O Papa Francisco apresentou por estes dias três passagens do Novo Testamento que serão uma espécie de “programa” de preparação das JMJ de 2022: «Jovem, eu te digo, levanta-te!» [Lc 1, 39]; «Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste!» [At 26, 16]; e «Maria levantou-se e partiu apressadamente» [Lc 1, 39]. O desafio parece evidente: levanta-te!

Este repto tem um pressuposto que se desdobra, pelo menos, em três possibilidades: levanta-se quem desperta, quem está a dormir, quem vive dormente; levanta-se quem está acomodado, quem vive resignado na sua área de conforto; e, por último, levanta-se quem caiu, quem está caído. Trata-se, simultaneamente, de um repto e de uma denúncia. Não é grave estarmos a dormir, grave é vivermos adormecidos, mais grave ainda é não nos sabermos adormecidos e alienadamente julgarmo-nos acordados. Não é grave estarmos acomodados, grave é vivermos acomodados, mais grave ainda é não nos sabermos acomodados e alienadamente julgarmo-nos desinstalados das nossas áreas de conforto. Não é grave cairmos, grave é vivermos caídos, mais grave ainda é não nos sabermos caídos e alienadamente julgarmo-nos erguidos quando vivemos prostrados.

É simultaneamente um repto e uma denúncia, para dentro e para fora da Igreja, com a consciência de que não existe hoje – se é que alguma vez existiu – uma fronteira definida que situe o que [quem] está dentro da Igreja e o que [quem] está fora. Quantos são os batizados que nunca chegaram a adquirir consciência batismal? Deste modo, o Papa Francisco chama os jovens – a Igreja com os jovens, a Humanidade com a Igreja – a levantarem-se, a erguerem-se do sono abúlico, da dormência, de uma certa anestesia; a levantarem-se de uma acomodação inerente a um modelo de sociedade materialista e hedonista, de uma espécie de sedentarismo patológico inerente a um paradigma de realidade tendencialmente virtual; a levantarem-se, a reagir à queda, a reagir à prostração, ao agastamento a que se condena o homem-caído, esmagado sob o peso do pecado.

Este «Levanta-te!» pode bem ser, ao entrarmos na terceira década do terceiro milénio, o apelo para reagirmos, para desinstalarmo-nos, para readquirirmos a condição de homem-levantado, desinstalado; bem poderá ser a oportunidade de os cristãos acordarem, desacomodarem-se, erguerem-se com a consciência de que cada queda pressupõe o desejo e a força para se reerguerem, com a consciência de que se passamos muito tempo caídos, não tardará em nos acostumarmos à queda, em habituarmo-nos ao chão.

A condescendência e o autocomprazimento que a Igreja revela em relação ao “estado das coisas” é uma doença que pode ganhar o estatuto de “incurável”. Uma Igreja que se contenta em manter o establishment e se acomoda à sua condição sociológica, pode um destes dias não ser mais do que uma instituição que se esqueceu do seu fundamento, da sua condição de “crisálida” do Reino de Deus.

É verdade que este «Levanta-te!» é um repto e uma denúncia, mas é também – e sobretudo – uma oportunidade. Não basta ser encarado como um tema de reflexão, nem bastará ser uma expressão repetida numas JMJ, enquanto encontro circunstancial de jovens situado no tempo e no espaço. «Levanta-te!» terá de ser o comportamento com que cada cristão – com alegria e simplicidade, coragem e desassombro – assume o compromisso de configuração com Cristo.

 

José Rui Teixeira


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