Leituras: 1ª: Ex 3,1-8a.13-15. Salmo 103/102,1-4.6-8.11. R/ O Senhor é clemente e cheio de compaixão. 2ª: 1 Cor 10,1-6.10-12. Evº: Lc 13,1-9. III Semana do Saltério

Julgais que as centenas de pessoas que morreram em Moçambique e os milhares de famílias desalojadas, numa tragédia cuja real dimensão só agora se começa a conhecer verdadeiramente, eram mais pecadores do que nós? Eu digo-vos que não. Nem os galileus que Pilatos mandou matar, nem os 18 homens esmagados na queda da torre de Siloé, nem as 157 pessoas que morreram na queda de um Boing 737 Max, na Etiópia, no passado dia 10, eram mais pecadores do que nós.

Os acidentes, a doença, o sofrimento dos inocentes, a dor, a morte existem. Até o nosso Deus é um “Deus ferido”!

O que estas tragédias acentuam é a urgência de nos voltarmos para Deus, de, num caminho pautado pela solidariedade humana, nos convertermos a Ele. E quanto mais depressa dermos frutos melhor.

«Quem julga estar de pé tome cuidado para não cair», avisa-nos São Paulo na segunda leitura. Quem julga estar de pé, quem julga produzir já bons frutos, quem julga já levar uma vida que agrada a Deus, uma vida santa… cuidado para não cair.

Teremos ainda três anos? Teremos apenas um? O melhor é metermos pés ao caminho, como Moisés. Vamos ao deserto. Mas não fiquemos por lá. Vamos para lá do deserto, ao Horeb, ao monte de Deus, contemplar a sarça ardente, implorar ao Senhor que nos abrase e renove com o fogo do seu amor. É Deus que se recusa a contemplar ao longe a nossa miséria mas se abeira de nós, se apresenta, condição de uma relação possível, «Eu sou ‘Aquele que sou’», e se enche de compaixão e misericórdia para connosco.

Mas espera,… «tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada». A terra que pisas é adamah, Adão, Homem, terra humanizada, terra não para ser pisada com pés de conquistador mas de quem quer sentir com os pés nus a “sacralidade intensa dessa terra” (Pikaza), a comunhão com todos os homens, com toda a criação, com Deus. Essa terra – adamah – é também o teu irmão, aquele que dá fruto e o que ainda não dá.

Diante de uma árvore que não dá fruto ou dá pouco fruto nós podemos ter duas atitudes possíveis:

1) Ou adubamos e regamos e esperamos com toda a paciência que dê fruto;
2) Ou estamos ansiosos por cortar e não lhe damos hipótese de vir a dar fruto.

O mesmo se passa com as relações humanas. Há quem tudo perdoe, com paciência, fale com calma e respeito com os outros, seja sério e verdadeiro e encontre a felicidade em fazer o bem. E há quem esteja sempre pronto para criticar, para murmurar, para falar com azedume, cheio de amargura, com vontade de meter tudo e todos no inferno. São duas formas tão diferentes de viver, se é que no segundo caso isso se se possa considerar vida.

Na África do Sul há uma tribo em que as pessoas se saúdam com a palavra Sawubono que significa: eu vejo-te, tu és importante para mim, permito-me descobrir as tuas necessidades, os teus medos e aceitar-te pelo que tu és. Esta saudação é muito diferente do nosso “olá, como estás”, sem sequer esperar resposta, não é?

Quando alguém da comunidade comete algum erro, os seus amigos e familiares fazem um círculo à sua volta, não para o humilhar, mas para lembrá-lo das suas boas ações, das suas virtudes, dos seus sucessos passados, das suas qualidades e ajudá-lo a voltar ao caminho do bem.

Nós somos cristãos, escutamos e comungamos o Senhor, mas pode acontecer às vezes, andarmos ansiosos por cortar uma certa árvore que não nos agrada, obcecados com um ramo seco, incapazes de ver todos os outros carregados de frutos. O problema talvez não esteja nos frutos ou nos ramos secos mas apenas e tão só nos nossos olhos… doentes.

Ontem à tarde fui ao Porto para um encontro de reflexão com os jovens Capuchinhos e no caminho parei na estação de serviço de Modivas, Vila do Conde, e tem lá uma zona grande, plana, de erva baixinha, cheia de flores brancas de primavera, lindas.

Senti que podia fazer duas coisas possíveis:

1) Ir colher algumas, todas as que conseguisse, para as meter numa jarra em casa e ao fim de 5 dias estão secas e já nem as vacas as comem.
2) Ou deixa-las ser o que são, com o seu ciclo próprio, com a sua verdade própria, sem as tentar possuir, apenas contemplar, deixando que a sua beleza me transporte mais uma vez para o monte santo, o Horeb, diante da sarça ardente, e me ajude a rezar com humildade pedindo ao Senhor que me ensine a dar bons frutos e a ter um olhar benigno para com as outras árvores deste jardim onde, quer queiramos, quer não, estamos juntos.

Por isso, não vale a pena andarmos zangados uns com os outros porque nas partilhas que os pais fizeram a bouça do meu irmão tem mais 5 metros do que a minha ou porque determinada pessoa me deu uma palavra que não gostei - se calhar até mal interpretada - ou porque sinto inveja do meu vizinho ou do meu colega porque têm um carro melhor ou uma casa maior.

Queridos irmãos e irmãs, para onde vamos ou para onde queremos ir, nenhuma bouça nem nenhum carro nos acompanha, por isso, no céu, os “conquistadores” são olhados pelos anjos como uns tolinhos. Nós somos adamah, terra humanizada, para ser percorrida com pezinhos de lã, com todo o respeito e ternura.

Estamos juntos, por isso, caminhemos juntos!