No início de fevereiro, o site Science Daily publicou a descoberta de uma nova língua na Malásia, falada por apenas 280 pessoas. Nessa língua Jedek, os verbos que representem propriedade, como por exemplo, emprestar, roubar, comprar ou vender, não existem. Pelo contrário, os relacionados com cooperação e partilha são abundantes.

Já na missão e visão das principais universidades portuguesas, as palavras-chave que sobressaem são: qualidade, ranking, prestígio, inovação, competiti-vidade, produtividade, sucesso e empreendedorismo. Por isso, quando pro-pomos aos jovens uma caminhada de discernimento vocacional, devemos lembrar-nos que o casamento, a consagração religiosa ou o sacerdócio surgem muitas vezes como um risco a dois (ou numa comunidade), num percurso de vida profundamente marcado pelo individualismo e pela procura de sucesso pessoal.

O Sínodo dos Bispos sobre “os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, que se irá realizar no próximo mês de outubro, deveria impor-se, portanto, não como apenas mais um grande evento católico, que por uns dias “anima a mal-ta” com muitos cânticos e alguns workshops, mas como uma oportunidade única para mostrar aos jovens a beleza de um estilo de vida que privilegia o ser sobre o ter (Erich Fromm) e que caminha no sentido do eu solitário ao nós soli-dário (Fernando Ventura e Joaquim Franco).

É preciso mostrar-lhes que a nossa presença no mundo não é fruto do acaso, e muito menos do caos, mas de uma vocação divina, para ser discernida e vivida – não esporadicamente, mas sempre – em comunidade; e depois, dar-lhes espaço para que eles próprios coloquem a inovação e o empreendedorismo ao serviço do bem comum, conscientes de que, mais importante do que atualizar o nosso feed particular no Instagram ou no Facebook, é atualizar o nosso feed comum.

Foram sobretudo os jovens que fizeram o maio de 68, o movimento ecológico e a primavera árabe, e são eles a força de mudança social que poderá colocar não apenas 280 pessoas na Malásia mas toda a humanidade a falar a língua da cooperação e da partilha.

 

Publicado na Revista Bíblica, nº 375 (março-abril 2018), p.1