O padre e biblista português Armindo Vaz apresentou dia 14 em Lisboa o livro ‘Criação Divina sem pecado humano’, na qual oferece uma nova visão sobre Adão e Eva, a partir da narrativa bíblica do Génesis, que fala da “vida humana” e “não se pode ler à letra”.

“Não estamos a esvaziar a narrativa de conteúdo teológico ou espiritual, pelo contrário”, sustenta, em declarações à Agência ECCLESIA, sublinhando a importância de oferecer uma chave de leitura, o género literário, ou seja, os “mitos de origem”.

O sacerdote fala numa “transgressão primordial”, em contraponto ao termo pecado, face à ausência de “terminologia de caráter moral” no relato dos capítulos 2 e 3 do livro do Génesis.

“Esta transgressão não é histórica, é primordial, é anterior à História, situa-se nas origens, portanto, não tem caráter moral”, precisa.

Segundo o autor, o que a nova leitura deste texto questiona não é a doutrina do “pecado original”, mas o fundamento bíblico da mesma.

O problema do mal do mundo não se resolve apelando para a culpabilidade de um primeiro par humano histórico”.

“Um dos traços da imagem de Deus que carece de purificação é o de Deus criador, especialmente por a sua ação criadora ser associada a um pecado humano”, refere na obra o professor da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

A proposta do autor, religioso carmelita, é colocar o texto no seu género literário próprio, no contexto cultural e das literaturas do antigo Próximo Oriente – como a epopeia de Gilgamesh -, olhando para a narrativa bíblica como uma explicação do sentido da existência.

“Tendo sido habitualmente lido como história de pecado com moral, agora o relato pode ser lido como mito de origem, com elevado sentido antropológico e espiritual”, precisa o biblista.

O livro reflete sobre como se “instalou a ideia de paraíso”, preferindo a tradução que se refere a um “pomar da várzea”.

Para o padre Armindo Vaz, é necessário não “moralizar o mito”, valorizando a sua “visão positiva e otimista da vida”.

“Lido com a fecundidade do mito de origem, a história de Gn 2-3 é uma autêntica apologia do humano e diz a verdade da vida”, aponta.

A obra lançada na livraria da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, abre a nova coleção ‘A Escritura e a Leitura’, da Paulinas Editora, com coordenação do padre Armindo Vaz, que visa “facultar leituras existenciais” da Bíblia.

A apresentação esteve a cargo do padre João Lourenço, biblista e professor da UCP, o qual sublinhou que se está perante de uma questão de grande sensibilidade, que “estabelece roturas”, pelo que considerou que a nova obra se “justifica plenamente” e deve ser lida “de forma calma e serena”.

Para o antigo diretor da Faculdade de Teologia, o texto do livro do Génesis encerra uma “herança antropológica”, desde a teologia judaica, em particular no que diz respeito à busca de sentido do sofrimento humano.

O prefácio é assinado por D. José Ornelas, bispo de Setúbal, para quem este livro se apresenta como “uma reflexão fundamental sobre o ser humano”, procurando “reconduzir” o texto bíblico à sua originalidade, com particular atenção à noção “simbólico-mítica” do primeiro livro da Bíblia.

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