Nos dias 5 e 6 de outubro, decorreu a 47ª Peregrinação da Família Franciscana Portuguesa a Fátima, sob o lema: «Como Francisco de Assis nos Caminhos da Missão».

No sábado, dia 5, a partir das 11h00, percorreu-se a Via Sacra com os jovens (Calvário Húngaro). Às 15h00 fez-se o Desfile da Cruz Alta e às 15h15 a Saudação a Nossa Senhora, na Capelinha das Aparições. Às 16h30, na Basílica da Santíssima Trindade, houve uma Oração Missionária e às 18h00 celebrou-se Eucaristia, presidida pelo Bispo Capuchinho Dom Joaquim Ferreira Lopes. Abaixo transcrevemos o texto da homilia, tal como o recebemos. À noite, às 21h30, participou-se na recitação do Santo Rosário, na Capelinha das Aparições, e na procissão. Seguiu-se, noite dentro, uma Vigília Missionária, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário.

No domingo, dia 6, às 10h00, rezou-se o Santo Rosário na Capelinha das Aparições e às 11h00 Eucaristia no recinto do santuário.

 

Homilia

SANTUÁRIO DE FÁTIMA
FAMÍLIA FRANCISCANA
05.10.2019

Caríssimos irmãos sacerdotes e diáconos da Iª Ordem, Observantes, Conventuais, Capuchinhos e Irmãozinhos de S. Francisco,
Religosas da IIª Ordem e da IIIª Ordem Regular,
Irmãs e Irmãos da Ordem Franciscana Secular,
Irmãs e Irmãos no Senhor e em S. Francisco de Assis:

Paz e Bem!

Confesso-vos ser grande a minha alegria à mistura com algum temor, ao celebrar convosco esta Eucaristia em dia tão solene e neste lugar santo, a convite do nosso Ministro Provincial. Aceitei o convite por ter vindo de quem veio mas sinto-me incompetente para o fazer cabalmente. Sei que muitos dos presentes estão muito mais apetrechados do que eu para falar aqui hoje. É por isso com muita simplicidade que vou agora propor uma breve reflexão sobre a nossa vida de imitação de S. Francisco no que diz respeito à vertente missionária da nossa consagração.

Apetece-me citar as palavras do Sl 117,24: “Este é o dia que fez o Senhor”. Sempre me impressionou muito este versículo do Sl 117. Se o Senhor fez os dias todos, porque é que há um que a Escritura diz: “Este é o dia que fez o Senhor”, acrescentando logo de seguida: “exultemos e nele nos alegremos”. Na Liturgia da Igreja este versículo 24 do Sl 117 usa-se specialmente no tempo da Páscoa, precisamente porque esse é o dia especial entre todos os dias que o Senhor fez; o dia em que Ele ressuscitou o Seu Filho, dia da vitória sobre o pecado e a morte, dia do cumprimento das Escrituras e de todas as promessas feitas aos nossos Pais, os Patriarcas, recordadas ao longo de muitos séculos pelos Profetas, os grandes missionários do Povo de Deus que prepararam o advento do Mistério de Cristo.

Permiti-me que use esta palavra do Salmo hoje e aqui, quando nos reunimos para celebrar o dia dedicado à memória, tornada para nós Solenidade, do Pai S. Francisco de Assis, dia da sua Páscoa e ao mesmo tempo do seu nascimento para o Reino de Deus. Este é para nós um grande dia que o Senhor fez para, como família e em família, nos alegrarmos e exultarmos porque Deus manifestou a sua misericórdia para connosco dando-nos semelhante modelo de vida do qual queremos ser imitadores privilegiados.

Irmãs e Irmãos no Senhor e em Francisco e Clara de Assis,
Acrescento aqui o nome da nossa Madre S. Clara, porque todos sabemos que Francisco não se compreende perfeitamente se lhe retirarmos a outra sua face: Clara. A nossa família franciscana, de resto, está aqui representada, penso, na sua totalidade a qual implica a presença daquelas que seguiram os passos de Clara que foi a mais perfeita imitadora do nosso modelo e Pai. Sem Clara não vemos a totalidade espiritual de Francisco. Francisco e Clara são as duas fazes da mesma medalha.

Assim, permiti-me desde já que ressalte duas coisas da mais alta importância:

  1. Este nosso encontro, no ano da graça de 2019, realiza-se num momento em que os Bispos pediram um ano especial consagrado à Missão da Igreja. Trata-se do ano missionário extraordinário como reforço ao mês missionário promovido pelo Papa Francisco, mês que é este mesmo em que nos encontramos. Se o tema da Missão é tão importante para a Igreja e ninguém duvida disso, pois o Senhor escolheu os seus discípulos para viverem com ele e os enviar a pregar (Mc 3,14), também o foi para Francisco de Assis e o é para nós todos, seus filhos e filhas.
  2. Por outro lado, e é bom não o esquecer, realizamos este nosso encontro num momento em que em todo o mundo a preocupação pela protecção da Natureza atingiu um nível de consciência nunca visto. Se algum dia S. Francisco atingiu uma actualidade tão vincada certamente que são estes nossos dias. Que lições está a dar Francisco ao mundo em que vivemos!

Falar de S. Francisco aos franciscanos pode parecer ocioso, tal como ensinar o Padre-nosso ao Vigário, embora que de S. Francisco pudéssemos dizer o mesmo que S. Bernardo de Claraval diz acerca da Virgem Maria: De Maria nunquam satis, parafraseado para nós em De Francisco nunquam satis, de S. Francisco nunca se diz o suficiente. E já que estamos aqui reunidos em família no mês missionário por excelência e a terminar o ano extraordinário de reflexão e oração pela missão, deixai-me que vos fale da Missão em S. Francisco, da sua vocação missionária e como deve ser a missão franciscana hoje na Igreja.

Na verdade, em alguns dos momentos mais significativos da conversão de S. Francisco a missão evangelizadora transparece claramente. Vejamos: quando Cristo se revela na aparição em S. Damião, diz: “Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está quase em ruínas” (2 C 10). Temos aqui o verbo no imperativo: vai.

Num outro episódio posterior mas também ele marcante no processo da conversão de Francisco, o conflito com seu Pai, Pedro de Bernardone, depois de se ter despojado de todas as riquezas e cortado com tudo quanto o prendia à família, Francisco dá asas à sua alegria e parte a cantar: “Eu sou o arauto do grande Rei” (LM 2,5). Arauto era o que anunciava ao povo a chegada do rei preparando-o assim para a visita esperada. Daqui S. Boaventura comparar S. Francisco a S. João Baptista, o precursor do Messias.

Mas o episódio da Porciúncula é ainda mais claro. Francisco ouve o Evangelho da Missão e sente-se tocado por ele: “Ide... e não leveis nada, nem ouro, nem prata, nem dinheiro nas vossas bolsas, nem saco de viagem,..”. No fim da Eucaristia ouvindo a explicação do sacerdote, Francisco exclama jubilosamente: “Cá está o que eu pretendo! É isto o que eu desejo de toda a minha alma” (LM 3,1). Novamente aqui temos o imperativo ide.

Este mesmo texto aparece no Anónimo Perusino na presença dos dois primeiros Frades Bernardo de Quintavale e Pedro Catâneo. Na presença do sacerdote, relido o Evangelho, exclamaram: “Aqui está o que desejávamos, aqui está o que procurávamos!... Esta será a nossa regra” (AP 10,11).

Finalmente também é um mandato de missão o primeiro que Francisco recebeu da Igreja pela boca do Papa Inocêncio III, “mandatum poenitentiae praedicandae” (LM 3,10). Sabemos pelos biógrafos do Santo que, logo Francisco começou a mandar os seus irmãos, dois a dois, a pregar pela Úmbria, pelas Marcas e por outras regiões da Itália.

Tanto estes textos que se situam em âmbito vocacional missionário como o que foi a prática nos inícios da Ordem se podem resumir naquelas palavras de S. Francisco na Carta a Toda a Ordem: “Ouvi, filhos do Senhor e meus irmãos, e dai atenção às minhas palavras... para isto vos enviou Deus ao mundo: para que, por palavras e por obras, deis testemunho da sua Voz e a todos façais saber que não há outro omnipotente senão Ele” (CO 5.10).

Mas se Francisco parte do Evangelho e dos Mandamentos, no entanto é preciso notar que as raízes do seu sentido missionário mergulham mais fundo: na sequela, no seguimento de Cristo. Assim, devemos sentir a urgência da Missão como Francisco, isto é, não apenas como um mandato mas como uma exigência do nosso Baptismo que nos fez cristãos. E isto tem que vir desde o momento em que alguém movido pelo Espírito Santo pede para entrar na Fraternidade. Por isso, desculpai que vos diga isto, mas parece-me que devemos seguir o exemplo de S. Bento no que se refere à aceitação dos nossos noviços. Quando alguém bate à porta do Mosteiro para nele entrar, pergunte-se-lhe primeiro de que é anda à procura. Se for comida, dê-se-lhe de comer; se for dormida, arranje-se-lhe um quartinho; se for roupa seja-lhe dado com que se cubra. Mas depois disso, volte para o lugar de onde veio. Só poderá ficar no mosteiro si revera Deum quaerit, quer dizer, se anda verdadeiramente à procura de Deus. Esta é a conditio sine qua non.

E isso sem nunca esquecermos que Francisco não quis ser monge cenobita. Conheceu bem ele essa realidade e fez experiência disso nos Beneditinos de Assis tal como Clara nas Beneditinas. Não; com todo o respeito pelo conselho do Papa e pelos monges, a sua vocação não era essa e Clara ajudou-o a discerni-la e também sentia que a sua vocação monástica era de outro género. Francisco deseja uma vida verdadeiramente evangélica, mas vivida no mundo, numa contínua itinerância à maneira de Jesus, pelos caminhos da Palestina e em Fraternidade mais do que em Comunidade organizada estavelmente. Francisco também reconhece o valor do eremitério e legisla para ele também. Teve até pressões a fechar-se numa cela, dentro dos muros de um mosteiro, mas o que Deus lhe foi revelando foi que a vida franciscana devia ser vivida no meio do mundo na pobreza, na menoridade, na fraternidade, na oração. Mas atenção: em Francisco a itinerância não tem nada a ver com ser giróvago sempre a cirandar sem rumo. A itinerância franciscana não é isso e tem como orientação tornar presente o Evangelho no mundo. Cuidado! Não confundamos itinerância com errância, coisa que nos nossos dias parece estar acontecendo aqui e ali. Acerca deste tipo de Frades ou Freiras giróvagos, diz o mesmo S. Bento: “...de his mellius est silere quam loqui”, isto é, é melhor calar do que falar.

A missão «ad gentes» foi para Francisco uma preocupação desde o início. Ele mesmo por 3 vezes tentou atingir o território muçulmano: primeiro em 1212 na direcção da Síria, depois em 1213/14 na direcção de Marrocos, e finalmente na visita ao sultão do Egipto (1C 55-57). Enviou também algumas expedições missionárias para a Síria e para Marrocos. Mais significativo, porém, é o lugar que dá, em ambas as Regras, à missão entre os infiéis. Portanto, se qualquer dos irmãos, por divina inspiração quiser ir para entre os mouros e outros infiéis, que vá com a licença do seu ministro e servo. E o ministro lhes dê licença e não se oponha, se os julgar idóneos para serem mandados, pois terá de dar contas ao Senhor se, nisto ou noutras coisas, indiscretamente proceder” (1R 16,1-4; cf. 2R 12).

Irmãs e Irmãos no Senhor e em S. Francisco,
Abramos os nossos corações ao apelo do Papa e dos nossos Bispos e disponibilizemo-nos para a Missão ad intra e ad extra servindo a Igreja segundo as características próprias do nosso ser franciscano para não atraiçoarmos a nossa vocação:

  • Dando testemunho de fraternidade e menoridade: Francisco exige antes de tudo o testemunho de Fraternidade. Portanto, o amor que é o coração do Evangelho, deve ser testemunhado antes de ser anunciado. A presença humilde de convivência e respeito, a fraternidade amiga e solidária com as necessidades e alegrias das pessoas, serão a primeira forma de estar.
  • Com espírito de pobreza - A missão franciscana não seria franciscana se não fosse fiel à santa pobreza. Esta pobreza não é apenas a tradicional e evangélica virtude mas deve concretizar-se, por exemplo, na total ausência de proselitismo. A preocupação do missionário franciscano não deve consistir em fazer prosélitos, mas sim em oferecer Jesus aos homens na esperança de que eles possam vir a decidir fazer-se cristãos, o que apenas dependerá da sua decisão.
    Outra muito importante atitude que a pobreza deve evitar é o protagonismo. Não nos apresentarmos como salvadores, como uma organização potente a nível da Ordem ou da Província. Não somos superiores a ninguém mas servos humildes que sabem viver aceitando o saudável pluralismo.
    E nunca esquecer que a pregação franciscana é directa, de relacionamento pessoal, de diálogo aberto. Por isso os seus meios são preferentemente de presença fraterna no meio do povo, e não tanto grandes estruturas de ensino, de propaganda, de comunicação social e outras.
  • Opção pela não violência – É algo único, típico da missão franciscana: “Os irmãos quando vão pelo mundo, não litiguem, nem questionem, nem censurem os demais; mas sejam mansos, pacíficos e modestos, sossegados e humildes e a todos falem honestamente como convém” (2 R 3,10). Esta não violência não é revolucionária nem sequer é violência intelectual – pela pressão dos meios de comunicação social, pelas grandes instituições de ensino e pela superioridade material da civilização europeia. O franciscano anuncia o Evangelho no respeito pela cultura e mentalidades dos povos, pelo respeito à sua idiossincracia. O franciscano é pacífico praticando em modo superlativo esta bem-aventurança que o define a partir de dentro.
  • Missão e anúncio da paz e respeito da Criação - A missão franciscana será sempre uma missão de paz e reconciliação com Deus, com a humanidade, com cada um, com a Mãe Natureza, obra maravilhosa de Deus que tem que ser respeitada e protegida a todo o custo porque não há uma segunda Natureza depois desta.

A missão franciscana dos nossos dias para atingir o seu clímax, tem que ir também ao encontro dos novos leprosos, dos novos ladrões de Monte Casale, dos novos lobos de Gúbio, dos novos Sultões de todos os Egiptos e tem que ser a voz discordante dos lobbies milionários que não se importam em asfixiar a Humanidade em nome do mercantilismo cego, do e-commerce ou e-trade, da globalização descontrolada que, qual cilindro enorme, ameaça esmagar os povos reduzindo-os a meros peões de tabuleiro de um xadrez em que o Rei é o dinheiro, a Rainha é o Super-Poder, o Bispo são as ideologias armamentistas nucleares e a Torre é um muro imenso e muito alto encimado de arame farpado e ladeado de terreno minado a separar os pobres dos ricos.

Bendito seja o servo do Senhor Francisco de Assis, nosso Pai e modelo, e que o seu Canto das Criaturas ressoe nos corações de todos nós e na mente dos Governantes dos povos para que a humanidade seja preservada do dilúvio que Deus disse que não voltaria a enviar e que os homens parece estarem metodicamente a preparar.

Assim seja!

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