1- Oração inicial

Espontânea.

 

2- Introdução

Nesta reflexão, o tema central será o lugar que o Encontro com o outro tem nas nossas vidas e a forma como este pode revelar-nos a missão que devemos cumprir. Pretende-se auxiliar a fazer uma introspeção e entendermos qual o nosso lugar no mundo, na Igreja e no seio da comunidade franciscana.

 

3- A MISSÃO DE CLARA DE ASSIS NA SAGRADA ESCRITURA

a. «Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.» - Mt 5, 14b-16.

Após ter iniciado a sua pregação e chamado os primeiros discípulos ao seu seguimento, Jesus sobe ao monte e profere as bem-aventuranças. É, pois, nesse contexto que o Senhor exorta os seus discípulos e a multidão a serem no mundo reflexo da claridade da Luz Eterna que está entre eles e tem a Sua morada no Céu. O convite de Jesus exorta cada um dos presentes a fazer das suas vidas um contínuo hino de louvor ao Autor da Vida, a fim de que – por Ele – se deixem transformar no espelho do Rosto de Deus para os homens.

b. «Escondeu-me na concha da sua mão (…) guardou-me na sua aljava. Disse-me: “Israel, tu és o meu servo, em ti serei glorificado”.» - Is 49, 2-3

Num contexto e num ambiente de restauração e de recomeço, Yahvé, o Senhor de hoje e de sempre, o Senhor de Israel e de todos os povos, trata o seu servo Israel como predileto. Escondendo-o na concha da sua mão, protege-o como mãe ao filho; e guardando-o na sua aljava procede como mãe que amorosamente sustém o filho em seu seio. Assim se manifesta o amor de eleição de Deus pelo Seu povo, através do qual – e em quem – quer e sabe que será glorificado.

 

4- ENCONTRO E MISSÃO DE CLARA DE ASSIS

«Vinde e ajudai-me na construção do convento de São Damião, porque um dia hão-de morar aqui umas senhoras cuja fama e santa vida glorificará o Pai celeste (cf. Mt 5, 16) em toda a Igreja» (TCL 13-14).

Sabemos que é Francisco, através destas palavras, quem revela a missão de Clara e de suas irmãs, na Santa Igreja: ser claridade no mundo sombrio, como Cidade Edificada na Montanha, manifestando com a vida a glória do Pai Celeste.

Contudo, ao escutarmos as palavras de Jesus que nos diz que não podemos esconder uma cidade situada sobre um monte (Cf. Mt 5, 14b), a vida de Clara parece-nos um paradoxo: afinal, Clara passou toda a sua vida encerrada no claustro da clausura feliz de São Damião, nos arredores da cidade de Assis.

Geralmente entendemos a missão como um envio para fora – ad extra –, anunciando como Jesus a Boa Notícia pelas praças e cantando como Francisco pelas ruas e vielas das cidades. Porém, disso não foi capaz a virgem Clara, enclausurada num mosteiro até ao fim da sua vida. Ora, será que por esse motivo não podemos considerar Clara uma mulher missionária? De maneira alguma! Clara é uma pessoa missionária na sua particular forma de viver. Olhemos para a vida de Jesus, missionário por excelência, que tanto envia os seus discípulos dois a dois (Cf. Lc 10, 1), como vê a comunidade dos fiéis resplandecer como uma cidade edificada na montanha, cuja luz brilha de tal forma que atrai os povos. A humanidade caminha até ela, enfrentando as suas vertentes íngremes, até que no cume encontra a sua Salvação.

Assim sucedeu com Clara, que adotou esta última forma de missão não para a sua Ordem, mas para a sua vida. Bem sabemos que, naquela noite de Domingo de Ramos em que deixou a casa paterna, no coração de Clara não se encontrava o desejo de fundar uma ordem, mas sim de seguir a Cristo pobre e crucificado, seguindo as suas pegadas. Inflamada no amor a Cristo, Clara corre ao encontro dos Seus perfumes (Cf. 4 CCL 30), decidida a amá-l’O como Esposa.

Mas o que leva Clara, após a sua experiência de encontro pessoal com Cristo, decidida a abraçar a Cristo pobre como virgem pobre (Cf. 2 CCL 18), a desprezar as pompas do mundo (Cf. 1 CCL 5) e a recolher-se na solidão de um mosteiro vazio? O que aconteceu nesse encontro com Cristo que fez Clara querer entregar a sua vida ao Céu em oração, silêncio e recolhimento no mundo?

Atraída pelo mais belo dos filhos dos homens, Clara é movida pelo desejo ardente de escutar e seguir a voz de Deus, amando como esposa a Cristo pobre. Desse modo, esquecendo tudo o que ficava para trás, Clara parte ao encontro do Amado, renunciando a si mesma, aos parentes e haveres (Cf. PC 3), a fim de se unir esponsalmente ao Rei da Glória. Para Clara não há dúvida de que a sua vocação é o maior de todos os benefícios que recebeu e diariamente continua a receber do Pai das Misericórdias (Cf. TCL 2), e por isso Lhe tributa o melhor da sua vida, a fim de O glorificar constantemente em seu corpo casto e virginal. Para tal, e a fim de glorificar o Pai Celeste quanto pode e mais do que pode, a virgem Clara nada mais quis ter debaixo do Céu senão Aquele que pobre foi reclinado no presépio, pobre viveu toda a sua vida e pobre morreu na Cruz (Cf. 4 CCL 19-23). E, na verdade, o Deus da Altíssima Pobreza olhou para Clara como havia olhado para Israel, escondendo-a na concha da sua mão e guardando-a na sua aljava (Cf. Is 49, 2). Assim, habitando desde toda a Eternidade o Coração de Deus, a Senhora Pobre vai agora habitar o Coração da Igreja numa vida mais generosa de oração, de recolhimento e de solidão, a fim de tornar o encontro com Deus na oração mais seguro e fácil (Cf. Constituições Gerais OSC, Art. 49). Assim se cumprem as palavras do Senhor: «em ti serei glorificado» (Is 49, 3). No Coração da Igreja, é esta a missão de Clara.

Na Bula de Canonização de Santa Clara, é evidenciada a claridade da mesma, considerando-a como luzeiro resplandecente quer no mundo, quer na vida religiosa: “Se na casa paterna foi um raio luminoso, no claustro brilhou com todo o fulgor” (BLC 3). De facto, se já no século Clara era tida por excelsa luz, quanto mais não o foi após abraçar o estado de perfeição a que o Espírito Santo a chamou, começando a iluminar todo o mundo por meio da sua vida claustral.

“Como era grande a força desta luz e como era forte a claridade do seu brilho! Apesar de encerrada no segredo do claustro, esta luz irradiava para o exterior; embora recolhida entre paredes de um mosteiro, esta luz era projetada para todo o mundo; protegida no interior, irradiava para o exterior. Escondia-se Clara, mas patenteava-se a vida. Calava-se Clara, mas era proclamada a sua fama. Apesar de escondida na sua cela, a sua vida era conhecida nas cidades.” (BLC 4).

De facto, a vida contemplativa constitui o primeiro e fundamental apostolado de uma Irmã Pobre de Santa Clara, no qual o diálogo com Cristo se apresenta como a linguagem por excelência da sua missão. Através da fidelidade vivida e através das suas vidas plenamente doadas, a Dama Clara e as suas Senhoras Pobres eram (e são!), para o mundo, como tochas na noite escura, faróis nas noites de tribulação, sentinelas da manhã (Cf. Vultum Dei Quaerere, 6). No silêncio do Claustro de São Damião, os corações orantes das Senhoras Pobres gritavam a boa notícia do Evangelho, que cada uma observava fielmente. Dentro dos muros de São Damião, a virgem Clara e suas companheiras eram exemplo e espelho para os homens e para as outras irmãs a quem o Senhor chama à mesma vocação (Cf. TCL 19). Desse modo, dedicando-se à missão da Igreja, através das suas orações, penitências e tribulações, Clara e suas irmãs assumem uma importância singular na conversão das almas – pela vida destas mulheres, Deus é glorificado e os homens redimidos.

Deste modo, e inflamada na contemplação, a alma de Clara resplandece e alumia toda a Igreja ao longo dos séculos, amando a Igreja pecadora e resplandecente: resplandecente nos apóstolos, nos mártires, nas virgens e nela própria.

Tudo isto nada mais é senão um fruto amadurecido, germinado e colhido pela infinita misericórdia de Deus, proveniente do encontro esponsal da donzela Clara com o mais belo dos filhos dos homens. Afinal, em que consistiu a passagem de Clara por este mundo senão num dedicar de toda a sua vida a amar, de forma perfeita, o Amor que não é amado, mas que nela o foi e é de forma plena? A Clara só uma coisa importa, quer no tempo, quer na Eternidade: amar totalmente Aquele que totalmente se entregou por ela (Cf. 3 CCL 16).

 

5- SER FILHA DE CLARA, HOJE E SEMPRE

Segundo as Constituições da Ordem de Santa Clara, “a vida contemplativa é [para as irmãs] a maneira exemplar e própria, segundo o plano peculiar de Deus, de ser Igreja, de viver na Igreja, de realizar a comunhão na Igreja e de cumprir a missão na Igreja” (Cf. Constituições Gerais OSC, Art. 161, 1).

Clara enraizou a sua vocação no Coração da Igreja e dá testemunho disso quando na sua terceira carta a Santa Inês a exorta: “Considero-te colaboradora do próprio Deus e um suporte dos membros mais débeis do Seu Corpo” (Cf. 3 CCL 8). Esta é a grandeza da vocação a Irmã Pobre. Pela sua vida orante, silenciosa e recolhida, as irmãs são chamadas a colaborar com Deus na obra da Redenção pois, como fruto das suas orações, Deus envia operários para a Sua messe, abre o espírito dos não-cristãos para ouvirem o Evangelho e fecunda em seus corações a palavra da Salvação.

Desde os dias de Clara até hoje, pelo espírito de um clima fraterno, pela alegria da vida e pela oração que atravessa os muros, através das Clarissas, Deus continua a atrair a Si muitas pessoas. Vejamos, por exemplo, o que diz o Cardeal Hugolino – futuro Papa – à virgem Clara – mãe e colaboradora da sua salvação (Cf. CHg 1) – aquando de uma sua ausência prolongada de São Damião: «Caríssima irmã em Cristo, há muito que os meus inúmeros afazerem me obrigaram a ausentar-me do vosso mosteiro e me privaram das consolações que eu colhia nas vossas palavras. Isso tem sido assaz e penoso para mim e muitas vezes sou invadido de grande amargura. Não fora a consolação da divina piedade que encontro aos pés de Jesus e já teria sucumbido na angústia que faz desfalecer o coração e o espírito» (Cf. CHg 2). De facto, desde que o Glorioso Deus Altíssimo se dignou dar início à nova família dos pobres (Cf. LCL 8), os mosteiros das irmãs são, no mundo e para o mundo, lugares de encontro e oásis de paz, onde o povo pode recorrer para encontrar a Deus, estabelecer com Ele um colóquio de amor e retemperar as forças para os desafios quotidianos.

Oito séculos depois, a missão das Irmãs Pobres continua a ser a missão escondida de Clara, da qual – pela graça de Deus – o mundo tem uma necessidade que desconhece. Em verdade, os tempos são outros, mas Deus é o mesmo! Diz-nos o Papa Francisco na Constituição Apostólica Vultum Dei Quaerere: «Sem vós, queridas irmãs contemplativas, que seria da Igreja? A Igreja conta muito com a vossa oração e imolação para levar aos homens e mulheres do nosso tempo a boa notícia do Evangelho. A Igreja precisa de vós! Não é fácil que este mundo compreenda a vossa vocação especial e a vossa missão escondida, e contudo tem uma necessidade imensa dela. Com a vossa vida transfigurada e com palavras simples ruminadas no silêncio, indicai-nos Aquele que é caminho, verdade e vida.» (Cf. Vultum Dei Quaerere 6).

Pois, como Clara de Assis, possamos nós desprezar tudo o que neste mundo de enganos e perturbações cega o coração dos homens e amar de todo o coração Aquele que se entregou por nosso amor e cuja beleza o sol e a lua contemplam sem cessar (Cf. 3 CCL 15-16).

 

6- REZAR COM CLARA DE ASSIS:

Dobro os joelhos diante do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
Invocando os méritos da gloriosa Virgem Maria, sua mãe,
Do nosso beatíssimo Pai Francisco e de todos os santos
E peço ao próprio Senhor que nos deu tão bom princípio,
Nos dê o incremento e também a perseverança até ao fim.
Amen.
(Cf. TCL 77-78)

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