Aproveitando a sugestão do papa Francisco para fazer uma boa homilia, comecemos por sintetizar o tema com «uma ideia, um sentimento, uma imagem» (EG 157).

A ideia resume-se no lema de toda a Família Franciscana: MEU DEUS E MEU TUDO. Lema encimado pela cruz, apoiada num braço de Cristo e outro de Francisco, em X, a dizer-nos que uma “ecologia integral” só é possível juntando as quatro dimensões e os quatro elementos do mundo suportados pela entrega total de Cristo e o serviço fraterno de São Francisco a todas as criaturas, suas irmãs, sem qualquer instinto de posse ou de fruição exclusiva.

Para sentimento, o do próprio irmão Francisco de Assis, ao entoar o Cântico das Criaturas: “Louvado sejas, meu Senhor…!”

Como imagem, proponho a de Bartolomé Estéban Murillo: São Francisco, apoiando um pé sobre o Mundo, abraça Cristo crucificado, o qual, por sua vez, desprende da cruz o braço direito para o abraçar. O pé de Francisco sobre o mundo não é o de um senhor que sobe acima das coisas para dominá-las; mas o de uma simples criatura do único Senhor, Criador e Pai, que, fazendo parte do mundo criado, emerge dele para ser porta-voz do louvor anó-nimo das outras criaturas, suas irmãs – e, segundo o projeto de «Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, […] submeter tudo a Cristo, reunindo nele o que há no céu e na terra» (Cl 1,1.10). Deste modo, o mundo torna-se um “itinerário” para ir até ao Criador pelos seus passos nas criaturas (ver LM IX,1). E por baixo, como legenda geral, a frase de São Paulo: «Tudo é vosso. Mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus» (1 Cor 3,23).

 

1. «Entrar em diálogo com todos» (LS’ 3)

1.1. Na encíclica Laudato Si’ há três números que definem os objetivos nela propostos pelo papa Francisco:

Nº 3: «Na minha Exortação Evangelii gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um processo de reforma missionária ainda pendente. Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em DIÁLOGO com todos acerca da nossa casa comum.» A este junto o nº 14, que o reforça.

Nº 62: «Por que motivo incluir, neste documento dirigido a todas as pessoas de boa vontade, um capítulo referido às convicções de fé? Não ignoro que alguns, no campo da política e do pensamento, rejeitam decididamente a ideia de um Criador ou consideram-na irrelevante, chegando ao ponto de relegar para o reino do irracional a riqueza que as religiões possam oferecer para uma ECOLOGIA INTEGRAL e o pleno desenvolvimento do género humano; outras vezes, supõe-se que elas constituam uma subcultura, que se deve simplesmente tolerar. Todavia, a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, podem entrar num DIÁLOGO intenso e frutuoso para ambas.»

Nº 201: «A maior parte dos habitantes do Planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a estabelecerem DIÁLOGO entre si, visando 1o cuidado da natureza, 2a defesa dos pobres, 3a construção de uma trama de respeito e de fraternidade. De igual modo, é indispensável um DIÁLOGO entre as próprias ciências, porque cada uma costuma fechar-se nos limites da sua própria linguagem, e a especialização tende a converter-se em isolamento e absolutização do próprio saber. Isto impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente. Torna-se necessário também um DIÁLOGO aberto e respeitador dos diferentes movimentos ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas. A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do DIÁLOGO que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que “a realidade é superior à ideia” [Evangelii gaudium, 231].»

1.2. Nestes três números surge a palavra “diálogo”; e no último aparece quatro vezes. É nesse espírito que situo a minha reflexão, em complemento doutras leituras feitas com perspetivas, intenções ou sensibilidades diferentes. Se aquilo que puder oferecer à luz de São Francisco de Assis, «para uma ecologia integral e o pleno desenvolvimento do género humano», não for considerado algo a «relegar para o reino do irracional» (nº 62), já terá valido a pena.

 

2. Francisco, “um modelo belo e motivador” (LS’ 10)

O Papa colheu o título da encíclica no “Cântico das Criaturas”, ou “Cântico do Irmão Sol”, de S. Francisco de Assis, a que chama por duas vezes «gracioso cântico» (nn. 1 e 87). São doze estrofes, irregulares, em verso livre, todas iniciadas com a invocação: «Laudato si’, mi’ Signore» (Louvado sejas, meu Senhor) – daí o nome da encíclica, Laudato si’. Tem 33 versos, o múltiplo de 3 que simboliza a Trindade divina, segundo a numerologia da Idade Média. Evoca os 4 elementos fundamentais da natureza, afirma o caráter divino da criação e opõe-se à mentalidade mercantil que apenas via na natureza fins económicos.

 

2.1. O “Cântico das Criaturas”, síntese de uma “ecologia integral”

No nº 1, o Papa transcreve a 1ª estrofe:

«Altíssimo, omnipotente e bom Senhor,
a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
A ti só, Altíssimo, se hão de prestar
e nenhum homem é digno de te nomear.»

As outras estrofes, relacionadas com a natureza, vêm transcritas no nº 87 e são motivadas assim pelo Santo Padre: «Quando nos damos conta do reflexo de Deus em tudo o que existe, o coração experimenta o desejo de adorar o Senhor por todas as suas criaturas e juntamente com elas, como se vê neste gracioso cântico de São Francisco de Assis.»

No seu “Cântico das Criaturas”, São Francisco faz uma bela e boa síntese da “ecologia integral” de que fala o capítulo IV da encíclica. Mais ainda: assim como dizemos que «as “bem-aventuranças” não são um sermão improvisado, de circunstância; encontram-se no início, no centro e no fim da vida de Jesus. São a sua filosofia, ou antes, a sua teologia» (Domingo Montero, Bem-aventurados , DB, p.9), também o “Cântico das Criaturas” é uma síntese do espírito e da vida de Francisco, que nesse ano de 1224 recebera os estigmas no Monte Alverne, e morreria dois anos depois em Santa Maria da Porciúncula. Vejamos, então.

● O CÂNTICO não é um simples exercício literário: foi um texto sofrido e vivido. Eis o que diz a Legenda Perusina sobre o estado de Francisco, ao escrevê-lo:

«Dois anos antes da morte, já muito doente, sobretudo dos olhos, morando numa cela feita de esteiras perto de São Damião… mais de cinquenta dias, sem poder suportar a luz do sol durante o dia, nem a do lume durante a noite. Permanecia constantemente na obscuridade, no interior da sua cela.
Era tanto o sofrimento causado pela doença, que não podia descansar nem dormir, o que lhe era prejudicial, tanto para a doença dos olhos, como para o estado geral de saúde. Às vezes ia para dormir um pouco, mas nessa casa, e na cela de esteiras que lhe fizeram (numa parte da casa), eram tantos os ratos, correndo dum la-do para o outro, à sua volta e por cima dele, que não conseguia descansar» (LP, 42-43).
«… uma noite, em que o peso do sofrimento se havia tornado mais acabrunhante que nunca… rezando fervorosamente, … obteve do Senhor a promessa da vida eterna» (2 Cel 213).
«Ao levantar-se, no dia seguinte, disse a seus companheiros: (…) «Por isso quero, em seu louvor, para minha consolação e edificação do próximo, compor um novo Louvor do Senhor, pelas suas criaturas que nos servem todos os dias e sem as quais não podíamos viver. (…) Sentou-se, concentrado por momentos, depois entoou: “Altíssimo, omnipotente, bom Senhor”.» (LP,43).

● O SENHOR (Deus): está na origem e no centro do Cântico (a expressão mi ‘ Signore é repetida 9 vezes), como aliás estava na vida de Francisco. Basta ver, por exemplo, a autêntica girândola de adjetivos que em ação de graças a Deus brotou do seu coração enamorado no capítulo XXIII da Primeira Regra (não Bu-lada), de 1221. Muito contido esteve ele, neste poema! E ao falar de Deus, fala naturalmente de CRISTO, presente no seu espírito ao louvar a Deus. No seu altíssimo, omnipotente, bom Senhor estava implícito o Deus encarnado – que ele descobriu progressivamente no ícone de São Damião, na carne do leproso, nos farrapos dos pobres e na letra do Evangelho.

Aliás, nos Louvores a Deus Altíssimo, escritos no mesmo contexto espiritual da impressão das chagas, o santo junta «o Senhor grande e admirável, / Deus omnipotente, / o misericordioso Salvador».

Vem a propósito a palavra do Papa: «A meta do caminho do Universo situa-se na plenitude de Deus, que já foi alcançada por Cristo ressuscitado, fulcro da maturação universal. E assim juntamos mais um argumento para rejeitar todo e qualquer domínio despótico e irresponsável do ser humano sobre as outras criaturas. O fim último das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus, numa plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina. Com efeito, o ser humano, dotado de inteligência e amor e atraído pela plenitude de Cristo, é chamado a reconduzir todas as criaturas ao seu Criador» (LS’ 83).

● A FRATERNIDADE, em que todas as criaturas são irmãs – incluindo, como Francisco, o irmão lobo e os irmãos ladrões (Florinhas, cap. 21 e 26) –, é um apelo e uma exigência da encíclica, que propõe o respeito (embora diferenciado) por cada ser da criação e por toda a natureza como nossa casa comum. Por exemplo, no nº 89:

«As criaturas deste mundo não podem ser consideradas um bem sem dono: “Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida” (Sb 11,26). Isto gera a convicção de que nós e todos os seres do Universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e hu-milde. Quero lembrar que “Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação” (Evangelii gaudium, 215)» (LS’ 89).

● UM REALISMO OTIMISTA, esquecendo a face menos agradável de tudo quanto é físico e criado, pois o próprio «Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa» (Gn 1,31a). Embora, como já vimos, nem tudo fosse poesia na vida de Francisco. Longe disso!

Ele chama irmão ao Sol que revela aos outros a beleza da criação,
e lhe fere os olhos cansados de chorar;
ao Fogo, que alumia a noite,
e lhe queima as têmporas quando, com rude cautério, tentam salvar-lhe a vista;
e à Água, que tanto serve para acompanhar o almoço de pão duro esmolado,
como lhe deixa a roupa e o corpo encharcados em dia de tempestade.

Chama irmã e mãe à Terra que lhe oferece as belas flores do jardim de São Damião,
e lhe fere as chagas dos pés na caminhada, ou o vai acolher, nu,
por vontade própria, quando se aproximar a sua morte.

Canta a Lua e as Estrelas nas noites de êxtase e felicidade,
e nas noites de longas insónias e sofrimento,
em parte ao ver já os desvios dos frades menores no capítulo da pobreza.

Celebra como irmão o Vento refrescante nas jornadas missionárias pelo Oriente,
e o Vento de um inverno agreste, quando ele remata um longo diálogo com frei Leão,
sobre a perfeita alegria (Florinhas, cap. VIII).

 

● O ARREPENDIMENTO e o PERDÃO, indispensáveis na relação normal entre os seres humanos, entre as instâncias de autoridade e poder, ou nos conflitos pela posse das coisas, de que as “partilhas” são um tristíssimo exemplo de tantas famílias. Aliás, a estrofe sobre os que perdoam foi mesmo composta para os frades cantarem diante da Podestá e do bispo de Assis. E o efeito foi tal, que os dois, até ali desavindos, se perdoaram um ao outro, se abraçaram e beijaram mutuamente com grande cordialidade (Legenda Perusina, 44).

Daí o Papa, no nº 218: «Recordemos o modelo de São Francisco de Assis, para propor uma sã relação com a criação como dimensão da conversão integral da pessoa. Isto exige também reconhecer os próprios erros, pecados, vícios ou negligências, e arrepender-se de coração, mudar a partir de dentro.»

● Uma certa INTENÇÃO APOSTÓLICA, que desde o princípio acompanhou este Cântico. A Legenda Perusina di-lo claramente.

Primeiro, quanto ao motivo da composição do cântico, em agradecimento à misericórdia de Deus. Disse Francisco aos seus irmãos: «“quero, em seu louvor, para minha consolação e edificação do próximo, compor um novo Louvor do Senhor, pelas suas criaturas que nos servem todos os dias, e sem as quais não podíamos viver. Com elas, o género humano ofende muito o Criador; e nós, ingratos, deixamos de reconhecer tão grandes benefícios, porque não agradecemos, como devíamos, ao Criador e Dador de todos os bens”. Sentou-se, concentrado por momentos, depois entoou: “Altíssimo, Omnipotente, Bom Senhor.” Para estas palavras compôs a melodia que ensinou aos companheiros.»

Depois, quanto à evangelizadora a desenvolver com ele, pelos seus frades, segundo lemos na Legenda Perusina, 43 e no Espelho de Perfeição, cap. C: «Queria e dizia que fizessem assim: primeiro, falaria ao povo o mais competente para pregação; depois cantariam todos os Louvores do Senhor, como jograis de Deus. Acabado o cântico, o pregador diria ao povo: «Nós somos os jograis de Deus, e a única recompensa que nós queremos é que leveis uma vida verdadeiramente penitente». […]

A estes Louvores do Senhor, que começam: “Altíssimo, Omnipotente, Bom Senhor”, chamou ele Cântico do Irmão Sol, porque o Sol é a mais bela de todas as criaturas e a melhor imagem de Deus. Dizia ele: “Ao nascer do sol, deviam todos louvar a Deus por ter criado este astro, que durante o dia fornece luz aos nossos olhos; assim também, quando anoitece, todos deviam louvar a Deus por essoutra criatura, o nosso irmão fogo, que nos alumia no meio das trevas. Somos todos cegos, e o Senhor, por estas duas criaturas, ilumina os nossos olhos. Por isso, nós devíamos, por estas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias, louvar sempre o seu glorioso Criador”.»

 

2.2. Pressupostos e valores de uma ecologia integral à luz de S. Francisco

Repito: São Francisco foi mais que um poeta ou um cantor lírico: foi um irmão menor e servo, uma criatura entre as outras, disponível para exprimir o seu louvor de todas ao Criador. E deste modo, sem o pretender, promoveu a fraternidade universal e lançou as raízes de uma “ecologia integral”.

Ao proclamá-lo Patrono dos cultores da ecologia, em 29 de novembro de 1979 [dia da aprovação da Segunda Regra de São Francisco, pelo papa Honório III, em 1223], João Paulo II colocou esta razão à cabeça a Carta Apostólica “Inter Sanctos”:

«Entre os santos e os homens ilustres que tiveram um singular culto pela natureza, como dom magnífico feito por Deus à humanidade, inclui-se justamente São Francisco de Assis. De facto, ele teve em grande apreço todas as obras do Criador e, com inspiração quase sobrenatural, compôs aquele belíssimo “Cântico das Criaturas”, através das quais, especialmente do irmão Sol, a irmã Lua e as estrelas, rendeu ao omnipotente e bom Senhor o devido louvor, glória, honra e toda a bênção» (Net: Santa Sé/ S. JOÃO PAULO II).

E na Mensagem para o Dia da Paz de 1990, sobre “Paz com Deus Criador, paz com toda a Criação”, o mesmo Papa recordou a proclamação de Francisco em 1979 e propô-lo como «exemplo de um respeito pleno e autêntico pela integridade da criação»:

«São Francisco de Assis, que proclamei em 1979 Patrono dos cultores da ecologia, dá aos cristãos o exemplo de um respeito pleno e autêntico pela integridade da criação. Amigo dos pobres e amado pelas criaturas de Deus, ele convidou a todos – animais, plantas, forças naturais e até mesmo o irmão Sol e a irmã Lua – a honrarem e louvarem o Senhor. Do mesmo “Pobrezinho” de Assis nos vem o testemunho de que: estando em paz com Deus, melhor nos podemos consagrar a construir a paz com toda a criação, inseparável da paz entre os povos. […] que a sua inspiração nos ajude a conservar sempre vivo o sentido da “fraternidade” com todas as coisas boas e belas criadas por Deus omnipotente; e nos alerte para o grave dever de as respeitar e conservar com cuidado, no quadro da mais ampla e mais elevada fraternidade humana» (n. 16).

Nestas palavras de João Paulo II encontramos, mais uma vez, como no “Cântico das Criaturas”, os pressupostos e valores em que se apoia e desenvolve uma ecologia integral à luz de S. Francisco:
- «a fé no mesmo Deus criador,
- o respeito pela vida e pela dignidade da pessoa humana e
- o respeito e o cuidado pelo universo criado, que está chamado a unir-se
com o ser humano para glorificar a Deus».

a) Em primeiro lugar, São Francisco de Assis encontrou-se com Deus como “Pai”, quando na praça pública se despojou das roupas e da herança de seu pai, que o levara ao tribunal do Bispo, e assim nu foi envolvido pela capa do prelado para um outro nascimento: «De hoje em diante poderei dizer livremente Pai nosso, que estais nos céus. Pedro Bernardone já não é meu pai» (Ver 1 Cel, VI,14-15; 2 Cel VII,12; LM,II,3-4; Lm I, 7.

b) Depois, nesse Pai comum, cuja imagem visível descobriu no ícone do Crucifixo em São Damião, encontrou a sua própria dignidade de ser humano, a par com a dignidade dos pobres e dos leprosos.

c) E simultaneamente, descobriu os seus laços fundamentais com todas as criaturas, aceitando-as e cantando-as como irmãs. Como já disse no início: “Meu Deus e meu tudo.”

Com isto, o Patrono dos cultores da ecologia também diz que, ser cuidador da criação ou promover a ecologia integral vai muito além daquilo que se convencionou chamar “ecologista” ou “verde”; e ultrapassa as linhas programáticas dos partidos políticos assim denominados, nessa matéria. Mas serve-lhes, certamente, de complemento imprescindível.

 

2.3. Da «Evangelii gaudium» à «Laudato si’»

Na exortação apostólica Evangelii gaudium, 216, o Papa tinha escrito: «Pequenos mas fortes no amor de Deus, como Francisco de Assis, todos nós, cristãos, somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos.» Nesta encíclica, «sobre o cuidado da casa comum», invoca o mesmo santo como «um modelo belo e motivador». E diz:

«Tomei o seu nome por guia e inspiração, no momento da minha eleição para Bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ECOLOGIA INTEGRAL, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos» (LS’ 10). Porquê? Porque S. Francisco

A) «Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado pela sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu CORAÇÃO UNIVERSAL. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa harmonia maravilhosa 1com Deus, 2com os outros, 3com a natureza e 4consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis 1a preocupação pela natureza, 2a justiça para com os pobres, 3o empenhamento na sociedade e 4a paz interior» (LS’ 10). Eis uma bela síntese da “ecologia integral”… Mas, no número seguinte, o Papa diz expressamente o que tal ecologia supõe ou exige:

B) «O seu testemunho mostra-nos também que uma ECOLOGIA INTEGRAL requer abertura para categorias que transcendem a linguagem das ciências exatas ou da biologia e nos põem em contacto com a essência do ser humano. Tal como acontece com uma pessoa quando se enamora por outra, a reação de Francisco, sempre que olhava o sol, a lua ou os minúsculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas.

Entrava em comunicação com toda a criação, chegando mesmo a pregar às flores “convidando-as a louvar o Senhor, como se gozassem do dom da razão” (Tomás de Celano, Vida Primeira, XXIX,81). A sua reação ultrapassava de longe uma avaliação meramente inteletual ou um cálculo económico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe. São Boaventura, seu discípulo, contava que ele, “enchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas – por mais desprezíveis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs” (Legenda Maior, VIII, 6).

Esta convicção não pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamento:

● SE nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto,
SE deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, as nossas atitudes serão as 1do dominador, 2do consumidor ou 3de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr limite aos interesses imediatos.

● Pelo contrário, SE nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a 1sobriedade e a 2solicitude. A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio» (LS’ 11).

C) «Por outro lado, São Francisco, FIEL À SAGRADA ESCRITURA, propõe-nos reconhecer a natureza como um livro esplêndido onde Deus nos fala e transmite algo da sua beleza e bondade: “Na grandeza e na beleza das criaturas, contempla-se, por analogia, o seu Criador” (Sb 13,5).

Por isso, Francisco pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para aí crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse elevar o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza. O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor» (LS’ 12).

 

3. Ecologia integral

Na sua «longa reflexão, jubilosa e ao mesmo tempo dramática» (LS’ 246), o Papa faz uma viragem no discurso ecológico, passando da ecologia meramente ambiental para a ecologia integral, ao dizer: «Dado que tudo está intimamente relacionado e que os problemas atuais requerem um olhar que tenha em conta todos os aspetos da crise mundial, proponho que nos detenhamos agora a refletir sobre os diferentes elementos de uma ECOLOGIA INTEGRAL, que inclua claramente as dimensões humanas e sociais» (LS’ 137).

Assim começa o capítulo IV, que fala sobre o tema. E, mais adiante, explicita-o deste modo:

«Quando falamos de “meio ambiente”, fazemos referência também a uma particular relação: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e interpenetramo-nos. (…) É necessário buscar SOLUÇÕES INTEGRAIS que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma ABORDAGEM INTEGRAL para 1combater a pobreza, 2devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, 3cuidar da natureza» (LS’ 139).

Era isto que o Papa anunciava, na Introdução: «propor uma ecologia que, nas suas várias dimensões, integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o rodeia» (LS’ 15).

Até aqui, sublinhei alguns aspetos de espiritualidade franciscana e ecológica, desenvolvidos no cap. VI da encíclica, sobre Educação e Espiritualidade Ecológica. Mas, «esta carta encíclica insere-se no magistério social da Igreja» e o Papa espera que ela «nos ajude a reconhecer a grandeza, a urgência e a beleza do desafio que temos pela frente» (LS’ 15).

Por isso, agora, destaco alguns critérios em que o Papa fundamenta a sua visão da ECOLOGIA INTEGRAL, ao mesmo tempo que aponta para o espírito de Francisco de Assis ou o concretiza. Apenas transcrevo palavras da encíclica, sem qualquer comentário meu.

 

3.1. «O conjunto do Universo, com as suas múltiplas relações,
mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus.

Por isso, precisamos de individuar a variedade das coisas nas suas múltiplas relações. Assim, compreende-se melhor a importância e o significado de qualquer criatura, se a contemplarmos no conjunto do plano de Deus. Tal é o ensinamento do Catecismo [da Igreja Católica]: “A interdependência das criaturas é querida por Deus. O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras” (CIC, 340)» (LS’ 86).

 

3.2. «Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver, no coração, ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos.

É evidente a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que não gosta. Isto compromete o sentido da luta pelo meio ambiente. Não é por acaso que São Francisco, no Cântico onde louva a Deus pelas criaturas, acrescenta o seguinte: “Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor”. Tudo está interligado. Por isso, exige-se uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade» (LS’ 91).

«… nada e ninguém fica excluído desta fraternidade. (…) Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão Rio e à mãe Terra» (LS’ 92).

«Isto não significa igualar todos os seres vivos e tirar ao ser humano aquele seu valor peculiar que, simultaneamente, implica uma tremenda responsabilidade. Também não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação de colaborar com ela e proteger a sua fragilidade» (LS’ 90).

 

3.3. «Para se poder falar de autêntico progresso, será preciso verificar que se produza uma melhoria global na qualidade de vida humana;

isto implica analisar o espaço onde a existência das pessoas transcorre. Os ambientes onde vivemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir. Ao mesmo tempo, no nosso quarto, na nossa casa, no nosso lugar de trabalho e no nosso bairro, usamos o ambiente para exprimir a nossa identidade. Esforçamo-nos por nos adaptar ao ambiente e, quando este aparece desordenado, caótico ou cheio de poluição visual e acústica, o excesso de estímulos põe à prova as nossas tentativas de desenvolver uma identidade integrada e feliz» (LS‘ 147).

«Admirável é a criatividade e generosidade de pessoas e grupos que são capazes de dar a volta às limitações do ambiente, modificando os efeitos adversos dos condicionalismos e aprendendo a orientar a sua existência no meio da desordem e precariedade. (…) A sensação de sufocamento, produzida pelos aglomerados residenciais e pelos espaços com alta densidade populacional, é contrastada se se desenvolvem calorosas relações humanas de vizinhança, se se criam comunidades, se as limitações ambientais são compensadas na interioridade de cada pessoa que se sente inserida numa rede de comunhão e pertença. Deste modo, qualquer lugar deixa de ser um inferno e torna-se o contexto duma vida digna» (LS’ 148).

«É preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertença, a nossa sensação de enraizamento, o nosso sentimento de “estar em casa” dentro da cidade que nos envolve e une. É importante que as diferentes partes de uma cidade estejam bem integradas e que os habitantes possam ter uma visão de conjunto, em vez de se encerrarem num bairro, renunciando a viver a cidade inteira como um espaço próprio partilhado com os outros. (…)

Pela mesma razão, tanto no meio urbano como no rural, convém preservar alguns espaços onde se evitem intervenções humanas que os alterem constantemente» (LS’ 151).

 

3.4. «A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável para se poder criar um ambiente mais dignificante:

a relação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza. Bento XVI dizia que existe uma “ecologia do homem”, porque “também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece”.

Nesta linha, é preciso reconhecer que o nosso corpo nos põe em relação direta com o meio ambiente e com os outros seres vivos. A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação. Aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana.

Também é necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente. Assim, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente. Portanto, não é salutar um comportamento que pretenda “cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela”» (LS’ 155).

 

3.5. «A ecologia integral é inseparável da noção de bem comum, princípio este que desempenha um papel central e unificador na ética social.» (LS’ 156)

«O bem comum pressupõe o respeito pela pessoa humana com direitos fundamentais e inalienáveis orientados para o seu desenvolvimento integral» (LS’ 157).

«Nas condições atuais da sociedade mundial, (…) o princípio do bem comum torna-se imediatamente (…) um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres. (…) hoje, esta opção é uma exigência ética fundamental para a efetiva realização do bem comum» (LS 158).

«A noção de bem comum engloba também as gerações futuras. (…) Já não se pode falar de desenvolvimento sustentável sem uma solidariedade intergeneracional. (…) Não estamos a falar de uma atitude opcional, mas de uma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão de vir. (…) Uma ecologia integral possui esta perspetiva ampla» (LS’ 159).

«Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. (...) Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes. (…) Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto interpela o sentido da nossa passagem por esta terra» (LS’ 160).

«Não percamos tempo a imaginar os pobres do futuro: é suficiente que recordemos os pobres de hoje, que poucos anos têm para viver nesta terra e não podem continuar a esperar» (Bento XV, Mensagem Dia Paz 2010, 8). (LS’ 162).

 

3.6. «É necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos.

Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros, na defesa dos próprios interesses, provoca o despertar de novas formas de violência e crueldade e impede o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente» (LS’ 229).

 

Conclusão

Partindo do “Cântico do Sol”, de S. Francisco de Assis, o Papa conclui a sua encíclica apontando poética e escatologicamente «para além do sol», «para a casa comum do Céu», onde finalmente «poderemos ver, com jubilosa admiração, o mistério do universo», «onde cada criatura, esplendorosamente transformada, ocupará o seu lugar e terá algo para oferecer aos pobres definitivamente libertados» (LS’ 343). E é colocando esse horizonte à vista, que nos encoraja na caminhada:

1. «Juntamente com todas as criaturas, caminhamos nesta terra à procura de Deus, porque, “se o mundo tem um princípio e foi criado, procura aquele que o criou, procura quem lhe deu início, aquele que é o seu Criador” (S. Leão Magno). Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança» (LS’ 244).

2. «No coração deste mundo, permanece presente o Senhor da vida que tanto nos ama. Não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!» (LS’ 245).

Termino com uma parábola franciscana sobre a Ecologia integral (ou, se preferirem, sobre a inclusão, hoje tão em moda e tão necessária). Intitula-se: “Como S. Francisco descreveu o frade perfeito”:

«O bem-aventurado Francisco, tendo, de algum modo, transformado os frades em santos pela força do seu amor e pelo zelo ardente que tinha pela perfeição deles, muitas vezes ponderava sobre as qualidades e virtudes que deviam adornar um verdadeiro Frade Menor.
E dizia que seria verdadeiro Frade Menor aquele que reunisse nele as virtudes dos santos frades, a saber:

a fé de Fr. Bernardo, tão perfeita como o amor à pobreza;

a simplicidade e a pureza de Fr. Leão,
que foi realmente um homem de coração puro;

a afabilidade de Fr. Ângelo, o primeiro cavaleiro a entrar na Ordem
e que era adornado de grande mansidão e benignidade;

a presença distinta e o bom senso de Fr. Masseu,
com a sua agradável e devota conversação;

a perfeitíssima contemplação de Fr. Gil,
sempre com o espírito arrebatado em Deus;

a atividade constante e virtuosa de Fr. Rufino,
que rezava incessantemente; até a dormir e a trabalhar,
o seu espírito estava com o Senhor;

a paciência de Fr. Junípero, que atingiu um alto grau de perfeição,
porque ele tinha plena consciência da evidente realidade da sua própria baixeza
e um ardente desejo de imitar a Cristo Crucificado;

o vigor corporal e espiritual de Fr. João dos Louvores,
que foi o maior atleta entre os homens do seu tempo;

a caridade de Fr. Rogério, cuja vida inteira e conversação
eram inspiradas por uma fervorosa caridade;

a inquietação de Fr. Lucílio, que foi sempre uma pessoa de total desapego
e não queria estar no mesmo lugar por mais de um mês.
Quando começava a afeiçoar-se a algum lugar,
logo se afastava e dizia: «Morada permanente só a temos no céu» (EP, 58).

Mas, perguntarão: que tem isto a ver com a ecologia integral?
Quem ouvir, que entenda.

 

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Artigo publicado originalmente a 23 de agosto de 2016

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