"Mas, antes disso, (Frei Pacifico) teve a dita de ver no rosto de
Francisco um grande T de
variadas cores, que lhe tornava o semblante maravilhoso. O
curioso
é que Francisco tinha efectivamente uma singular veneração por essa
letra ou por esse símbolo, como sinal que era da cruz. Muitas vezes
falava dele e o recomendava e o traçava sobre si mesmo, antes de encetar
qualquer acção e desenhava-o com o seu próprio punho nas cartas que
escrevia, como se todo o seu empenho fosse, no dizer do Profeta,
imprimir um T na testa
de todos
os que gemem e lamentam os seus pecados (Ez 9, 1), ou seja, de todos os
que sinceramente se convertem a Cristo" (Lm II, 9; LM IV, 9).
I.
BREVE HISTÓRIA
DO TAU
S. Francisco adoptou esta
letra, que é a última do alfabeto hebraico e que também é letra do
alfabeto grego, como seu símbolo, porque nele viu um sentido positivo e
de salvação. Com efeito, lê-se, no livro do profeta
Ezequiel:
O Senhor disse-lhe:
«Vai pela cidade, atravessa Jerusalém
e marca uma cruz na fronte dos homens
que gemem e se lamentam por causa
das abominações que nela se praticam.»
E aos outros ouvi-o dizer:
«Ide pela cidade atrás dele e feri-o.
Que o vosso olhar não poupe ninguém
nem tenha piedade. Velhos, jovens,
virgens, meninos
e mulheres, matai-os
a todos e exterminai toda a gente; mas
não toqueis naqueles que foram marcados
na fronte. (9, 4-6).
Na antiga escrita hebraica
esta letra tinha a forma de uma cruz oblíqua. Os analfabetos serviam-se
deste sinal para assinar (Jb 31, 35). No Apocalipse, os servos de Deus
são marcados com um sinal (Ap 7, 2-8; 9,4). Desde os Padres da Igreja
até hoje, viu-se no Tau um
símbolo da cruz. A forma do Tau fez lembrar a Francisco a cruz em
que Jesus foi cravado. E por isso é que ele costumava fazer a sua
assinatura com o Tau e o Tau se
tornou o seu símbolo e sinal por excelência.
II.
ESPIRITUALIDADE DO TAU
O TAU é, antes de mais nada, o
símbolo da vida nova, nascida da conversão de Francisco a Cristo
e ao seu Evangelho, uma tarefa nunca terminada em ninguém e sempre em
mutação e em busca. É também símbolo da cruz, que ele
trazia
exteriormente, como prova de
que a cruz estava profundamente impressa no seu coração. Em terceiro lugar o
Tau é símbolo espiritual da solicitude, consolação e bênção
para os irmãos, como logo demonstrou na bênção a Frei Leão. O Tau
é, pois, um compromisso de construir uma fraternidade universal pelo
sincero amor dos irmãos, sem distinção de raça, classe, sexo, língua,
nação, cultura, idade e religião pela conversão do coração, pelo perdão
e pela bênção, pelo espírito de serviço e pelo testemunho da novidade de
vida ou conversão, partilha dos bens, simplicidade e gratuidade e numa
tensão esperançosa de edificar o Reino de Deus na terra, entre os
homens. O
Tau é ainda símbolo da pobreza de Cristo, que é
modelo da pobreza de Francisco e dos seus irmãos. Foi esta pobreza que
levou Francisco ao desnudamento no tribunal do bispo e ao despimento na
hora da morte, querendo morrer nu na terra nua.
III.
O TAU NÃO É UM EMBLEMA DECORATIVO
Do que fica dito no número
anterior conclui-se claramente que o Tau não pode ser, para
aqueles que o usam e o têm como símbolo da sua pertença à Família
Franciscana um mero emblema
exterior. O Tau deve ser um sinal de uma espiritualidade deve ser
um sinal de que aquele(a) que o usa é uma pessoa que vive em tensão de
permanente conversão e mudança de vida, em vontade firme de se tornar
nova criatura; deve ser sinal de que aquele(a) que o ostenta é uma
pessoa que busca a sua salvação e de todos os homens na cruz de Jesus
Cristo; deve ser um sinal de que aquele(a) que o traz é uma pessoa que
vive a esforçar-se por ser pobre, por se despojar e desprender dos bens
terrenos para se enriquecer dos valores das bem-aventuranças: o Reino
de Deus, a paz, a mansidão, a fraternidade universal, a misericórdia e o
perdão, o respeito pela criação, a alegria, a partilha de bens, a luta
pela justiça e a paixão por Jesus Cristo pobre, Crucificado e
Ressuscitado.
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Para maior aprofundamento
deste símbolo franciscano, pode ler-se ainda:
- Fontes Franciscanas: 2 C
106; 3 C 3: TM 3; LM, Prólogo
- DAMIEM VORREUX, Um Símbolo
Franciscano, O TAU, Editorial Franciscana, Braga,
1997
- MARIANO BIGI, Il Tau, Un
Segno, Una Spiritualità, Edizione Dehoniane, Bologna,
2002
- M. V. TRIVIÑO, La Tau, signo
de salvación, Valencia, 1960
In Caminhos de Francisco,
(Janeiro/Fevereiro 2003, pp. 6 e 7)