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São Francisco de Assis

Meu Deus e meu Tudo (O Deus de São Francisco)

Quarenta e cinco anos bastaram para que Francisco de Assis entrasse na História e no coração de toda a gente como “o Cristo da Idade Média”, “o Irmão Universal”, o Patrono dos ecologistas. Qual foi o segredo deste homem? Eis a pergunta que, de fora da Família Franciscana, alguém me lançou, com o desafio de a esclarecer para o grande público. Por isso, este apontamento foi escrito a pensar em gente menos familiarizada com os passos fundamentais da biografia do “Poverello”. Talvez possa ser útil, também, para apresentar a sua caminhada àqueles que batem à porta de uma das Ordens Franciscanas com a intenção de seguir Jesus Cristo ao jeito de Francisco.

frei José Joaquim Lopes Morgado, OFMCap.

Francisco de Assis foi um convertido. Mas, a sua “queda do cavalo” não foi tão abrupta nem espectacular como habitualmente costuma pensar-se. A graça não substitui a natureza nem actua por saltos, tal como o sol não dispensa o ritmo das estações no fluir da vida. O itinerário espiritual de Francisco também decorreu ao longo de 20 anos – entre os 25 e os 45, idade com que morreu em 3 de Outubro de 1226 – e desenvolveu-se num clima denso de interioridade, com bastantes retoques originais. Isso permite-nos, ao mesmo tempo, ver nele um «Irmão» universal e reconhecê-lo como primogénito entre muitos irmãos.

Quando todos pensavam que viria a tornar-se um hábil mercador, como seu pai Pedro Bernardone, voltou as costas ao negócio, desposou a Senhora Pobreza e correu no encalço de um tesouro no céu. Que força o travou e moveu? Que sonho, ideal ou ilusão se lhe atravessou no espírito?

Uma experiência ascético-mística tão profunda como a dele é algo mais íntimo do que a nossa intimidade, para usar a expressão de Santo Agostinho;[2] e nem os próprios, muitas vezes, a conseguem descrever. Por isso, não presumo entrar nos meandros de Francisco donde brotou a exclamação que dá título a este apontamento. Pretendo, apenas, sublinhar algumas das suas orações, sem preocupação crítica acerca do texto original; e, através delas, traçar os passos mais significativos da sua vida, como resposta ao Deus que progressivamente foi descobrindo no pobre, no leproso, no crucifixo de São Damião, no Evangelho...

«MOSTRA-ME, SENHOR, O SENTIDO»

A primeira oração que dele se conserva remonta a fins de 1205, quando Francisco tinha 24 anos. Rezou-a diante do crucifixo da igreja de São Damião, no sopé de Assis:

Ó glorioso Deus altíssimo,

ilumina as trevas do meu coração,

concede-me uma fé verdadeira,

uma esperança firme e um amor perfeito.

Mostra-me, Senhor, o [recto] sentido e conhecimento,

a fim de que possa cumprir o sagrado encargo

que na verdade acabas de dar-me.[3]

É um jovem inquieto, mas sem rumo certo, ainda confuso e abismado perante um Deus altíssimo. Um coração em trevas, mas aberto e sequioso de conhecer o sentido da sua vida. Uma vontade centrada no essencial. Pedindo as três virtudes teologais – , esperança e amor – que lhe permitirão um mais profundo conhecimento de Deus, dispõe-se também a realizar o projecto que Ele lhe possa ter confiado.

No entanto, sendo alguém ainda à procura de Deus, Francisco já não está no início da caminhada para o encontro decisivo com Ele. Esta oração tinha amadurecido antes, em momentos fortes da sua vida, que os biógrafos da época registaram.

O primeiro foram onze meses de prisão aos 20 anos, na sequência de uma guerra entre Assis e Perúsia. Quando, por doença, é solto e regressa a casa em 1203, embora volte a embrenhar-se nos negócios do pai e nas folias da vida, vem apeado do seu cavalo de “g1ória”. É então que «toma a resolução de jamais repelir quem a ele recorrer invocando o nome de Deus.»[4]

Segue-se uma prolongada doença, em 1204, que vem destronar o “rei da juventude de Assis” da alegria e do prazer mundanos. Já convalescente, «um dia, saiu fora e deteve-se a contemplar com mais atenção a paisagem circundante. Mas nada do que via – nem a beleza dos campos, nem a profundidade dos bosques, nem o verdor dos vinhedos, nem o que antes costumava alegrar-lhe a vista – conseguia deleitá-lo minimamente. Surpreendia-se ele próprio com tão repentina mudança e tinha por néscios os que prendiam o coração a tais coisas».[5] «A partir desse dia – escreve Tomás de Celano –, começou a ter-se em menos conta e a desprezar o que antes tinha admirado e amado.»[6]

Quando o ano de 1205 entra na Primavera, renascem a Francisco as asas de cavaleiro e alista-se de novo, desta vez numa pequena expedição de Assis chefiada por Gentile, para combater ao lado das forças do papa Inocêncio III comandadas por Gualter de Brienne. Encontrando-se já em Espoleto, outra “voz de comando” se faz ouvir, durante a noite, «em tom muito familiar:

– Francisco, quem é que terá mais possibilidade de te ajudar? O Senhor ou o servo? O rico ou o pobre?

– O Senhor; o rico.

– Nesse caso, porque é que vais trocar o Senhor pelo servo, a riqueza de Deus pela pobreza do homem? – insistiu a voz divina.

– Senhor, que quereis que eu faça?

– Volta para a tua terra – diz-lhe então o Senhor.

Ao amanhecer, a toda a pressa voltou para Assis, cheio de alegria e confiança. Começava a tornar-se um modelo de obediência: só estava a espera de conhecer claramente a vontade do Senhor.»[7]

Às vezes, os biógrafos – aqui, São Boaventura na sua Legenda Maior – simplificam numa penada todo um processo lento e doloroso. Mas o facto é que, a partir deste momento, a vida de Francisco vai tomar definitivamente um rumo novo, como a de Paulo no caminho para Damasco.[8] Mas, enquanto Paulo, judeu cultivado nas escolas rabínicas, pergunta «Quem és Tu, Senhor?», Francisco, amassado pela vida, coloca-se nas mãos do oleiro: «Senhor, que quereis que eu faça?»

Já «só estava à espera de conhecer claramente a vontade do Senhor» – diz o biógrafo. Esta vontade vai ser-lhe revelada pelo crucifixo de São Damião, como veremos. Porém, a obediência a esta vontade já Francisco a tinha ido exercitando. A forte experiência vivida naquela noite em Espoleto libertara-o totalmente de si. Em vez de ficar mortalmente ferido como homem, sem razões para viver, sai dali encorajado para outras batalhas bastante mais difíceis, mas também gratificantes.

«Francisco – sentiu Deus dizer-lhe, no seu interior –, troca por valores do espírito o que ainda amas com amor carnal; prefere as coisas amargas às doces e despreza-te a ti mesmo, se me queres conhecer. Só voltado do avesso poderás saborear a verdade das minhas palavras.»[9]

Francisco vai mesmo virar do avesso e avançar com passada de atleta: junta-se aos pobres, numa peregrinação a Roma, trocando as suas vestes luxuosas pelos andrajos de um deles; beija um leproso e começa a visitar uma leprosaria, onde distribui dinheiro a todos beijando-lhes a mão e a boca.[10]

Foi então que, «já inteiramente transformado em seu coração e muito próximo de o ser igualmente quanto à maneira de viver, calhou de passar um dia perto da igreja de São Damião, quase em ruína e de todos abandonada».[11] «Francisco, vai e repara a minha casa, que como vês está toda a cair.»[12]

A ordem é frontal, e desafia-o para um trabalho de reconstrução a partir dos alicerces; mas já o encontra de estaleiro preparado: depois de reconhecer a figura de Cristo na pessoa dos pobres e dos leprosos, mais fácil há-de ser reconhecê-Lo naquele ícone bizantino, actualmente na igreja de Santa Clara em Assis. Mas só mais tarde Francisco atingiu todo o seu alcance, ao aperceber-se de que, por casa em ruínas, Cristo queria significar o corpo vivo da sua Igreja desfigurada na vida pouco evangélica dos cristãos.

Por isso, antes de meter ombros a essa tarefa de reformador, iria reconstruir a igreja de São Damião, a capela de São Pedro e a Porciúncula. E teria de enfrentar um segundo nascimento: perseguido e levado a tribunal pelo pai, que o via esbanjar a sua fortuna em restauro de igrejas e banquetes a pobres, diante do bispo de Assis Francisco devolve-lhe todo o dinheiro que traz, despoja-se das suas vestes e diz: «Escutai-me todos e entendei bem. Até agora chamei a Pedro Bernardone meu pai. Mas, porque decidi servir a Deus, devolvo-lhe o dinheiro que atormentava a sua alma e toda a roupa que dele recebi. De agora em diante quero dizer: ‘Pai Nosso, que estais no céu’ e não ‘meu pai, Pedro Bernardone’.»[13]

Firme na sua vocação, e vivendo já o fundamental do Evangelho, estava agora preparado para se tornar seu anunciador e reconstruir a Igreja de Cristo a partir da sua vida. Este passo, dá-o no dia 24 de Fevereiro de 1208, Festa de São Matias, ao assistir à Missa dos Apóstolos. Conta São Boaventura:

«O texto do Evangelho era aquele em que Cristo envia os discípulos a pregar e lhes ensina a forma de vida evangélica: nada de ouro nem de prata, nem dinheiro nas algibeiras, nem saco de viagem, nem mudas de roupa, nem calçado, nem pau para se apoiarem ou defenderem. Ele ouviu e compreendeu, e nunca mais esqueceu.

Amante como era da pobreza apostólica, rejubilou de alegria e disse logo para consigo: «Cá está o que eu pretendo! É isto o que eu desejo de toda a minha alma!» Na verdade, era Cristo quem o desejava nele, em resposta à sua oração. Por isso, como resposta ao apelo de Deus, também nele o querer se transformou em fazer.

«E, sem mais delongas – continua o biógrafo – descalça os sapatos, arruma o cajado, desfaz-se da carteira e do dinheiro, conserva apenas uma túnica, atira fora o cinto, substituindo-o por uma corda; empenha-se por completo em realizar o que acabara de ouvir e em conformar-se em tudo a esse código de perfeição dado aos Apóstolos.[14]

«MEU DEUS! MEU DEUS!»

Francisco tinha-se encontrado com a vontade de Deus. Mais tarde, escreverá no seu TESTAMENTO: «O mesmo Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do santo Evangelho.»[15] O Evangelho será, daqui em diante, a sua escola permanente no estudo e confirmação dessa vontade tanto para si como para os seus seguidores.

O primeiro vai ser Bernardo, um homem piedoso e simples de Assis.[16] A decisão de vida para ambos será tomada abrindo o Evangelho três vezes, após Bernardo ter visto Francisco repetir, durante uma noite inteira, esta oração: «Meu Deus! Meu Deus!»[17]

Os passos dados até ali, os caminhos imprevisíveis por onde o Senhor o conduzira, todos os obstáculos que se tinham ido esboroando, a gratuidade com que tudo aquilo acontecera, deixavam o jovem convertido com esta certeza: Há um Deus! E esse Deus é o meu Deus! Esta oração, longe de exprimir uma atitude egoísta perante Deus, manifesta o encantamento do enamorado ferido pelo amor e preferido dentre muitos possíveis igualmente (in)dignos. Dizia para consigo: «Francisco, se um ladrão tivesse recebido do Altíssimo tão grandes graças como as que te dispensou a ti, muito mais agradecido ele seria.»[18]

Fruto desse deslumbramento de quem se sente desmerecer tanta graça, surge em Francisco a atitude do louvor. Escolhendo versículos dos Salmos e alguns de Daniel e do Apocalipse, compõe uma EXORTAÇÃO AO LOUVOR DE DEUS, que de alguma forma inclui as linhas básicas do seu futuro CÂNTICO DAS CRIATURAS, pois convida todas as criaturas racionais e irracionais, todo o espírito, a louvar o Senhor:

Temei o Senhor e dai-lhe glória.

Digno é o Senhor de receber o louvor e honra. [...]

Louvai-O, céus e terra.

Todos os rios louvai o Senhor. [...]

Louvai o Senhor, porque é bom;

todos os que isto lerdes bendizei o Senhor.

Todas as criaturas, bendizei o Senhor.[19]

No conjunto de 17 versos, chama-nos a atenção o número 4: Salve Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo. Francisco não convida Maria, enquanto criatura, a louvar o Senhor; mas louva-a, dirigindo-se a ela com as palavras do anjo Gabriel na anunciação.

Esta originalidade, aparentemente deslocada e anacrónica, de juntar o louvor a Maria com o louvor de Deus – além de uma invocação final a São Miguel Arcanjo – vai repetir-se noutra colectânea de textos oracionais da Bíblia com que Francisco organizou o OFÍCIO DA PAIXÃO DO SENHOR, que abrange também as demais Festas do Senhor.

Um outro conjunto de Louvores, igualmente respigados da Sagrada Escritura, e que deviam ser ditos antes de todas as Horas, termina com esta belíssima oração:

Omnipotente, santíssimo e soberano Deus, sumo bem, todo o bem, o bem completo, a ti que só és bom, rendamos todo o louvor, toda a glória, toda a graça, toda a honra, toda a bênção, e todo o bem a ti atribuamos para sempre. Faça-se. Assim seja. Assim seja. Amen.[20]

Há nela grandes semelhanças com a primeira estrofe do Cântico das Criaturas, de que falarei mais adiante. As Horas antes das quais deviam ser ditos estes Louvores eram as Horas Litúrgicas de Matinas, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas, em que estava dividido aquele OFÍCIO DA PAIXÃO DO SENHOR. Abria sempre com a mesma Antífona a Nossa Senhora, que também servia de capítulo, de hino, de versículo e oração:

Santa Virgem Maria, não veio a este mundo mulher semelhante a ti; filha e serva do Rei altíssimo, o Pai celeste, Mãe do nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo, roga por nós juntamente com São Miguel Arcanjo e todas as Virtudes do céu e todos os Santos, a teu santíssimo e dilecto Filho, nosso Senhor e Mestre.[21]

Diga-se, de passo, e uma vez que nos estamos a referir às suas orações, que Francisco tem ainda uma lindíssima SAUDAÇÃO À BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA, e nutria por ela uma filial devoção, por ser a «Virgem Senhora Pobrezinha», Mãe do seu Irmão Jesus.[22] Reza assim, naquela saudação:

Salve, Senhora santa Rainha, santa Mãe de Deus,

Maria, virgem convertida em templo,

e eleita pelo santíssimo Pai do céu,

consagrada por Ele com o seu santíssimo amado Filho

e o Espírito Santo Paráclito;

que teve e tem toda a plenitude da graça e todo o bem!

Salve, palácio de Deus!

Salve, tabernáculo de Deus!

salve, casa de Deus!

Salve, vestidura de Deus!

Salve, mãe de Deus!

Tal como na Exortação ao Louvor de Deus estranhávamos, até certo ponto, a inclusão de um verso a Maria, também agora poderíamos estranhar que a Saudação à Bem-aventurada Virgem Maria conclua com esta referência às virtudes:

E vós, todas as santas virtudes,

que pela graça e pela iluminação do Espírito Santo sois infundidas no coração dos fiéis, para, de infiéis que somos, nos tornardes fiéis a Deus.[23]

Tal estranheza poderá ter maior cabimento, se dissermos que Francisco escreveu outro longo texto precisamente de Saudação as Virtudes.[24] Mas, por um lado, esta conclusão sobre as virtudes é razoável, porque a Virgem Maria teve e tem toda a plenitude da graça e todo o bem! – ou seja, todas as virtudes, a plenitude da virtude; por outro, revela mais uma vez a espontaneidade da oração de Francisco, que englobava todas as dimensões da espiritualidade, pois todas nasciam do mesmo Deus que é todo o bem, o soberano bem,[25] tal como juntava todas as criaturas na comunhão da mesma vida. «Meu Deus e meu Tudo».

Sublinhem-se, entretanto, as expressões santíssimo Pai do céu e santíssimo amado Filho, nesta oração. Embora sendo laudatória, ela não se perde na louvaminha estéril, mas arranca do mais íntimo da ternura de Deus para louvar as suas manifestações em Maria – que é seu palácio, tabernáculo, casa, vestidura e mãe!

Disse que o Evangelho seria, para Francisco, a escola permanente no estudo e confirmação da vontade divina tanto para si como para os seus seguidores. De facto, ao Evangelho foi ele buscar a Forma de vida para os seus Irmãos da Ordem dos Frades Menores. A segunda redacção da REGRA, aprovada pelo Papa Honório III em 29 de Novembro de 1223, começa deste modo: «A Regra e Vida dos Irmãos Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo...».[26]

«QUEM ÉS TU E QUEM SOU EU?»

Da Palavra, Francisco passa naturalmente à Pessoa de Cristo, que nos é revelada nos Evangelhos e o faz exclamar quase extático:

Oh! Como é santo ter um tal esposo, consolador, belo e admirável! Oh! Como é santo e amável ter um tal irmão e um tal filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e mais que tudo desejável, Nosso Senhor Jesus Cristo...[27]

De esposo a filho, passando por irmão, tudo é legítimo chamar a Nosso Senhor Jesus Cristo. Seria fácil, mas é desnecessário, fundamentar cada um destes apelativos, não apenas nos textos do Novo Testamento. Francisco sabia-o muito bem, e sobretudo vivia-o com um amor muito profundo e, como vemos, nada genérico; por isso deixa desbordar assim o coração.

Mas o Santo nutria um devotamento muito especial pelas duas expressões concretas do amor de Deus em Jesus Cristo: o Natal e a Paixão. É conhecida a sua iniciativa de representar o presépio ao vivo no monte Greccio, na noite de Natal de 1223, e as manifestações de ternura com que envolveu, então, o Menino de Belém.[28] Será menos conhecido o Salmo que ele teceu, mais uma vez com textos do Antigo e do Novo Testamento, para ser recitado no OFÍCIO DA PAIXÃO DO SENHOR no Tempo do Natal até à Oitava da Epifania. Começa assim:

Glorificai a Deus, nosso auxílio,

louvai o Senhor Deus, vivo e verdadeiro, com cânticos de alegria.

Porque o Senhor é o Altíssimo,

o terrível, o grande rei de toda a terra.

Porque o santíssimo Pai do céu, nosso Rei desde a eternidade, mandou lá do alto o seu dilecto Filho,

e Ele nasceu da bem-aventurada Virgem Santa Maria. [...]

Glória ao Senhor Deus no mais alto dos céus,

e na terra paz aos homens de boa vontade.[29]

São 13 versículos, com maior criatividade que os de outros tempos litúrgicos, revelando a grande liberdade de espírito de Francisco e o seu à-vontade em fazer “releituras” da Palavra de Deus nas várias circunstâncias da vida.

Note-se, entretanto, que o tratamento de Deus como Altíssimo e Rei precede o de Pai. O mesmo acontecia, já, na referida Antífona a Nossa Senhora. O qual faz supor que Francisco era mais contido nos textos que redigia também para uso dos outros do que na sua forma de se relacionar pessoalmente com Deus. Basta ler o relato da tal representação-celebração viva do presépio:

«O santo de Deus está de pé diante do presépio, desfeito em suspiros, trespassado de piedade, submerso em gozo inefável. [...] Pregando ao povo, tem palavras doces como o mel para evocar o nascimento do Rei pobre e a pequena cidade de Belém. Por vezes, ao mencionar a Jesus Cristo, abrasado de amor, chama-lhe o ‘menino de Belém’ e, ao dizer ‘Belém’, era como se imitasse o balir duma ovelha e deixasse extravasar da boca toda a maviosidade da voz e toda a ternura do coração. Quando lhe chamava ‘menino de Belém’ ou ‘Jesus’ passava a língua pelos lábios, como para saborear e reter a doçura de tão abençoados nomes.»[30]

Também é sabido que Francisco recebeu as cinco Chagas de Cristo nas mãos, nos pés e no lado, no dia 14 ou 15 de Setembro de 1924, no monte Alverne. Talvez não se saiba tanto é que foi então que ele compôs o seu hino de LOUVORES A DEUS, onde mais uma vez os nomes de altíssimo e rei precedem o de Pai. Vale a pena transcrevê-lo por inteiro:

Tu és santo, Senhor Deus único, o que fazes maravilhas.

Tu és forte,

Tu és grande,

Tu és altíssimo,

Tu és rei omnipotente,

Tu, Pai santo, o rei do céu e da terra!

Tu és trino e uno, Senhor Deus, todo o bem.

Tu és bom, todo o bem, o soberano bem,

Senhor Deus, vivo e verdadeiro!

Tu és caridade, amor!

Tu és sabedoria!

Tu és humildade!

Tu és paciência!

Tu és mansidão!

Tu és segurança!

Tu és descanso!

Tu és gozo e alegria!

Tu és a nossa esperança!

Tu és justiça e temperança!

Tu és toda a nossa riqueza e saciedade!

Tu és beleza!

Tu és mansidão!

Tu és o protector!

Tu és o nosso guarda e defensor!

Tu és fortaleza!

Tu és consolação!

Tu és a nossa esperança!

Tu és a nossa fé!

Tu és a nossa caridade!

Tu és a nossa grande doçura.

Tu és a nossa vida eterna,

o Senhor grande e admirável,

o Deus omnipotente,

o misericordioso Salvador![31]

Do hino, diz o Franciscano frei David de Azevedo: «É uma girândola de louvores, parecendo ao mesmo tempo denunciar, precisamente pela insistência repetitiva dos louvores, que a palavra era incapaz de exprimir a exuberância do coração. Francisco está todo voltado para Deus. Não faz senão louvá-Lo. Não há um movimento sequer em que o Santo volte sobre si mesmo, como seria, por exemplo, uma palavra de petição ou de propiciação. O TU divino é só fascinação. Prendeu-o por completo. Francisco está encandeado pelo seu Senhor; ‘Senhor, Tu és Santo. Tu és todo o bem!’»[32]

E o Franciscano-Capuchinho frei Ignacio de Larrañaga: «O “eu” de Francisco foi irresistivelmente atraído e tomado pelo uno, feito (Francisco) totalmente uno com o Centro. Esta foi a grande páscoa. Contudo, não houve fusão. Pelo contrário, Francisco não só conservava mais nitidamente do que nunca a consciência da sua identidade pessoal, como também avançava mais pelo mar de Deus adentro, aumentando de tal forma a diversidade entre Deus e ele, que chegou a adquirir perfis inquietantes: «Quem és Tu e quem sou eu?»[33]

De facto, no livro das Considerações sobre as chagas lê-se que frei Leão, companheiro e confidente de Francisco, viu o santo «de joelhos, com o rosto e as mãos levantadas, proferindo com íntimo fervor: ‘Quem és Tu, dulcíssimo Deus e Senhor meu, e quem sou eu, desprezível verme da terra e inútil servo? [...] Senhor, sou todo teu. Bem sabes que não tenho mais que o hábito e a roupa interior, e mesmo estas coisas são tuas.»[34]

«Não restava nada. As estrelas tinham desaparecido, a noite fora submersa. O próprio Francisco tinha desaparecido. Somente restava um TU que tudo abrange acima e abaixo, adiante e atrás, à direita e à esquerda, dentro e fora. [...] Ao sentir-se no seio de Deus, nasceram a Francisco asas de tal envergadura, que abrangiam o mundo de lado a lado. ‘Meu Deus e meu Tudo’.»[35]

«ALTÍSSIMO, OMNIPOTENTE, BOM SENHOR... LOUVADO SEJAS!»

Já Francisco de Assis era um “outro Cristo” no corpo e no espírito, quando compôs o CÂNTICO DAS CRIATURAS ou do Irmão Sol, entre Março e Maio de 1225. Numa cela de esteiras no jardim de São Damião, após uma noite de insónia com os ratos a passarem-lhe por cima, resolve «compor um novo Louvor ao Senhor, pelas criaturas que nos servem todos os dias e sem as quais não podíamos viver»[36]:

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,

a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.

Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas,

especialmente o meu Senhor irmão Sol,

o qual faz o dia e por ele nos alumia.

E ele é belo e radiante, com grande esplendor:

de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem. [...]

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra,

que nos sustenta e governa,

e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras.

E assim vai cantando, uma por uma, todas as suas irmãs criaturas: a lua e as estrelas, o vento e o ar e nuvens e sereno e todo o tempo, a irmã água, o irmão fogo, a irmã e mãe terra.... Para concluir:

Louvai e bendizei a meu Senhor,

e dai-lhe graças e servi-o com grande humildade.[37]

O próprio santo compôs e ensinou aos companheiros a melodia para este poema,[38] ao qual haveria de acrescentar mais duas estrofes hoje nele incorporadas: uma em Junho do mesmo ano, sobre os que perdoam e sofrem provações e doenças, para restabelecer a paz entre o Bispo e o Podestá de Assis[39]; outra já em Agosto-Setembro de 1226, para dar as boas-vindas à sua irmã, a Morte corporal.[40] Para cantar aquela enviou frei Pacífico, o “Rei dos versos” e hábil mestre de coro, com outros irmãos; para esta, convidou frei Ângelo e frei Leão.

É este um dos mais «dulçorosos cânticos do abominável fundador da ordem franciscana» – escreve Fernando Pessoa, pelos vistos o único escritor português que não gostou de São Francisco de Assis.[41] Mas “dulçoroso”, porque de um coração humilde e pacificado; não porque melicodoce. Pois o Cântico das Criaturas pode ser tudo menos um mero texto poético, por muito belo e inspirado que seja; foi vivido e sofrido no espírito e na carne, antes de passar ao papel. E nasceu num contexto dramático: Francisco estava «sem poder suportar a luz do sol durante o dia, nem a do lume durante a noite. Permanecia constantemente na obscuridade, no interior da sua cela. Era tanto o sofrimento causado pela doença, que não podia descansar nem dormir, o que lhe era prejudicial, tanto para a doença dos olhos, como para o estado geral da saúde».[42]

O Cântico é, pois, a resposta a uma luz que naquela noite o iluminou por dentro: recebera do Senhor a certeza de que ia salvar-se! Nele resume a sua relação com Deus e com todas as criaturas. «Meu Deus e meu Tudo». E dá-nos uma sábia lição de que não é possível amar a Deus sem amar a sua obra.

«Desejando embora este feliz viandante deixar sem demora a terra, como lugar de peregrinação e desterro, sabia mesmo assim tirar não pouco proveito das coisas deste mundo. Em todas as criaturas ele cantava o Artífice; tudo o que nelas via o referia ao Criador. Exultava de alegria em todas as obras saídas da mão de Deus e, através desta visão letificante, remontava-se Àquele que é a causa e o princípio que lhes dá vida. [...] Pelas marcas impressas na natureza seguia ao encontro do amado. [...] Abraçava todos os seres criados com um amor e um entusiasmo jamais vistos e com eles falava acerca do Senhor, convidando-os a louvá-Lo. [...] Chamava irmãos a todos os animais, embora, entre todos, preferisse os mansos. Porque a Bondade, que é fonte de todas as coisas, já nesta vida se manifestava aos olhos do Santo claramente total em todas elas.»[43]

Deste modo, Francisco anuncia um caminho universal de acesso a Deus através das suas «marcas impressas na natureza». As asas que lhe tinham nascido, ao sentir-se no seio de Deus, de facto abrangiam o mundo de lado a lado. E com ele – não sobre ele, como no abraço a Cristo crucificado, de Murillo – Francisco abraçou o Criador, cuja imagem o sol e as outras criaturas reflectiam. Não se sentindo digno de nomear o Autor, nomeia a sua obra dando voz consciente às suas irmãs criaturas, num gesto que prolonga o acolhimento antes feito aos lobos de Greccio[44] e de Gubio,[45] às rolas,[46] ao falcão, às abelhas, ao faisão e à cigarra,[47] às cotovias,[48] a um cordeiro, uma ovelha, uma lebre, um coelho e uma ave aquática, e às aves em geral.[49]

Não é este, certamente, o espírito da Prece de Fernando Pessoa[50], eivada de panteísmo e egocentrismo. Nela, o famoso poeta dos heterónimos identifica Deus com a criatura: «O Sol és tu e a Lua és tu e o vento és tu!»; e, como se fosse criatura única, chega quase a transformar-se no motivo do canto: «Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim». No seu Cântico, Francisco é apenas um irmão do seu irmão, outra coisa não querendo senão que o sol seja sol e a lua seja lua, nem oirando nesta contemplação até ao ponto de transformar o espelho na imagem reflectida.

Por isso, João Paulo II proclamou-o «Padroeiro junto daqueles que se empenham pela Ecologia», em 29 de Novembro de 1979, o mesmo dia e mês em que Honório III aprovara a Regra dos Frades Menores em 1223. E não por acaso. Pois Francisco amou e foi amado por todas as criaturas, precisamente porque só quis ser irmão e menor entre elas. Diz o Papa:

«Do Pobrezinho de Assis nos vem o testemunho de que: estando em paz com Deus, melhor nos podemos consagrar a construir a paz com toda a criação, inseparável da paz entre os povos. Que a sua inspiração nos ajude a conservar as coisas boas e belas criadas por Deus omnipotente; e nos alente para o grave dever de as respeitar e conservar com cuidado, no quadro da mais ampla e mais elevada fraternidade humana.»[51]

«SANTÍSSIMO PAI NOSSO»

Lendo agora, em sinopse, os vários textos de Louvor por ele compostos, verificamos que São Francisco de Assis tinha uma linguagem relativamente variada para se dirigir a Deus, embora apareçam de preferência nomes do Antigo Testamento.

Os mais repetidos são: Senhor, Omnipotente, Altíssimo, Santo. Pai, não e o mais referido.[52] Pode parecer estranho, em quem tão alegremente se atirou para os braços do «Pai do céu», diante do bispo de Assis. Porém, não podemos concluir daqui por um excessivo distanciamento ou frieza de Francisco na sua relação com Deus. Um certo “temor reverencial”, talvez, a que não é alheio o seu espírito delicado e cavaleiresco, a sua grande humildade e o pouco conceito em que se tinha para ser tão amado por Deus; mas, simultaneamente, uma grande confiança filial, como se verifica pelo emprego do Tu para se dirigir a Deus.

Por exemplo, no TESTAMENTO encontramos esta bela síntese que elimina qualquer barreira entre a Antiga e a Nova Aliança: Altíssimo Pai celeste.[53] Era um filho de Deus, que sentia a sua transcendência (Altíssimo, celeste), mas também a sua imanência na relação mais próxima de Pai.

Além disso, entre as suas mais belas orações encontra-se uma PARÁFRASE DO PAI NOSSO, de que ele gostava muito e costumava recitar com os irmãos. Nessa paráfrase vemos o seu coração pousar em cada palavra demoradamente, para bem lhe extrair todo o néctar:

Por exemplo:

Santíssimo Pai nosso, nosso Criador, nosso Redentor, nosso Salvador e Consolador! [...]

O Pão nosso de cada dia, o teu dilecto Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, nos dá hoje, para memória e inteligência e reverência do amor que nos teve, e de quanto por nós disse, fez e suportou.[54]

Sempre assim, de invocação em invocação.

 A Paternidade de Deus tinha sido a grande descoberta de Francisco, e funcionou como o suporte emocional da sua vida e o elemento estruturante da sua espiritualidade. Ao concluir este percurso através da sua biografia, com referência às suas orações, talvez possamos sintetizar uma e outra com a nossa própria paráfrase do Pai Nosso, pedindo ao Seráfico Patriarca que nos ensine a rezá-lo com o seu mesmo espírito:

 1  Irmão Francisco de Assis:

Perseguido pelo teu pai, devolveste-lhe as roupas e o dinheiro 

e renunciaste aos bens familiares diante do teu Bispo, dizendo:

«Até agora, chamei-te meu pai, aqui na terra;

de hoje em diante poderei dizer livremente: “Pai Nosso, que estás no céu”.

Pois a Ele confiei todo o meu tesouro

e nele depositei toda a minha confiança.»[55]

– Dá-nos o teu coração LIVRE, para rezar:

R/ Pai nosso que estás no Céu.

 2  Irmão Francisco de Assis:

Marcado pelo sofrimento, e quase cego, [56]                         

no teu Cântico do Irmão Sol soubeste cantar

o nome do «Altíssimo, omnipotente e bom Senhor»

e reconheceste-o em todas as criaturas.[57]    

– Dá-nos o teu coração de JOGRAL, para rezar:

R/ Pai nosso, santificado seja o teu nome.

 3  Irmão Francisco de Assis:

Depois de sonhares ser armado cavaleiro e participar em batalhas,

escolheste o Senhor em vez de correr atrás do servo;[58]                 

tornaste-te o “arauto do Grande Rei”, gritando a toda a gente:

“O amor não é amado! O Amor não é amado!”;[59]                         

e fundaste uma Ordem de Irmãos para iniciar, no mundo,

outra forma de ser e de estar por amor do Reino dos Céus.

– Dá-nos o teu coração de CAVALEIRO, para rezar:

R/ Pai nosso, venha a nós o teu Reino.

 4  Irmão Francisco de Assis:

Embora sentindo-te inspirado pelo Espírito de Deus

para seguir a tua vocação de pobreza, de paz e menoridade,[60]       

não te dispensaste de auscultar a vontade de Deus

na sua Palavra, no conselho dos irmãos e do Papa;[61]         

renunciaste ao ofício de Geral da Ordem e pediste um guardião,

estando disposto a obedecer ao último noviço. [62]

– Dá-nos o teu coração de SERVO, para rezar:

R/ Pai nosso, seja feita a tua vontade

     assim na terra como no céu.

 5  Irmão Francisco de Assis:

Sendo filho de um rico mercador,

quiseste desposar a Senhora Pobreza na tua vida.[63]     

«Em todos os pobres vias o Filho da Senhora pobre» [64]  

e envergonhavas-te ao ver alguém mais pobre do que tu.[65]            

Inspiraste as Damas Pobres de São Damião e a Ordem Terceira.

Exortaste os teus confrades a trabalhar para ganharem o sustento,

e a só pedirem esmola quando não lhes dessem salário.[66]   

E antes de morrer, repartiste um pão entre todos

como sinal de amizade e pensando no gesto do Senhor, [67]              

por cujo Corpo tinhas tanta devoção. [68]    

– Dá-nos o teu coração POBRE e SOLIDÁRIO, para rezar:

R/ Pai nosso, dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.

 6  Irmão Francisco de Assis:

Nas ruas e nas pregações, saudavas o povo, dizendo:

«O Senhor te dê a paz.»[69]                                                             

No teu Cântico das Criaturas, louvaste o Senhor

«por aqueles que perdoam» por seu amor;[70]                                

e, vendo o Bispo e o Podestá de Assis desavindos,

acrescentaste-lhe uma estrofe sobre o perdão,

e enviaste os frades a cantá-la, para eles fazerem as pazes.[71]      

– Dá-nos o teu coração FRATERNO e PACÍFICO, para rezar:

R/ Pai nosso, perdoa-nos as nossas ofensas,

     como nós perdoamos aos que nos ofenderam.

 7  Irmão Francisco de Assis:

Ao sentires, um dia, grande tentação,

flagelaste com dureza o teu corpo; rolaste, nu, sobre a neve

e atiraste-te sobre um espinheiro. [72]                                                

Para não seres induzido ao mal, pensavas nos teus defeitos,

e obrigaste, uma vez, Frei Leão a repreender-te por eles. [73]                  

– Dá-nos o teu coração CASTO e SIMPLES, para rezar:

R/ Pai nosso, não nos deixes cair em tentação,

     mas livra-nos do mal.

Conclusão:

«IRMÃOS, COMECEMOS!»

Aos confrades que o rodeavam no momento da sua páscoa, disse-lhes Francisco: «Vamos começar a servir o Senhor, meus Irmãos, pois até aqui pouco temos aproveitado!»[74]

Nas coisas de Deus, acabar é sempre começar, pois «somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer».[75] Francisco, sentindo-se responsável em atrair tantos Irmãos para o caminho exigente do Evangelho, também lhes dizia: «O que a mim me competia fazer, fi-lo; Cristo vos ensine a vós a fazerdes o que a vós compete.»[76] Nunca pretendeu ser mestre, mas apenas «o irmão Francisco, pequenino servo vosso»,[77] levando todos e tudo até Deus, nada retendo para si nem se prestando a elogios à sua virtude pessoal.<