Obrigado por adversidades políticas e sociais do tempo, a viver grande parte de sua existência, fora do convento e ausente da vida de fraternidade, o frei José tinha integrado a tal ponto os valores da vida capuchinha, que sempre se manteve fiel ao que havia professado, mesmo migrando de um domicílio a outro, em condições extremamente difíceis. Por onde passou soube inserir-se e pôr-se ao serviço das pessoas a ele confiadas. Ele deixava-se tocar pela necessidade do povo, com ações concretas e eficazes.

O Beato José Tous y Soler nasceu no século XIX e viveu a maior parte de sua vida em Espanha. O século XIX caracterizou-se pela instabilidade política, social e económica, pela supressão das Ordens religiosas e de quando em vez, uma perseguição contra a Igreja, com prisão, expulsão dos religiosos dos seus conventos, e, para muitos, a experiência do exílio forçado. Nos anos mais dramáticos houve tumultos e violentos conflitos, com a destruição de igrejas. A Espanha iniciou o século sendo invadida pela França e encerrou-o com guerras de além mar e a perda das últimas colónias do império.

Nesta intricada situação político-social e num ambiente fortemente anticlerical, a Igreja espanhola caracterizou-se, em todo o século XIX, por um florescimento de fortes personalidades, que souberam enfrentar com a audácia da fé e um intenso empenho no âmbito educativo e caritativo, os desafios advindos das mudanças culturais e sociais, particularmente na Catalunha, onde viveu o nosso Beato.
José Tous y Soler, nasceu em Igualada, província de Barcelona e diocese de Vic, a 31 de março de 1811, ele era o nono dos doze filhos de Nicolás Tous Carrera e Francisca Soler Ferrer, uma família abastada, de profundas raízes cristãs. Um dia após o seu nascimento foi baptizado na igreja paroquial de Santa Maria de Igualada, com os nomes de José-Nicolás-Jaime. Em 1817, segundo o costume do tempo, recebeu o crisma e em 1818 fez a primeira comunhão.

O papel da família na vida e na formação do pequeno José foi fundamental. Foi ali que ele recebeu os primeiros germes da fé, do amor e do temor de Deus, que com o tempo haveriam de produzir nele frutos de autêntica santidade.

Em 1820, a família de José transferiu-se para Barcelona, em busca de uma melhor situação de trabalho. Foi ali que o futuro Beato conheceu os capuchinhos e pediu para ser admitido na Ordem. Em 18 de fevereiro de 1827, aos 16 anos de idade, vestiu o hábito capuchinho no noviciado de Sarriá, convento conhecido como "o deserto". Desde os anos de sua formação inicial revelou-se um religioso de grande virtude. Os testemunhos dos irmãos falam da sua exemplaridade no recolhimento, da sua sólida piedade, da sua pronta obediência, da humildade, da pureza e da sua plena fidelidade ao carisma franciscano-capuchinho.

Em 19 de fevereiro de 1828 Frei José emitiu os votos religiosos e em seguida estudou filosofia e teologia nos conventos de Calella de la Costa, de Gerona, e de Valls. Em 1 de junho de 1833 recebeu o diaconato em Tarragona e no dia 24 de maio de 1834 foi ordenado sacerdote por Dom Pedro Martínez de San Martín. Pouco depois foi enviado ao convento S. Madrona em Barcelona, onde se distinguiu pela fidelidade ao ministério sacerdotal e por uma profunda vida interior, alimentada por uma íntima relação com Jesus crucificado, com Jesus Eucaristia e com Maria, a Mãe do Bom Pastor, devoções que marcaram profundamente a sua vida.

No convento de S. Madrona o surpreendeu a revolta social de 1835. Em junho desse mesmo ano, por causa da supressão dos conventos decretada pelo governo, ele foi encarcerado com seus confrades na fortaleza de Monjuic, em Barcelona. Libertado depois de 18 dias, iniciou o duro caminho do exílio, que o levou primeiro à França e em seguida ao norte da Itália. Em 1836 retornou à França, residindo em Grenoble, Marselha e na diocese de Tolosa. Ali completou os estudos de moral, conseguindo o título de pregador, segundo as normas então estabelecidas pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Neste período exercitou o ministério sacerdotal como capelão das monjas Beneditinas da Adoração Perpétua.

Frei José, embora obrigado a residir fora do convento e empenhado em intensa atividade pastoral, permaneceu sempre um autêntico frade capuchinho, vivendo como pobre, cultivando a humildade, o amor ao silêncio, à vida de oração e dedicando-se às necessidades materiais e espirituais de quantos encontrava.

Dois testemunhos excepcionais, nos referem seu apostolado e a sua vida de piedade nos anos de exílio na França. O bispo de Tolosa, Dom Paul D'Artrós, em um atestado de 28 agosto de 1842, assim escrevia: "Atestamos e certificamos que o nosso dileto em Cristo, José Tous, presbítero espanhol, residente em nossa cidade metropolitana há cerca de seis anos, pela pureza de fé, integridade de costumes e a excelência nas virtudes eclesiásticas, mereceu a estima de todos, por este motivo afirmamos que o dito sacerdote, seja acolhido da melhor maneira possível, de modo benigno seja onde for e admitido à celebração da Santa Missa, salvo a permissão do Superior competente (Positio, vol. II, p. 180). Igualmente as religiosas Beneditinas, das quais foi capelão, atestam com firmeza no seu livro das Crônicas a sua vida de devoção, a piedade e o amor à pobreza. Elas escrevem: "Ele leva consigo o nosso afeto".

Em 1843 ele retornou à Espanha com a esperança de reintegrar-se na vida conventual capuchinha, mas as leis 'liberais' do tempo o impediram. Foi então residir com a sua família, permanecendo sempre fiel ao estilo austero e penitente da vida capuchinha. Exerceu o ministério sacerdotal na paróquia de Esparragure (Barcelona), como coadjutor e a partir de 1848, na paróquia de São Francisco de Paula, também em Barcelona. Mostrou-se sempre alegre no viver a sua consagração a Deus, mesmo quando teve de enfrentar tribulações, angústias e até injúrias à sua pessoa de sacerdote e religioso.

Foi na paróquia de São Francisco de Paula que o nosso Beato compreendeu o quanto a infância e a juventude de seu tempo estavam em estado de abandono, tanto espiritual como material, exatamente "como ovelhas sem Pastor" (Mt 9,36). Assumiu então o serviço de Diretor espiritual da "Pia Associação da gloriosa e pequena mártir santa Romana", promovendo a veneração à Mãe do Bom Pastor.

Solicitado por algumas jovens da Associação, que lhe pediam para empenhar-se no serviço de educação cristã das crianças e das jovens, em março de 1850 ele fundou o Instituto das Irmãs Capuchinhas da Mãe de Deus do Divino Pastor. No dia 27 de maio de 1850 foi inaugurada a primeira casa do novo Instituto, em Ripoll (Gerona) e em 1858 foi aberta em Capellades (Barcelona) aquela que se tornaria a Casa Mãe do novo Instituto. Em seguida foram abertas as casas de San Quirico de Besora (Barcelona, 1860), Barcelona (1862) e Ciempozuelos (Madrid, 1865). Frei José redigiu pessoalmente as Constituições do Instituto que fundou e apresentou-as ao bispo de Vic Dom Luciano Casadevall. Nelas estão bem claros os dois pontos de apoio sobre os quais surgiu a nova família religiosa: a devoção a Maria, Mãe do Divino Pastor e o serviço educativo à infância e à juventude.
O Instituto cresceu e se desenvolveu rapidamente acompanhado pela constante solicitude pastoral de frei José, que dedicou-se em particular à formação espiritual das religiosas. Em 1888 o Instituto recebeu o Decretum laudis e em 1897 a aprovação. Em 1905 ele foi agregado à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.

Frei José encontrou a irmã morte no dia 27 de fevereiro de 1871, enquanto celebrava a Eucaristia no colégio da Mãe do Divino Pastor em Barcelona. Podemos dizer que a sua vida, verdadeiramente foi a celebração contínua do Mistério da Santa Missa. Com a sua morte apagava-se a luz de um "santo religioso", autêntico filho de Francisco de Assis.

Papa Bento XVI, ao declarar Beato frei José Tous y Soler, apresenta-o como um religioso íntegro, inteiramente dedicado à execução de sua missão, para a gloria de Deus e para o bem da Igreja. Um religioso dedicado ao silêncio, à oração e amante da contemplação. Um capuchinho penitente, fiel ao carisma franciscano embora vivendo, contra a sua vontade, fora do convento. Um homem austero e ao mesmo tempo generoso com os outros. Um sacerdote preocupado com a salvação das almas e particularmente sensível às necessidades da juventude feminina, dos enfermos e dos pobres, dócil e obediente aos seus Superiores.

Seu amor incondicional a Cristo e à Igreja enriqueceu o velho tronco da Família Capuchinha de um novo ramo, as Irmãs Capuchinhas do Divino Pastor.

Frei Mauro Jöhri, Carta Circular (Prot. N. 00359/10) a todos os Frades da Ordem

 

Oração

Senhor, que destes ao bem-aventurado José Tous y Soler a graça de imitar fielmente a Cristo pobre e humilde, fazei que também nós, vivendo plenamente a nossa vocação, caminhemos para a santidade perfeita, à imagem de Jesus Cristo, vosso Filho, Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Liturgia das Horas e Hino ao Beato José Tous y Soler

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