Nascida numa povoação próxima de Urbino, Verónica foi a última de sete irmãs, duas das quais morreram quando eram ainda crianças de colo, três foram clarissas em Mercatello, uma clarissa capuchinha em Città di Castello, e uma permaneceu no mundo. Ainda ela era criança, e já em torno dela aconteciam fenómenos prodigiosos a indicar na pequena Verónica uma extraordinária precocidade na vida espiritual, fruto porventura da esmerada educação religiosa recebida da mãe, mulher de profundas convicções cristãs.

Quando a mãe morreu, legou uma herança mística: as cinco chagas do Senhor, uma para cada filha. A Verónica, que na altura contava apenas 4 anos, coube-lhe a chaga do lado, a mais próxima do coração de Jesus.

Aos 17 anos, precisamente quando o mundo a solicitava com os mais ardentes atractivos, a mais moça das irmãs Juliani abandonou a comodidade do lar e a condição de vida livre e desafogada para entrar no convento das clarissas capuchinhas de Città di Castello. Morta e sepultada para o mundo na pobreza extrema das filhas de Santa Clara, iniciou o caminho de santificação pelo silêncio e pela humildade, enquanto o Esposo celestial começava a dar sinais duma excepcional predilecção por ela. Na sua devoção à Paixão, visualizava e revivia um a um os sofrimentos do Salvador. A testa apareceu-lhe coberta de sangue provocado por uma invisível coroa de espinhos; e numa sexta-feira santa foi trespassada pelas feridas das chagas.

Numa atitude de compreensível prudência, as autoridades mantiveram a irmã em total reclusão. Proibiram-na de qualquer contacto com o exterior, e convidaram-na a obedecer a uma irmã conversa. Consciente das perturbações místicas da sua penitente, o confessor ordenou-lhe que redigisse um diário espiritual. Assim, dia após dia, por mais de 30 anos a mística clarissa narrou minuciosamente naquele diário o seu rosário de sofrimentos e alegrias, de orações e de desânimos. Essas folhas soltas, escritas sem a mínima preocupação literária, e que o confessor lhe proibia que relesse, formaram mais tarde 44 grossos volumes. Ainda hoje muitas páginas de Santa Verónica Juliani são das mais belas da literatura mística da Itália. Igualmente interessantes são os testemunhos a respeito dela e das suas relações com as irmãs.

Toda a sua vida transcorreu entre a oração e a contemplação, no intuito de se conformar cada vez mais com Cristo crucificado. Pelo seu amor ao mistério da Cruz recebeu o dom dos estigmas. No mosteiro exerceu todos os ofícios. Foi encarregada da cozinha, da despensa, da rouparia, da enfermaria, da roda, da padaria, e depois dessa roda-viva foi mestra de noviças durante 33 anos, até à morte, e abadessa durante 11 anos. Vítima dum ataque de apoplexia, passou desta vida à pátria celestial a 9 de Junho de 1727, com 67 anos. Foi canonizada por Gregório XVI a 26 de Maio de 1839.

 

Oração

Senhor Deus, que distinguistes a virgem Santa Verónica com os estigmas da Paixão do vosso divino Filho, dai-nos, por seu exemplo e intercessão, tornarmo-nos semelhantes a Cristo abraçando humildes a cruz, para exultarmos um dia na revelação as sua glória. Por nosso Senhor.

 

Do Diário de Santa Verónica de Juliano

Un Tesoro nascosto, 8, pp.629-630

Hoje se me renovou a dor nas mãos, nos pés e no coração, e passei uma noite preciosa, cheia de dores e de tormentos. Graças a Deus! De manhã fui ao confessionário para receber o sacramento da penitência, e de lá trouxe mais alento para mais sofrer. Depois, na sagrada comunhão, experimentei a graça de Deus que reina e impera no íntimo da alma com não sei que novo sentimento interior. De mais, já de há dias que sinto no coração certa operação, cuja natureza todavia não posso explicar, pelo que vou descrever os efeitos que em mim deixa.

O primeiro é um conhecimento e dor das minhas culpas, um solícito desejo da conversão das almas pelas quais eu daria o sangue e a vida, uma grande confiança na misericórdia de Deus e na compaixão e amor da santa Virgem Maria. O segundo efeito nisto consiste, em que, sentindo-me abandonada e submersa em mar de tentações, logo que experimento aquele sentimento oculto me vejo satisfeita, descansada em suma paz e firmemente amparada na vontade de Deus. E finalmente o terceiro efeito é desta sorte: quando internamente me apoquentam as perseguições do demónio, e exteriormente, no cumprimento do meu ofício, tenho de acorrer mais aqui mais além, mais a este cuidado mais àqueloutro, aquela oculta operação faz que tudo leve ao fim em paz e sem até dar por isso, de modo que, vou a reparar, e, nem sei como, tudo está pronto, o que sobretudo me acontece nos atos mais principais, como no receber os sacramentos, na oração e nos colóquios espirituais que entre nós são uso. Sinto-me de tal modo entediada, árida, vazia de afetos, que me parece insuportável continuar numa vida assim. Deste modo indisposta, chega o tempo de me ir confessar. Pois, apenas percebi no coração o mínimo despertar daquele sentimento, logo me encontro tão transformada e cheia de fortaleza que, mesmo em ocasião da maior aridez, contrariedade ou insensibilidade, todo o trabalho, por árduo que seja, se me torna fácil. Tudo para glória de Deus.

 

Catequese de Bento XVI

Verónica nasce, pois, em 27 de dezembro de 1660, em Mercatello, no vale de Metauro, filha de Francisco Juliani e Benedita Mancini; é a última de sete irmãs, das quais outras três abraçaram a vida monástica; deram-na o nome de Úrsula. Aos sete anos de idade, perde a sua mãe, e o pai muda-se para Piacenza como superintendente da alfândega do Ducado de Parma. Nesta cidade, Úrsula sente crescer em si o desejo de dedicar a vida a Cristo. O chamado se faz sempre mais presente, tanto que, aos 17 anos, entra na restrita clausura do mosteiro das Clarissas Capuchinhas da cidade de Castello, onde permanecerá por toda a sua vida. Lá recebe o nome de Verónica, que significa “verdadeira imagem”, e, de fato, ela se torna uma verdadeira imagem de Cristo Crucificado. Um ano depois, emite a solene profissão religiosa: inicia um caminho de configuração a Cristo, por meio de muitas penitências, grandes sofrimentos e algumas experiências místicas ligadas à Paixão de Jesus: a coroação de espinhos, o casamento místico, a ferida no coração e os estigmas. Em 1716, aos 56 anos, torna-se abadessa do mosteiro e será confirmada no cargo até a sua morte, em 1727, depois de uma dolorosíssima agonia de 33 dias que culminou numa profunda alegria, tanto que suas últimas palavras foram: “Encontrei o Amor, o Amor deixou-Se contemplar!” (Summarium Beatificationis, 115-120). No dia 9 de julho, deixa a morada terrena para encontrar-se com Deus. Tem 67 anos, 50 deles vividos no mosteiro da cidade de Castello. É proclamada Santa em 26 de maio de 1839 pelo Papa Gregório XVI.

Verónica Juliani escreveu muito: cartas, relações autobiográficas, poesias. A fonte principal para reconstruir o seu pensamento é, no entanto, o seu Diário, iniciado em 1693: são 22 mil páginas manuscritas, que abrangem 34 anos de vida em clausura. A escritura flui espontânea e contínua, não existem riscos ou correções, nenhum sinal de interrupção ou distribuição do material em capítulos ou partes de acordo com um padrão predeterminado. Verónica não desejava compor uma obra literária; na verdade, foi obrigada a colocar por escrito suas experiências pelo Padre Jerónimo Bastos, religioso das Filipinas, de acordo com o Bispo diocesano Antonio Eustachi.

Santa Verónica possui uma espiritualidade marcadamente cristológico-esponsal: é a experiência de ser amada por Cristo, Esposo fiel e sincero, e de desejar corresponder com um amor sempre mais envolvido e apaixonado. Nela, tudo é interpretado através da chave do amor, e essa lhe dá uma profunda serenidade. Cada coisa é vivida em união com Cristo, por amor seu, e com a alegria de poder demonstrar a Ele todo o amor do qual é capaz uma criatura.

O Cristo ao qual Verónica está profundamente unida é aquele sofredor, da paixão, morte e ressurreição; é Jesus no ato da oferta ao Pai para salvar-nos. Dessa experiência, deriva também o amor intenso e sofredor pela Igreja, na dupla forma da oração e da oferta. A Santa vive nesta ótica: ora, sofre, busca a “pobreza santa”, como expropriação, perda de si (cfr. ibid., III, 523), propriamente para ser como Cristo, que doou tudo de si mesmo.

Em cada página dos seus escritos, Verónica recomenda algumas pessoas ao Senhor, oferecendo suas orações de intercessão com a oferta de si mesma em cada sofrimento. O seu coração se dilata a todas “as necessidades da Santa Igreja”, vivendo com ansiedade o desejo da salvação de “todo o universo” (ibid., III-IV, passim). Verónica grita: “Ó pecadores, ó pecadoras… todos e todas, vinde ao coração de Jesus; vinde lavar-vos no seu preciosíssimo sangue… Ele vos espera com os braços abertos para abraçar-vos” (ibid., II, 16-17). Animada por uma ardente caridade, dá às irmãs do mosteiro atenção, compreensão, perdão; oferece as suas orações e seus sacrifícios pelo Papa, o seu bispo, os sacerdotes e por todas as pessoas necessitadas, incluindo as almas do purgatório. Resume sua missão contemplativa nestas palavras: “Nós não podemos andar pregando pelo mundo para converter almas, mas somos obrigados a orar continuamente por todas as almas que estão a ofender a Deus… particularmente com os nossos sofrimentos, ou seja, com um princípio de vida crucificada” (ibid., IV, 877). A nossa Santa cumpre essa missão como um “estar em meio” aos homens e Deus, entre os pecadores e Cristo Crucificado.

Verónica vive de modo profundo a participação no amor sofredor de Jesus, certa de que o “sofrer com alegria” seja a “chave do amor” (cfr ibid., I, 299.417; III, 330.303.871; IV, 192). Ela evidencia que Jesus padece pelos pecados dos homens, mas também pelos sofrimentos que os seus servos fiéis haveriam de suportar ao longo dos séculos, no tempo da Igreja, propriamente através de fé solida e coerente. Escreve: “O Eterno Pai Lhe fez ver e sentir naquele ponto todos os sofrimentos que haveriam de padecer os seus eleitos, as almas Suas mais queridas, isto é, aquelas que saberiam aproveitar do Seu Sangue e de todos os Seus sofrimentos” (ibid., II, 170). Como disse o Apóstolo Paulo de si mesmo: “Agora me regozijo no meio dos meus sofrimentos por vós, e cumpro na minha carne o que faltou às aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a Igreja” (Col 1,24). Verónica chega a pedir a Jesus para ser crucificada com Ele. “Em um instante – escreve –,vi sair de Suas santíssimas chagas cinco raios resplandecentes; e todos vieram em minha direção. E eu via esses raios transformarem-se em pequenas chamas. Em quatro haviam pregos; e em um havia uma lança, como de ouro, toda inflamada: e me passou o coração, de lado a lado… e os pregos passaram as mãos e os pés. Eu senti grande dor; mas, na mesma dor, me via, me sentia toda transformada em Deus” (Diário, I, 897).

A Santa está convencida de participar já no Reino de Deus, mas, ao mesmo tempo, evoca todos os Santos da pátria celeste para que venham ajudá-la no caminho terreno da sua doação, em expectativa da bem-aventurança eterna; é essa a constante aspiração de sua vida (cfr ibid., II, 909; V, 246). Em comparação às pregações da época, centrada não raramente na “salvação das almas” em termos individuais, Verónica mostra forte sentido “solidário”, de comunhão com todos os irmãos e irmãs em caminho rumo ao Céu, e vive, reza, sofre por todos. As coisas penúltimas, terrenas, no entanto, ainda que apreciadas no sentido franciscano como dom do Criador, resultam sempre relativas, em tudo subordinadas ao “gosto” de Deus e sob o sinal de uma pobreza radical. Na communio sanctorum, ela esclarece sua doação eclesial, bem como o relacionamento entre a Igreja peregrina e a Igreja celeste. “Os Santos todos – estão lá em cima através dos méritos e da paixão de Jesus; mas a tudo aquilo que fez Nosso Senhor, esses cooperaram, de modo que suas vidas foram ordenadas, reguladas pelas mesmas obras (suas)” (ibid., III, 203).

Nos escritos de Verónica, encontramos muitas citações bíblicas, algumas vezes de modo indireto, mas sempre pontual: ela revela familiaridade com o Texto sacro, do qual se nutre a sua experiência espiritual. Nota-se, também, que os momentos fortes da experiência mística de Verónica não são nunca separados dos eventos salvíficos celebrados na Liturgia, onde há um lugar particular para a proclamação e a escuta da Palavra de Deus. A Sagrada Escritura, assim, ilumina, purifica, confirma a experiência de Verónica, tornando-a eclesial. Por outro lado, no entanto, exatamente a sua experiência, ancorada na Sagrada Escritura com intensidade incomum, guia a uma leitura mais profunda e “espiritual” do mesmo Texto, entra na profundidade escondida do texto. De fato, ela não somente se exprime com as palavras da Sagrada Escritura, mas realmente também vive por essas palavras, tornam vida n’Ela.

Santa Verónica Juliani convida-nos a fazer crescer, na nossa vida cristã, a união com o Senhor no ser pelos outros, abandonando-nos à Sua vontade com confiança completa e total, e a união com a Igreja, Esposa de Cristo; convida-nos a participar do amor sofredor de Jesus Crucificado pela salvação de todos os pecadores; convida-nos a ter o olhar fixo no Paraíso, meta do nosso caminho terreno, onde viveremos junto a tantos irmãos e irmãs a alegria da comunhão plena com Deus; convida-nos a nutrir-nos cotidianamente da Palavra de Deus para aquecer o nosso coração e orientar nossa vida. As últimas palavras da Santa podem ser consideradas a síntese da sua apaixonada experiência mística: “Encontrei o Amor, o Amor deixou-Se contemplar!”.

 

Liturgia das Horas e Hino a Santa Verónica Juliani