(Ambiente: Bíblia, Crucifixo de São Damião, Fontes Franciscanas, imagem de São Francisco e de Santa Clara, velas acesas)

 

Oração Inicial:

Deus omnipotente, eterno, justo e misericordioso,
concede-nos a nós, miseráveis,
que por ti façamos o que sabemos que tu queres,
e sempre queiramos o que te apraz,
para que, interiormente purificados,
interiormente alumiados e abrasados pelo fogo do Espírito Santo,
possamos seguir os passos de teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo,
e mediante somente a tua graça,
chegar até ti, ó Altíssimo,
que, em Trindade perfeita e em simples Unidade,
vives e reinas e tens toda a glória,
ó Deus omnipotente, por todos os séculos dos séculos.
Ámen.

 

Introdução

Nesta terceira formação promovida pela Comissão da Pastoral Juvenil da FFP, vamos falar e refletir sobre a Vida Apostólica de São Francisco de Assis. Trata-se de uma dimensão fundamental da sua vida e vocação, sendo por isso um exemplo a seguir para todos aqueles e aquelas que se reveem no modo franciscano de seguir o Evangelho. E é precisamente na vivência e seguimento do Evangelho que se compreende a sua vida apostólica, conceito que nos sugere dois aspetos determinantes em São Francisco: o seu ser Igreja e o anúncio missionário do Evangelho.

 

Dimensão Bíblica

É ponto assente entre os especialistas em espiritualidade franciscana que a escuta do Evangelho na Festa de São Matias marcou determinantemente a vocação de São Francisco. Como veremos, esse não é propriamente o encontro fundante com o Evangelho. No entanto, é a partir desse momento que Francisco compreende o anúncio missionário do Evangelho como parte indissociável da própria vivência evangélica. Vejamos como nos relata São Marcos…

Do Evangelho de São Marcos (6, 6b-13)

Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar. Chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.»

Eles partiram e pregavam o arrependimento, expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos.

O envio missionário dos Apóstolos surge logo após a rejeição de Jesus na sua própria pátria (Mc 6,1-6) e imediatamente antes do martírio de João Baptista (Mc 6,14-29), como que a dizer que o destino dos missionários situa-se entre a rejeição e o martírio. Se confrontarmos o mesmo texto nos demais sinópticos (Mt 10,5-15; Lc 9,1-6; 10,1-11), veremos que o contexto deste envio é igualmente intenso e dramático. Logo, o envio missionário e o anúncio do Evangelho não é algo de somenos importância, que se pode assumir de ânimo leve, mas antes implica toda a vida, ao ponto de a pôr em causa pela causa evangélica.

Depois, é Jesus que chama, envia e dá poder, de modo que a missão nunca é iniciativa particular ou segundo a medida, as forças e o estatuto do missionário. Em contrapartida, este atua em nome e segundo o próprio Senhor Jesus, que toma a iniciativa de chamar e enviar: Jesus é o verdadeiro Senhor da Missão.

Por isso mesmo, é necessária a ligeireza de meios: o que realmente importa é a mensagem e o Senhor que a suporta. Este despojamento, aliás, dá credibilidade aos Doze, na medida em que os apresenta ao mundo completamente dependentes de Jesus e sem interesses de outra ordem. Note-se, ainda, que a leveza dos Doze não se resume ao comer ou à indumentária, mas implica também os próprios ressentimentos daqueles que não os recebem. Por isso, Jesus ordena que se sacuda o próprio pó que emperra o caminhar.

Por fim, a indicação de que os discípulos cumpriram as orientações de Jesus mostra-nos como a Sua Palavra tem um carácter performativo, i.e., modela a nossa vida, pois não tendo nada mais para oferecer, os Doze testemunham o poder d’Aquele que os enviou.

 

Dimensão Franciscana

Como dissemos, o relato evangélico do envio missionário marcou particularmente Francisco. Porém, a Festa de São Matias não constituiu o encontro derradeiro com o Senhor Jesus e o Seu Evangelho. Já antes vendera os bens, como que a corresponder ao convite de Jesus para com o jovem rico, e, para com os leprosos, usava a misericórdia do Samaritano. No entanto, a consciência missionária da vivência evangélica é definitivamente adquirida neste encontro. Vejamos como nos relata o primeiro biógrafo de São Francisco…

Mas, um dia, ao ouvir nesta mesma igreja a passagem do Evangelho que refere ter o Senhor enviado os discípulos a pregar, o Santo, que dessa passagem apenas intuíra o sentido geral, celebrada a missa, pediu ao sacerdote que lha explicasse. Comentou-lha o sacerdote ponto por ponto, e Francisco, ao ouvir que os discípulos de Cristo não deviam possuir nem ouro, nem prata, nem dinheiro, nem bolsa, nem pão, nem bordão para o caminho, nem usar calçado, nem duas túnicas, mas somente pregar o Reino de Deus e a penitência, imediatamente exclamou, exultando no espírito do Senhor: «Isto mesmo eu quero, isto peço, isto anseio poder realizar com todo o coração».

Transbordando de alegria, apressa-se o santo Pai a concretizar o salutar conselho. Não consentindo a mínima delonga em executar o que ouvira, desfaz-se das sandálias, atira fora o bastão, contenta-se com uma só túnica e substitui o cinto por uma corda. Prepara em seguida uma túnica à imagem da cruz, a fim de manter afastadas as seduções do demónio, faz questão de que seja áspera, para crucificar a carne com os seus vícios e concupiscências, e tão pobre e rude a deseja que não possa ninguém invejar-lha.

Com igual cuidado e reverência se esforça por cumprir os demais ensinamentos ouvidos. De resto, nunca ele fora um surdo ouvinte do Evangelho, antes, confiando a uma singular memória o que ouvia, procurava com suma diligência tudo observar à letra. (1C 22)

Quase que poderíamos dizer que não há melhor comentário ao Evangelho do que aquele que incarna a própria vida, tal como podemos constatar no exemplo de São Francisco. Além disso, apesar de termos de contar com a construção narrativa de Tomás de Celano, não podemos deixar de intuir determinados aspetos que sobressaem não apenas neste relato, mas em toda a vida do Santo de Assis.

Em primeiro lugar, Francisco escuta o Evangelho em contexto eclesial. Para ele, a relação com a Palavra não se restringe apenas a uma relação entre o indivíduo e Deus, com todas as distorções possíveis que uma relação desta natureza pode acarretar. A relação com Deus ganha um corpo na Igreja, de tal maneira que, ao não compreender a profundidade da mensagem evangélica, Francisco recorre ao sacerdote. Para Francisco, não pode haver missão se esta não nascer no seio da própria Igreja.

A este respeito, lembremos que, depois de ter recebido os primeiros irmãos, a grande preocupação de Francisco consistiu em ver reconhecida a sua forma de vida por parte do senhor Papa. Note-se que Francisco não vai à procura de uma forma de vida, pois esta já havia sido dada pelo próprio Senhor: viver o Evangelho. O que Francisco pede ao senhor Papa é que reconheça a sua forma de vida, a avalize e confirme o chamamento recebido por parte do Senhor. Desta forma, Francisco reconhece a Igreja como critério de verdade. De facto, a apostolicidade da Igreja, garantida pela sucessão apostólica, garante-nos a verdade da fé, tanto na sua conceção doutrinária, como na sua concretização prática. Ora, é precisamente esta confiança filial que nos testemunha Francisco.

Depois de compreendido o sentido do Evangelho, o jovem de Assis exclama: «Isto mesmo eu quero, isto peço, isto anseio poder realizar com todo o coração». Já aqui dissemos, mas vale a pena lembrar: Francisco já havia encontrado o Evangelho e já o procurava pôr em prática, mas nunca sentiu tão intimamente o gume da Palavra a esquartejar o seu coração. Novamente e de um modo sempre renovado, a Palavra forma a vida de Francisco, modela o seu ser e existir, ao ponto de conciliar a sua vontade com a vontade de Jesus: ir em missão.

Por isso, prontamente o jovem Francisco se dispõe a corresponder às diretrizes do Mestre. Despoja-se de tudo o que não necessita e vai até um pouco mais longe: se os Doze deveriam apresentar-se pobres, Francisco quer apresentar-se como o mais pobre. Tal como ele veste uma túnica, «tão pobre e rude a deseja que não possa ninguém invejar-lha», de igual modo exorta os irmãos a respeito das habitações, para que sejam conformes a pobreza que prometemos (cf. T 24). Isto demonstra como para Francisco o anúncio missionário não se baseia apenas anúncio de uma mensagem, por mais bela que seja, mas no testemunho de vida. Aliás, a pregação autêntica para Francisco é precisamente a que brota do testemunho de vida: «com as obras, todos os irmãos devem pregar» (1R 17,3). E o próprio Tomás de Celano dá-nos conta disto mesmo ao concluir: «De resto, nunca ele fora um surdo ouvinte do Evangelho, antes, confiando a uma singular memória o que ouvia, procurava com suma diligência tudo observar à letra».

Concluindo, podemos dizer que, na vida de São Francisco, a missão de anunciar o Evangelho surge no seio da Igreja, que confirma o chamamento e envia. Por outro lado, a pregação da Boa Nova não se resume a discursos mais ou menos elaborados, mas ao testemunho de vida, que exige naturalmente uma vivência e observância profundas do Evangelho.

 

Atualidade do tema

Na sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium, o Papa Francisco salienta precisamente esta temática do anúncio do Evangelho, chamando a atenção para diversos aspetos que, nos tempos que correm, devem ser atendidos ou revalorizados. No entanto, gostaria de destacar uma frase que servirá de ponto de partida para a nossa reflexão final: «A evangelização é dever da Igreja. Este sujeito da evangelização, porém, é mais do que uma instituição orgânica e hierárquica; é, antes de tudo, um povo que peregrina para Deus. Trata-se certamente de um mistério que mergulha as raízes na Trindade, mas tem a sua concretização histórica num povo peregrino e evangelizador, que sempre transcende toda a necessária expressão institucional» (EG 111).

Tendo em conta que somos membros desta Igreja em saída para a missão, poderíamos questionar: Como encaro a missão na minha vida crente e no quotidiano da minha existência? Assumo a missão como missão de Jesus, na qual tomo parte como seu instrumento, ou reduzo-a a um conjunto de atos mais ou menos altruístas que porventura satisfazem os meus desejos de reconhecimento e poder? De que coisas preciso de me desfazer, para me tornar leve/disponível para a missão? Como encaro a relação entre meios e fins de evangelização? Onde situo Deus nessa relação?

Tendo em conta o testemunho de São Francisco, poderíamos igualmente questionar: como me relaciono com a Palavra? Ela é o verdadeiro sustento, conteúdo e objetivo da missão ou Ela é silenciada por outras palavras e outros objetivos? Como correspondo aos seus apelos: com a prontidão, alegria e entusiasmo de Francisco ou ainda estou demasiado preso a coisas, pessoas, instituições que me sobrecarregam e impedem de corresponder a Jesus? Assumo a missão como consequência natural de uma vida evangélica ou assumo como uma simples atividade agendada num dia qualquer do calendário? A missão é reconhecida pela Igreja ou é meramente um capricho pessoal?

 

Compromisso

Tendo em conta a reflexão feita e partilhada, assumo, individualmente e em grupo, um compromisso concreto…

 

Oração final:

Virgem e Mãe Maria,
Vós que, movida pelo Espírito,
acolhestes o Verbo da vida
na profundidade da vossa fé humilde,
totalmente entregue ao Eterno,
ajudai-nos a dizer o nosso «sim»
perante a urgência, mais imperiosa do que nunca,
de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.

Vós, cheia da presença de Cristo,
levastes a alegria a João o Baptista,
fazendo-o exultar no seio de sua mãe.
Vós, estremecendo de alegria,
cantastes as maravilhas do Senhor.
Vós, que permanecestes firme diante da Cruz
com uma fé inabalável,
e recebestes a jubilosa consolação da ressurreição,
reunistes os discípulos à espera do Espírito
para que nascesse a Igreja evangelizadora.

Alcançai-nos agora um novo ardor de ressuscitados
para levar a todos o Evangelho da vida
que vence a morte.
Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos
para que chegue a todos
o dom da beleza que não se apaga.

Vós, Virgem da escuta e da contemplação,
Mãe do amor, esposa das núpcias eternas
intercedei pela Igreja, da qual sois o ícone puríssimo,
para que ela nunca se feche nem se detenha
na sua paixão por instaurar o Reino.

Estrela da nova evangelização,
ajudai-nos a refulgir com o testemunho da comunhão,
do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres,
para que a alegria do Evangelho
chegue até aos confins da terra
e nenhuma periferia fique privada da sua luz.

Mãe do Evangelho vivente,
manancial de alegria para os pequeninos,
rogai por nós.

Amen. Aleluia!
(Papa Francisco)

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