Leituras: 1ª: Jr 1,4-5.17-19. Salmo 71/70,1-2.3-4a.5-6ab.15ab.17. R/ A minha boca proclamará a vossa salvação. 2ª: 1 Cor 12,31–13,13. Evº: Lc 4,21-30. IV S. do Saltério

Na segunda leitura de hoje, num dos textos mais belos da Sagrada Escritura sobre o amor, o apóstolo Paulo apresenta a caridade como «um caminho de perfeição»: «A caridade é benigna,... não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa,... não procura o próprio interesse,... não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.»

Não se trata de ações ou sentimentos isolados mas antes parte de uma orientação profunda da pessoa para Deus, parte da vida de todos os dias de quem «aspira com ardor aos dons espirituais mais elevados», parte de quem caminha com o coração ao alto e não de quem rasteja atrás de “likes” no Facebook e no Instagram, cultivando uma imagem falsa de si mesmo com temor da opinião dos outros mas sem temer a Deus, sem assertividade, dizendo e fazendo o que acha que os outros querem.

«A quem é melhor servir, ao Senhor ou ao servo?» perguntou Deus a Francisco de Assis. «Ao Senhor», respondeu Francisco, que desde então iniciou um caminho de conversão e de caridade ao serviço do Senhor que voluntariamente «assumiu a condição de Servo» (cf. Fl 2,7).

O mesmo havia experimentado Jesus na sua própria terra, Nazaré, onde anuncia o cumprimento da Boa-Nova na sua própria vida: «os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres». (Mt 11,5) Mas os seus amigos de infância e conhecidos recusaram aceitar que o seu Deus pudesse ser um Deus que lava os pés aos irmãos. Jesus não se enquadrava na visão judaica de um Deus poderoso. Não se enquadrava na religião feita à medida dos escribas e fariseus. Ainda por cima um Deus que ao invés de usar o seu poder para resolver como por magia os problemas da humanidade, desafiava cada um a percorrer “o caminho das bem-aventuranças”, marcado indelevelmente pela liberdade humana.

Também o profeta Jeremias, como todos os verdadeiros profetas, tinha sido mal acolhido. Mas o Senhor ordena-lhe: «Não temas diante deles (…) levanta-te para ires dizer tudo o que Eu te ordenar».

Jeremias, Francisco de Assis e tantos homens e mulheres que nos precederam, a exemplo de Jesus, dão-nos o exemplo de como devemos ser fortes no caminho do bem, na nossa orientação profunda para Deus, sem medo do que os outros vão pensar ou dizer, pois, como batizados, temos uma missão a cumprir, há bem a fazer, há mal a corrigir, há Boa-Nova a anunciar.

Ao longo dos séculos foram muitos os que acolheram o chamamento de Deus para viverem a sua consagração batismal de forma ainda mais radical. O nome foi variando ao longo do tempo: fuga do mundo, vida de perfeição, vida religiosa… hoje falamos em vida consagrada, homens e mulheres, frades e freiras, que se propõem entregar totalmente a Deus e ao seu Reino, por meio de uma comunidade, procurando viver na “perfeição da caridade”.

Ontem celebramos a festa da Apresentação do Senhor e também o Dia do Consagrado. A vida consagrada, mesmo em tempos como os nossos, continua a ser um Dom de Deus à Igreja e ao Mundo: encontramos estes homens e mulheres, de todas as idades, em missão nos lugares mais recônditos do mundo, a servir os mais pobres, a cuidar dos idosos e dos doentes, a ensinar nas escolas, a valorizar a cultura das pessoas, a trabalhar com emigrantes, sem-abrigo e prostitutas, a trabalhar em campos de refugiados e nas periferias existenciais onde a humanidade se encontra mais ferida do que nunca. Encontramo-los também, anónimos, no silêncio dos mosteiros, onde se louva ininterruptamente a Deus e se reza pelo bem de todos.

Não será por isso de admirar que, apesar das famílias europeias hoje em dia terem poucos filhos, haja ainda alguns jovens que sintam correr-lhes nas veias o desejo de experimentar esta radicalidade evangélica.

Por isso, mais do que nunca, por uma questão de seriedade para com o Senhor que é quem chama e estes jovens que se colocam a possibilidade de uma consagração religiosa, quando rezamos “dai-nos, Senhor, muitas e santas vocações”, devemo-nos questionar: “muitas e santas vocações para quê?”

Para serem meros “recursos humanos” com sangue fresco, capazes de manterem a funcionar as nossas estruturas e instituições, mesmo que já não façam sentido, mesmo que já tenham deixado há muito de ser um sinal da presença de Deus vivo?

Ou, pelo contrário, para lhes dar espaço para se abrirem à voz do Espírito que nos inspira formas novas de serviço e anúncio mesmo que isso implique mudanças significativas na forma de viver e trabalhar das nossas comunidades?

Os jovens que nos batem à porta, sabem que não vão encontrar santos e santas, mas esperam encontrar espaços significativos de silêncio na capela e não de verborreia sobre a chuva ou o granizo, tempos longos de oração comunitária, meditação e diálogo sobre as “coisas de Deus” e não tanto sobre futebol, celebrações litúrgicas cheias de unção espiritual e não o primado da confusão, gente que leva muito a sério o seu trabalho e o trabalho dos outros, gente que aceita de bom grado os serviços mais humildes e com um compromisso muito claro pela justiça social, mormente o trabalho com os pobres, os doentes e na linha da frente no cuidado da criação (ecologia).

Se for para lhes dar essa oportunidade de doação ao Senhor e ao Seu Reino, então também eu rezo com muita força e alegria: “dai-nos, Senhor, muitas e santas vocações”.

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