Celebrar o dia dos Avós é, indubitavelmente, também celebrar a Vida, e tudo o que ela representa. Uma celebração que, aos olhos de um crente é, antes de mais, uma graça de Deus mas também um bom pretexto para refletirmos sobre os ganhos e conquistas da longevidade. O aumento da esperança média de vida é uma oportunidade para vivermos mais tempo, para estarmos (mais tempo), para sermos (mais tempo). Contudo, e ainda que reconheçamos a longevidade como uma conquista, este fenómeno acarreta, também grandes desafios para a nossa sociedade: no sistema político, nos cuidados de saúde e de assistência, nas nossas famílias... e em nós próprios.

O envelhecimento humano é um processo universal, progressivo, endógeno e degenerativo. Ou seja, é algo que acontece a todos os seres humanos, ao longo do tempo, de forma específica (e particular) em cada um e é um processo pautado (também) por perdas. Desde logo, esta definição encerra em si uma notícia importante: estamos todos envolvidos neste desafio que, apesar de acontecer de forma específica em cada um, é transversal ao ser humano. Partimos, assim, de dois pressupostos: (i) o envelhecimento como um desafio (não como um problema); e (ii) o envelhecimento diz respeito a todos. Assim, percebemos, desde logo, que envelhecer não é algo negativo (mas sim parte integrante do nosso ciclo de vida). Tal como percebemos que, se é um processo que me diz respeito, devo investir esforços para compreendê-lo, aceitá-lo, estar atento.

Um dos reptos do (nosso) envelhecimento é o aumento do risco de incapacidade, isto é, o aumento do risco de nos tornarmos pessoas dependentes de uma terceira pessoa. Por esta razão, os cuidados de saúde e de assistência são basilares nesta fase do ciclo de vida. A Igreja Católica, em cumprimento da sua essência missionária, tem assumido, nas últimas décadas, uma presença efetiva com obras dedicadas à promoção da saúde. Desde os centros sociais e paroquiais às misericórdias, a Igreja conseguiu, na sociedade portuguesa, privilegiar aqueles que, por razão da sua condição, se encontram numa situação de vulnerabilidade. Especificamente com a população mais envelhecida, a presença da Igreja reflete-se na criação de respostas sociais, seja ao nível institucional (centro de dia, estruturas residenciais para pessoas idosas ou unidades de cuidados continuados), seja no domicílio (serviço de apoio domiciliário).

Ainda que a Igreja Católica se revele (sempre) na linha da frente no apoio prestado às pessoas mais vulneráveis, julgo que não nos podemos inibir de refletir sobre a responsabilidade acrescida que nós, Igreja, temos no serviço que prestamos. Falamos de um serviço orientado para a pessoa que envelhece, de forma multidimensional e multifacetada; que tem necessidades biológicas, psicológicas e sociais; que precisa do outro para manter a sua dignidade humana. A propósito disto, recordo uma das ideias lançadas pelo II Concílio Ecuménico do Vaticano: “a pessoa é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais”.

Porque não nos podemos inibir de refletir sobre a (nossa) responsabilidade, questiono: Até que ponto nós, Igreja, temos conseguido equilibrar a boa vontade com o conhecimento técnico efetivo sobre os cuidados geriátricos? Até que ponto nós, Igreja, estamos a investir em pessoal técnico e especializado, nomeadamente em Gerontologia, capaz de prestar serviços de qualidade? Até que ponto nós, Igreja, nos temos preocupado com a qualidade das nossas instituições?

O respeito e valorização da dignidade humana de todas as pessoas, em todas as idades, em todas as suas condições, devem ser, sempre, o foco das instituições sociais. Respeito e valorização que se reflete no cuidado prestado (humanizado) e na promoção da autonomia e liberdade na decisão (até ao fim da vida).

A Igreja não se pode esquecer de ser a referência no cuidado e serviço prestado à pessoa idosa. Porque assim – e só assim – seremos, para a população envelhecida, uma Igreja verdadeiramente missionária – uma Igreja que cura, uma Igreja que cuida e celebra, sempre, a vida!

 

 

Filipa Luz
Gerontóloga

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