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Quarenta e
cinco anos bastaram para que Francisco de Assis entrasse na
História e no coração de toda a gente como “o Cristo da Idade
Média”, “o Irmão Universal”, o Patrono dos ecologistas. Qual foi
o segredo deste homem? Eis a pergunta que, de fora da Família
Franciscana, alguém me lançou, com o desafio de a esclarecer
para o grande público. Por isso, este apontamento foi escrito a
pensar em gente menos familiarizada com os passos fundamentais
da biografia do “Poverello”. Talvez possa ser útil, também, para
apresentar a sua caminhada àqueles que batem à porta de uma das
Ordens Franciscanas com a intenção de seguir Jesus Cristo ao
jeito de Francisco.
frei José Joaquim Lopes
Morgado, OFMCap.
Francisco de Assis foi um
convertido. Mas, a sua “queda do cavalo” não foi tão abrupta nem
espectacular como habitualmente costuma pensar-se. A graça não
substitui a natureza nem actua por saltos, tal como o sol não
dispensa o ritmo das estações no fluir da vida. O itinerário
espiritual de Francisco também decorreu ao longo de 20 anos –
entre os 25 e os 45, idade com que morreu em 3 de Outubro de
1226 – e desenvolveu-se num clima denso de interioridade, com
bastantes retoques originais. Isso permite-nos, ao mesmo tempo,
ver nele um «Irmão» universal e reconhecê-lo como primogénito
entre muitos irmãos.
Quando todos pensavam que
viria a tornar-se um hábil mercador, como seu pai Pedro
Bernardone, voltou as costas ao negócio, desposou a Senhora
Pobreza e correu no encalço de um tesouro no céu. Que força o
travou e moveu? Que sonho, ideal ou ilusão se lhe atravessou no
espírito?
Uma experiência
ascético-mística tão profunda como a dele é algo mais íntimo do
que a nossa intimidade, para usar a expressão de Santo
Agostinho;
e nem os próprios, muitas vezes, a conseguem descrever. Por
isso, não presumo entrar nos meandros de Francisco donde brotou
a exclamação que dá título a este apontamento. Pretendo, apenas,
sublinhar algumas das suas orações, sem preocupação crítica
acerca do texto original; e, através delas, traçar os passos
mais significativos da sua vida, como resposta ao Deus que
progressivamente foi descobrindo no pobre, no leproso, no
crucifixo de São Damião, no Evangelho...
«MOSTRA-ME,
SENHOR, O SENTIDO»
A primeira oração que dele se
conserva remonta a fins de 1205, quando Francisco tinha 24 anos.
Rezou-a diante do crucifixo da igreja de São Damião, no sopé de
Assis:
Ó glorioso
Deus altíssimo,
ilumina as
trevas do meu coração,
concede-me
uma fé verdadeira,
uma
esperança firme e um amor perfeito.
Mostra-me,
Senhor, o
[recto]
sentido e conhecimento,
a fim de
que possa cumprir o sagrado encargo
que na
verdade acabas de dar-me.
É um jovem inquieto, mas sem
rumo certo, ainda confuso e abismado perante um Deus
altíssimo. Um coração em trevas, mas aberto e sequioso
de conhecer o sentido da sua vida. Uma vontade centrada no
essencial. Pedindo as três virtudes teologais – fé,
esperança e amor – que lhe permitirão um
mais profundo conhecimento de Deus, dispõe-se também a realizar
o projecto que Ele lhe possa ter confiado.
No entanto, sendo alguém ainda
à procura de Deus, Francisco já não está no início da caminhada
para o encontro decisivo com Ele. Esta oração tinha amadurecido
antes, em momentos fortes da sua vida, que os biógrafos da época
registaram.
O primeiro foram onze meses de
prisão aos 20 anos, na sequência de uma guerra entre Assis e
Perúsia. Quando, por doença, é solto e regressa a casa em 1203,
embora volte a embrenhar-se nos negócios do pai e nas folias da
vida, vem apeado do seu cavalo de “g1ória”. É então que «toma a
resolução de jamais repelir quem a ele recorrer invocando o nome
de Deus.»
Segue-se uma prolongada
doença, em 1204, que vem destronar o “rei da juventude de Assis”
da alegria e do prazer mundanos. Já convalescente, «um dia, saiu
fora e deteve-se a contemplar com mais atenção a paisagem
circundante. Mas nada do que via – nem a beleza dos campos, nem
a profundidade dos bosques, nem o verdor dos vinhedos, nem o que
antes costumava alegrar-lhe a vista – conseguia deleitá-lo
minimamente. Surpreendia-se ele próprio com tão repentina
mudança e tinha por néscios os que prendiam o coração a tais
coisas».
«A partir desse dia – escreve Tomás de Celano –, começou a
ter-se em menos conta e a desprezar o que antes tinha admirado e
amado.»
Quando o ano de 1205 entra na Primavera, renascem a Francisco as
asas de cavaleiro e alista-se de novo, desta vez numa pequena
expedição de Assis chefiada por Gentile, para combater ao lado
das forças do papa Inocêncio III comandadas por Gualter de
Brienne. Encontrando-se já em Espoleto, outra “voz de comando”
se faz ouvir, durante a noite, «em tom muito familiar:
– Francisco, quem é que terá
mais possibilidade de te ajudar? O Senhor ou o servo? O rico ou
o pobre?
– O Senhor; o rico.
– Nesse caso, porque é que
vais trocar o Senhor pelo servo, a riqueza de Deus pela pobreza
do homem? – insistiu a voz divina.
– Senhor, que quereis que eu
faça?
– Volta para a tua terra –
diz-lhe então o Senhor.
Ao amanhecer, a toda a pressa
voltou para Assis, cheio de alegria e confiança. Começava a
tornar-se um modelo de obediência: só estava a espera de
conhecer claramente a vontade do Senhor.»
Às vezes, os biógrafos – aqui,
São Boaventura na sua Legenda Maior – simplificam numa
penada todo um processo lento e doloroso. Mas o facto é que, a
partir deste momento, a vida de Francisco vai tomar
definitivamente um rumo novo, como a de Paulo no caminho para
Damasco.
Mas, enquanto Paulo, judeu cultivado nas escolas rabínicas,
pergunta «Quem és Tu, Senhor?», Francisco, amassado pela
vida, coloca-se nas mãos do oleiro: «Senhor, que quereis
que eu faça?»
Já «só estava à espera de
conhecer claramente a vontade do Senhor» – diz o biógrafo. Esta
vontade vai ser-lhe revelada pelo crucifixo de São Damião, como
veremos. Porém, a obediência a esta vontade já Francisco a tinha
ido exercitando. A forte experiência vivida naquela noite em
Espoleto libertara-o totalmente de si. Em vez de ficar
mortalmente ferido como homem, sem razões para viver, sai dali
encorajado para outras batalhas bastante mais difíceis, mas
também gratificantes.
«Francisco – sentiu Deus
dizer-lhe, no seu interior –, troca por valores do espírito o
que ainda amas com amor carnal; prefere as coisas amargas às
doces e despreza-te a ti mesmo, se me queres conhecer. Só
voltado do avesso poderás saborear a verdade das minhas
palavras.»
Francisco vai mesmo virar do avesso e avançar com passada de
atleta: junta-se aos pobres, numa peregrinação a Roma, trocando
as suas vestes luxuosas pelos andrajos de um deles; beija um
leproso e começa a visitar uma leprosaria, onde distribui
dinheiro a todos beijando-lhes a mão e a boca.
Foi então que, «já inteiramente transformado em seu coração e
muito próximo de o ser igualmente quanto à maneira de viver,
calhou de passar um dia perto da igreja de São Damião, quase em
ruína e de todos abandonada».
«Francisco, vai e repara a minha casa, que como vês está toda a
cair.»
A ordem é frontal, e desafia-o
para um trabalho de reconstrução a partir dos alicerces; mas já
o encontra de estaleiro preparado: depois de reconhecer a figura
de Cristo na pessoa dos pobres e dos leprosos, mais fácil há-de
ser reconhecê-Lo naquele ícone bizantino, actualmente na igreja
de Santa Clara em Assis. Mas só mais tarde Francisco atingiu
todo o seu alcance, ao aperceber-se de que, por casa em ruínas,
Cristo queria significar o corpo vivo da sua Igreja desfigurada
na vida pouco evangélica dos cristãos.
Por isso, antes de meter
ombros a essa tarefa de reformador, iria reconstruir a igreja de
São Damião, a capela de São Pedro e a Porciúncula. E teria de
enfrentar um segundo nascimento: perseguido e levado a tribunal
pelo pai, que o via esbanjar a sua fortuna em restauro de
igrejas e banquetes a pobres, diante do bispo de Assis Francisco
devolve-lhe todo o dinheiro que traz, despoja-se das suas vestes
e diz: «Escutai-me todos e entendei bem. Até agora chamei a
Pedro Bernardone meu pai. Mas, porque decidi servir a Deus,
devolvo-lhe o dinheiro que atormentava a sua alma e toda a roupa
que dele recebi. De agora em diante quero dizer: ‘Pai Nosso, que
estais no céu’ e não ‘meu pai, Pedro Bernardone’.»
Firme na sua vocação, e vivendo já o fundamental do Evangelho,
estava agora preparado para se tornar seu anunciador e
reconstruir a Igreja de Cristo a partir da sua vida. Este passo,
dá-o no dia 24 de Fevereiro de 1208, Festa de São Matias, ao
assistir à Missa dos Apóstolos. Conta São Boaventura:
«O texto do Evangelho era
aquele em que Cristo envia os discípulos a pregar e lhes ensina
a forma de vida evangélica: nada de ouro nem de prata, nem
dinheiro nas algibeiras, nem saco de viagem, nem mudas de roupa,
nem calçado, nem pau para se apoiarem ou defenderem. Ele
ouviu e compreendeu, e nunca mais esqueceu.
Amante como era da pobreza
apostólica, rejubilou de alegria e disse logo para consigo: «Cá
está o que eu pretendo! É isto o que eu desejo de toda a minha
alma!» Na verdade, era Cristo quem o desejava nele, em resposta
à sua oração. Por isso, como resposta ao apelo de Deus, também
nele o querer se transformou em fazer.
«E, sem mais delongas –
continua o biógrafo – descalça os sapatos, arruma o cajado,
desfaz-se da carteira e do dinheiro, conserva apenas uma túnica,
atira fora o cinto, substituindo-o por uma corda; empenha-se por
completo em realizar o que acabara de ouvir e em conformar-se em
tudo a esse código de perfeição dado aos Apóstolos.
«MEU DEUS!
MEU DEUS!»
Francisco tinha-se encontrado
com a vontade de Deus. Mais tarde, escreverá no seu
TESTAMENTO: «O mesmo Altíssimo me revelou que devia viver
segundo a forma do santo Evangelho.»
O Evangelho será, daqui em diante, a sua escola permanente no
estudo e confirmação dessa vontade tanto para si como para os
seus seguidores.
O primeiro vai ser Bernardo,
um homem piedoso e simples de Assis.
A decisão de vida para ambos será tomada abrindo o Evangelho
três vezes, após Bernardo ter visto Francisco repetir, durante
uma noite inteira, esta oração:
«Meu Deus! Meu Deus!»
Os passos dados até ali, os caminhos imprevisíveis por onde o
Senhor o conduzira, todos os obstáculos que se tinham ido
esboroando, a gratuidade com que tudo aquilo acontecera,
deixavam o jovem convertido com esta certeza: Há um Deus! E esse
Deus é o meu Deus! Esta oração, longe de exprimir
uma atitude egoísta perante Deus, manifesta o encantamento do
enamorado ferido pelo amor e preferido dentre muitos possíveis
igualmente (in)dignos. Dizia para consigo: «Francisco, se um
ladrão tivesse recebido do Altíssimo tão grandes graças como as
que te dispensou a ti, muito mais agradecido ele seria.»
Fruto desse deslumbramento de quem se sente desmerecer tanta
graça, surge em Francisco a atitude do louvor. Escolhendo
versículos dos Salmos e alguns de Daniel e do Apocalipse, compõe
uma EXORTAÇÃO AO LOUVOR DE DEUS, que de alguma forma
inclui as linhas básicas do seu futuro CÂNTICO DAS CRIATURAS,
pois convida todas as criaturas racionais e irracionais, todo o
espírito, a louvar o Senhor:
Temei o
Senhor e dai-lhe glória.
Digno é o
Senhor de receber o louvor e honra. [...]
Louvai-O,
céus e terra.
Todos os
rios louvai o Senhor. [...]
Louvai o
Senhor, porque é bom;
todos os
que isto lerdes bendizei o Senhor.
Todas as
criaturas, bendizei o Senhor.
No conjunto de 17 versos,
chama-nos a atenção o número 4: Salve Maria, cheia de
graça, o Senhor está contigo. Francisco não convida
Maria, enquanto criatura, a louvar o Senhor; mas louva-a,
dirigindo-se a ela com as palavras do anjo Gabriel na
anunciação.
Esta originalidade,
aparentemente deslocada e anacrónica, de juntar o louvor a Maria
com o louvor de Deus – além de uma invocação final a São Miguel
Arcanjo – vai repetir-se noutra colectânea de textos oracionais
da Bíblia com que Francisco organizou o OFÍCIO DA PAIXÃO DO
SENHOR, que abrange também as demais Festas do Senhor.
Um outro conjunto de Louvores,
igualmente respigados da Sagrada Escritura, e que deviam ser
ditos antes de todas as Horas, termina com esta belíssima
oração:
Omnipotente, santíssimo e soberano Deus, sumo bem, todo o bem, o
bem completo, a ti que só és bom, rendamos todo o louvor, toda a
glória, toda a graça, toda a honra, toda a bênção, e todo o bem
a ti atribuamos para sempre. Faça-se. Assim seja. Assim seja.
Amen.
Há nela grandes semelhanças
com a primeira estrofe do Cântico das Criaturas, de que
falarei mais adiante. As Horas antes das quais deviam ser ditos
estes Louvores eram as Horas Litúrgicas de Matinas,
Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas, em que estava
dividido aquele OFÍCIO DA PAIXÃO DO SENHOR. Abria sempre
com a mesma Antífona a Nossa Senhora, que também servia
de capítulo, de hino, de versículo e oração:
Santa
Virgem Maria, não veio a este mundo mulher semelhante a ti;
filha e serva do Rei altíssimo, o Pai celeste, Mãe do nosso
santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo, roga
por nós juntamente com São Miguel Arcanjo e todas as Virtudes do
céu e todos os Santos, a teu santíssimo e dilecto Filho, nosso
Senhor e Mestre.
Diga-se, de passo, e uma vez
que nos estamos a referir às suas orações, que Francisco tem
ainda uma lindíssima SAUDAÇÃO À BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA,
e nutria por ela uma filial devoção, por ser a «Virgem Senhora
Pobrezinha», Mãe do seu Irmão Jesus.
Reza assim, naquela saudação:
Salve,
Senhora santa Rainha, santa Mãe de Deus,
Maria,
virgem convertida em templo,
e eleita
pelo santíssimo Pai do céu,
consagrada
por Ele com o seu santíssimo amado Filho
e o
Espírito Santo Paráclito;
que teve e
tem toda a plenitude da graça e todo o bem!
Salve,
palácio de Deus!
Salve,
tabernáculo de Deus!
salve,
casa de Deus!
Salve,
vestidura de Deus!
Salve, mãe
de Deus!
Tal como na Exortação ao
Louvor de Deus estranhávamos, até certo ponto, a inclusão de
um verso a Maria, também agora poderíamos estranhar que a
Saudação à Bem-aventurada Virgem Maria conclua com
esta referência às virtudes:
E vós,
todas as santas virtudes,
que pela
graça e pela iluminação do Espírito Santo sois infundidas no
coração dos fiéis, para, de infiéis que somos, nos tornardes
fiéis a Deus.
Tal estranheza poderá ter
maior cabimento, se dissermos que Francisco escreveu outro longo
texto precisamente de Saudação as Virtudes.
Mas, por um lado, esta conclusão sobre as virtudes é razoável,
porque a Virgem Maria teve e tem toda a plenitude da graça
e todo o bem! – ou seja, todas as virtudes, a plenitude
da virtude; por outro, revela mais uma vez a espontaneidade da
oração de Francisco, que englobava todas as dimensões da
espiritualidade, pois todas nasciam do mesmo Deus que é
todo o bem, o soberano bem,
tal como juntava todas as criaturas na comunhão da mesma vida.
«Meu Deus e meu Tudo».
Sublinhem-se, entretanto, as
expressões santíssimo Pai do céu e
santíssimo amado Filho, nesta oração. Embora sendo
laudatória, ela não se perde na louvaminha estéril, mas arranca
do mais íntimo da ternura de Deus para louvar as suas
manifestações em Maria – que é seu palácio,
tabernáculo, casa, vestidura
e mãe!
Disse que o Evangelho seria,
para Francisco, a escola permanente no estudo e confirmação da
vontade divina tanto para si como para os seus seguidores. De
facto, ao Evangelho foi ele buscar a Forma de vida para
os seus Irmãos da Ordem dos Frades Menores. A segunda redacção
da REGRA, aprovada pelo Papa Honório III em 29 de
Novembro de 1223, começa deste modo: «A Regra e Vida dos Irmãos
Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus
Cristo...».
«QUEM ÉS TU E
QUEM SOU EU?»
Da Palavra, Francisco passa
naturalmente à Pessoa de Cristo, que nos é revelada nos
Evangelhos e o faz exclamar quase extático:
Oh! Como é
santo ter um tal esposo, consolador, belo e admirável! Oh! Como
é santo e amável ter um tal irmão e um tal filho, agradável,
humilde, pacífico, doce, amável e mais que tudo desejável, Nosso
Senhor Jesus Cristo...
De esposo a
filho, passando por irmão, tudo
é legítimo chamar a Nosso Senhor Jesus Cristo. Seria
fácil, mas é desnecessário, fundamentar cada um destes
apelativos, não apenas nos textos do Novo Testamento. Francisco
sabia-o muito bem, e sobretudo vivia-o com um amor muito
profundo e, como vemos, nada genérico; por isso deixa desbordar
assim o coração.
Mas o Santo nutria um
devotamento muito especial pelas duas expressões concretas do
amor de Deus em Jesus Cristo: o Natal e a Paixão. É conhecida a
sua iniciativa de representar o presépio ao vivo no monte
Greccio, na noite de Natal de 1223, e as manifestações de
ternura com que envolveu, então, o Menino de Belém.
Será menos conhecido o Salmo que ele teceu, mais uma vez com
textos do Antigo e do Novo Testamento, para ser recitado no
OFÍCIO DA PAIXÃO DO SENHOR no Tempo do Natal até à Oitava da
Epifania. Começa assim:
Glorificai
a Deus, nosso auxílio,
louvai o
Senhor Deus, vivo e verdadeiro, com cânticos de alegria.
Porque o
Senhor é o Altíssimo,
o
terrível, o grande rei de toda a terra.
Porque o
santíssimo Pai do céu, nosso Rei desde a eternidade, mandou lá
do alto o seu dilecto Filho,
e Ele
nasceu da bem-aventurada Virgem Santa Maria.
[...]
Glória ao
Senhor Deus no mais alto dos céus,
e na terra
paz aos homens de boa vontade.
São 13 versículos, com maior
criatividade que os de outros tempos litúrgicos, revelando a
grande liberdade de espírito de Francisco e o seu à-vontade em
fazer “releituras” da Palavra de Deus nas várias circunstâncias
da vida.
Note-se, entretanto, que o
tratamento de Deus como Altíssimo e Rei
precede o de Pai. O mesmo acontecia, já, na
referida Antífona a Nossa Senhora. O qual faz supor que
Francisco era mais contido nos textos que redigia também para
uso dos outros do que na sua forma de se relacionar pessoalmente
com Deus. Basta ler o relato da tal representação-celebração
viva do presépio:
«O santo de Deus está de pé
diante do presépio, desfeito em suspiros, trespassado de
piedade, submerso em gozo inefável. [...] Pregando ao povo, tem
palavras doces como o mel para evocar o nascimento do Rei pobre
e a pequena cidade de Belém. Por vezes, ao mencionar a Jesus
Cristo, abrasado de amor, chama-lhe o ‘menino de Belém’ e, ao
dizer ‘Belém’, era como se imitasse o balir duma ovelha e
deixasse extravasar da boca toda a maviosidade da voz e toda a
ternura do coração. Quando lhe chamava ‘menino de Belém’ ou
‘Jesus’ passava a língua pelos lábios, como para saborear e
reter a doçura de tão abençoados nomes.»
Também é sabido que Francisco recebeu as cinco Chagas de Cristo
nas mãos, nos pés e no lado, no dia 14 ou 15 de Setembro de
1924, no monte Alverne. Talvez não se saiba tanto é que foi
então que ele compôs o seu hino de LOUVORES A DEUS,
onde mais uma vez os nomes de altíssimo e
rei precedem o de Pai. Vale a pena
transcrevê-lo por inteiro:
Tu és
santo, Senhor Deus único, o que fazes maravilhas.
Tu és forte,
Tu és grande,
Tu és
altíssimo,
Tu és rei
omnipotente,
Tu, Pai
santo, o rei do céu e da terra!
Tu és
trino e uno, Senhor Deus, todo o bem.
Tu és bom,
todo o bem, o soberano bem,
Senhor
Deus, vivo e verdadeiro!
Tu és
caridade, amor!
Tu és
sabedoria!
Tu és
humildade!
Tu és
paciência!
Tu és mansidão!
Tu és
segurança!
Tu és
descanso!
Tu és gozo
e alegria!
Tu és a
nossa esperança!
Tu és
justiça e temperança!
Tu és toda
a nossa riqueza e saciedade!
Tu és
beleza!
Tu és mansidão!
Tu és o
protector!
Tu és o
nosso guarda e defensor!
Tu és
fortaleza!
Tu és
consolação!
Tu és a
nossa esperança!
Tu és a
nossa fé!
Tu és a
nossa caridade!
Tu és a
nossa grande doçura.
Tu és a
nossa vida eterna,
o Senhor
grande e admirável,
o Deus
omnipotente,
o
misericordioso Salvador!
Do hino, diz o Franciscano
frei David de Azevedo: «É uma girândola de louvores, parecendo
ao mesmo tempo denunciar, precisamente pela insistência
repetitiva dos louvores, que a palavra era incapaz de exprimir a
exuberância do coração. Francisco está todo voltado para Deus.
Não faz senão louvá-Lo. Não há um movimento sequer em que o
Santo volte sobre si mesmo, como seria, por exemplo, uma palavra
de petição ou de propiciação. O TU divino é só
fascinação. Prendeu-o por completo. Francisco está encandeado
pelo seu Senhor; ‘Senhor, Tu és Santo. Tu és todo o bem!’»
E o Franciscano-Capuchinho frei Ignacio de Larrañaga: «O “eu” de
Francisco foi irresistivelmente atraído e tomado pelo uno, feito
(Francisco) totalmente uno com o Centro. Esta foi a grande
páscoa. Contudo, não houve fusão. Pelo contrário, Francisco
não só conservava mais nitidamente do que nunca a consciência da
sua identidade pessoal, como também avançava mais pelo mar de
Deus adentro, aumentando de tal forma a diversidade entre Deus e
ele, que chegou a adquirir perfis inquietantes: «Quem és Tu e
quem sou eu?»
De facto, no livro das Considerações sobre as chagas
lê-se que frei Leão, companheiro e confidente de Francisco, viu
o santo «de joelhos, com o rosto e as mãos levantadas,
proferindo com íntimo fervor: ‘Quem és Tu, dulcíssimo Deus e
Senhor meu, e quem sou eu, desprezível verme da terra e inútil
servo? [...] Senhor, sou todo teu. Bem sabes que não tenho mais
que o hábito e a roupa interior, e mesmo estas coisas são tuas.»
«Não restava nada. As estrelas tinham desaparecido, a noite fora
submersa. O próprio Francisco tinha desaparecido. Somente
restava um TU que tudo abrange acima e abaixo, adiante e atrás,
à direita e à esquerda, dentro e fora. [...] Ao sentir-se no
seio de Deus, nasceram a Francisco asas de tal envergadura, que
abrangiam o mundo de lado a lado. ‘Meu Deus e meu Tudo’.»
«ALTÍSSIMO,
OMNIPOTENTE, BOM SENHOR... LOUVADO SEJAS!»
Já Francisco de Assis era um
“outro Cristo” no corpo e no espírito, quando compôs o
CÂNTICO DAS CRIATURAS ou do Irmão Sol, entre Março e Maio de
1225. Numa cela de esteiras no jardim de São Damião, após uma
noite de insónia com os ratos a passarem-lhe por cima, resolve
«compor um novo Louvor ao Senhor, pelas criaturas que nos
servem todos os dias e sem as quais não podíamos viver»:
Altíssimo,
omnipotente, bom Senhor,
a ti o
louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
Louvado
sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o meu Senhor irmão Sol,
o qual faz
o dia e por ele nos alumia.
E ele é
belo e radiante, com grande esplendor:
de ti,
Altíssimo, nos dá ele a imagem.
[...]
Louvado
sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra,
que nos
sustenta e governa,
e produz
variados frutos, com flores coloridas, e verduras.
E assim vai cantando, uma por
uma, todas as suas irmãs criaturas: a lua e as estrelas, o vento
e o ar e nuvens e sereno e todo o tempo, a irmã água, o irmão
fogo, a irmã e mãe terra.... Para concluir:
Louvai e
bendizei a meu Senhor,
e dai-lhe
graças e servi-o com grande humildade.
O próprio santo compôs e
ensinou aos companheiros a melodia para este poema,
ao qual haveria de acrescentar mais duas estrofes hoje nele
incorporadas: uma em Junho do mesmo ano, sobre os que perdoam e
sofrem provações e doenças, para restabelecer a paz entre o
Bispo e o Podestá de Assis;
outra já em Agosto-Setembro de 1226, para dar as boas-vindas à
sua irmã, a Morte corporal.
Para cantar aquela enviou frei Pacífico, o “Rei dos versos” e
hábil mestre de coro, com outros irmãos; para esta, convidou
frei Ângelo e frei Leão.
É este um dos mais «dulçorosos
cânticos do abominável fundador da ordem franciscana» – escreve
Fernando Pessoa, pelos vistos o único escritor português que não
gostou de São Francisco de Assis.
Mas “dulçoroso”, porque de um coração humilde e pacificado; não
porque melicodoce. Pois o Cântico das Criaturas
pode ser tudo menos um mero texto poético, por muito belo e
inspirado que seja; foi vivido e sofrido no espírito e na carne,
antes de passar ao papel. E nasceu num contexto dramático:
Francisco estava «sem poder suportar a luz do sol durante o dia,
nem a do lume durante a noite. Permanecia constantemente na
obscuridade, no interior da sua cela. Era tanto o sofrimento
causado pela doença, que não podia descansar nem dormir, o que
lhe era prejudicial, tanto para a doença dos olhos, como para o
estado geral da saúde».
O Cântico é, pois, a resposta a uma luz que naquela noite
o iluminou por dentro: recebera do Senhor a certeza de que ia
salvar-se! Nele resume a sua relação com Deus e com todas as
criaturas. «Meu Deus e meu Tudo». E dá-nos uma sábia lição de
que não é possível amar a Deus sem amar a sua obra.
«Desejando embora este feliz
viandante deixar sem demora a terra, como lugar de peregrinação
e desterro, sabia mesmo assim tirar não pouco proveito das
coisas deste mundo. Em todas as criaturas ele cantava o
Artífice; tudo o que nelas via o referia ao Criador. Exultava de
alegria em todas as obras saídas da mão de Deus e, através desta
visão letificante, remontava-se Àquele que é a causa e o
princípio que lhes dá vida. [...] Pelas marcas impressas na
natureza seguia ao encontro do amado. [...] Abraçava todos os
seres criados com um amor e um entusiasmo jamais vistos e com
eles falava acerca do Senhor, convidando-os a louvá-Lo. [...]
Chamava irmãos a todos os animais, embora, entre todos,
preferisse os mansos. Porque a Bondade, que é fonte de todas as
coisas, já nesta vida se manifestava aos olhos do Santo
claramente total em todas elas.»
Deste modo, Francisco anuncia um caminho universal de acesso a
Deus através das suas «marcas impressas na natureza». As asas
que lhe tinham nascido, ao sentir-se no seio de Deus, de facto
abrangiam o mundo de lado a lado. E com ele – não sobre ele,
como no abraço a Cristo crucificado, de Murillo – Francisco
abraçou o Criador, cuja imagem o sol e as outras criaturas
reflectiam. Não se sentindo digno de nomear o Autor, nomeia a
sua obra dando voz consciente às suas irmãs criaturas, num gesto
que prolonga o acolhimento antes feito aos lobos de Greccio
e de Gubio,
às rolas,
ao falcão, às abelhas, ao faisão e à cigarra,
às cotovias,
a um cordeiro, uma ovelha, uma lebre, um coelho e uma ave
aquática, e às aves em geral.
Não é este, certamente, o espírito da Prece de Fernando
Pessoa,
eivada de panteísmo e egocentrismo. Nela, o famoso poeta dos
heterónimos identifica Deus com a criatura: «O Sol és tu e a Lua
és tu e o vento és tu!»; e, como se fosse criatura única, chega
quase a transformar-se no motivo do canto: «Torna-me grande como
o Sol, para que eu te possa adorar em mim». No seu Cântico,
Francisco é apenas um irmão do seu irmão, outra coisa não
querendo senão que o sol seja sol e a lua seja lua, nem oirando
nesta contemplação até ao ponto de transformar o espelho na
imagem reflectida.
Por isso, João Paulo II
proclamou-o «Padroeiro junto daqueles que se empenham pela
Ecologia», em 29 de Novembro de 1979, o mesmo dia e mês em que
Honório III aprovara a Regra dos Frades Menores em 1223. E não
por acaso. Pois Francisco amou e foi amado por todas as
criaturas, precisamente porque só quis ser irmão e menor entre
elas. Diz o Papa:
«Do Pobrezinho de Assis
nos vem o testemunho de que: estando em paz com Deus, melhor nos
podemos consagrar a construir a paz com toda a criação,
inseparável da paz entre os povos. Que a sua inspiração nos
ajude a conservar as coisas boas e belas criadas por Deus
omnipotente; e nos alente para o grave dever de as respeitar
e conservar com cuidado, no quadro da mais ampla e mais
elevada fraternidade humana.»
«SANTÍSSIMO PAI NOSSO»
Lendo agora, em sinopse, os
vários textos de Louvor por ele compostos, verificamos que São
Francisco de Assis tinha uma linguagem relativamente variada
para se dirigir a Deus, embora apareçam de preferência nomes do
Antigo Testamento.
Os mais repetidos são:
Senhor, Omnipotente, Altíssimo,
Santo. Pai, não e o mais referido.
Pode parecer estranho, em quem tão alegremente se atirou para os
braços do «Pai do céu», diante do bispo de Assis. Porém, não
podemos concluir daqui por um excessivo distanciamento ou frieza
de Francisco na sua relação com Deus. Um certo “temor
reverencial”, talvez, a que não é alheio o seu espírito delicado
e cavaleiresco, a sua grande humildade e o pouco conceito em que
se tinha para ser tão amado por Deus; mas, simultaneamente, uma
grande confiança filial, como se verifica pelo emprego do
Tu para se dirigir a Deus.
Por exemplo, no TESTAMENTO
encontramos esta bela síntese que elimina qualquer barreira
entre a Antiga e a Nova Aliança: Altíssimo Pai celeste.
Era um filho de Deus, que sentia a sua transcendência (Altíssimo,
celeste), mas também a sua imanência na relação mais
próxima de Pai.
Além disso, entre as suas mais
belas orações encontra-se uma PARÁFRASE DO PAI NOSSO, de
que ele gostava muito e costumava recitar com os irmãos. Nessa
paráfrase vemos o seu coração pousar em cada palavra
demoradamente, para bem lhe extrair todo o néctar:
Por exemplo:
Santíssimo
Pai
nosso, nosso Criador, nosso Redentor, nosso Salvador e
Consolador!
[...]
O Pão nosso
de cada dia, o teu dilecto Filho, nosso Senhor Jesus Cristo,
nos dá hoje, para memória e inteligência e reverência do amor
que nos teve, e de quanto por nós disse, fez e suportou.
Sempre assim, de invocação em
invocação.
A
Paternidade de Deus tinha sido a grande descoberta de Francisco,
e funcionou como o suporte emocional da sua vida e o elemento
estruturante da sua espiritualidade. Ao concluir este percurso
através da sua biografia, com referência às suas orações, talvez
possamos sintetizar uma e outra com a nossa própria paráfrase do
Pai Nosso, pedindo ao Seráfico Patriarca que nos ensine a
rezá-lo com o seu mesmo espírito:
1
Irmão
Francisco de Assis:
Perseguido pelo teu pai,
devolveste-lhe as roupas e o dinheiro
e renunciaste aos bens
familiares diante do teu Bispo, dizendo:
«Até agora, chamei-te meu pai,
aqui na terra;
de hoje em diante poderei
dizer livremente: “Pai Nosso, que estás no céu”.
Pois a Ele confiei todo o meu
tesouro
e nele depositei toda a minha
confiança.»
– Dá-nos o teu coração
LIVRE, para rezar:
R/
Pai nosso que estás no Céu.
2
Irmão Francisco de Assis:
Marcado pelo sofrimento, e
quase cego,
no teu Cântico do Irmão Sol
soubeste cantar
o nome do «Altíssimo,
omnipotente e bom Senhor»
e reconheceste-o em todas as
criaturas.
– Dá-nos o teu coração
de JOGRAL, para rezar:
R/
Pai nosso, santificado seja o teu nome.
3
Irmão
Francisco de Assis:
Depois de sonhares ser armado
cavaleiro e participar em batalhas,
escolheste o Senhor em vez de
correr atrás do servo;
tornaste-te o “arauto do
Grande Rei”, gritando a toda a gente:
“O amor não é amado! O Amor
não é amado!”;
e fundaste uma Ordem de Irmãos
para iniciar, no mundo,
outra forma de ser e de estar
por amor do Reino dos Céus.
– Dá-nos o teu coração
de CAVALEIRO, para rezar:
R/
Pai nosso, venha a nós o teu Reino.
4
Irmão
Francisco de Assis:
Embora sentindo-te inspirado
pelo Espírito de Deus
para seguir a tua vocação de
pobreza, de paz e menoridade,
não te dispensaste de
auscultar a vontade de Deus
na sua Palavra, no conselho
dos irmãos e do Papa;
renunciaste ao ofício de Geral
da Ordem e pediste um guardião,
estando disposto a obedecer ao
último noviço.
– Dá-nos o teu coração
de SERVO, para rezar:
R/
Pai nosso, seja feita a tua vontade
assim
na terra como no céu.
5
Irmão
Francisco de Assis:
Sendo filho de um rico
mercador,
quiseste desposar a Senhora
Pobreza na tua vida.
«Em todos os pobres vias o
Filho da Senhora pobre»
e envergonhavas-te ao ver
alguém mais pobre do que tu.
Inspiraste as Damas Pobres de
São Damião e a Ordem Terceira.
Exortaste os teus confrades a
trabalhar para ganharem o sustento,
e a só pedirem esmola quando
não lhes dessem salário.
E antes de morrer, repartiste
um pão entre todos
como sinal de amizade e
pensando no gesto do Senhor,
por cujo Corpo tinhas tanta
devoção.
– Dá-nos o teu coração
POBRE e SOLIDÁRIO, para rezar:
R/
Pai
nosso, dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.
6
Irmão
Francisco de Assis:
Nas ruas e nas pregações,
saudavas o povo, dizendo:
«O Senhor te dê a paz.»
No teu Cântico das Criaturas,
louvaste o Senhor
«por aqueles que perdoam» por
seu amor;
e, vendo o Bispo e o Podestá
de Assis desavindos,
acrescentaste-lhe uma estrofe
sobre o perdão,
e enviaste os frades a
cantá-la, para eles fazerem as pazes.
– Dá-nos o teu coração
FRATERNO e PACÍFICO, para rezar:
R/
Pai nosso, perdoa-nos as nossas ofensas,
como
nós perdoamos aos que nos ofenderam.
7
Irmão
Francisco de Assis:
Ao sentires, um dia, grande
tentação,
flagelaste com dureza o teu
corpo; rolaste, nu, sobre a neve
e atiraste-te sobre um
espinheiro.
Para não seres induzido ao
mal, pensavas nos teus defeitos,
e obrigaste, uma vez, Frei
Leão a repreender-te por eles.
– Dá-nos o teu coração
CASTO e SIMPLES, para rezar:
R/
Pai nosso, não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Conclusão:
«IRMÃOS,
COMECEMOS!»
Aos confrades que o rodeavam
no momento da sua páscoa, disse-lhes Francisco: «Vamos
começar a servir o Senhor, meus Irmãos, pois até aqui pouco
temos aproveitado!»
Nas coisas de Deus, acabar é sempre começar, pois «somos
servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer».
Francisco, sentindo-se responsável em atrair tantos Irmãos para
o caminho exigente do Evangelho, também lhes dizia: «O que a mim
me competia fazer, fi-lo; Cristo vos ensine a vós a fazerdes o
que a vós compete.»
Nunca pretendeu ser mestre, mas apenas «o irmão Francisco,
pequenino servo vosso»,
levando todos e tudo até Deus, nada retendo para si nem se
prestando a elogios à sua virtude pessoal.< |