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O “encanto” da vida fraterna em comunidade
«Carregai os
fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo» (Gl 6,
2).
1.
É ser um dom do amor de Deus
Para a
eclesiologia do Concílio Vaticano II a fraternidade consagrada é
um modelo exemplar da comunhão eclesial, sinal e estímulo para
todos os baptizados (LG, 44). A comunidade religiosa é um
dom do Espírito, oferecido à Igreja e ao mundo. Nasce do amor de
Deus difundido nos corações por meio do Espírito e cresce
quotidianamente, pelo mesmo amor. Esta comunhão, que é dom,
torna homens e mulheres em irmãos e irmãs uns dos outros, não
pelo sangue, mas em razão de uma vocação comum. Na Igreja todos
devem viver em comunhão, mas «os religiosos são chamados a ser
peritos em comunhão na comunidade eclesial e no mundo,
testemunhas e artífices daquele projecto de comunhão
que está no vértice da história do homem segundo Deus» (Religiosos
e promoção humana, 24; VC, 46).
2. É ser cenáculo do encontro com
Deus
A fraternidade
consagrada deve ser uma escola de oração. A oração em comum
alcança toda a sua eficácia quando está ligada à oração pessoal.
Oração comum e oração pessoal estão em estreita relação e são
complementares entre si. A oração beneficia o impulso
apostólico: as comunidades religiosas mais apostólicas e
evangelicamente mais vivas são as que têm uma rica experiência
de oração.
3. É ser ponte para os irmãos
Os elementos de
uma comunidade religiosa têm de estabelecer laços fraternos de
união, só possíveis a partir de uma sadia, plural, livre e
sincera plataforma de comunicação. Contribuem para a união
fraterna os encontros regulares a nível local, regional e
provincial; as cartas circulares e visitas dos superiores
maiores, os boletins de informação interna, na medida em que
geram relações mais estreitas, alimentam o espírito de família,
fomentam a participação de todos, sensibilizam em relação aos
problemas gerais e aproximam os irmãos.
4. É a passagem ascética do «eu» ao
«nós»
O caminho que
vai do homem velho, que tende a fechar-se em si mesmo, ao
homem novo, que se entrega aos outros, é um caminho
longo, doloroso e difícil. É um caminho de cruz que requer muita
humildade. A vida fraterna não é coisa espontânea, nem um
objectivo que se consiga em pouco tempo, mas precisa de ser
assumida como ascese pessoal, para que, a pouco e pouco, se faça
a passagem do «eu» pessoal ao «nós» comunitário.
5. É ser lugar do perdão, da
alegria e da festa
A alegria de
viver juntos em fraternidade é um sinal da alegria do Reino de
Deus, que testemunha diante da Igreja e do mundo que é possível
viver em comunhão. Uma comunidade reconciliada e rica em alegria
é um verdadeiro dom do Alto: «Vede como é bom e agradável que os
irmãos vivam unidos!» (Sl 133,1). O saber fazer festa
juntos, o alegrar-se nas alegrias do irmão, a atenção às suas
necessidades, a sensibilidade do pequeno gesto, o enfrentar com
misericórdia situações difíceis, o aceitar o amanhã com
esperança, produz serenidade, alegria e paz interior.
6. É viver para servir
Quem na vida
fraterna em comunidade não vive para servir, não serve para
viver em fraternidade. Todos os irmãos são chamados ao serviço
uns dos outros e, nisso, o superior deve ser o primeiro. Ele é o
«servus servorum Dei»: o servo dos servos de Deus.
Pertence-lhe coordenar os diversos
dons, iniciativas e sugestões, fomentando uma união de caridade
em torno do projecto comum.
7. É ser símbolo de comunhão na
Igreja e para o mundo
«Nisto todos
conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos
outros» (Jo 13, 35). Viver em comunidade, no amor, é em
si um testemunho cristão, mesmo antes de qualquer actividade.
Quanto mais intenso e autêntico for o amor fraterno, maior será
a credibilidade do apostolado e da mensagem anunciada. Cada
irmão, cada irmã é uma graça de Deus. O encanto da vida fraterna
está em reconhecer isso.
Frei Acácio Sanches
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