Olhar
o mundo com o Cântico das Criaturas
Visão Franciscana do Mundo
«Há no
Homem algo de toda a criatura. O ser fá-lo comungar com as pedras; a
vida, com as árvores; o sentir, com os animais; e o entendimento, com os
Anjos. Se, portanto, o Homem algo tem de comum com tudo, em certo modo
“o Homem é toda a Criatura”.»
(Gregório
Magno, Hom. 29 in
Evang. P.L. 76, 12 114).
São Francisco de Assis percebeu o confronto intenso do
Homem e do Universo como pólos de mútua refracção ontológica de um único
Mundo, e disso nos dá conta nas suas intuições expressas em palavras e
gestos. A sua vida foi inteiramente marcada pelo milagre de Deus, cujos
efeitos continuam, ainda hoje, a causar-nos uma certa perplexidade.
A riqueza de Francisco reside
no valor interno da sua singularidade, que adquire, no mundo cósmico, um
sentido de perenidade. Ele concretiza de
forma consciente as ânsias mais profundas do universo, que tende, na sua
totalidade, para um constante aperfeiçoamento. Por isso, na sua
dignidade singular, Francisco não se dilui no conjunto das actividades
do mundo da sua época, pois tem consciência da sua perenidade, do seu
valor, mesmo quando parece menosprezar-se a si mesmo.
1.
UM OLHAR PARA VER
Olhar, como
modo de
SABER/CONHECER
«Parece que a Humanidade não voltará a apaixonar-se por Deus antes que
Este lhe seja mostrado no termo dum movimento que prolongue o nosso
culto pelo Real concreto, em vez de a ele nos arrancar. Ah!, como o Real
seria formidavelmente poderoso para nos arrebatar ao nosso egoísmo, se
soubéssemos olhá-lo na sua prodigiosa grandeza!»
(P. Teilhard de Chardin,
Cartas a Léontine Zanta, Livraria Morais Editora, Lisboa 1967, p.
91).
Este olhar é o modo de saber/conhecer que
nos permite maravilhar-nos na observação do que nos rodeia e nos conduz
à sua fonte, origem, causa – isto é, ao conhecimento de Quem é a fonte,
a origem, a causa: o Criador!
O conhecimento é individual, nasce da actividade própria
da pessoa. Mas a pessoa só conhece em conformidade com o seu modo
concreto de ser: aquilo que constitui a sua própria “natureza” e as
circunstâncias que formam a sua “mentalidade”.
Podemos, então, dizer que
a própria natureza da pessoa de Francisco
lhe dá acuidade para observar o que o rodeia, pois ele é um
rapaz jovial e aberto, extrovertido e sensível, impressionável pelo que
o seu olhar capta; e a
sua mentalidade forja-se
não só na educação recebida, na
cultura em que se desenvolve a sua personalidade, no ambiente geográfico
em que predomina uma natureza montanhosa destacando o belo vale da
Úmbria, mas também na
aquisição pessoal de uma nova perspectiva que lhe é dada pela sua
experiência de fé em Deus.
É tal
a
importância do olhar em São Francisco, que
ele próprio diz, ao escrever no seu
Testamento:
«quando eu estava em pecados, parecia-me muito
amargo dar com os olhos nos leprosos; mas o mesmo Senhor, um dia, me
conduziu ao meio deles e com eles usei de misericórdia.»
(1)
Com efeito, tão insuportável lhe era a princípio
olhar para os leprosos que, conforme ele próprio atesta, apenas
divisava à légua as suas cabanas, tapava o nariz com as mãos. (2)
Temos, assim, um exemplo do
olhar como modo de saber:
quem está diante provoca uma sensação desagradável, uma
repugnância que o santo há-de vencer quando, por graça divina (o
Senhor me conduziu), chegar a ver
como modo de contemplar.
Francisco olha a realidade que o envolve e capta o que
aí se passa. Os seus olhos, mesmo
doentes, vislumbram o que há-de ser depois objecto da sua visão íntima
das pessoas, dos animais, das coisas, dos acontecimentos...
Ver, como
modo de
CONTEMPLAR
«A intuição de que falamos
é a visão directa do espírito pelo espírito, visão que se distingue
plenamente do objecto visto, conhecimento que é contacto e mesmo
coincidência.»
(H.
Bergson, La pensée et
le mouvant, p. 27).
Ver, propriamente
é uma acção dos olhos, ou a função pela qual os olhos nos permitem
perceber o mundo exterior. Mas, na nossa reflexão,
ver como modo de contemplar
é uma acção de perceber o espírito ou,
em jeito de sinónimo, a intuição.
Agora colocamo-nos no campo religioso e estético, uma
vez que o objecto desta reflexão é um poema cujas dimensões religiosa e
estética são evidentes.
Na experiência religiosa de
Francisco, a contemplação parte da meditação
na qual a alma se une a Deus por um
ver da inteligência e por uma adesão da vontade, com
exclusão de todo o pensamento discursivo e de toda a
multiplicidade de representações ou de afeições.
Dizemos ver da inteligência e adesão
da vontade, apoiados no testemunho dado pelo próprio santo, mais uma
vez, no seu Testamento:
«quando eu estava em
pecados, parecia-me muito amargo dar com os olhos nos leprosos; mas o
mesmo Senhor, um dia, me conduziu ao meio deles e com eles usei de
misericórdia. E ao afastar-me deles, o que antes me parecera amargo,
converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo: e em seguida,
passado um pouco de tempo, saí do mundo.»(3)
A expressão
“me parecera amargo...” deve
entender-se: eu via como algo que me causava repugnância. O uso do
sentido físico do sabor é, aqui, um reforço do sentido da visão.
A
experiência que o transformou totalmente
(física, psíquica e espiritualmente) é a
de um encontro que lhe fez ver o mundo (pessoas e
animais e coisas)
de outra maneira: a
maneira de ver de Deus!
O encontro com o
leproso é inserido na relação do santo com Deus, pois o vencer da
repugnância não é atribuído ao seu mérito humano, mas à acção de Deus
que o conduz. Francisco deixa-se conduzir, ou seja, concretiza a sua fé
ao abandonar-se na vontade de Deus. Daí nos referirmos ao
ver da inteligência,
enquanto consciência do agir divino, e à
adesão da vontade, enquanto
aceitação absoluta do querer de Deus.
A partir daí, a
saída do mundo não é uma
fuga, mas o deixar um certo modo de ver o mundo,
para reentrar no mundo através de uma nova visão – que se identifica
com a contemplação, enquanto união a Deus que lhe permite identificar
tudo no mundo com o seu Criador e Pai.
É neste contexto que nasce e é
escrito o “Cântico das Criaturas”.
2.
VER O MUNDO
O mundo
do “Cântico das Criaturas”
«A revalorização do homem,
da natureza e da beleza, que anuncia uma idade nova, tem o seu primeiro
manifesto poético no Cântico do irmão Sol...»
(Sticco,
M., Aspetti della Spiritualità francescana, in QdSf, 1 [1961]
97-104, p.102).
O
mundo do Cântico das Criaturas
é aquele em que Francisco vive. Refiro-me sobretudo ao mundo psicológico
do santo, martirizado pela suas limitações físicas, particularmente a
doença dos olhos.
Este Cântico é composto no sofrimento e
diante da morte; e isso exprime uma profunda e entusiasta adesão ao
mundo. É um “sim” ao esplendor do universo, uma afirmação do valor dos
seres e das coisas, tal como nós o recebemos das mãos do Criador.
O Cântico não
corresponde à experiência de um entusiasmo num momento particular de
graça, cheio das delícias do êxtase na
contemplação da natureza com a sua exuberância de vida, cantos, sons,
perfumes, luzes, cores, etc., em que o santo gozasse de pleno vigor das
suas forças e do exercício integral das faculdades sensitivas.
De facto, segundo as Fontes
Franciscanas da época, no tempo da composição do Cântico
Francisco estava na situação mais adversa
ao estado de ânimo indispensável
para experimentar aquelas sensações, formular aqueles conceitos,
compor aquelas estrofes – ao contrário do que parece deduzir-se dalguns
textos actuais. Relativamente jovem, estava
fisicamente agastado, declinando irreversivelmente para o desmoronar
fatal.
Usando a linguagem actual, poderíamos dizer que sofria
de infecções no estômago, no fígado e no pâncreas, e também uma
conjuntivite aguda com consequente cegueira quase total. Neste estado
debilitado, é fácil pensar que nem sequer o “seu” irmão Sol brilharia
para ele. Aliás, um simples raio de luz causar-lhe-ia um terrível
incómodo. E como se isso não bastasse para o sofrimento do santo, consta
que até os ratos se cruzavam em todos os sentidos na pequena cabana
dispensada pela Irmã Clara no horto de São Damião.
Aos incómodos físicos causados
pela sua debilitada saúde, junte-se também uma certa depressão moral:
angústias de espírito, preocupações de governo (embora já fosse outro o
Ministro Geral da Ordem), tensões entre os seus frades, quase prevendo
uma forte crise ou mesmo divisões em tendências diferenciadas quanto à
orientação futura da Ordem.
É neste contexto,
depois de alguns dias vividos em São Damião entre tormentos, que certa
manhã, seguida de uma noite de insónias e mais difícil do que o costume,
como se lê nos testemunhos, (4)
que Francisco
compõe o Cântico.
Na piedade e no amor ao Criador,
Francisco vê e ama tudo o que existe. Mas,
cuidado!, não nos apressemos nos pensamentos melosos que tanta
literatura fantasiosa sugere acerca deste santo.
O homem que se comovia perante um ninho de
rolas era também uma consciência severa. A seriedade da sua visão
do mundo é semelhante à grandeza da sua fé simples e recta.
São Francisco entretém-se
apenas diante daquilo que lhe garante não suscitar nele o desejo de
posse. Fala a um bando de aves, mas devolverá
imediatamente à liberdade o faisão que um médico piedoso lhe tinha
oferecido como companhia para a sua convalescença. E, porque também tem
desejos, pede imediatamente perdão em público, para se desembaraçar
deles quanto antes.
De especulações teológicas,
Francisco não sabia, talvez, mais do que lhe consentiam um vivo sentido
de fé, as intuições de místico e as aquisições pessoais:
meios suficientes para dar uma cultura mais genérica do que científica
ou metódica, coordenada e sistemática. Contudo, ainda que supostamente
iletrado ao nível cultural-teológico, consegue dar-nos no texto
poético-místico do Cântico uma riqueza suficiente
para fazer dele o protomanifesto da
ecologia: um hino à beleza do
Criador nas criaturas e à bondade de Deus prodigamente difundida nas
suas obras.
O Cântico
no mundo das Criaturas
«Composto em língua vulgar,
quase meio século antes do nascimento de Dante,
[o Cântico das Criaturas]
é um canto
puríssimo, de uma musicalidade espantosa, considerado justamente como a
mais antiga e a mais preciosa jóia da nascente poesia italiana.» (Éloi Leclerc)
De acordo com alguns testemunhos credíveis, o Santo
concebeu a ideia deste Cântico
por três razões: alcançar conforto nas suas enfermidades
humanamente intoleráveis; promover a edificação do próximo; oferecer-se
como expiação a Deus, correspondido pelas pessoas com ingratidão através
do abuso das suas criaturas. (5)
Por isso, o Cântico das Criaturas é
dirigido à humanidade de todos os tempos e lugares como chamamento
apaixonado à aproximação reverente e ao amor agápico para com todas as
criaturas.
Trata-se de uma lírica animada por uma dinâmica
universal nas dimensões Céu-Terra, irmanadas e convergentes no centro
comum de atracção e principio originário: Deus Criador.
Francisco exalta precisamente a “camaradagem” – que vê
sol, vento e fogo como nossos irmãos; lua, estrelas e água como nossas
irmãs; e a Terra como nossa mãe comum. E com essa “camaradagem”, animado
de espírito fraterno, ele realizou uma autêntica revolução nas relações
homem-natureza, tratando as criaturas por um “nosso” cheio de ternura.
Amava os seres da criação em
si mesmos, mas não por si mesmos: amava-os no âmbito do amor a Deus.
O universo tinha-se
transformado num mundo paradisíaco, onde tudo deriva de Deus, tudo se
refere a Ele, tudo é reconduzido a Ele, enquanto a própria criação eleva
para Ele o máximo de amor que Ele espera. Aquela bondade que um dia será
toda em todos, como escreve o biógrafo
Tomás de Celano,
resplandecia já toda para Francisco.
O Cântico não é apenas o supremo poema e a
preciosidade literária dos inícios da lírica italiana; também é um
documento de notável valor psicológico e ascético, e uma sublime oração
de matriz bíblica, intrincada pela visão concreta e a espiritualidade
mística do enamorado por Deus que por isso canta as suas
maravilhas.
3.
DESAFIOS
DE UM CÂNTICO
COM AS CRIATURAS
De acordo com o pensamento de
Mário de Marzi, no seu
livro L’ecologia e Francesco d’Assisi, o Cântico,
que começa e se desenvolve em dimensões cósmicas, conclui em chave
antropológica, com a proposta de algumas questões mais importantes da
humanidade – paz, morte, ressurreição e
vida – que de seguida apresentamos.
::
Paz
“Louvado sejas, meu Senhor,
por aqueles que perdoam por teu amor
e suportam enfermidades e
tribulações.
Bem-aventurados aqueles que
as suportam em paz,
pois por ti, Altíssimo,
serão coroados.”
Nos horizontes abertos do amor compreensivo, indulgente,
capaz de perdoar e pacificador dos membros da família humana, o
Cântico torna-se atraente e encantador. Nele, o apelo da
misericórdia não é apenas um acessório do louvor cósmico, mas insere-se
como resolução e elemento integrante: interpela todos e cada um dos
indivíduos humanos, para que a reconciliação no mundo resulte
verdadeiramente universal.
O Cântico é o cantar de um homem que
dirige a sua misericórdia a todas as coisas e a todos os semelhantes,
tal como o Pai do Céu, por ministério do seu sol, irradia luz, calor e
vida a todas as suas criaturas, boas e más (ver Mt 5,45).
Trata-se de um autêntico encontro do homem
com Deus, prévio ao encontro de reconciliação dos homens entre si e do
homem com a natureza: o
Criador e o mundo das criaturas formam um binómio indissociável, de tal
modo que, rejeitar ou acolher um, implica repúdio ou acolhimento do
outro e vice-versa.
::
Morte
“Louvado sejas, meu Senhor,
por nossa irmã a morte corporal,
à qual
nenhum homem vivente pode escapar.”
Francisco vive a reconciliação como um acto incondicional
e total, inserindo aí também a alegre aceitação do destino conclusivo da
vida presente, isto é, a sua dissolução final.
Esta estrofe exalta intimamente o
valor religioso do sofrimento e do declínio físico, e, externamente, o
da subtracção da vida efémera, provisória porque
limitada às vivências essencialmente transitórias do tempo como vias de
acesso à verdadeira vida, à vida definitiva redimensionada às dimensões
de eternidade.
Um Cântico tão cheio de
resplendor e calor a propósito dos seres, aceita também o declínio e a
morte – isto é, o não-ser – para integrá-lo no mistério total da vida e
do ser, reconciliando assim o homem com o seu destino e proclamando o
valor escondido da própria morte “nossa irmã”.
Isto não nos deve levar a
supor que Francisco, chamando irmã à morte, a tenha amado
visceralmente: amou, isso sim, perdidamente um Deus feito homem, os
homens à imagem de Deus, os animais e a natureza criada por Deus. E por
isso deixou-se conduzir pela morte, como pela mão de uma irmã para a
casa do Pai.
Vale a pena aqui sublinhar o facto de que Francisco, um
idiota voluntário, depois de ter abraçado a vida com a senhora
Pobreza, dirige a sua atenção à morte. Faz o seu “desposório” com a
Pobreza e chama “irmã” à morte. Com efeito, a morte é uma condição
humana e a pobreza é uma escolha.
::
Ressurreição e Vida
“Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados aqueles que
cumpriram tua santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.”
Sabemos que o Evangelho significa uma boa notícia, um
alegre anúncio dos bens messiânicos a favor de todas as pessoas, ainda
que a preferência seja dada explicitamente às mais pobres (Lc 4,18ss.; Mt
11,5). Se este anúncio não tivesse como
pressuposto a esperança – ou melhor dizendo, a certeza – da ressurreição
e da vida futura marcada pela imortalidade, provocaria em nós uma
desilusão amarga.
Também o Cântico de Francisco não teria
aparecido como uma novidade, se com a reevocação de tais perspectivas,
garantidas como seguras, não tivesse expresso a Deus a gratidão também
pela morte, irmã comum como o sol, a lua, a estrelas, a nossa Terra com
todas as coisas belas predispostas pelo Amor do Altíssimo.
Francisco reevoca o mistério do pecado e da sua tremenda
consequência irreparável; e, em perfeita antítese, a exaltante
perspectiva de que a adesão dos justos a Deus é confirmada com a
perseverança.
::
Apelo ao louvor
“Louvai
e bendizei a meu Senhor,
e
dai-lhe graças e servi-o com grande humildade.”
Em conclusão
deste lindíssimo poema, fica-nos um apelo ao louvor, à bênção, ao
agradecimento. Um apelo dirigido a todas as criaturas, no estilo do
cantor ecuménico, mas apontando
especialmente às criaturas humanas. Dá-nos a impressão de uma
verdadeira explosão de amor, que quer envolver todos os seres da criação
na mesma onda de místico entusiasmo.
Frei Luís de Oliveira,
ofm
_______________
(1) Nº 2-3. In
FONTES FRANCISCANAS, I
– S. Francisco de Assis. Escritos, Biografias, Documentos.
Editorial Franciscana, Braga 1994, 2ª ed.
(2)
ver
Tomás de Celano, Vida Primeira 17.
(3)
Nº 2-3.
(4)
Legenda dos Três Companheiros
88; Anónimo Perusino 51.
(5)
ver Legenda dos Três Companheiros 83.