Transcrevemos a partilha da Ir. Joana Ribeiro na Semana Bíblica Nacional, que se realiza desde ontem, dia 25 de agosto, em Fátima.

«Antes de mais, quero agradecer o convite que me foi feito para estar aqui. Aqui sinto-me sempre em casa pois os frades capuchinhos foram e são companheiros de caminho, que me proporcionaram o privilégio de viver com eles em missão. Guardo sempre o vosso testemunho como uma luz. Obrigada!

Peguei num poema de Daniel Faria, usei as suas palavras como fio condutor, como fio de Ariadne, do que gostaria de partilhar convosco, pois quem vive a missão com a intensidade com que ela me envolve, corre o risco de permanecer a falar ininterruptamente. Procurei, assim, delimitar-me. Ele diz:

“Há uma palavra-pessoa,
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se
Como nunca fora ouvida.
Só posso viver cabendo nela
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio. (...)
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar” (Daniel Faria)

 

“Há uma palavra-pessoa”...

Antes de partir em missão, houve umas palavras de D. António Couto que marcaram profundamente os 6 anos que permaneci em Timor-Leste. Ao falar de S. Paulo, das suas palavras: “quem és tu Senhor?” e da sua conversão, disse: “Cuidado! Um dia a Palavra de Deus vai atravessar a vossa vida e ela nunca mais será igual”. Eu escutei com o ceticismo de quem já tinha delineado muito bem o futuro, de quem já tinha sublinhado as palavras importantes dos projetos e planos, e poucas vírgulas me atreveria a alterar. Mas a missão faz-nos lançar a nossa vida para o céu e a Palavra cria e recria dias cada vez mais belos, não fáceis ou sem sofrimento, mas da beleza que mostra a fragilidade e a verdade de quem somos ou para quem somos, como nos diz o Papa Francisco.

Fui enviada em missão para Laleia, interior de Timor-Leste, onde cheguei no dia 1 de outubro de 2011. Vivi a loucura de me despedir do meu trabalho, de deixar a minha casa, carro, a minha família e partir para o outro lado do mundo, cerca de 15 mil quilómetros. Parti por um ano mas o chão vermelho tornou-se a minha terra, aqueles rostos a minha família e fiquei a pertencer-lhe para sempre. Timor é também a minha terra, a minha gente.

Quando cheguei a Timor tinha a mala cheia de sonhos, ideias, projetos, expectativas e uma vontade imensa de dar, de dar, de dar-me! Mas Deus tirou-me as palavras e deu-me o silêncio.

 

Sim... “Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida.”

Em Laleia, fiquei sem palavras... sem palavras que me permitissem comunicar. Poucas pessoas compreendiam português apenas tétum. É como se as palavras que sempre usei perdessem a capacidade de apontar o sentido, de possibilitar encontros e teria de abraçar palavras agora incompreensíveis e distantes. Era tempo de escutar, de aprender, de calar.

E o meu livro de aprendizagem foi... imaginem só, o Novo Testamento em tétum. Todas as semanas a Bíblia peregrinava de família em família (aos domingos a família que tinha acolhido a Bíblia em sua casa levava-a na procissão de entrada na Eucaristia dominical e outra família recebia-a no final da Eucaristia). Às quintas feiras, os missionários (freis, leigos, jovens em formação), juntamente com alguns paroquianos, fazíamos a lectio divina na casa desta família. Eu aprendia as palavras do evangelho de cada domingo e as minhas primeiras palavras foram Maromak (Deus) e Na’i (Senhor) e ia treinando a escrever umas frases muito simples para poder partilhar algo com as famílias. Ainda hoje tenho escrevinhado na minha bíblia palavras em tétum que me recordam este caminho. “Imi mai haree” (Vinde e vereis); “Ha´u mak ne´e” (Eis-me aqui Senhor).

Todos nós quando temos de aprender uma nova língua experimentamos a frustração de não conseguir fazê-lo, as gargalhadas, a partilha da fraqueza e das dificuldades. Permaneci e fui parte daquele chão onde Jesus escrevia.

Muitos diziam que a Palavra de Deus traduzida para tétum perdia muito da sua profundidade, dado ser uma língua com poucos conceitos mas, para mim, a dar os primeiros passos na missão e a recomeçar, a simplicidade das palavras aproximaram-me de Deus e permitiu-me balbuciar as minhas primeiras palavras, imitando-O.

E depois fui notando que as palavras já não viviam presas num livro, mas que as lia em tantas pessoas e situações que encontrava. E passagens bíblicas que já sabia de cor, e às quais me fui tornando quase imune e indiferente, voltaram a surpreender-me e a transformar-me. Quantas vezes ouvimos a passagem do nascimento de Jesus, até ao ponto de se tornar banal, sem comover ou mover. A mim isso aconteceu, até encontrar a avó Maria. Penso que “Deus passeava maravilhado nas palavras dela, como um camponês pelo seu campo” (Bobin, 72).

 

“Só posso viver cabendo nela. Habito-a como Jonas o grande peixe.”

A avó Maria, ficou com a sua casa (palhota feita de paus de palmeira) soterrada na chuva forte do dia anterior, e sozinha e sem família, vieram chamar-nos para a ajudar. Ela teve 9 filhos mas, tal como seu marido, morreram durante a guerra, durante a ocupação indonésia. Quando nós lá chegamos, nem queríamos acreditar no que os nossos olhos viam. Uma velhinha quase sem roupa, a tremer de frio, deitada num pano velho no chão de terra batida de uma cozinha de um vizinho, rodeada de animais: cães, ovelhas, porcos e galinhas, que enchiam aquele espaço de excrementos. A avó Maria, quando nos aproximamos e nos apresentamos, abraçou-nos com um sorriso de orelha a orelha e apercebemo-nos que estava quase cega. Ela: “tinha uma cara maravilhosamente enrugada, semelhante à casca de uma árvore secular” (Bobin, 67). Desde o primeiro momento, estávamos decididas a levá-la para a nossa casa e começamos a conversar com ela para a convencer. Mas as suas palavras foram revelação e desnudaram-nos completamente.

Dissemos-lhe em tétum: “Avó, não pode ficar aqui. Isto não tem condições nenhumas para a avó viver. Não tem casa, nem comida, nem agasalho.”

E ela respondeu-nos, com um sorriso calmo: “Nossa Senhora também deu à luz a Jesus num sítio assim, não foi?!

Ficamos sem palavras. Depois continuamos: “Avó, não pode ficar aqui sozinha. Venha connosco e depois vamos arranjar um sítio para a avó viver.”

E ela, cheia de confiança disse: “Eu não estou sozinha. Deus está sempre comigo. E mandou as irmãs para cuidar de mim, não foi?!

As lágrimas corriam pelo meu rosto ao escutar as suas palavras, e vivi o evangelho do nascimento de Jesus ali, naquele pedaço de terra batida. Ele já tinha nascido no coração, nas palavras e no sorriso desta nossa avó.

Depois de cuidar dela, levar-lhe um colchão, dar-lhe banho, roupa e comida todos os dias, conseguimos que fosse almoçar connosco. Quando entramos fomos à capela onde estávamos todos para rezar. Dissemos-lhe que estávamos na capela e que podia fazer uma oração se quisesse.

Ela gritou assim: “Deus Pai, eu não tenho nada. Não tenho casa, não tenho comida, não tenho ninguém. Senhor, eu estou cega, eu não vejo nada. Senhor, que eu veja! Senhor, que eu veja!”. Todas nós permanecemos em silêncio, com as lágrimas a escorrer pelo rosto e eu repetia no meu coração a sua oração: “Senhor, que eu veja!”. Estas palavras eram carne e sangue, nesse dialecto que só os pobres sabem, fazendo-os espaço e instrumentos de santidade: “Eu te bendigo ó Pai...” (Lc 10, 21)

Após vários meses conseguimos que fosse viver com um primo numa terra afastada dali, após ter feito a operação às cataratas e hoje vê e está bem junto da sua família.

 

“Ela pronuncia-me, traz-me em viagem do nada para o silêncio.”

Quantas vezes, as palavras deixam de ter a força de nos surpreender e desinstalar, acolhidas na repetição do quotidiano, sem comoção. A missão quebra essa indiferença pois as palavras encarnadas voltam a ter a força da palavra semeada.

Na missão houve vários projetos a que me entreguei: a abertura do jardim de infância de Laleia, a bênção de sentir os abraços dos meninos e de os ouvir chamar, pois mesmo os leigos tratamo-nos como irmãos, como o bom Pai São francisco: “irmã Joana”, nome que o Senhor designou e que apontava já caminho novos; o colaborar na catequese, na preparação de materiais, na preparação da liturgia, o centro social S. Francisco de Assis, a biblioteca, a pastoral das pessoas portadoras de deficiência em toda a diocese de Baucau; a rádio comunitária, sonhar, gravar e preparar os programas para irem para o ar, e tantos outros que nasciam com as necessidades dos que nos batiam à porta, e nós freis e leigos, acolhíamos todos. Íamos para o campo de arroz, levávamos pessoas ao hospital, desdobrávamo-nos em encontros e as palavras “saiam” da Bíblia e vinham ao nosso encontro dando sentido e apontando caminhos sempre novos. “Irmã entre, que Deus até um simples copo de água recompensa”; “Irmã obrigada porque cuida de nós em nome do Senhor”. Lavaram-me os pés tantas vezes que fiquei parte deles e eles parte de quem sou ou de quem quero ser.

Recordo de forma muito especial, o início da rádio comunitária de Laleia, a alegria das pessoas quando ouviam a sua voz na rádio, as histórias que partilhavam sobre a sua cultura, a sua fé, e em que, mesmo os que viviam mais longe nas montanhas, se sentiam mais próximos e menos sós. Na diferença, Deus foi-se revelando e tornou-se mais e mais presente. Achava que bastava aprender as palavras em tétum mas depois descobri que os significados eram tão diferentes, que a única língua era mesmo a do Senhor: o amor!

Estive num orfanato, cerca de 3 meses, em que a criança mais nova tinha 4 anos e o mais velho 17. Com eles aprendi o significado desta passagem dos atos: “Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum.” (...) “distribuía-se, então, a cada um, conforme a necessidade que tivesse”. Havia muito pouco. Eu passei fome pela primeira vez na minha vida. Experimentei que quando temos fome, só pensamos em comida e não conseguimos fazer mais nada. A comida era à conta para as 50 crianças e jovens e muitas vezes era apenas arroz, enfeitada com um bocadinho de legumes. Mas eles sabiam o que era viver em comunidade e partilhar. Fomos visitar uma família pobre e depois estávamos no final do dia a ver como poderíamos ajudar essa família. E os miúdos propuseram e todos concordaram dar 2 dos 5 ovos que tínhamos para a refeição do dia seguinte para aquela família. Nós só tínhamos 5 ovos para 50 miúdos mais 4 de nós, mas assim seriam apenas 3 ovos mexidos para 54 pessoas.

Fiquei cara a cara com a pobreza crua e suja e injusta. Uma caminhada de desprendimento foi-me dando a ilusão de “ser pobre” mas só quando faltou o pão da boca, o conforto de uma casa limpa e uma despensa para providenciar o necessário, desejei ser pão e partir-me para os saciar, mas nem a mim me alimentava distraída por um estômago vazio e uma mente a exigir-me comida. Também de pão vive o homem... mas sabe a pouco!

E Deus deu-me irmãos, que nem metro e meio têm, que não sabem o dia em que nasceram, que esqueceram o cheiro da sua terra e que entre a mãe biológica e as muitas “mães” de criação brincam apanhando frutos verdes para enganar a fome. O prato de arroz é garantido mas não sacia quem de tanto precisa.

Os irmãos do ISMAEK (Instituto Secular Maun-Alin iha Kristu - Irmãos em Cristo) ali vivem, servindo e retirando as crianças de famílias desestruturadas, tentando dar-lhes uma família e fazê-los sentirem-se irmãos. Recordo uma menina, a quem vou chamar Joana, com 9 anos, que desde o nascimento a destinaram a casar com um primo e a quem uma tia, para impedir que fosse viver e consumar este casamento aos 7 anos, a trouxe e a colocou nas mãos dos irmãos. Há dois anos que não vai a casa, que não abraça a sua mãe, nem brinca com os seus muitos irmãos. É com lágrimas nos olhos que pede para ir a casa. A palavra que ela sempre dizia, quando nos sentávamos a brincar ou a estudar, era um “obrigado”, o mais sincero que alguma vez ouvi, acompanhado de um abraço, o mais doce que recebi.

Diz Christian Bobin, num livro muito especial com o título “Ressuscitar”: “Tudo o que sei do céu me vem do espanto que experimento (...) à luz de uma palavra ou um gesto tão puros que me revelam bruscamente que nada no mundo poderia ser a sua origem.“ (p. 29)

À luz de uma palavra, a vida pode ser transformada. E nós podemos ser instrumentos dessa alegria e paz. Na missão em Timor, conheci o padre Chris Riley. Ele foi com um grupo de jovens fazer uma experiência missionária em Laleia, Timor-Leste, e tive o privilégio de conhecer um santo pouco convencional que não se esforçando por agradar, a sua história nunca mais se libertou da minha mente nem das minhas orações. Na Austrália, donde é natural, é uma figura pública e a sua organização, Youth off the streets (“Jovens fora da rua”), tem um investimento de milhões de dólares em quintas residenciais, um centro de desintoxicação, carrinhas para alimentação, escolas espalhadas por toda a Austrália, programas de acompanhamento para crianças com histórias de negligência e abuso em todos os bairros mais problemáticos. Mais de 60,000 crianças passaram já por todos estes projetos.

Uma noite, enquanto planeávamos o dia seguinte não hesitei em perguntar-lhe como é que este projeto tinha começado. E ele contou-nos. Um fim de tarde, enquanto regressava a casa, um jovem encostou-lhe uma navalha às costas e obrigou-o a entrar num táxi. Quando o jovem chegou ao destino, empurrou-o, bateu-lhe e fugiu, deixando-o sozinho numa rua abandonada. O padre Chris, estava bastante longe e regressou a casa a pé. Durante a noite, não se conseguia esquecer deste jovem. No dia seguinte, voltou àquela rua para ver se o encontrava. E nada! Depois foi num jornal que viu a notícia de um jovem que tinha sido preso numa rua próxima. O padre Chris foi à prisão ter com ele e disse-lhe: “Eu acredito em ti! Acredito que podes fazer muitas coisas boas e belas neste mundo. E eu estou aqui para te ajudar!”. E aqui começou o “youth off the streets”, pois como diz o padre Chris. “Não existem jovens maus só circunstâncias más”. A partir daí, a vida do padre Chris mudou. Deixou o trabalho na escola salesiana, em 1991, e mudou-se para uma auto-caravana para poder trabalhar a tempo inteiro nas ruas. Pouco tempo depois, conseguiu fundos para conseguir um local para acolher crianças sem-abrigo. Gradualmente, o seu trabalho com crianças com problemas – pais abusivos, vítimas de violência sexual, consumo de álcool e drogas – tornou-se um sucesso. O padre Chris refere que “Partilhar uma refeição, ter alguém com quem conversar e sentir-se seguro - são coisas que os jovens realmente valorizam. São os pequenos milagres que fazem a vida valer a pena.”; “Temos de ter a coragem de exigir grandeza dos nossos jovens”. E a nós? Onde é que a Palavra nos conduz?

 

“Eu posso propagá-la e posso amá-la até me transformar”

Temos apenas de, como diz Bobin, de “tirá-la dos livros onde definha para a fazer entrar no coração, único local onde poderia viver” (49). A missão é colocar a Palavra no coração pois “talvez nada chegue a dar quem não oferece o próprio coração” (p. 82). A todos nós missionários, chamados a ser palavra de Deus viva e atuante hoje, missão concedida por um Deus que faz tudo para nos conseguir tocar. “(53) e que sabe que “A missão é a nossa identidade em ação” e que, tal como diz o Papa Francisco na exortação apostólica pós sinodal “Cristo vive”, primeiro temos de abraçar para depois transformar.

Em Timor me entregaste a minha missão: ser um pedacinho de pão Teu, pão do céu e da terra, ser palavra e pão, ser Missão!»

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