1)  Oração Inicial

Senhor Jesus Cristo,
vieste ao mundo para salvar cada homem,
dar vida em abundância e ser o mestre que acompanha
cada passo do nosso existir.

A Ti confiamos todos os jovens
e aqueles que os acompanham
para que saibam viver com o olhar fixo em Ti
e acolher a luz e a graça
que continuamente ofereces.

O mundo grita com promessas falsas de felicidade,
mas o coração dos jovens deseja a plenitude,
e Tu conheces bem o entusiasmo destes corações
cheios de grandes sonhos.

Nós Te pedimos
que nada ofusque este desejo de crescer e de amar
e que cada jovem encontre a verdadeira felicidade
que é a alegria de Te conhecer e Te levar aos outros.

Isto pedimos por intercessão da Tua e nossa Mãe,
Senhora da verdadeira contemplação,
a Ti que vives e reinas com Deus Pai
na unidade do Espírito Santo.
Ámen

 

2)  O que é a vocação contemplativa

Todo o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus traz plasmado no ADN a vocação contemplativa – Criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração estará sempre inquieto enquanto não descansar em Vós – reza Santo Agostinho. Toda a pessoa humana direta ou indiretamente, manifesta o desejo de ver o rosto de Deus, deseja contemplar a beleza do Criador, descansar no seu Coração e saborear as delícias do seu amor. Assim, a vocação contemplativa não está limitada a um pequeno número de pessoas nem somente aos monges ou Irmãs de clausura, mas é vocação de todos, de todo o ser humano: todos somos chamados a ser contemplativos. Na casa comum que é a Igreja ou na nossa família franciscana existem vocações específicas, dons, carismas diversos, mas todos são chamados à vocação contemplativa no que ela tem de mais profundo, independentemente da sua profissão, condição social, idade, cultura …

Hoje, mais do que ontem, é urgente contemplar, fazer silêncio, parar para escutar. Uma urgência em todos os sectores da vida quotidiana. O aspeto do silêncio e de solidão são uma necessidade básica para aprofundar e consolidar a oração, a relação com Deus e com os Irmãos, a vivência coerente da fé em qualquer situação da vida: familiar, laboral, escolar, lazer… 

Alguém escreveu: Contemplar é ter o domínio das horas na constante recordação de que tudo é sagrado, porque o amor que está no coração diviniza o tempo. 

Vocação contemplativa significa amar e deixar-se amar, sair de si próprio para ir ao encontro d’Aquele que o olha, o ama, o espera; d’Aquele que o criou e pelo e por quem deu a vida. Vida contemplativa é mergulhar na profundidade do Mistério de Deus num constante movimento de conversão e abertura à graça, percorrendo a estrada da gratuidade em profundo, sereno e fecundo silêncio. Silêncio de quem sabe escutar e compreender a linguagem do amor no mais íntimo do seu ser, ali onde a palavra termina e só há espaço para Deus e o Irmão.

 

3)  Vocação contemplativa na Sagrada Escritura

Evangelho: Lucas 9, 28b-36

Naquele tempo, Jesus, levando consigo Pedro, João e Tiago, subiu ao monte para orar. Enquanto orava, o aspeto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante. E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias, os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer. Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados. E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o meu Filho predileto. Escutai-o.» Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto.

 

Para refletir

Este acontecimento da vida de Jesus leva-nos até ao ápice da contemplação. Jesus sobe com os três mais íntimos do grupo dos Doze. Jesus gosta da solidão, a montanha onde reina a paz, a calma, onde pode ver-se a grandeza da obra divina sob o céu estrelado ou a imensidade do céu azul e nos sinuosos recortes das linhas do horizonte. No sopé do monte deixam a bagagem, as preocupações, as ocupações quotidianas para concentrarem toda a atenção no que é essencial. Quando se fixa o olhar do coração em Jesus o presente torna-se eternidade. Assim a contemplação é tão profunda, bela e reconfortante que surge o desejo de Pedro: Senhor, é tão bom estar aqui. Façamos três tendas! Permanecer para sempre com Aquele que se deseja e ama é o doce e saboroso fruto da contemplação. A beleza de Cristo transfigurado culmina com o mais expressivo e carinhoso imperativo do Pai: Este é o meu Filho muito amado, escutai-o. Escutar Jesus é a atitude essencial do contemplativo, a medida sem medida do verdadeiro amor. Escutar Jesus é perder-se nele e deixar que Ele se torne vida da nossa vida.

 

4)  A vocação Contemplativa de Santa Clara de Assis

Santa Clara nasceu em 1193 na cidade de Assis. À distância de oito séculos, Clara continua a resplandecer bela e luminosa no horizonte da História. Contemplá-la é encontrar um lago límpido, transparente e sem fundo, onde se espelha o Céu. Clara é a concha que nos permite escutar o marulhar ondulante e suave do “Oceano Eterno”, nas noites sombrias da vida. É escutar Deus no mais profundo silêncio do nosso ser, é a atitude da mais perfeita contemplação. Olhar Clara na sua mais pura e genuína forma de viver é mergulhar profundamente no Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Não é fácil, hoje, falar da experiência contemplativa porque muita gente não entende. Lembramos, por exemplo, quando se publicou a biografia da Madre santa Teresa de Calcutá “todo o mundo se escandalizou”, ou, pelo menos, três quartos do mundo… porquê? Exatamente porque o espírito do mundo desconhece os caminhos da contemplação, desconhece que todos os amigos de Deus são por Ele conduzidos ao deserto, como Moisés, para serem incendiados na sarça ardente a fim de Lhe provarem o seu amor:

A Madre Santa Teresa de Calcutá viveu a maior parte da sua vida numa escuridão profunda e, no entanto, vivia na mais alta contemplação: Era Cristo que vivia verdadeiramente nela. O sorriso da Madre Teresa era cativante e a sua presença iluminava.

Também santa Clara vivia em alta contemplação mas, também ela teve de sofrer; contudo, o seu semblante era alegre, luminoso, inalterável. Quando regressava da oração o seu rosto irradiava luz…dela escreve Celano: “Clara durante a noite, permanecia firme, desperta e infatigável na oração para captar os murmúrios divinos” 

A contemplação reveste-se de muitos matizes. Para chegar à contemplação é preciso sofrer como podemos constatar na vida dos santos. E, sobretudo, procurar sem cessar o Rosto de Deus, – A Vossa Face, Senhor, eu procuro –. Contemplação é permanecer, como Clara e como Teresa na presença de Deus, sem tempo contado….

Mas, num século frenético como o nosso, vivemos demasiadamente rápidos, as redes sociais despersonalizam-nos, as pessoas, a começar pelas crianças, são hiperativas; todos têm a agenda superpreenchida e o coração totalmente vazio. Vive-se para o imediato sem tempo para o essencial. 

Neste contexto sociocultural do século XXI, Santa Clara constitui uma provocação a descer às profundidades do próprio ser para um encontro pessoal com Deus e connosco próprios. Possuir Deus e sermos possuídos por Ele é o mais belo e sublime caminho da felicidade. É esta a mensagem de Santa Clara de Assis para hoje. Toda a sua vida foi contemplação do “Cristo pobre e crucificado”, “Espelho da Eternidade”: um constante olhar Cristo do Presépio à Cruz, do seio do Pai ao seio de Maria…

Clara fez de São Damião o lugar sagrado da aliança, a terra sagrada, o jardim cerrado, onde só o Esposo tem entrada. Ali, Clara, a pomba prateada, escondida nas fendas do rochedo, com sua voz doce cantou o seu amor só para o Amado. São Damião foi literalmente jardim do Cântico dos Cânticos, onde a amada encontrou o Amado e se identificou com Ele.

Ali, o espaço e o tempo, tornam-se eternidade estável e feliz. Lugar para parar e caminhar, avançar na vida do espírito. Esta é a dinâmica da vida contemplativa, caminhar sem cansaço e sem medo. Adentrar-se na fornalha ardente do amor inefável de Deus. Neste caminhar de Clara, o pequenino mosteiro de São Damião transforma-se em templo de paz, sacrário de intimidade, santuário preenchido pela Santíssima Trindade. 

Sobre esta grande figura da história da Igreja e da Humanidade em 1255 o Papa Alexandre IV escreveu: Admirável claridade de Santa Clara cujo esplendor de vida quanto mais se analisa, mais admirável se reconhece. Se já luzia no século, resplandeceu na vida religiosa. Se na casa paterna foi um raio luminoso, no claustro brilhou com todo o fulgor. Se brilhou na terra, resplandeceu no céu. Como era grande a força desta luz e como era forte a claridade do seu brilho! Apesar de encerrada no segredo do claustro, esta luz irradiava para o exterior; embora recolhida entre paredes de um mosteiro, esta luz era projetada para todo o mundo; protegida no interior, irradiava para o exterior. Escondia-se Clara, mas patenteava-se a vida. Calava-se Clara, mas era proclamada a sua fama. Apesar de escondida na sua cela, a sua vida era conhecida nas cidades.

Tal coisa não nos deve espantar. Como podia uma lâmpada tão clara e resplandecente permanecer sem iluminar com todo o esplendor a casa do Senhor? Como podia permanecer cerrado um vaso de tão preciosos perfumes, sem exalar o seu aroma na mansão divina? Quanto mais quebrava o vaso de alabastro do seu corpo em recôndita solidão, tanto mais o odor da sua santidade perfumava a Igreja.

Estas prerrogativas de Clara advêm do dinamismo da sua consagração que culmina na contemplação do Amado. Clara faz parte dos loucos de Amor, loucos por Deus. O seu anelo é Jesus pobre e crucificado, o bem Amado, procurado e encontrado no silêncio do claustro. 

A contemplação em Clara é puro enamoramento, é o estar íntima e permanentemente com o olhar do coração fixo em Deus. A vida de Clara foi o sair para entrar: sair da si própria para o coração do Amado, como transparece em todas as suas cartas: 

Na quarta carta a Santa Inês de Praga, é evidente a agudeza do seu espírito contemplativo: Feliz daquela a quem foi dado gozar desta íntima união, e que aderiu com todas as fibras do seu coração Àquele cuja beleza é contemplada por todos os santos do exército celeste, cujo amor nos encanta, cuja contemplação nos vivifica, cuja bondade e benignidade nos basta. A sua doçura satisfaz-nos plenamente e a sua recordação ilumina-nos com suavidade. Ele é o esplendor da eterna glória, a luz da eterna luz, o espelho sem mancha.

E após ter experimentado toda essa doçura espiritual, Clara aconselha: Contempla diariamente este espelho, ó rainha e esposa de Jesus Cristo. Observa nele o teu rosto para que a grande variedade de virtudes que embeleza o teu interior e exterior, seja como manto de flores, tal como convém à filha e esposa do Rei supremo. Neste espelho poderás contemplar, com a graça de Deus, como resplandece a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade. Contempla, no princípio deste espelho, a pobreza, pois está colocado no presépio e envolto em paninhos. Ao centro deste espelho considera a humildade e a santa pobreza.

E no fim contempla a inefável caridade que O fez sofrer no patíbulo da Cruz a morte mais infame. Contempla, além disso, as inefáveis delícias, as suas eternas riquezas e honras. Todas estas expressões são reforçadas pelo imperativo “contempla”. Podemos assim concluir que a contemplação em Clara é um estado de vida, uma presença agradecida, reconhecida, cheia de reverência eucarística, olhar e ouvidos fixos na Palavra, no Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Contemplar é pura e simples restituição: entregar ao Senhor o que Lhe pertence. Através do seu olhar contemplativo ela revela-nos o Filho de Deus na sua humanidade e divindade: Deus e Homem, Menino e Esposo, o homem das dores e do sofrimento, misericordioso e bondoso, materno e paterno, Rei e Príncipe. É um amor que leva à união mística. 

Clara faz, assim, parte do número das grandes figuras femininas que viveram a contemplação como uma nova teologia da ternura e refizeram o Cântico dos Cânticos.

Como Maria, a “Mãe dulcíssima”, Santa Clara sabe recolher e guardar e tudo calar e meditar em seu coração e, nesse santuário, o tesouro da sua “vocação contemplativa” é a joia de inestimável preço, colocada em lugar de relevo que recomendou às suas Irmãs nunca perderem de vista e lhes deixa em herança no Testamento: “A nossa vocação é o maior de todos os benefícios que recebemos e diariamente continuamos a receber do nosso benfeitor, o Pai das Misericórdias…”

Uma das mais belas expressões da contemplação em Clara é ser Pobre, esvaziar-se de si mesma e oferecer a Jesus todo o seu ser. Sair do seu próprio castelo para entrar no pobre e austero mosteiro de São Damião. Deixar tudo para, em Jesus, tudo encontrar. Esta é a verdadeira vocação contemplativa de Clara que a transmite a Inês de Praga: é uma troca maravilhosa e digna de todo o louvor, renunciar aos bens temporais e preferir os eternos, perder o que é terreno, para merecer o que é celeste, renunciar a um para ganhar cem e possuir para sempre a vida bem-aventurada.

O seu biógrafo refere que passava a maior parte do tempo do dia e da noite em vigília e oração. Contudo, Clara não foi uma extática, a sua contemplação foi contemplação ativa no serviço fraterno: ela não desdenhava as ocupações mais servis. Clara que chegava a água para as irmãs lavarem as mãos, e quando todas se sentavam, era ela que permanecia de pé e as servia e lavava os pés ás irmãs que chegavam do serviço externo. Prestava às doentes os mais repugnantes serviços. 

Clara silenciosa e contemplativa, foi pobre e recomenda instantemente às suas Irmãs “presentes e futuras”:

As Irmãs a quem foi dada a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente… e não apaguem o espírito da santa oração e devoção à qual todas as coisas temporais devem servir… Por estranho que pareça, Clara, com espírito profético que a caracterizou, preconizou o espírito do Concílio Vaticano II na pobreza, no trabalho, no diálogo, na organização da vida comunitária e fê-lo na sua Regra, simples e concisa. Este espírito profético e intemporal só lhe provinha da sua familiaridade com Deus na contemplação: 

Depois de Completas, prolongava o tempo de oração E, enquanto as outras irmãs repousavam, ela permanecia firme e desperta na oração. São muitos os sinais que deixam ver a energia que lhe vinha da fornalha ardente da oração e como se tornava em doçura a bondade divina que aí saboreava. E, quando regressava da oração, inflamada pelo fogo do altar do Senhor, transmitia palavras ardentes que incendiavam o coração das Irmãs A sua vida de intensa contemplação não impedia a atenção aos deveres diários das suas Irmãs e o cuidado do mosteiro. Todas ficavam admiradas da doçura que saía da sua boca e do extraordinário brilho que emanava do seu rosto. Deus, que na sua bondade cuida do pobre, permitia que a verdadeira luz que iluminava a sua alma em oração, se refletisse no seu exterior. O serviço de Clara junto das Irmãs, ia à extrema fineza de percorrer o dormitório durante a noite a aconchegar as roupas às Irmãs que dormiam. E era tão forte o poder que, na oração, Deus lhe comunicava que, a adornou em vida com o dom dos milagres e por seu intermédio foram muitas pessoas e se realizaram outras maravilhas e tudo foi testemunhado com juramento no Processo de Canonização.

A vocação contemplativa de Clara é como árvore frondosa e fecunda a embelezar a Igreja de Jesus Cristo. Uma árvore que ainda hoje continua a produzir os seus frutos em cada Irmã Clarissa que vive o mesmo ideal de fidelidade, a mesma vocação de contemplação.

Ela foi o alto candelabro de santidade, que resplandece vigorosamente na casa do Senhor, a cuja chama viva acorrem numerosas virgens para nela acenderem as suas lâmpadas, escreve Celano.

E sobre a beleza, grandeza e atualidade da vocação contemplativa das Irmãs Clarissas alguns Papas afirmam: “Não imaginais como sois importantes para a vida da Igreja vós, escondidas, desconhecidas; quantos problemas, quantas coisas dependem de vós, da vossa presença orante” (S. João Paulo II, em 2003, às Irmãs do Proto mosteiro)

E, Bento XVI, falando às Clarissas de Albano reforça o mesmo pensamento: “No silêncio da clausura e no dom total e exclusivo de vós mesmas a Cristo, prestais à Igreja um serviço precioso. Vós, Irmãs Clarissas, sois a alma do mundo porque acompanhais toda a humanidade com as vossas orações”. 

A luz de uma comunidade de clausura é uma profecia, um ponto de referência que impele o mundo a interrogar-se e a refletir, é a afirmação do primado e absoluto de Deus! Deus fala no silêncio, mas é preciso saber escutar. Os mosteiros, afirma Bento XVI, são oásis nos quais Deus fala à humanidade a partir do claustro, claustro terra sagrada, lugar simbólico, espaço fechado mas totalmente aberto para o céu. 

Recentemente o Papa Francisco afirmou: Como o marinheiro no mar alto precisa do farol que indique a rota para chegar ao porto, assim o mundo tem necessidade de vós. Sede faróis para os que estão perto e sobretudo para os afastados. Sede tochas que acompanham o caminho dos homens e mulheres na noite escura do tempo. Sede sentinelas da manhã que anunciam o nascer do sol. Com a vossa vida transfigurada e com palavras simples ruminadas no silêncio, indicai-nos aquele que é caminho, verdade e vida, o único Senhor que oferece plenitude à nossa existência e dá vida em abundância. Gritai-nos como André a Simão: «Encontramos o Messias»; anunciai, como Maria de Magdala na manhã da ressurreição: «Vi o Senhor!». Mantende viva a profecia da vossa existência doada. Não tenhais medo de viver a alegria da vida evangélica segundo o vosso carisma” (Vultum Dei Quaerere. n, 6).

Também Giacomo Bini, OFM, define essa missão-vocação: uma das tarefas das Irmãs de Santa Clara, hoje, poderá ser a de ajudar-nos a reencontrar a harmonia dos valores franciscano-clarianos, a gratuidade e a beleza da nossa vida, sem pretensões de eficiência. É fácil sermos instrumentalizados pelas necessidades imediatas e perdermos a visão de conjunto, a capacidade de discernir aquilo que é urgente daquilo que é necessário; preocupamo-nos com os muitos projetos que programamos ou que nos são propostos pelo mundo consumista em que vivemos e corremos o risco de esquecer o compromisso primário de ser “projeto de Deus”. Creio ser urgente, hoje, renovar e continuar a colaboração entre Clara e Francisco para evitar qualquer forma de «insânia», de “esquizofrenia” que destrói a própria vida consagrada. E com a humildade e simplicidade que lhe era tão peculiar confidencia: Dou graças ao Senhor por todas as vezes que, exatamente ao lado de um mosteiro, desde frade jovem pude fazer a experiência da “cura”, recolocando em ordem harmoniosa os valores evangélicos da minha vocação e missão, graças à ajuda das Irmãs Clarissas. Muitas vezes pedi hospitalidade em seus mosteiros para dar novo tom espiritual à minha vida. Obrigado a todas vós, Irmãs Clarissas, por esta função “terapêutica”, tão importante para a caminhada vocacional de uma pessoa consagrada.

 

Para refletir

No viver quotidiano podemos de forma concreta assumir a vocação contemplativa, todos sem exceção. Contemplar é esvaziar-se de todo o supérfluo para que Aquele que é o Tudo nos encha até transbordar, é abrir pouco a pouco os olhos do coração para poder ler e descobrir a presença do Senhor nos irmãos, em todas as circunstâncias e nas coisas. Contemplar é abrir os ouvidos da alma para escutar os murmúrios do Senhor na sua Palavra, nos Sacramentos, na Igreja e nos acontecimentos da história. Contemplar é fazer silêncio de palavras para que fale o olhar sereno e cheio de espanto, como o de uma criança; para que falem as mãos abertas ao partilhar, como as de uma mãe; para que falem os pés que, com passo ligeiro, como exorta Santa Clara, cruzam fronteiras para anunciar a Boa Nova, em anúncio missionário; para que fale o coração transbordante de amor por Cristo e pela humanidade, como falaram os corações enamorados de Francisco e Clara. Contemplar é entrar na cela do próprio coração e, desde o silêncio que aí habita, deixar-se transformar por Aquele que, como Clara, reconhecemos: o “esposo da mais nobre estirpe”, com o aspeto “mais belo”, “cuja beleza todos os bem-aventurados dos céus admiram sem cessar”, e “cuja afeição apaixona”. Contemplar é “desejar, acima de tudo, ter o Espírito do Senhor e sua santa operação”. A contemplação é essencialmente a vida de união com Deus que, segundo as palavras de Francisco, é “ter o coração dirigido para Deus” e para Clara é colocar alma, coração e mente no Espelho da Eternidade até transformar-se totalmente na imagem da Sua divindade.

Entendida assim, a contemplação nada tem a ver com uma vida medíocre, rotineira, preguiçosa. A contemplação é fazer uma opção exclusiva pelo Senhor, entregar-lhe a vida, é poder dizer com Paulo “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”. (Excerto dum texto de D. José Rodriguez Carballo, OFM, enviado às Irmãs Clarissas)

 

5)  Confronto com a realidade atual

Na constituição Apostólica “Vultum Dei quaerere” refere o Papa Francisco: “A busca do rosto de Deus atravessa a história da humanidade, desde sempre chamada a um diálogo de amor com o Criador. Esta busca é comum a todos os homens de boa vontade. A dinâmica da busca de Deus revela que ninguém se basta a si mesmo, e impõe que cada pessoa se ponha a caminho, à luz da fé, num êxodo de si mesmo atraído pelo rosto de Deus santo e pela “ terra que é o outro”, para experimentar uma comunhão mais profunda”. 

Ao confrontar a vida de Clara, no seu contexto sociocultural do séc. XIII com a dinâmica da atualidade será que deixo brotar em mim o desejo da procura constante do Rosto de Deus?

Viver a vocação contemplativa ao jeito de Clara e de Francisco é, em si mesmo, um processo de transformação pessoal que, mediante o encontro com Jesus Cristo, nos impulsiona à conversão desafiando-nos, a cada momento, a subir ao Monte Santo e a permanecer na tenda onde Deus Se revela. 

Será que cada um de nós está disposto para viver na Igreja e em Igreja o desafio deste ideal?

A contemplação é o coração do carisma Franciscano. Para Clara a vida contemplativa era essencialmente uma relação de amor fraterno, consequência do amor a Deus “amando-vos umas às outras manifestai em obras o amor que tendes no coração”. Neste mundo onde tudo nos convida ao barulho, ao descartável, ao mais fácil, ao deixa correr, em que nos enredamos e muitas vezes nos deixamos asfixiar pelas redes sociais, será que nós, jovens franciscanos, temos a coragem e a capacidade de fazer silêncio para procurar o Rosto de Cristo e de O anunciar a todos? Clara responde: "Ama totalmente Aquele que inteiramente se deu por teu amor, aquele cuja beleza o sol e a lua admiram e cuja generosidade, preciosidade e grandeza não têm limites" (3ª. Carta a Inês de Praga, 3).

É fácil passar ao lado desta pergunta e julgá-la ingénua e inoportuna; mas se queremos viver o ideal Franciscano, o primeiro requisito é descer à vida concreta e viver na “verdade” começando pelo coração onde se realiza o processo de transformação que Deus quer operar no nosso interior tal como aconteceu com Clara e Francisco. A contemplação torna-nos homens e mulheres sábios com capacidade de discernimento. Nela encontramos o verdadeiro equilíbrio. Clara experimentou a presença de Deus tão intensa e real que afirmou: "Pela graça de Deus, a alma fiel, a mais digna criatura, é maior do que o próprio céu. Pois os céus e todas as outras criaturas não conseguem conter o Criador, mas somente a alma do homem fiel pode ser a sua mansão e morada. (3ª. carta a Inês de Praga, 4). 

Clara teria sido incapaz de falar deste modo, se a presença divina dentro dela não fosse uma certeza que elevava o seu ser à plenitude e a impeliu a cantar no final da vida terrena: “Louvado sejas Senhor, por me teres criado!”

Como para Santa Clara, será que a Pessoa de Jesus Cristo, o Espelho da Eternidade, é o tudo da tua vida? 

“Olha, medita e contempla” no mais profundo do teu coração a resposta que Jesus espera de ti enquanto te convida a subir com Ele ao Tabor, onde a luz do Seu rosto ilumina toda a humanidade.

 

6)  Oração final 

Deus nosso Pai,
ensinai-nos a ter um olhar contemplativo,
a abraçar com amor apaixonado Jesus Cristo,
“cujo Espelho reflete o Vosso Rosto,
cuja contemplação nos vivifica,
cuja bondade e benignidade nos basta”,
deixando a claro diante de todos os homens
que Deus é tão grande, tão imenso,
que vale a pena entregar-lhe a vida
na adoração simples e pura da existência.

Concedei-nos um olhar contemplativo
que nos leve a entrar na pobreza
e a aprender a aguardar na esperança,
juntamente com todos aqueles
que desejam a Vossa misericórdia,
a revelação do Vosso Rosto de amor e ternura.

Concedei-nos a graça de Vos encontrar
na alegria jovem do Vosso amor,
nos momentos felizes ou de prova,
e saborear a Vossa presença na
comunhão fraterna com a criação inteira.

O projeto de vida contemplativa
acolhido por Clara e Francisco,
nos ajudem a concretizar
o vosso reino de liberdade e justiça,
purificado do egoísmo, orgulho, ódio e violência.
Derramai, Senhor, o Vosso Espírito,
para que sejamos testemunhas do Evangelho
e servidores do Vosso Reino.
Ámen!

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