Na Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano, o Papa Francisco desafia-nos a construir «uma rede que preserve a comunhão de pessoas livres». Mas, ao olharmos para as notícias dos últimos dois anos, sobre a forma como as grandes empresas de internet estão a usar os dados pessoais dos seus utilizadores, sobre a influência das ‘fake news’ em vários cenários políticos e ainda, por exemplo, sobre o crescimento do ‘cyberbullying’, perguntamo-nos se tal ainda será possível.

No início de abril, após doze anos de utilização, fechei a minha conta pessoal no Facebook para passar apenas a gerir a página dos Capuchinhos. Creio que o meu gesto foi mais útil do que tudo quanto ali publiquei ao longo dos anos, por estimular assim os meus ‘amigos’ a refletirem sobre a forma como usam a ‘social web’, se como um recurso positivo, se como um elemento absolutamente invasivo das suas vidas pessoais, com pouquíssimos proveitos reais.

O Papa Francisco vai ainda mais longe, afirmando que «aquela que deveria ser uma janela aberta para o mundo, torna-se uma vitrina onde se exibe o próprio narcisismo». Isso é particularmente relevante no caso dos Consagrados e Sacerdotes, que são estimulados a coordenar a atividade da comunidade eclesial ou das suas congregações religiosas usando a rede como um recurso, «complementar do encontro em carne e osso», mas sempre com o objetivo da fraternidade, de «celebrar juntos a Eucaristia». A rede deveria ser «usada como prolongamento ou expectação de tal encontro», e não como busca de ‘likes’ para si próprio.

Percebemos facilmente que «o ambiente dos massmedia é tão invasivo que já não se consegue separar do círculo da vida quotidiana». A primeira coisa que muitos utilizadores de redes sociais faz quando se levanta e a última antes de adormecer é consultar o seu ‘feed’. Provavelmente também o fez a cada 30 minutos ao longo do dia! E «se é verdade que a internet constitui uma possibilidade extraordinária de acesso ao saber», não é menos verdade que o que mais aparece no nosso ‘feed’ é, tantas vezes, um hino à banalidade, que em muito concorre para a fragmentação da vida e do pensamento. Estudos mostram que a sua dependência provoca alterações no cérebro semelhantes às daqueles que usam drogas e álcool em excesso.

À Igreja preocupa, sobretudo, que a ‘social web’, em vez de «promover o encontro com os outros», crie a ilusão de que «possa satisfazer-nos completamente a nível relacional».

De modo algum se advoga, com tudo isto, o fim das ‘redes sociais’. Com a mensagem deste ano, sob o tema «Somos membros uns dos outros» (Ef 4, 25), o que a Igreja pretende é lembrar-nos que «a verdade se revela na comunhão» e que por isso a rede não pode ser usada como ‘campo de batalha’ para acentuar as diferenças étnicas, políticas, religiosas, etc., mas antes deve ajudar cada pessoa a reconhecer no outro «um companheiro de viagem».

Esta é a rede que também nós, Capuchinhos, queremos: «uma rede feita, não para capturar, mas para libertar, para preservar uma comunhão de pessoas livres. A própria Igreja é uma rede tecida pela Comunhão Eucarística, onde a união não se baseia nos gostos [‘like’], mas na verdade, no ‘amen’ com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros.»

 

Publicado originalmente na revista Bíblica nº 382 (maio-junho 2019), pág. 1.


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