A uma primeira vista, Santo António de Lisboa parece alguém que já nasceu marcado para a santidade. Mas ele é um exemplo admirável de como nos podemos realizar, ser felizes e santos, mesmo renunciando aos melhores sonhos e contra todos os projetos pessoais. Basta decidirmos atingir um ideal e dispormo-nos a alcança-lo, situando-nos livre e criativamente nas várias circunstâncias, enfrentando cada limite como se fosse único e reconstruindo o sonho no dia seguinte a partir da desilusão do anterior. Claro que muito dificilmente um ser humano é capaz disto sozinho.

Ninguém sabe o ano certo em que Santo António nasceu (talvez 1191 ou 1192); mas a fama da sua santidade tornou-se conhecida de todos, e bastaram apenas 6 meses depois da sua morte para ser canonizado. Nasceu em berço doirado como primogénito de seus pais, e faleceu envolto em humilde burel franciscano, irmão menor de muitos irmãos. Português natural de Lisboa, chamam-lhe de Pádua por ter morrido nesta cidade italiana.

Tendo recebido a melhor formação religiosa e inteletual, com apenas 15 anos entrou no mosteiro de S. Vicente de Fora, perto da Sé de Lisboa, para aprender a dominar as pai-xões juvenis na companhia dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, muito admirados pela sua piedade; mas, perturbado na paz e no recolhimento pelas muitas visitas de familiares e amigos, aos 17 mudou-se para a casa-mãe de Santa Cruz de Coimbra. Pensava encontrar aqui um ambiente mais propício à vida espiritual, mas só um grande esforço na oração e no estudo, apoiado pela graça, lhe permitiu sobreviver no ambiente político-religioso daquele mosteiro. As lutas, intrigas e infidelidades a que assistia, levaram-no várias vezes a pensar retirar-se. Ali foi ordenado sacerdote em 1220.

Foi ordenado sacerdote, resignado a ser um monge fixo no mosteiro. Mas os primeiros franciscanos martirizados em Marrocos, cujas relíquias passaram pelo convento de Santa Cruz, acenderam-lhe o desejo de ser missionário entre infiéis. E operou-se nele um novo nascimento: decide abandonar os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e ingressar na recém-fundada Ordem dos Frades Menores, sendo-lhe mudado simbolicamente o nome de D. Fernando de Bulhões para frei António de Lisboa. Queria ser missionário em Marrocos, mas uma tempestade atirou com ele para as costas da Sicília, em Novembro de 1220… devolvendo-o à normalidade da vida religiosa junto dos seus confrades num con-vento perto de Messina, onde se refugiou.

Em Maio de 1221, vai com eles ao Capítulo Geral dos Frades Menores, em Assis, presidido por S. Francisco. Entra anónimo e sai anónimo com um irmão guardião da França, que o levou caridosamente para os trabalhos humildes na sua comunidade. Pretendia passar despercebido entre os irmãos; mas, pelas têmporas de setembro, o guardião fê-lo revelar a sua preparação teológica de Coimbra e os seus dotes oratórios ao mandá-lo pregar, de improviso, na ordenação sacerdotal de confrades franciscanos e dominicanos. De tal mo-do agradou, que o ministro Provincial imediatamente resolveu destiná-lo ao apostolado da pregação. Com a formação bíblico-teológica adquirida em Portugal, frei António entre-ga-se tenazmente a evangelizar os hereges cátaros e patarinos da Romanha; mas em Ri-mini tem de pregar aos peixes do Adriático, para atrair e converter o povo a quem os hereges impediam de o ouvir.

 

Porquê a ti, António? Porquê a ti?

No capítulo X das “Florinhas de S. Francisco” lê-se que, certo dia, frei Masseu de Mari-nhano, companheiro do santo, ao ver como as multidões acorriam a ele, o interpelou por três vezes: «Porque a ti, Francisco…? Donde vem que toda a gente corra atrás de ti para ver-te, ouvir-te e obedecer-te, se não é formoso, nem sábio, nem nobre?» E Francisco ter-lhe-á respondido: «Porque Deus não encontrou entre os pecadores nenhum mais vil, nem mais ignorante, nem maior pecador do que eu… para confundir a nobreza, e a grandeza, e a força, e a formosura, e a grandeza do mundo, para que se reconheça que toda a vir-tude e todo o bem lhe pertencem e não à criatura, e que ninguém se pode gloriar em sua presença…». Podemos aplicar isto mesmo a Santo António de Lisboa e à sua fama.

 

Uma vida resumida em símbolos

Nos símbolos ou atributos das imagens de Santo António temos uma síntese da sua vida e da sua espiritualidade. Concretamente, nos símbolos do Menino e da Cruz, da Bíblia ou livro dos Sermões, do lírio e, nalgumas, do globo erguido pelo Menino.

No Menino e na Cruz, temos os dois polos do cristianismo e da espiritualidade francisca-na: a Encarnação e a Paixão de Cristo, que levaram Francisco de Assis a fazer o primeiro presépio em Greccio na noite de Natal de 1223, e a ser marcado no corpo com as cinco chagas de Cristo no Monte Alverne, a 14 ou 15 de Setembro de 1224. A Paixão de Cristo levou Francisco a amar o Jesus da Encarnação; e a Encarnação levou-o a amar todas as pessoas, sobretudo os leprosos e os pobres. O mesmo amor, levou Santo António a inte-ressar-se pelos problemas morais e físicos ou familiares das pessoas, ao ponto de hoje fazermos dele o pronto-socorro dos nossos males, ou até ligarmos a sua festa a celebrações com que ele não se identificaria.

O Lírio simboliza o voto de castidade do santo, e a pureza que sempre quis guardar, desde a juventude.

A Bíblia marca o seu amor à Palavra de Deus, aprendido junto dos Cónegos Regrantes e vivido com os Frades Menores, cuja Regra de 1223 diz, a abrir: «A Vida e Regra dos Irmãos Menores é esta: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada próprio e em castidade.» Refletida e entendida na oração e no silêncio, foi ela a fonte da sua vida e da sua pregação.

O livro, sobre o qual o Menino Jesus aparece geralmente sentado, simboliza os famosos Sermões do santo.

Nalgumas imagens, o Menino sustenta um Globo, símbolo do Mundo. S. Francisco, no Cântico das Criaturas ou do Irmão Sol, canta o Mundo como obra de Deus, amada por Ele e cheia de sinais da sua beleza, do seu poder e da sua bondade. E S. Boaventura, doutor da Igreja, que foi cardeal e ministro geral da Ordem Franciscana, define-o como “itinerário da mente para Deus” e falando das criaturas, como sinais de Deus e meios para O descobrirmos e conhecermos. No entanto, o Mundo foi-nos confiado como tarefa nas causas da paz e da vida, da justiça e da verdade, da solidariedade e do respeito pela cria-ção. «Vós sois o sal da Terra… Vós sois a luz do Mundo…», diz-nos o Evangelho da Festa de Santo António (Mt 5,13-16).

«Cessem, portanto, as palavras e falem as obras» – como Santo António escreveu num dos seus Sermões (ver “Liturgia das Horas”, III, p. 1394).

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