Leituras: 1ª: Is 60,1-6. Salmo 72/71,2.7-8.10-11.12-13. R/ Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra. 2ª: Ef 3,2-3a.5-6. Evº: Mt 2,1-12.

«Onde está o Rei dos Judeus» perguntaram os Magos, vindos do Oriente. A estrela trouxe-os, afinal, a um sítio demasiado óbvio: Jerusalém, o templo, o monte santo, lugar de peregrinações. Mas o Menino não estava ali e a estrela e os Magos seguiram o seu caminho.

Apesar de saberem que, segundo as Escrituras, Ele haveria de nascer em Belém as autoridades civis e religiosas de Jerusalém ficaram. Descer não era opção. Sabiam mas não o procuravam. Jerusalém alimentava a prática das peregrinações, que lhe rendia fama e dinheiro – era esta a sua estrela –, mas estava fechada em si mesma, incapaz de descer uns meros dez quilómetros em busca do Messias que anunciava.

O Menino que os Magos encontraram não é um Deus encerrado no templo, numa redoma de vidro. É uma criança frágil que, tal como os seus antepassados, daí a pouco irá viver a experiência dolorosa dos refugiados. Quando chegaram ao local e viram o Menino, os Magos prostraram-se diante d’Ele e adoraram-n’O. Depois ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.

Na verdade, pouco sabemos sobre estes Magos: que seriam três – atendendo ao número de presentes entregues –, que seriam Reis, que se chamariam Belchior, Gaspar e Baltasar, e até que os Magos seriam realmente Magos, são tudo elementos plasmados na tradição posterior sobretudo por homens. Não são elementos bíblicos.

Creio que seriam Magos, sim, isto é, pessoas sábias, não no sentido tradicional de homens eruditos, das ciências, sobretudo da astronomia, mas sábios porque não se contentaram com os seus deuses, sábios porque não se iludiram com o que tinham nas suas terras, nem com o que Jerusalém lhes podia oferecer, sábios porque buscaram com sinceridade o Senhor até O encontrarem.

Creio também que tendo as mulheres estado sempre presentes de forma tão evidente ao longo de toda a vida de Jesus, seria de estranhar que os mais sensíveis a intuir a mensagem que lhes chegou por meio de uma estrela fossem apenas homens.

Creio ainda que os presentes oferecidos foram algo secundário. Antes disso, os Magos trouxeram calor ao presépio, amizade, abraços, presença, fé. E levaram Deus. Trouxeram a humanidade da Humanidade e levaram Deus. Na Epifania ninguém vem nem ninguém regressa de mãos vazias.

E essa universalidade de Cristo, que por meio dos Magos se manifestou amorosamente a todos os povos, posteriormente haveria de assustar os senhores dos templos cristãos, das “jerusaléns” que ainda hoje o querem prender dentro dos muros da cultura dominante, em espaços com muito incenso mas sem Deus.

Jesus não se deixa prender nem comprar com ouro nem incenso, talvez com mirra, essa erva amarga que lembra a sua paixão, com que assume as dores de toda a humanidade, de todos nós.

Se assim é, se não o podemos encontrar nessas “jerusaléns”, então «onde está o Rei dos Judeus»?

- No seu nascimento está numa manjedoura emprestada;
- Na sua missão viaja em barcos emprestados;
- Na sua entrada em Jerusalém está montado num jumento emprestado;
- Na sua última Ceia está numa sala emprestada;
- Na sua morte está num túmulo emprestado.

Jesus viveu toda a sua vida como verdadeiro peregrino, sem nada de próprio, com o mínimo necessário, sem acumular coisas dispensáveis.

E também nós, quando acolhemos o desafio de Isaías e levantamos bem a cabeça, arriscamo-nos a ver coisas absolutamente novas que nos convidam a viver com o coração ao Alto, onde está o essencial, pois as coisas deste mundo se tornam insignificantes.

Vai fazer dez anos em agosto, um jovem de Barcelos, depois de um mês em Timor-Leste, avaliou a sua experiência muito intensa de missão do seguinte modo: «não sabia que há tantas estrelas no céu; suponho que tenho passado demasiado tempo a olhar para o chão; acho que de agora em diante vou querer olhar mais vezes para o céu».

Olhar para Céu é o passo necessário para se compreender e viver segundo a Encíclica Laudato Si’, com o mínimo necessário e não o máximo que as possibilidades económicas nos permitem.

Muitos pastores e magos de hoje parecem ter-se perdido na “jerusalém” empestada de incenso e estão ocupados a trocar presentes caros entre eles.

E nós? Vamos adorar o Senhor? Ou vamos ao Shopping?

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