«Quanto a Maria, conservava todas estas coisas,

ponderando-as no seu coração.» (Lc 2,19)

Nesta reflexão tudo vai andar à volta da palavra: Discípula da palavra, Mãe da palavra, leitura da palavra, meditação da palavra. Certo que da palavra de Deus; certo também que da palavra em Maria; mas sempre da palavra. Por isso, convenci-me de que pouco ajudaria falar de nós e de Maria sem antes falar dela, da palavra.

Seria ótimo cada um de nós fazer uma rápida viagem através dos inúmeros quilómetros dos seus nervos cerebrais, e situar-se, por uns minutos, no centro da linguagem. Deve ser lá que estão arquivadas todas as nossas palavras: as palavras ouvidas, lidas, gaguejadas, pronunciadas, soletradas, as de todo o momento, as incompreendidas, as que temos sempre na ponta ou debaixo da língua, as que ocultamos sob a capa da mentira, ou rejeitamos inconscientemente porque nos renovam feridas antigas e incuráveis...

Já nem falamos dos timbres e entoações com que cada termo pode ser dito, e que acabam por dar a um simples “bom dia” uma infinidade de significados, como é diferente a musicalidade de cada povo, de cada indivíduo e de cada momento. Nem da imensa multidão de outros sinais talvez mais significativos, mas menos localizáveis, como os nossos gestos e tiques dos olhos, das mãos, dos pés, do corpo inteiro...

Se da quantidade passássemos à qualidade das palavras que alguma vez se imprimiram ou se exprimiram da nossa consciência, que surpresas, e que cautelas!

A PALAVRA: TÃO GRÁGIL E TÃO FORTE

É tão belo falar, e tão fácil errar! Tão raro subir à sublimidade da palavra! Tão frequente cair em heresia, por mau pensar, por mau dizer, e ainda por cima sem pecado! Sei lá a sorte das palavras que estou a dizer-vos, num tempo de tantos medos e expectativas! Veja-se a força e o perigo das palavras na Palestina, no Afeganistão, no Iraque, no Sudão, em todo o mundo islâmico, nos novos movimentos religiosos, e nas novas milícias cristãs: um enxame de palavras convocando para a luta, às vezes com acentos de cruzadas medievais! Num tempo em que a palavra se banaliza, ao ponto de ninguém acreditar em ninguém, como se tem queixado João Paulo II, não será arriscado ousar refletir sobre a Palavra de Deus, tão frágil que não pode dizer-se sem as nossas palavras, e tão forte que sempre está para além delas? Luciano Guerra

 

I. Origem e fim: valor da PALAVRA

Tudo o que conhecemos de Deus se nos torna acessível pela semelhança que as coisas naturais, logo também as palavras, manifestam com as sobrenaturais. Por isso é muito útil conhecermos a natureza das nossas palavras para conhecermos melhor a palavra de Deus. Inversamente, quanto melhor descobrirmos a natureza e valor da palavra de Deus, melhor perceberemos o que vale a nossa.

Quando o povo diz «é a falar que a gente se entende» quer dizer um entendimento ou um encontro que pode ir muito para além da troca de palavras para intercâmbio de ideias. Essa expressão significa que, ao falarem, duas pessoas se aproximam, se unem, se fundem, entram em comunhão real uma com a outra quando, pelas suas palavras, trocam conhecimentos, afetos e ações, e até coisas que existem a milhares de quilómetros ou, no caso que nos interessa, coisas para além da matéria. Grandes compromissos de futuro podem passar através de um juramento, acompanhado ou não de um aperto de mão, ou de uma troca de assinaturas.

• Será essa realidade/eficácia da palavra que JESUS quer inculcar quando proclama, em S. João: «as palavras que Eu vos disse são espírito e vida» (Jo 6,63); ou mais adiante, no sermão da Ceia, ao declarar aos mesmos discípulos: «Vós fostes purificados graças à palavra que vos anunciei» (Jo 15,3).

• Reforça esta ideia da realidade/eficácia da palavra a expressão de St° Agostinho, recolhida num dos Prefácios da Bem-aventurada Virgem MARIA: «Recebendo o vosso Verbo em seu Coração imaculado, Ela mereceu concebê-lo em seu seio virginal.» Da parte de Maria bastou o acolhimento da Palavra eterna de Deus, nos ouvidos, na mente e no coração, para que, sobre essa conceção espiritual, o Espírito Santo realizasse a conceção carnal de Jesus. [1]

• A importância da palavra percebeu-a também Isaías, ao gritar, na visão em que os serafins escondiam o rosto para não se cegarem com o esplendor divino: «Ai de mim, estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, que habita no meio de um povo de lábios impuros, e vi com os meus olhos o Rei, Senhor do Universo.» Como quem diz que, se por um lado sentia a necessidade de comunicar por palavras a ideia com que ficou do Senhor que seus olhos viram, por outro sentia que os seus lábios não eram capazes de tão alta missão. Só depois de a brasa ardente do turíbulo sagrado tocar a sua boca é que ele ousou oferecer-se para mensageiro da palavra de Deus: «Eis-me aqui, envia-me» (Is 6,1 ss). [2]

 

II. Contingência e DRAMATICIDADE da palavra e da ideia

A palavra não tira a sua natureza diretamente da realidade mas da ideia. A origem ou matriz da palavra é a ideia. A palavra, no seu sentido mais lato, é o meio ao qual recorremos para levamos aos outros a ideia que temos acerca da realidade.

Como não podemos pegar na nossa ideia, digamos com uma pinça, e transplantá-la para a cabeça dos outros, inventamos qualquer coisa, um som, um gesto, que possa transpor a distância que nos separa sempre dos outros, e que eles sejam capazes de captar. Enviamos assim a nossa ideia para a cabeça dos outros através dos seus ouvidos, olhos, pele, músculos, na esperança de que possa chegar mais dentro e inserir-se no depósito, no sistema ou na amálgama das suas ideias. É assim que a palavra possibilita a comunicação de ideias, a que chamamos conversa ou diálogo, e que agora vai muito mais longe do que a voz humana, através dos modernos meios de comunicação.

Se da troca de palavras entre humanos passarmos à palavra de Deus para nós e de nós para Deus, a realidade parece tornar-se ainda mais complexa. Sobretudo pelo grau de disparidade entre as ideias da criatura e as do Criador; conforme se lê em Isaías: «Os meus planos não são os vossos planos. Tanto quanto os céus estão acima da terra, assim os meus caminhos são mais altos que os vossos.»

A antiga VULGATA traduz "planos" por "cogitationes", cogitações, o mesmo que desígnios e ideias. As ideias de Deus, infinitamente mais altas, só de longe se deixam apreender na natureza tão frágil das nossas.

No Evangelho conhecemos a tremenda crise por que passaram os discípulos mais próximos de Jesus, quando Ele lhes anunciou o Pão da Vida: «Que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto?» (Jo 6,60). Pedro, noutra ocasião, apesar do imenso respeito que tinha por Jesus, sentiu a obrigação de chamá-lo à parte para o censurar pelo anúncio inconcebível da cruz (Mt 16,22). Todos, mesmo os mais espirituais, mesmo os mais familiares dos textos sagrados, acabamos por ir forjando uma ideia própria de Deus, mais ou menos à imagem das nossas possibilidades, convicções e comportamentos.

 

III. O drama no ACOLHIMENTO da revelação

Identificar a voz de Deus até acreditar que é Ele que está por trás das contingências de toda a Bíblia, das definições dogmáticas, do ensino catequético e teológico que até hoje chegou a cada um de nós, de todos os sinais dos tempos, e dos sinais da nossa vida pessoal, pode ser a prova mais dramática no acolhimento da revelação.

 

A PALAVRA DE DEUS SUJEITA-SE À CONTINGÊNCIAS E DRAMATICIDADE DA PALAVRA HUMANA

Quem não experimentou mil vezes na vida, a dificuldade de entender uma palavra, um discurso, um livro, vindos de alguém que até pode ser nosso conhecido e amigo? Como é difícil descobrir o que uma palavra pode dizer, ultrapassar a imprecisão do mais ou menos, entrar na subtileza dos sinónimos que o são só na aparência, mesmo quando se consegue chegar ao étimo mais original, que é onde se esconde o ADN da palavra! Nem que conhecêssemos todos os sentidos que a "mesma" palavra transmitiu pelos milénios fora, em todas as bocas e todas as vezes que foi pronunciada.

A esta diversidade de fatores, e a esta sujeição da palavra ao mais ou menos, sujeita-se a própria palavra de Deus. Uma mesma palavra tende a criar em nós uma mesma fé, como tão veementemente pede o Senhor Jesus e insistem os seus apóstolos. E de facto cria. Mas essa mesma fé não deixa de ser afetada pela dramaticidade que faz com que muitas vezes não seja a mesma, ao ponto de um sim querer dizer não, e vice-versa. Até ao ponto de, segundo a parábola do semeador, a dramaticidade nas condições da captação da palavra poder chegar à tragédia de uma total ineficácia (Mt 13).

Falamos da contingência e dramaticidade da palavra, de toda a palavra, e sobretudo da palavra de Deus, na sua passagem para nós, e dos obstáculos que tem de passar até se enraizar no nosso coração ao ponto de o tornar santo – em medida que pode ir do quase nada daqueles cuja fé não chega a ser como um grão de mostarda, até à plenitude que só encontramos em Maria. Luciano Guerra

 

Aconteceu suavemente com o pequeno SAMUEL e seu mestre Eli (1 Sm 3), menos suavemente nas anunciações a ZACARIAS, pai de João Baptista, e mesmo a MARIA, que não puderam passar sem pedir esclarecimentos.

Acontece, talvez sempre, com os verdadeiros VIDENTES - que os falsos convencem-se eles a si mesmos, na maior tranquilidade, como se Deus estivesse ao alcance da sua própria imaginação.

Acontece com os grandes MÍSTICOS, em noites tremendas de trevas e desespero.

Aconteceu com a vidente de Fátima, a pequena Uca de dez anos, num pesadelo noturno, em Julho de 1917: vendo-se prisioneira das garras do Demónio, chegou a decidir não voltar à Cova da Iria, porque o pároco lhe dissera na véspera que na origem das suas visões poderia estar o «pai da mentira».

E alguém pode imaginar a angústia de ABRAÃO, levantando o cutelo para sacrificar a Deus aquele filho único, que tão miraculosamente o mesmo Deus lhe concedera? Não estava Deus a contradizer-se? Ora a contradição seria a prova da sua não existência.

O que desejaríamos como atitude diante da palavra do Senhor seria que, uma vez identificada a palavra do Senhor, se seguisse a total identificação da nossa própria palavra com a palavra divina. Isto porque por essa identificação nos uniríamos diretamente a Ele, na comunhão que faz a felicidade sem sombra nem véu.

 

IV. MARIA primeira discípula do Senhor

Neste contexto, é sempre oportuno saber como acolheu Maria a palavra de Deus, como é que a palavra a levou à total unidade com Ele, e como pode-mos nós imitá-la.

Como podemos olhar para a Mãe de Jesus como a mais fiel discípula da palavra divina? Se, mesmo em clima de respeito e adoração, vemos a espessura da humanidade de Jesus, em momentos dramáticos como a agonia no jardim das Oliveiras, com mais razão temos de encarar, em Maria, a dramaticidade da contingência, que afeta todo o ser humano, até na sua relação com Deus, e portanto também na receção da palavra divina. Maria sofreu as consequências do pecado original, mesmo não o tendo contraído.

Assim: não teve ela que interpretar textos que poderiam ler-se de vários modos, ou teriam mesmo chegado até ela em mais que uma versão? Gozou ela sempre de certeza e infalibilidade, na leitura das Sagradas Escrituras? Não terá o seu entendimento da palavra de Deus sofrido das limitações naturais do seu intelecto? Se Jesus cresceu, também ela certamente.

Mesmo situando-se no caso da semente que rendeu a cem por um, não foi tentada a resistir-lhe? Seu Filho, que era Deus, sofreu terríveis tentações quando mais tempo dedicava à oração, no deserto. Não sentiu Ela o obstáculo do corpo nessa luta constante que São Paulo tanto viveu e que, alguns séculos antes, inspirara a Platão a estranha solução de um outro mundo, só de ideias, que, por serem puras, não podiam compor-se com qualquer matéria e nem com qualquer corpo, por mais perfeito que fosse?

De que grau de obscuridade nasceram as duas ou três perguntas que se narram na Anunciação e na perda de Jesus em Jerusalém? São Lucas observa que «eles [Maria e José] não compreenderam as palavras que [Jesus] lhes disse» (Lc 2,50). Mas essas palavras eram palavra de Deus! Nesses momentos de ansiedade, não lhe terão vindo lágrimas aos olhos por não perceber a palavra de vida eterna?

Como lia ela as sugestões do Espírito de Deus, no diálogo com São José, e outros homens e mulheres de Deus, na atenção permanente aos boatos contraditórios acerca de seu Filho, e nos complexos acontecimentos da história que a envolvia? Por outras palavras, como foi Maria descobrindo a luz / evidência de Deus nos acontecimentos ou sinais dos tempos, a começar pelos da sua própria vida corporal, então como sempre outro lugar teológico?

■ Foi bom colocar no subtítulo título desta conferência o termo meditação. Agrada-nos muito de facto que São Lucas tenha referido que Maria gostava de meditar. Isso permite-nos concluir com algumas frases sobre outra das condições a propósito da parábola do semeador.

Nem sempre nos apercebemos, mas há umas quantas palavras que ouvimos ao longo da vida, e que nunca mais chegamos a esquecer. Terá sido o pai que no-las disse, um desconhecido viandante, um livro, ou uma criança... Teremos notado a singularidade da frase, ter-nos-á então passado despercebida a incisão que provocou em nós... Mas o certo é que não esquecemos. Talvez pela grande luz, grande prazer ou grande dor que tais expressões ou tais gestos provocaram em nós, eles ficaram-nos gravaram-se indelevelmente, como recursos da memória e princípios orientadores de comportamentos.

Em contraposição, se alguém ousasse perguntar-nos de chofre o que lembramos de tal conferência ou de tal livro, recentes ou não, talvez não conseguíssemos tirar nada. Qual a diferença, se em ambos os casos se tratou de palavras lidas ou ouvidas? A diferença parece situar-se no grau de profundidade com que as palavras se podem gravar em nós. Pela realidade física e a linguagem vulgar se compreende que pode haver graus muito diferentes de profundidade, até na matéria subtil do nosso sistema nervoso. E que quanto mais profunda é a palavra, mais duradoura a sua permanência, a sua duração.

A permanência de uma palavra na consciência pode ir desde um momento muito fugaz, quase não existente, que foi o da semente que caiu no asfalto da estrada, até à da palavra indelével, como a do Shemá que Deus quis escutado, inscrito no coração, repetido, refletido em quatro das posições corporais (sentado, ao caminhar, deitado, ao levantar,) atado ao braço, gravado em filactérias entre os olhos, sobre as umbreiras das casas e nas portas, ensinado aos filhos (Dt 6,4-9; 11, 13-21; Nm 15,37-41. São doze circunstâncias em ordem à fixação / indelebilidade / permanência. Jesus insiste em São João na necessidade da permanência.

Jesus insiste em São João na necessidade da permanência: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15,4ss). Esta permanência realiza-se centralmente na consciência, na memória, no coração, na ideia, e está tanto mais assegurada quanto mais profunda for a incisão ou impressão no tecido do conhecimento.

Qual o segredo da profundidade da ideia ou do conjunto de ideias que suportam o conhecimento que temos de uma pessoa? São João usa o verbo conhecer para designar todo o percurso das nossas relações cognitivas, até chegar ao mais profundo amor: quem ama conhece e quem conhece ama. Se alguém diz que conhece e não ama, ou se engana ou é mentiroso (ver 1 Jo 2,4; 4,7).

■ Porque é que Nossa Senhora guardava no coração as coisas referentes a seu Filho? Porque era sua mãe e às mães os filhos dão o maior gosto que podem receber na terra. Por isso são eles o objeto preferido para a sua leitura e meditação. E se para nós é claro que a relação de Maria com seu Filho vai para além das forças da natureza, pelas várias razões de fé que nela agiam, então torna-se lógico admitir que a sua leitura e meditação da palavra de Deus estava afetada de uma profundidade muito superior à de uma simples maternidade humana.

 

LER E MEDITAR

Merecem atenção os dois verbos ler e meditar, na medida em que têm a ver com a profundidade ou seriedade do conhecimento de Jesus em Maria.

LER significa recolher, de um livro, de uma tábua, de um texto, alguma palavra que possa alimentar o nosso conhecimento. De si mesmo o verbo ler não fala de profundidade, admitindo que tanto se pode ler com o máximo como com o mínimo de atenção, e que esta e as restantes condições podem ser de molde a provocar uma mínima ou máxima profundidade do conhecimento. Segundo o que acima dissemos do processo inculcado por Deus para a fixação do Shemá, quando queremos reforçar a atenção recorremos a vários meios: o redobrar voluntário do esforço da atenção, a repetição da leitura, o alongar do tempo que damos a cada palavra...

Em todos os processos de fixação, o tempo de contacto com o objeto do conhecimento é muito importante, admitindo-se que quem passa mais tempo com uma coisa acaba por conhecê-la e amá-la melhor. É conhecida a frase de St Exupéry, que cito de memória: «O que faz com que a minha rosa seja tão importante para mim é o tempo que eu gasto com a minha rosa.»

■ Assim adquire lugar de primazia o verbo MEDITAR, que nos é dado no título. Prescindindo da etimologia, é evidente que meditar implica demorar a atenção, dando mais interesse a um objeto, a uma pessoa, ou a Deus. De Maria, São Lucas diz duas vezes que ela guardava todas aquelas coisas no coração; e uma vez que, além disso, ela as conferia no mesmo coração (Lc 2,19.51).

Conferir diz ainda mais que meditar: diz comparar, diz pôr ideias e experiências diversas, e mesmo da maior diversidade, umas junto das outras, para ver em que se acordam, se não se contradizem, se podem entrelaçar-se num corpo harmonioso capaz de perdurar por toda a vida.

Conferir é o que a Igreja tem procurado fazer ao longo destes dois mil anos de meditação da palavra de Deus: conferir livros com livros, testamento com testamento, versão com versão, frase com frase, ditos com ações, apóstolos com apóstolos, cartas com evangelhos. Esta é uma tarefa primordial da Igreja, que deverá continuar até ao fim dos tempos. Por isso são tão louvados os que a ela se dedicam na plenitude dos seus dons, não só com a inteligência, não só com o coração, não só com os dados das ciências experimentais, não só na teoria mas também na prática, não só com a própria razão de hoje mas com a razão ou tradição dos que nos precederam. Luciano Guerra

Qual foi em Maria o resultado da sua leitura e meditação, tão singulares corno singular foi o dom da sua imaculada Conceição e maternidade divina? Um culto puro, urna união perfeita, capaz da glória definitiva do Céu, que lhe foi oferecida na sua Assunção gloriosa.

Em termos ontológicos diremos que, no meio das inumeráveis e permanentes vicissitudes da sua vida, Maria conseguiu realizar na Terra o milagre da unidade total na total multiplicidade. Ela resolveu a complexidade sem complicação.

Por graça singular de Deus, ela conheceu a harmonia que liga todas as coisas, todas as palavras, todos os conhecimentos, interesses e ações, mesmo aqueles que mais mistério manifestam e mais conflitos provocam. Ela poderia converter o dito de Jesus a Marta «uma só coisa é necessária» num outro equivalente: é necessário que todas as coisas se unam numa só.

O que podemos nós aprender de Maria? Um bocadinho da docilidade que a levou a tão alta perfeição. Abrir-nos a toda a palavra do Senhor, acolhê-la, guardá-la e meditá-la com a melhor docilidade de que formos capazes, nomeadamente a palavra mais misteriosa, que será sempre a da cruz, que tão facilmente convertia já alguns dos primeiros cristãos em inimigos de Cristo.

Quanto mais profundo for o «conhecimento», mais verdadeiro será e mais conducente à união/comunhão de tudo, em nós e em Deus.

 

Publicado na Revista Bíblica nº 298 (2005) pp.43-48.

(Na ocasião, Mons. Luciano Guerra era ainda Reitor do Santuário)

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