e outros
agentes.
::
Existem grandes problemas de desertificação, de extinção
de espécies vegetais e animais, de super-industrialização
e excessiva concentração urbana.
::
Os recursos mundiais são consumidos a
favor de alguns que, para manterem os seus níveis de vida,
não se importam de sugar os recursos e as reservas dos
mais pobres.
|
ECOLOGIA |
::
Rejubilamos com São Francisco por este mundo criado e
redimido por Jesus Cristo e olhamos com optimismo para as
criaturas, que são belas, castas, preciosas, muito úteis,
reveladoras do BOM Senhor.
::
Desenvolvemos como Francisco o sentido da sacralidade de
todas as criaturas e aproximamo-nos delas com veneração,
tanto pelo seu valor intrínseco como pelo seu serviço ao
homem.
::
Acreditamos, apoiamos e colaboramos
com todos os homens e instituições que se empenham em
acções de pacificação e de justiça e buscam a verdadeira
paz e harmonia na reconciliação e no respeito por toda a
criatura. |
Superiores Provinciais dos Capuchinhos em Portugal
::
frei Damião de Ódena (1939-1948), da Província
de Navarra (Espanha)
::
frei José de Castro del Rio (1948-1951), da
Província de Andaluzia (Espanha)
::
frei Mateus do Souto (1951-1955), da Província
de S. Paulo (Brasil), depois
incorporado na
Província Portuguesa.
::
frei Cornélio de San Felices (1955-1961), da
Província de Castela (Espanha).
::
frei Francisco da Mata Mourisca (1961-1967),
da Província Portuguesa.
::
frei António Monteiro (1967-1975 e 1981-1987),
da Província Portuguesa.
::
frei Vítor Arantes da Silva (1975-1981), da
Província Portuguesa.
::
frei Carlos Pereira Carvalho (1987-1990), da
Província Portuguesa.
::
frei Manuel Arantes da Silva (1990-1996), da
Província Portuguesa.
::
frei João José Guedes da Silva (1996-2002), da
Província Portuguesa.
::
frei Acílio Dias Mendes (2002...), da
Província Portuguesa. |
|
3. Coração |
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Nenhum olhar é mais
perspicaz e penetrante que o da mãe. Pela voz autorizada dos
Papas, deixaremos que seja a Mãe Igreja a descobrir os
tesouros escondidos no coração de um dos seus queridos filhos,
os «Frades Capuchinhos». Deixaremos que seja a Mãe, a quem
amamos e veneramos, a revelar os dons com que ela mesma se
encontra enriquecida: pela palavra e pelo reconhecimento e
proclamação solene da santidade de alguns dos nossos Irmãos.
FRADES MENORES
«A vossa “inspiração
primitiva”, vós descobriste-la reflectindo, com uma
sensibilidade nova, sobre o próprio nome recebido em herança
do vosso Pai
São Francisco, isto é: “FRADES MENORES”. Em tal
nome, de facto, o Santo inclui o que lhe estava mais a peito
do Evangelho: a “Fraternidade” e a “Menoridade”, o amar-vos
como irmãos e o escolher cada um para si o último lugar, a
exemplo de Cristo que não veio “para ser servido, mas para
servir” (Mt 20, 28). Estes dois traços fundamentais da vossa
identidade franciscana – fraternidade e menoridade – vós
esforçastes-vos por repropô-los às novas gerações,
servindo-vos da luz da tradição capuchinha, que lhes confere
aquela nota inconfundível de espontaneidade e simplicidade, de
alegria e ao mesmo tempo de austeridade, de desapego radical
do mundo e ao mesmo tempo de grande vizinhança do povo, que
tornou tão eficaz e activa a presença dos capuchinhos no meio
das populações cristãs e nas missões, e introduziu tão
numerosa falange de santos». (JOÃO PAULO II, Ao Capítulo
Geral: 5-07-82)
CAPUCHINHOS
“Tende confiança em vós
mesmos, na opção que fizestes! Escolhestes este hábito, esta
vocação, esta família religiosa, este tipo de seguimento do
Evangelho. Pois bem, sabei que isto leva o selo da
autenticidade, é fiel reflexo de que Cristo pode estar
verdadeiramente satisfeito de ser anunciado por vós e
representado por vós. Orgulhai-vos de serdes irmãos Menores
Capuchinhos!” (PAULO VI, Ao Capítulo Geral: 12-06-1976)
BEBENDO DA NASCENTE
“Um primeiro requisito
que nos parece fundamental para a vossa eficaz obra de
evangelização poderia formular-se assim: Prioridade do ser
em relação ao fazer. A evangelização requer testemunho,
e o testemunho supõe a experiência que brota de uma profunda
vida de união interior com Cristo e que leva o discípulo a uma
progressiva semelhança com o Mestre, a um ser com Ele, por Ele
e n’Ele. Isto transparece pouco a pouco, de forma convincente,
até na forma externa de viver e trabalhar. Uma forma externa
particularmente marcada pela pobreza de Cristo”. (PAULO VI, Ao
Capítulo Geral: 12-06-76)
“O espírito contemplativo
que transparece na vida de
S. Francisco e dos seus primeiros
discípulos é um dom precioso que os seus filhos devem promover
hoje de novo e realizar na vida. É absolutamente necessário
que se recupere o carácter contemplativo próprio da vossa
vida, ao mesmo tempo que se dá maior dinamismo e aptidão ao
vosso apostolado.” (PAULO VI, Carta ao Ministro Geral:
20-08-74)
NA VANGUARDA DO
EVANGELHO
“Volto-me para vós: É uma
grande consolação! Obrigado! Vós sois os da vanguarda do
Evangelho… Di-lo o vosso hábito, proclama-o a vossa tradição,
afirmam-no as vossas obras. Por vezes, perguntais a vós mesmos
se estais em condições de fazer apostolado neste mundo
moderno, tão diferente, tão rico em progresso, voltado para as
realidades terrestres, etc. E vós julgais-vos fenómenos
especiais, espécie de anomalia… Porém, ficai sabendo que esta
«anomalia», esta singularidade que não está na moda está
verdadeiramente fundada no espírito do Evangelho e na tradição
franciscana; não é um obstáculo, é um apelo…” (PAULO VI, Ao
Definitório Geral: 20-02-71)
NO CORAÇÃO DA IGREJA
“Tende fé na vossa
vocação. Agradecei ao Senhor ter-vos chamado a seguir a linha
austera da vida capuchinha, a seguir
S. Francisco. Ficai
sabendo que a Igreja vos ama. Ela vos acompanha, está
convosco. Espera ter em vós os representantes da vida
evangélica. Vós estais no coração da Igreja”. (PAULO VI,
20-02-71, ao Definitório Geral)
EM AUSTERIDADE ALEGRE
E EQUILIBRADA
“A pobreza evangélica é a
herança mais preciosa legada por
S. Francisco aos seus
seguidores e é profundamente peculiar e própria dos
Capuchinhos… A missão própria do Irmão Capuchinho é dar
exemplo de uma austeridade alegre e equilibrada, aceitando as
dificuldades próprias do trabalho e da vida social e suportar
com paciência a dureza da vida, com tudo o que ela traz de
angústia e de incerteza”. (PAULO VI, Carta ao Ministro Geral:
20-08-74)
QUE FAZEM OS
CAPUCHINHOS?
“Não faltará quem se
interrogue: «Que fazem os Capuchinhos? Que obras têm entre
mãos?» Dão testemunho. São seguidores acabados do Evangelho,
são mestres de vida espiritual realizada na sua própria vida.
É esta prioridade do ser sobre o fazer que vos coloca, sem
disso vos aperceberdes, nos primeiros postos da hierarquia de
valores espirituais da Igreja”. (PAULO VI, Audiência ao
Capítulo Geral: 12-06-76)
PORTADORES DE PAZ
“A este propósito
queríamos recordar uma das características mais tradicionais
do espírito da Ordem, que nos parece importante revelar hoje
no vosso apostolado: a de vos converterdes, em qualquer
circunstância, em portadores de paz entre os homens. O homem
de hoje tem necessidade, mais que nunca, de encontrar no seu
caminho alguém que lhe dirija a saudação, desejo e ao mesmo
tempo convite, que foi tão querido a
S. Francisco: «Paz e
Bem!» Paz com os homens para atenuar, se não for possível
resolver, os conflitos das relações individuais, familiares e
sociais, a nível nacional e internacional. Paz sobretudo com
Deus no santuário da consciência, já que é precisamente no
amoroso encontro com o Pai que «perdoa as nossas ofensas» (Mt
6,12; Lc 11,4) onde se recebe o dom de poder olhar com os
olhos novos os irmãos os irmãos que têm «dívidas» connosco.
(PAULO VI, Ao Capítulo Geral: 12-06-76)
MESTRES NO
CONFESSIONÁRIO
Aqui se abriria o
importante capítulo da evangelização que se realiza no
Confessionário, nesse ministério delicado e importantíssimo. A
Ordem dos Capuchinhos gloria-se de insignes mestres nesta arte
delicada, e basta ir à sua escola para recolher preciosas
sugestões sobre a atitude justa que se assumir com as almas, a
fim de favorecer nelas o secreto trabalho da graça. Basta
recordar a figura humilde e radiante do Padre Leopoldo de
Castelnovo…” (PAULO VI, Ao Capítulo Geral: 12-06-76)
ARTÍFICES DA PAZ
“Na vossa história, a
mensagem de fraternidade muitas vezes traduziu-se no favorecer
acordos de paz, seja a nível de poderes públicos – baste
recordar a obra de paz dos vossos irmãos
Lourenço de Brindes e
Marcos de Aviano – seja a nível das tensões sociais, com uma
pregação itinerante e o exercício do ministério da
Reconciliação, cheios de sabedoria e de bons frutos no fervor
e na simplicidade, sempre baseados na Palavra de Deus.
São
Leopoldo, o
Beato Jeremias Valacchia,
Padre Pio, Padre Mariano
de Turim, foram anunciadores de amor e, por isso, artífices de
Paz.
Os homens do nosso tempo,
perturbados por lutas e guerras, por injustiças e crises de
todo o género, têm necessidade de alegria e esperança, que só
podem ser hauridas na divina Fonte. Cada dia saciados por ela,
ide também vós pelo mundo, como
S. Francisco, dizendo a todos:
«O Senhor te conceda a Paz!» (Testamento de S. Francisco) e
anunciando, como «guardiães da esperança» a salvação que vem
da reconciliação com Deus.” (JOÃO PAULO II, Aos Provinciais da
Itália: 01-03-84)
PAZ E BEM!
“PAZ E BEM! Que palavras
de ouro! Deveis repeti-las com vossos lábios, com vosso
exemplo, com vossa vida, com vossa presença, com vosso
sacrifício, com a imolação contínua da vossa existência… É uma
fórmula que vos identifica como Família Religiosa e tem uma
irradiação bem maior do que se pensa. Anunciai: Paz e Bem!”
(PAULO VI, Ao Capítulo Geral: 12-06-76)
OPTANDO PELOS POBRES
“Vós optastes pelos
pobres: e as vossas
Constituições estão aí a recordar-vos cada
dia como viver as bem-aventuranças do Senhor: «Bem-aventurados
vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6,12).
Haverá diversos modos de se identificar com os pobres do
Senhor, mas eles serão sempre a parte a vós predilecta e a
comparticipação nos seus sofrimentos e nas suas dificuldades
deverá sempre ser uma fundamental componente do vosso viver e
agir. Vós, que sois chamados e sois os ‘frades do povo’ e
tendes mais fácil acesso ao coração dos humildes, podeis
também com mais facilidade, de modo particular mediante o
apostolado itinerante, levar Jesus, o Redentor do homem, à
sociedade, especialmente às largas massas dos pobres, dos
pequenos e dos fracos.” (JOÃO PAULO II, Aos Provinciais de
Itália: 01-03-84) |
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4. Presença |
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Aos dois
discípulos de João Baptista, que Lhe perguntaram onde morava,
Jesus respondeu: «Vinde ver». O Evangelista diz que eles
«foram e viram onde morava e permaneceram junto d’Ele nesse
dia» (Jo 1, 35-39). Dia que se tornou decisivo na sua vida,
pois sabemos que ali começou a formar-se o grupo dos
Discípulos de Jesus, segundo o evangelista São João.
Porque o
projecto de vida dos Capuchinhos é uma proposta universal e
aberta como o Evangelho em que se inspira, queremos agora
apresentar-vos as várias casas onde vivemos em Portugal (e
Timor Leste) e falar-vos da principal actividade ou missão
desempenhada pelos que nelas moram, dentro da forma de vida
comum a todos os Capuchinhos. Com o mesmo convite de Jesus:
«Vinde ver». Pois algumas destinam-se exactamente a acolher e
acompanhar os que desejam conhecer e seguir Jesus mais de
perto.
É a nossa
proposta/alternativa para a Felicidade, de que falámos atrás,
aqui concretizada. E diremos que o nosso verbo não é o fazer.
Sem a presunção de uma autenticidade imaculada, poderemos, ao
menos, afirmar que a nossa vida é animada pela grande vontade
de conjugar o verbo «ser-fazer». Somos o porque fazemos, o que
fazemos e o onde fazemos.
O que somos, o
que fazemos e onde estamos? Somos Capuchinhos, estamos em
Portugal (e Timor Leste, e no mundo inteiro), temos como
inspiração os que, profundamente conscientes de serem
portadores da verdade de Cristo, alcançaram a sabedoria de
serem apenas servos de Cristo e, por Cristo, servos dos
homens. Quer estejam nos altares, quer apenas no nosso coração
pela marca nele deixada com o seu testemunho.
SEGUIR OS PASSOS DE CRISTO AO JEITO DE FRANCISCO DE ASSIS
Desde os
alvores da sua fundação que os Capuchinhos sabem da existência
de Portugal. Já nas Constituições de 1536, tratando da vocação
missionária, fazem uma referência aos descobrimentos
portugueses e às perspectivas missionárias que se abrem a
partir daí. E, de facto, foi com objectivos missionários que
os Capuchinhos desde muito cedo começaram a pisar solo
português e a manter uma que outra casa em Lisboa para apoiar
os frades que iam para as Missões.
Só em 1955 é
que os Capuchinhos portugueses concretizaram uma presença mais
permanente em Lisboa ao estabelecer-se, com a aprovação do
Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira, na Avenida Conselheiro
Barjona de Freitas, ao Calhariz de Benfica, onde residem
actualmente.
Desde o início
aí se instalou a Cúria Provincial, isto é, a sede do governo
central da Ordem Capuchinha em Portugal. A sua principal
missão é ser instrumento de união dos Capuchinhos portugueses,
animando-os no seguimento de Cristo através de uma vivência
real e sempre renovada do Evangelho e no aperfeiçoamento da
unidade visível e espiritual dos irmãos entre si, com todos os
homens e com todas as criaturas.
VIVENDO A ESPONTANEIDADE FRATERNA NA CONTEMPLAÇÃO AMOROSA DE
DEUS
Sempre os
Capuchinhos procuraram evitar que a eles se aplicassem as
palavras que Nosso Senhor Jesus Cristo disse aos escribas e
fariseus: «Ai de vós, que percorreis o mar e a terra para
fazer um prosélito (adepto, seguidor, discípulo) e, depois de
o terdes seguro, fazeis dele um filho do inferno, duas vezes
pior do que vós» (Mt 23, 15). Por isso, procuravam lugares
adequados à vida espiritual onde se pudessem ensinar as coisas
do espírito necessárias para imitar perfeitamente Jesus
Cristo, nossa luz, caminho, verdade e vida.
Esse primeiro
berço das coisas do espírito em Portugal foi um convento
situado na cidade de Barcelos. Aí, desde 1940 foram iniciados
muitos jovens portugueses a seguir Jesus Cristo «nesta forma
de vida evangélica a que Francisco deu o nome de Fraternidade»
(Constituições, 83).
Hoje a casa de
Barcelos está especialmente vocacionada para o acolhimento dos
muitos fiéis que aí procuram o sacramento da Reconciliação. É
também centro importante para a vivência da fé e do carisma
franciscano, bem presente no dinamismo da Comunidade Cristã de
Santo António. É ainda ponto de irradiação da Palavra de Deus
nas suas mais variadas formas de apostolado, nomeadamente a
Dinamização Bíblica.
Os Capuchinhos
encontram-se na Quinta da Bouça-Cova em Gondomar desde 1958.
Para além de todo o trabalho pastoral que ali desenvolvem, bem
visível no dinamismo da Comunidade Cristã Nossa Senhora Mãe
dos Homens, a sua primordial tarefa tem sido a constituição de
uma autêntica comunidade de pré-adolescentes e adolescentes à
procura do próprio projecto de vida (vocação). Aqui, enquanto
Casa do Aspirantado, a primeira inclinação e desejo que o
jovem traz de ser Capuchinho vai progredindo com a formação
integral, o acompanhamento constante e a direcção espiritual.
E vai amadurecendo a capacidade de decisão de se entregar ao
ideal de vida evangélica segundo o estilo fraterno dos
Capuchinhos.
Actualmente
funciona também nesta casa de Gondomar o Postulantado, etapa
que assinala o primeiro degrau de um projecto que tem como
meta ser Irmão Menor Capuchinho. É nesta casa, ainda, que está
sedeada a “fraternidade vocacional”, particularmente
vocacionada para o acolhimento fraterno dos jovens que
procuram espaços e pessoas disponíveis para os escutarem no
discernimento vocacional.
PROCURANDO UMA AUSTERIDADE DE VIDA NA POBREZA RADICAL
S. Francisco de
Assis, meditando a altíssima pobreza de Jesus Cristo, Rei do
céu e da terra, que ao nascer não teve sequer lugar na
hospedaria (Lc 2, 7), e em vida viveu como um peregrino em
casa de outros (Mt 25, 35) não tendo onde reclinar a cabeça (Mt
8,20), quis imitá-Lo e por isso escreveu na Regra que os
frades não tivessem nenhuma coisa própria.
Os Capuchinhos
sempre quiseram observar este preceito de S. Francisco. Daí
afirmarem nas suas Constituições actuais: «Os Irmãos de nada
se apropriem, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma. Por isso,
como peregrinos e estrangeiros neste mundo, enquanto nos
encontramos no caminho para a terra dos vivos, sirvamos o
Senhor na pobreza e na humildade» (Constituições, 62).
Em Cabanas de
Viriato, no interior do país e numa casa que a Diocese de
Viseu e o povo local emprestam enquanto a presença dos
Capuchinhos for útil para ambas as partes, tem funcionado a
segunda etapa da formação inicial neste estilo de vida
Franciscano-Capuchinha: o Noviciado. Os jovens noviços fazem
uma experiência mais intensa do seguimento de Jesus Cristo,
procurando formas renovadas mas autênticas de realizar o maior
ideal desta «Ordem de Irmãos»: a pobreza (Constituições, 60).
Este ideal encontra também a sua concretização na
disponibilidade para a animação da Paróquia, confiada ao seu
zelo pastoral dos Irmãos desta fraternidade prioritariamente
formativa.
No Porto, na
Rua Nova do Tronco, encontram-se os Capuchinhos desde 1941. Aí
os jovens Capuchinhos consolidam a opção feita no Noviciado de
viver uns com os outros como Irmãos Menores (Constituições,
23), entregando-se à oração, ao estudo, ao trabalho manual e a
diversas formas de trabalho apostólico, sempre inspirados na
figura profética da pobreza evangélica, Francisco de Assis.
ACOLHENDO O DOM DO ESPÍRITO COMO HUMILDE SERVO DE TODOS
Como é tradição
dos Capuchinhos de todo o Mundo e de sempre, também os que
peregrinam em Portugal estão dispostos a prestar ajuda
pastoral a quem o solicite e sobretudo nas Igrejas locais onde
são recebidos: ajuda aos párocos das paróquias vizinhas, o
cuidado espiritual das religiosas, formação de associações
laicais como a OFS (Ordem Franciscana Secular), etc.
Sensíveis às
necessidades da Igreja e em humilde serviço de todos, os
Capuchinhos chegam mesmo a receber o encargo da coordenação e
animação de paróquias. Actualmente os Capuchinhos em Portugal
animam as paróquias de Baixa da Banheira (Barreiro), Calhariz
de Benfica (Lisboa), Cabanas de Viriato (Viseu) e Amial
(Porto).
PARTILHANDO A VIDA COM OS POBRES SEMPRE JUNTO DO POVO
Sempre
desejosos de contemplação e solidão, talvez inspirados por
ela, os Capuchinhos ver-se-ão continuamente implicados nas
formas de apostolado mais duro, exercendo-as de modo
desinteressado e heróico: Mateus, Ludovico, e Rafael
conquistam a admiração e gratidão do Ducado de Camerino pela
sua entrega às vítimas da peste; o Papa V, em 1570, confia aos
Capuchinhos o arriscado ministério castrense, vindo alguns
deles a morrer devido à peste e às acções bélicas; Gregório
XIII, em 1582, confia aos Capuchinhos o cuidado material e
espiritual dos escravos cristãos da Argélia, e muitos irmãos
foram encarcerados…
Assim, uma das
características do carisma franciscano-capuchinho é a presença
concreta entre os pobres. São várias as formas de pobreza,
nesta nossa sociedade de bem-estar. Os doentes são todos
pobres de saúde, de segurança e de força. À imitação de S.
Francisco, que se dedicou ao cuidado dos doentes e dos
leprosos, e dos Capuchinhos que se notabilizaram, nos
primórdios da Ordem, na assistência às vítimas da peste,
também os Capuchinhos em Portugal, como aliás no resto do
Mundo, se entregam àquela que talvez seja a actividade mais
escondida e menos falada: a Pastoral do Sofrimento. Eles estão
presentes, como capelães, nos seguintes estabelecimentos
hospitalares: Hospital Distrital de Barcelos; Hospital de
Santa Maria, no Porto; Instituto de Oncologia, no Porto; Casa
de Saúde, em Coimbra.
«Quando for
grande quero ser monge, tornar-me confessor e ter muita
misericórdia e bondade para com os pecadores». Mas os
Capuchinhos estavam proibidos ou, no mínimo, fortemente
condicionados, no exercício do ministério da reconciliação,
pela sua própria legislação primitiva.
A frase que
acabamos de transcrever e a vida de quem a disse, Leopoldo
Mandic, um dos Capuchinhos do século XX, assinalam uma das
mais notáveis evoluções do apostolado dos Capuchinhos. Por sua
vez, a canonização de frei Leopoldo em 1983, por João Paulo II,
representa a proclamação oficial desta especialização
apostólica dos Capuchinhos como mestres espirituais de todos
os que querem viver uma profunda experiência cristã na vida da
família, no ambiente de trabalho e na sociedade.
ANUNCIANDO JESUS CRISTO CAMINHO, VERDADE E VIDA
Foi assim que
em 1955 os Capuchinhos deram início a um Movimento Bíblico,
que foi sempre acolhido por todos com muita simpatia,
sobretudo pelas camadas mais simples e populares.
Tendo começado
em Beja, por iniciativa do Frei Inácio de Vegas, o Movimento
não mais parou e apresenta hoje uma dupla faceta:
1.
Editorial: A DIFUSORA BÍBLICA, sedeada em Fátima e Lisboa,
desenvolve um trabalho meritório na edição da BÍBLIA
(completa, ou em volumes parciais), da revista BÍBLICA e
muitos outros livros e subsídios destinados à pastoral da
Palavra e da Evangelização, e à formação permanente da fé dos
cristãos.
2. Pastoral:
O MOVIMENTO DE DINAMIZAÇÃO BÍBLICA, animado por um
Secretariado Nacional com vários Irmãos a trabalhar a tempo
inteiro. Está especialmente vocacionado para a formação do
povo cristão através de Cursos Bíblicos em vários graus, com a
criação de Grupos Bíblicos, preparação de Animadores de Grupos
Bíblicos e Agentes de Pastoral Bíblica, Encontros nacionais e
regionais de Grupos Bíblicos, Semanas Bíblicas Nacionais (e
apoio às Semanas Bíblicas Regionais), Retiros Bíblicos, etc.
Este apostolado bíblico, por várias circunstâncias, é o que
mais tem caracterizado a acção dos Capuchinhos em Portugal,
constituindo mesmo um caso único em toda a Ordem Capuchinha.
Actualmente, a
sede do Movimento Bíblico é a Casa (Centro Bíblico) dos
Capuchinhos em Fátima, fundada em 1961 e desde sempre aberta
ao acolhimento de peregrinos e à realização de Retiros e
Encontros de Formação. Nela realizam os Capuchinhos os
Encontros dos responsáveis das várias Fraternidades e Serviços
Centrais da Província, bem como o Capítulo Provincial electivo
cada 3 anos e as Assembleias Gerais de todos os Irmãos, a meio
do triénio.
Esta acção
evangelizadora dos Capuchinhos não se tem confinado às
fronteiras do nosso país, que já percorreu de lés a lés, tanto
no Continente como nas duas Regiões autónomas dos Açores e
Madeira. Também foram feitos Cursos Bíblicos em França, no
Canadá, no Luxemburgo, na Alemanha, nos Estados Unidos da
América, em Cabo Verde, em Moç | | |