O hospital é um dos lugares que a humanidade mais frequenta: para controlo médico, por doença, para o nascimento de um filho ou a morte de um ente querido. Muitos têm nele o primeiro berço ou a última cama. O Assistente espiritual e religioso presta aí um serviço de acolhimento, de escuta ativa e afetiva… e acompanha nos vários percursos para humanizar a vida a morte.

Mais tarde ou mais cedo, somos todos cidadãos do reino da enfermidade. E para dar sentido ao que nos acontece procuramos respostas às perguntas de sempre: “Porquê a mim, e agora? Que fiz para merecer isto? Tanto lutei na vida para acabar assim!”

 

Abertura à transcendência e desejo de “reconhecimento”

Este desejo de sentido abre-nos ao mistério, à transcendência, a uma possível experiência religiosa, a um caminho espiritual onde porventura se encontre paz e sossego dentro do infortúnio. Mas não confundamos dimensão espiritual com a confissão de uma religião determinada.

Qualquer pessoa doente, seja qual for a sua visão religiosa, a sua fé ou a sua atitude filosófica, tem direito a que respeitem e atendam as suas necessidades espirituais. Será preciso observar como ela percebe a sua doença, o possível final da sua vida ou a proximidade do mistério da morte, para ajudá-la a enfrentar uma das experiências mais densas e decisivas da pessoa humana.

Se assim desejar, o doente deverá poder expressar-se sobre as grandes questões da vida. Pode necessitar de curar feridas arrastadas do passado, enfrentar sentimentos de culpa, descobrir sentido para a sua experiência, reconciliar-se, pedir perdão, sentir-se perdoado e despedir-se em paz (Robert Twycross).

A doença não tem que ser dor ou dependência, descontrolo e indignidade. Algumas pessoas conseguem transformá-la numa oportunidade para exprimir amor, sanar feridas antigas ou preconceitos, descobrir em si mesmas forças e virtudes ocultas para se realizarem.

Para poder ajudá-lo espiritualmente é preciso “reconhecê-lo” como pessoa autónoma. Com frequência, a morte social precede ou provoca a morte biológica: ao ver o corpo deteriorar-se ou a cara diferente no espelho, o doente procura ver-se reconhecido no olhar do outro. Temos necessidade de apreço. Nomear, escutar e vigiar a estética de um corpo que se vai degradando é respeitá-lo; é lutar contra o desprezo que ele poderia ter, e estimula o seu desejo de viver. Pois ele continua a ser o protagonista da sua história.

 

Perguntas sobre o sentido sem resposta definitiva

Um doente grave precisa vitalmente de ser escutado e atendido para se agarrar ao fio da sua história com linhas de tensão, fracturas e continuidade. Vê-se, então o que o mantém perante a prova, o que é mais forte do que a morte. Às vezes, organiza-se uma nova hierarquia de valores. O sofrimento espiritual identifica-se com sentimentos de amargura, de raiva e de tristeza.

A tristeza, quando invade o doente, seca a sua vida, mata o crescimento e apaga o espírito. Fica na noite. Não se imagina sem o que sonhou, o que teve ou desejou. Não quer arrancar a folha do calendário, pára o relógio na ilusão de parar o tempo. Só olha pelo espelho retrovisor. Então, ajudar supõe dialogar com a tristeza para ver se é possível dar à luz uma alegria serena.

Uma doença grave ou o vislumbre da proximidade da morte provoca a última crise humana existencial. Questiona-se então, com agudeza, o sentido daquilo que se viveu. A partir da compreensão da sua vida, a pessoa doente poderá interpretar o sofrimento. Haverá que escutar as suas decisões e orientações fundamentais e retificar o que for possível. Importa manter com ela um verdadeiro diálogo, no qual possa expressar o que a preocupa.

Nesta procura aparecerão as perguntas difíceis sobre o sentido, que requerem particular disposição do cuidador para compreender a sua natureza. Algumas perguntas são feitas para interrogar e alertar quem as formulou sobre as incertezas e mistérios pessoais, e não para lhe respondermos. Seria pretensioso e desumano dar uma resposta objetiva, universal e definitiva. A dúvida e a pergunta, a incógnita e o mistério, o temor e a esperança são ingredientes irrenunciáveis da vida humana.

 

Perdão e reconciliação

Cada ser humano transporta consigo gestos de ódio e ruptura. Às vezes, a doença é o momento em que eles sobem à memória de forma viva.

Permitir ao doente confrontar a realidade, reconciliar-se, fazer as despedidas, ser verdadeiramente ele mesmo, é um desafio contínuo dos agentes que o acompanham. No aspeto religioso, quem o quer ajudar também deve fazê-lo a partir daquilo que o doente é e vive, para o poder compreender, respeitar e reconciliar.

Para enfrentar a doença com serenidade é bom pedir e receber o perdão dos outros, perdoar aos outros e a si mesmo, estar em harmonia com a transcendência, expressa sob a forma religiosa ou não. É necessário tempo para pôr em ordem as experiências acumuladas na vida, perdoar interiormente a quem nos feriu e pedir perdão expresso a quem ofendemos. A única aproximação ao mistério e à vulnerabilidade destas situações é oferecer o respeito e o calor humano.

 

Sentido e fé

A necessidade de sentido não é só um olhar retrospetivo, mas também prospetivo. A continuidade pode garantir-se através de uma obra, de uma empresa que deixe vestígios nos descendentes, ou através de crenças como a reencarnação e a ressurreição.

O desejo de continuidade após a morte é frequentemente acompanhado de muitas dúvidas, mesmo entre os crentes, quanto à realidade desta vida no mais além.

Em muitos crentes, a fé é posta à prova por uma doença grave ou crónica, um sofrimento ou a proximidade da morte. Há uma rebeldia em todo o ser. Pode expressar-se contra Deus que lhe foi apresentado como todo poderoso e não faz nada para o curar e apaziguar o seu sofrimento. A abertura a uma fé mais pro-funda não se fará sem passar através desta crise.

O doente pode encontrar na leitura de textos religiosos a fórmula concreta da sua exclamação, do seu grito, da sua queixa e da sua confiança. Pode perceber que o amor, também dentro da dor, é o único que conta. Porque aceitar a doença, ou a morte, não significa correr à sua pro-cura, mas dar-lhe o seu lugar, como ao medo, e não permitir que elas impeçam o amor. Isso pode ajudar a amadurecer a sua fé: viver sem “eficácias”, sem a ideia do “Deus útil”; em atitude de abandono.

 

Estar próximo humaniza a passagem

Na procura de orientação dentro da confusão e do incompreensível, Marie de Hennezel diz que chega um momento em que já não há que buscar o porquê, mas viver o “para quê”. Quais são os caminhos, a experiência vital, a consciência aonde me levam a minha doença e o meu sofrimento? Posso fazer da dor um lugar para a luz e o amor?

O apoio espiritual é “assunto” de todas as pessoas próximas do doente e não só do assistente espiritual e religioso ou numa relação triangular entre doente, o seu médico e o cuidador ou acompanhante, cada um a seu nível. Tal apoio expressa-se de muitas formas: cuidados físicos, escuta pessoal, facilitar gestos de reconciliação, manter um papel social e familiar e discernir dos recursos à oração, à música... O acompanhante deverá perceber o que oprime o doente e, se este for crente, formular com ele uma oração que recolha a sua verdade. Senão, o doente corre o risco de sentir-se incompreendido e abandonado por Deus.

Estar próximo do doente e dar-lhe apoio não impede o sofrimento nem toda a angústia, mas humaniza a passagem. Pode ser mais enriquecedor viver no seio de uma rede de relações de família e de amigos, onde as palavras de sabedoria e o testemunho falam de pessoas que atravessam o sofrimento e encontram paz.

O decisivo não é “defender” Deus, nem condenar ou julgar o doente; mas acolher o sofrimento, a angústia do outro, e oferecer ao mesmo tempo toda a confiança e serenidade que possamos extrair de nós mesmos. Trata-se de participar, de estar com ele, de não o deixar só. Não há muito que entender. O que temos de fazer é viver esse mistério – diz Marie de Hennezel.

 

*Publicado na Revista Bíblica nº 348 (setembro/outubro 2013), pp. 36-38.

**Frei José Cruz, OFMCap., é Assistente espiritual e religioso no SNS